Prosa Caótica

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Canal da Redenção II

II

MEIO SÉCULO DE EVAPORAÇÃO. UMA

DESCOBERTA DO COMUNISTA SABINO

COELHO. HISTÓRIA PARA O

GOVERNADOR ANTÔNIO MARIZ LER,

SE QUISER SOCORRER, PROSPERAR.

 

Marcolino Pires, os olhos azuis, herança dos flamengos que se espalharam pelos sertões paraibanos, vindos de Mauritsstad, espiava sempre para o Nascente, esperava as chuvas de inverno, ano após ano na ribeira do Rio do Peixe. Na vida campesina, anotava os processos da natureza, por onde passava, relacionava-os com a visão simplificada dos aglomerados estelares, dos astros de fogo que vagam sozinhos no espaço infinito. Esclarecidos os “sinais”, formulava a “profecia”.

Nem sempre acertava quanto ao início ou fim, inten-sidade ou escassez pluvial do período. As chuvas chegavam com raios e trovões. Entre janeiro e junho elas sucediam-se próximas ou espa-çadas, formando brejos, propiciando safras volumosas, ou matando as lavouras, não deixando “recursos d’água”, pelos verões prolongados.

Curvavam-se os sertanejos diante da vontade impre-visível e onipotente: “Força tem Deus que faz chover quando quer, de um momento para outro”. Nos tempos ruins, valiam-se timidamente das experiências, quando as roças murchavam. “Trovão num mês, chuva no outro”, exclamavam, não desesperavam.

Das várzeas do Rio do Peixe onde se fixara uma população sofrida, o avô arribara em Setenta e Sete, do outro século, o pai em Quinze, ele em Trinta e Dois, anos de secas brabas que destruíam tudo. Depois voltavam para cuidar do que sobrara e lhes pertencia, tangidos também pela saudade do torrão natal.

*

O tempo passava e a notícia chegou inesperadamente àquele sertão há tanto tempo esquecido. Trouxe-a Evaristo Pordeus, morador dos baixios do Piranhas, na vizinhança, como ele uma vítima da inclemência dos ares. “– José Américo não vai deixar ninguém morrer de fome, nunca mais”. Explicara.

Alistaram-se com outros sertanejos para obedecer or-dens, cavarem buracos, carregaram terra, para sobreviverem. Eles não entendiam bem o que se passava. O “barracão” fornecia-lhes a feira, eles comiam, guardavam o que sobrava e levavam para casa, para a família faminta. Ignoravam as idéias do Presidente Epitácio, o ímpeto voltado para as transformações que trouxeram os revolucionários de Trinta.

Os novos homens tinham a força do poder e das pa-lavras. Falavam numa “Terra de Canaã” de que todos escutavam falar, naqueles tempos de pregações ouvidas nas missas, em silêncio respeitoso e contrito.

Rios foram barrados. Marcolino Pires e Evaristo Por-deus ouviram dizer, e acreditaram, que as águas chegariam à sua porta e, “adeus seca, adeus fome”. Continuavam trabalhando, sem descuidar das observações que lhes ditassem esperanças.

Em Quarenta e Dois e em Cinqüenta e Oito, o tempo arruinara de novo. Os filhos começaram a fugir em “Paus de Arara” para a Amazônia, para o Sul. Cansava esperar tanto e não ver a água chegar, mesmo com as campanhas políticas. Os açudes estavam prontos, cheios, mas os tribunos apelavam para o futuro. Cansava esperar, agarrados só na esperança.

Marcolino, atento como sempre, intrigava-se com as grandes formações de nuvens que todos viam aparecendo depois do São João, os conhecidos “torreões” cheios d’água, certeza de chuva quando no começo do ano. Mas o vento levava-os para longe, não caia uma gota sequer.

“Os tempos estão mudados...” filosofava reticente Evaristo Pordeus, no fogo da aguardente, quando se encontravam na feira.

*

Um dia Marcolino escutou pelo rádio: “Os açudes pú-blicos estão concluídos, cheios, a hidrelétrica instalada em Coremas. Até o projeto para trazer as águas para as terras planas do Piranhas e do Peixe, está pronto desde 1935. Os políticos esquecem o seu dever. Adiam a solução do problema, ficam apenas em conversa fiada.”

Quem falava era o agrimensor comunista Sabino Coelho, um homem da região. Marcolino ouvira referências ao seu nome. Temia-o, rejeitava fosse o que fosse, desde que partisse dele, um “comunista” como advertia o dirigente da Caixa Rural, Otaviano  Marinheiro Fontes. Mas continuou a escutar o que ele dizia.

“Não adianta falar em projeto novo – esclarecia o agrimensor -, pois o antigo, o que já existe, vale tanto quanto o das Pirâmides do Egito que têm mais de quatro mil anos e ainda estão de pé. Querem é gastar mais dinheiro com empresários ricos, deixar o povo na mão. Enquanto isso o sertão morre de sede, a água evapora dos açudes há mais de cinqüenta anos, vira nuvem que não chove na seca. É uma safadeza”.

O sertanejo refletiu, espantado com a descoberta. Então aquelas eram as nuvens que apareciam depois do São João. O comunista era persistente e procurava deixar claros os seus ar-gumentos: “Percebam os ouvintes, o exemplo da manipulação do DNOCS, pelos que não estão interessados em resultados para o povo, em produção para o país. Querem apenas construir, construir para deixar o dinheiro na mão de alguns. Tanto é verdade que o que existia de importância administrativa em São Gonçalo desapareceu. E hoje os colonos ali fixados vivem tão sacrificados como agricultores de sequeiro, uns, e outros transformaram-se em grandes proprietários. Mesmo depois da criação de uma cooperativa, assistida e financiada pelo Banco do Nordeste do Brasil, que já comprou terras noutro Estado, fez a fortuna de poucos, dilapidou recursos financeiros. Grandes fortunas de poucos, repito, para confirmar o tipo de governo que temos tido”.

A evidência, permitam-me reconhecê-lo, levava-o a concordar com o que falava o comunista Sabino Coelho. Aumentava a pilhagem dos dinheiros públicos, e os assaltantes de “colarinho bran-co”, desfrutavam prestígio e maior influência nos escalões superiores da República. A partir de Collor, e agora com Fernando Henrique, o nosso modelo, cada dia mais privatista e liberalizante, vai deixar Marcolino Pires e Evaristo Pordeus vendo nuvens na seca, as águas sumindo na evaporação, até que a catarata ou o tracoma liquide-lhes uma vez por todas a visão, já ameaçada com o passar dos anos. Assim fenecerá nas chamadas terras férteis, outrora chamadas “jardim”, a renitente esperança sertaneja.

*

Os tempos mudam, entretanto, como observara Evaristo Pordeus, estimulado pelos vapores etílicos. Aí estão as obras do canal em andamento acelerado, fruto da ação decisiva e firme de José Maranhão, resgatando os propósitos de Antônio Mariz na sua breve passagem pelo governo; aí está Marcondes Gadelha na Secretaria da Agricultura do Estado. Eles são destas várzeas, eles são de Sousa. Aqui moram suas famílias, seu povo. Outros construíram os açudes, elaboraram os projetos. Talvez Marcolino Pires e Evaristo Pordeus saibam de tudo isto, e acreditem ainda, que as águas chegarão por fim à sua porta.

É o que falta fazer.



Escrito por Eilzo Matos às 09h12
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Canal da Redenção

 

O CANAL DA REDENÇÃO

Transposição das águas dos açudes Coremas/Mãe D’água para as várzeas de Sousa    Esforço do Governador José Maranhão    O fio da meada. (A UNIÃO DOMINGO, 01 DE FEVEREIRO DE 1998  EDIÇÃO ESPECIAL PÁGINAS 12,13)

I

 

 DURANTE doze anos como deputado estadual e secretário de Estado, empreendi um trabalho persistente para a revitalização e retomada da plena atividade do DNOCS. Tinha em vista o desenvolvimento do sertão semi-árido, a partir de São Gonçalo, no município de Sousa, onde se concentrava na Paraíba a ação administrativa e cientifica com este objetivo.

O projeto era antigo. Vinha do Presidente Epitácio Pessoa. Implantadas 95% das obras desde José Américo até o Presidente Juscelino, parou tudo. Ficaram os gigantescos açudes, os acampamentos com a infraestrutura residencial e administrativa, esgotando-se num abandono criminoso. Restou ainda uma hidre-létrica, que nos forneceu (a Sousa, Patos, Piancó, Pombal, Cajazeiras e outras localidades) energia permanente antes da chegada de Paulo Afonso ao nosso sertão. Pioneirismo. Pouca gente sabe disto. Faltava apenas construir o canal, cujo projeto dormia nas gavetas viciadas dos altos escalões administrativos.

Reagi. A maioria das pessoas ignorava a existência do projeto, enquanto a totalidade de população descrente, não acreditava sequer na possibilidade de tal realização. Fiz inúmeros discursos específicos sobre o tema, o que está registrado nos anais da Assembléia Legislativa do Estado. Participei de simpósios e reuniões alusivos à agricultura e ao desenvolvimento de projetos de irrigação, dentro e fora do Estado, levando sempre à discussão, a necessidade imperiosa de construção do Canal Engenheiro Luiz Vieira, que possibilitaria a transposição das águas de Coremas / Mãe D’água para as várzeas de Sousa. Registrou, a imprensa, na época as minhas ações.

Reivindiquei, por fim, como representante da Assembléia Legislativa do Paraíba, convidada para a reunião extraordinária da Comissão do Polígono da Secas, do Congresso Nacional, em caráter excepcional, realizada em Morada Nova, no Ceará, em 1973, a construção do Canal Engenheiro Luiz Vieira, ligando as bacias dos açudes Coremas / Mãe D’água - São Gonçalo, com vistas à irrigação das Várzeas de Sousa e áreas férteis nos municipios de São José da Lagoa Tapada e Nazarezinho. Tive na ocasião, a honra de receber o decisivo apoio do Senador Rui Carneiro, presente à reunião, de fundamental importância para a aprovação da minha proposição. Dessa forma foi retomado nos escalões adminis-trativos superiores o reestudo do projeto original, o que foi contratado com a empresa Hidroservice. A conclusão das avaliações indicou ao projeto outras alternativas. Excuta-se no momento, uma dessas alternativas.

Se constituia, então, uma ação isolada, a minha luta vem colhendo vitórias e aliados ao longo do tempo, a exemplo da reabertura do Instituto Agronômico José Augusto Trindade, a meu requerimento, e à transposição das águas agora iniciada, graças ao empenho do saudoso Antônio Mariz e a coerência de José Maranhão, em relação aos projetos de governo que juntos elaboraram. Para desfazer possíveis dúvidas, e não parecer que vou “de carona” em teses alheias, a imprensa da época registrou a minha persistência no tratamento do tema, o que fazia em nome da minha região, do meu Estado.

Eleito Antônio Mariz, Senador da República, chamei a sua atenção para o problema e disse-lhe: “Faça como José Américo, como João Agripino. Discuta a política que dita os rumos da nação, mas fixe o seu nome na memória coletiva, igualmente, como eles o fizeram, através de obras materiais de interesse geral. José Américo notabilizou-se com as obras contra as secas: João Agripino com a construção de estradas, de eletrificação, de que carecia urgentemente o Estado”. Enviei-lhe cópias dos projetos que me foram cedidos por Joaquim Carneiro, e ele apresentou uma emenda simbólica ao or-çamento da União destinando recursos para a obra, fazendo-a renascer na burocracia nacional.

Mas as coisas não estavam fáceis. Eleito Antônio Mariz, Governador, voltei ao assunto, e escrevi para que ele a lesse, a pequena narrativa abaixo:  (continua)



Escrito por Eilzo Matos às 09h03
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São Saruê

         

O PAÍS DE SÃO SARUÊ

EILZO MATOS

 

          As serras azuis, paralelas, “nascem com o sol e se põem com ele” – formam cadeias –, costumam dizer orgulhosos os caçadores, os homens que andam a pé ou a cavalo, e ainda não usaram o automóvel para vencer grandes distâncias. De uma para outra distam mais de dez léguas. A que corre pelo sul, é a de Santa Catarina, de linha regular, altas elevações, grutas misteriosas, grandes maciços de granito. No inverno as cachoeiras rugem nos seus flancos e a mata – verde toda vida – levanta-se mais, cresce mais, redobra o vigor, guarda nas suas sombras e locas, todos os bichos que ainda vivem no sertão. Quando o Aracati sopra forte escutam-se estrondos. O vento explode nos penhascos. Serra quase virgem, onde minerais raros afloram derramados nas grupiaras, ou em filões gigantescos, que se entremostram em escarpas perigosas, delas os homens têm poucas histórias para contar, exceção faça-se de Pedro Gato, caçador manhoso, tocaieiro invencível.

          Pelo norte arrasta-se a Serra do Comissário, irregular e antiga, abaixa-se aqui, alteia-se acolá, parecendo até um cordão-de-serras e não uma formação única. Dominada pelos homens que se instalaram no seu topo, lá em cima existe uma verdura eterna, e “em se plantando tudo dá”, como ainda dizem os seus habitantes, servos dos Silveiras, dos Elias, dos Queiroga, encolhidos no frio das noites. Na seca as suas ilhargas verdejantes, transmudam-se em esqueléticas catingas de paus ressequidos.

          Os homens que moram nas alturas do “Comissário” pouco sabem do mundo, do sertão lá embaixo. No meio do calçamento em Pombal ou em Sousa, suam por todos os poros, sentem escurecimento de vista, chegam a desmaiar com o calor, excessivo para eles. Por isso evitam descer de suas moradas, e no sertão ondulado ente as duas serras, vive mesmo o povo de lá: os que nasceram e se criaram pelas várzeas e tabuleiros, pastorando gado, plantando milho, feijão, cana, algodão, fazendo vazantes na seca na represa dos açudes, até que passam a morar nas cidades, arruinados, doentes, inutilizados para o trabalho; alguns vieram de fora, de outros lugares, têm alma de sertanejo. Passando de arribada a pé, de trem, de carro, num relance entendem que devem parar a viagem, procurar moradia, viver no sertão.

          Nas vastidões entre as duas serras, no entorno, estiram-se estradas trepidantes, poeirentas e esburacadas pelos pneus dos jipes e caminhões, pelas patas dos animais, rasgadas pelas águas das chuvas. Por ali correm no inverno os rios do Peixe, Piranhas e Piancó, e alguns riachos valentes de águas barrentas, de férteis baixios nas suas ribanceiras, onde a agricultura rende mais, plantam-se os sítios, reserva-se um refrigério para o gado na seca. As cidades, vilas e povoados, as fazendas, espalham-se no chão ora em negro aluvião, piçarra ou  massapé, ora em elevações pedregosas, rebrilhando grãos de malacachetas e quartzo, dominadas todas pelo desenho das serras distantes, misteriosas, atraindo imigrantes. Aglomeram-se em garimpos, pessoas ambiciosas em busca de fortuna.

          Obliquamente aos dois grandes maciços, erguem-se formações elevadas com várias denominações: aqui Serra do Formigueiro, acolá Serra dos Macacos, adiante Serra das Angélicas, de extensão e altura inferiores. “Serrinha caxexa”, comenta Pedro Gato quando Horácio Vaqueiro descreve-lhes a natureza agreste, os grotões profundos varejados por ele no encalço de gado escondido nas malhadas, nos bordos de olhos dágua.

          Um silêncio de morte quebra a voz dos ermos. E a gente? E o mundo em redor?

          A vida começa a chegar mudando os ciclos do lugar. Vertentes, correntes, bolandeiras, fábricas, engenhos de pau, sindicatos de pobres e também de ricos espertos. Médicos, bodegueiros, marchantes, funcionários públicos. Cercas de vara e cercas de arame, currais de mourões travejados, gado ferrado, vacinado, criação miúda de canga. Questões de terra falam em datas e sesmarias, nas petições dos bacharéis. Poetas e versejadores, pistoleiros, prefeitos e deputados, aviões, os governadores, planos para construir, para demolir. Corta a faca o fio da teia que a vida teceu no pingo do meio dia, nas noites de tempestades. Os santos estrangeiros e os beatos do lugar, conhecidos e respeitados, são venerados em procissões e romarias. Sertão de 1710 nas igrejas de Sousa, de Piancó e de Pombal, no Jardim do Rio do Peixe, no Velho Arraial do Piranhas e Piancó, nas terras foreiras do patrimônio dos santos, na proteção distributiva das indulgências plenárias para a salvação das almas.

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Confluência Peixe/Piranhas/Piancó. Voltou a chover. A coisa andava ruim. 19/02/2009

         

 

 

 

         

 

 



Escrito por Eilzo Matos às 09h59
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Shakespeare, Einstein - 1990

SHAKESPEARE, EINSTEIN, O MACACO RAFAEL, DE PAVLOV

                                  E OS RATOS ALBINOS, DE SKINNER

                                                                                                                                                                                                                                Eilzo Matos

 

           O amigo e intelectual Evandro Nóbrega continua credor de minha admiração, mesmo em face do que escreveu na apresentação do meu romance “Viajantes do Purgatório”, oferecido em memória de Burrhus Frederick Skinner, em que taxei freudianos e lacanianos de embaidores. Apoiado nas suas leituras (que são muitas), ele registrou a  “contribuição skinneriana no leito geral da psicologia deste século”, e que, as discrepâncias devem-se a  “meros contadores burocráticos e anticriativos de respostas estatístico-fisiológicas em cobaias animais e humanas.”

           O formulador da teoria do reflexo condicionado, asseverou num dos seus debates no Instituto de Psicologia de Leningrado, que Sherington disse-lhe, quando de um encontro em Londres: “Vossos reflexos condicionados não terão nenhum êxito na Inglaterra, porque eles cheiram a materialismo.” E sobre  discordâncias à respeito do assunto, Pavlov acres-centava: “Kholer é uma vítima do animismo. Sherington é outra. Faz muito tempo que se vêem pessoas inteligentes que, ao mesmo tempo, são animistas.” (Textos Escolhidos).

           Existem pesquisadores que, na impossibilidade de compreenderem as leis da natureza e da sociedade, pela dificuldade de aferição de certas realidades, preferem partir para a “criação” de teses pessoais, e daí para afirmações simplesmente dedutíveis de tais idéias, que não ultrapassam a inventividade do pensamento. Assim dizem-se infalíveis, “criam” pseudociências e editam leis que não passam, todavia, de meras exaltações fan-tasiosas.

           Compreendo que achem intolerável que eu, um matuto do Sertão do Rio do Peixe, faça reparos a mes-tres de Viena e Paris. Na verdade não os fiz, apenas os repeti, fundado na autoridade de I. P .Pavlov e B. F. Skinner, que, apoiados na ciência têm destroçado teses esdrúxulas sobre o comportamento humano.

           Ensinam aqueles autores que a conduta não se revela à partir de conceitos, mas de situações concretas, cuja determinação e abstração descobre os distúrbios do comportamento. Situações sociais e orgânicas têm de ser avaliadas na sua interdependência, observada a teoria do reflexo, a lógica da determinação, a anterioridade até a razão.

           Submetido à leis irrefutáveis, o homem tem a faculdade de autoregulação como sistema, pelos fatores internos e externos que direcionam a sua existência e são conhecíveis, decomponíveis, eliminando o ranço ges-taltista. Fundamentado na teoria do mestre russo, Skinner aduziu as noções de “condicionamento ope-rante” e “reforço”, ações que constituem mecanismos de aprendizagem de novos comportamentos. No seu entender, a alma, a psique, criações arbitrárias, decorrem exclusivamente da dificuldade para identificar as circunstâncias que produzem a maioria dos comporta-mentos humanos, que formam cadeias muito complexas e não estão nas suas inúmeras relações, suficientemente à mostra para observação comum.

           “De tudo se vê neste mundo!”

   Eis uma exclamação irônica que escuto corri-queiramente, no jargão destas paragens atrasadas do sertão paraibano onde moro. De fato uma análise-síntese do comportamento, sem recursos acadêmicos de uma (pretensiosa) ciência, condição que foi negada à psi-cologia por Williams James e por Wundt que, embora a praticasse, ele sabia e disse que cada mestre tinha dela uma concepção própria. Considero estimulante, no exemplo e referência, o fato da sabedoria popular poder advertir a comunidade universitária, os especialistas mercantis, numa crítica cheia de velado sarcasmo.

           Conhecemos mundos distintos no universo social. Todos (ou a grande maioria) aceitamos a medição da temperatura de Júpiter, a eficácia dos antibióticos para combaterem doenças infecciosas, a precisão astronômica do diâmetro do Sol, etc, etc. Cremos na ciência, mercê de cujas leis, é possível pela mensuração e quan-tificação, transformar e fabricar substâncias e materiais, construir instrumentos seguros, sem  possibilidade de erro para o fim a que se destinam. Assim adentramos o campo da biogenética, viajamos na internet, medimos a velocidade da luz.

           Outro é o mundo dos que aludem a fatos que não podem ser medidos nem quantificados mesmo em hipotéticas formulações matemáticas, não logrando, por conseguinte, construir concretamente, o que só é viável, repito, através das leis da ciência. Desconheço outro método de conhecimento que determine a densidade dos minerais, a eficácia das vacinas, a ebulição da água a cem graus centígrados, etc,etc.

           Os conceitos e explicações sobre o “incons-ciente”, assim como o posicionamento dos astros no instante do nascimento das pessoas, definindo o seu destino, a felicidade e a infelicidade, a riqueza e a po-breza, o caráter, as “intenções” de cada um, nada mais pretendem do que disfarçar as ações criminosas de alguns, as causas do desajustamento social.

 A elaboração de teorias fundadas em hipóteses, sugere atividade intelectual misteriosa, como advinhar cartas de baralho pelas costas, saber quem está cha-mando ao telefone antes de atendê-lo, o que tem sido observado e insinua que alguém dispõe de conhe-cimentos que não estão ao alcance de todos, não podem ser adquiridos pelos  canais ordinários, Não foi assim que o homem chegou à Lua e às fibras óticas.

           Em situações tais, o inteligente Freud – deificado por oportunistas –, entendeu que o conhecimento e a difusão das leis objetivas que regem o comportamento humano, não lhe confeririam os prêmios que pretendia. Pelo contrário, indispô-lo-iam com a sociedade esnobe que frequentava. Ameaçaria o poder de governantes e de capitalistas ambiciosos, e, por consequência, a sua bengala, a sua cartola, o seu fraque, as suas polainas, as suas estações dágua. Era preciso deixar tudo como estava, envolvido em mistério, em referências cripto-gramáticas. Por isso ele e os seus seguidores, juntamente com Sidney Sheldon e Paulo Coelho, mutatis mutandis, são campeões de divulgação, aqui e lá fora.

           Não se aborreça nem se espante o caro Evandro com a afirmação seguinte, que encerra estas consi-derações, e acredito, justificam a dedicatória do livro tal como a fiz. Por processos análogos, semelhantes, comportaram-se o dramaturgo Shakespeare, o físico Einstein, o macaco Rafael, de Pavlov e os ratos albinos de Skinner, no desenvolvimento de suas aptidões e no aperfeiçoamento de sua inteligência, para citar apenas estes, entre outros famosos indivíduos, mas a regra vale para estas espécies dentro do Reino Animal. Para mim, pelo menos.

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 Sertão - Confluência Piranhas/Peixe/Piancó



Escrito por Eilzo Matos às 19h25
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Carta a Gonzaga nov/1991

Carta a Gonzaga Rodrigues – 25 de Novembro de 1991

“Prezado Gonzaga:

Há quanto tempo, heim!

Ao chegar em Sousa, depois de dez ou mais dias preso ao “tempo da fazenda”, procuro os jornais para rever os amigos. Revê-los nos seus escritos, diria melhor. O hábito da leitura é antigo no meu comportamento, e me impôs deveres cansativos para cumpri-lo de forma racional. Primeiro cuido do espírito com a poética filosófica do seu texto, depois passo para o sociologismo esquerdista panfletário de Carlos Aranha. É próprio do artista, explorar “situações limites”, e vocês o fazem. Por fim, avalio o nível dos comentaristas de política, de medicina, de turismo, do mercado imobiliário etc, porque você sabe dessa mania epidêmica de “rabo de palha, fogo nos dos outros”. Sempre com alegrias e decepções, é verdade.

Como dizia, a leitura torna-se difícil pela maneira especializada de escreverem os autores, em épocas distintas, sobre assuntos também distintos. Seja em literatura, em direito, em filosofia, em história, eles conscientemente poliglotas, desprezando a nossa tradição de conhecedores de uma única e inculta língua, a portuguesa, atropelam-me com palavras gregas, cujos caracteres não sei sequer desenhar, palavras e expressões em latim, francês, inglês, alemão, no meio de frases vernáculas, deixando-me em becos sem saída. Coisas de mestres.

Não desejo estragar o seu espaço com apotegmas, insinuações paralogísticas (sublinhei). Veja a dificuldade. Apo-quenta o leitor, o uso de palavras inadmissíveis em jornal que é coisa apressada, com prazo de editor, espaço de diagramador, circulando para consumo imediato, sem profundidade de conceitos e revisões. A não ser as gramaticais que são indispensáveis. Como dizia o saudoso José Américo: “brasileirismo não é corruptela e solecismo. A plebe fala errado, mas escrever é disciplnar e construir...”  Pelo menos isso.

Vale resguardar a linguagem comum. Então, quem faz jornal tem que ver isto mesmo. Não está imprimindo enciclopédia. Essa onda de “imprensa” tudo pode, deve ter o seu limite. Os gregos de Péricles, de Platão, de Heráclito, não possuiam, sequer intuiam a imprensa, apesar de o fazerem sobre a explicação do mundo e a trans-formação das coisas umas nas outras, a dialética como lei do desenvolvimento da natureza e da sociedade. Retraio-me, entretanto, diante de à outrance, eppur se muove, arcades ambo, up to date, gedanklichen a gestalten, e vai por aí.

Que fazer? Buscar fontes, porque se trata de afirmações girando na ciência, como exige as letras que aprendemos. Quanto a jornal? Deve cuidar do que a cultura média (ela existe?) faculta, para ser lido e entendido, pois tudo é notícia para todos, dependendo do leitor, e os jornais os têm variadíssimos.

Toda essa conversa é para elogiar “O Correio” pela página 16 do Caderno 2 do dia 17-11-91, que à falta de conhe-cimento da palavra e da língua que a designa, chamarei de página de Aranha, Alarico e Carmélio, e criticá-lo pelo ombudsman. Assim, fale com o pessoal, mostre-lhes a clareza de “Variedades”, “Sociais”, “Estadual”, “Esportes”, que antecedem a indecifrável (para mim, confesso) “Ombudsman”. Será ela uma daquelas palavras que os estudiosos das línguas classificam como intraduzíveis? Tanto pior. Nesse caso, arranjem outra parecida na significação, no sentido, em português, que se é língua inculta, é, porém, bela, com a glorificou Olavo Bilac.

Caberia neste final um Weltanschauung?

Vae victis!

Abraço do amigo

Eilzo Matos.”    

 



Escrito por Eilzo Matos às 18h01
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Evandro Nobrega

A  GLÂNDULA PINEAL DO URUBU      VIAGEM PICARESCA DA MEMÓRIA ATRAVÉS DA ENCICLOPAEDIA BRITÂNICA  15ª Edição

                                                          Eilzo  Matos

           Tinha de dar no que deu. Conversa com gente, quase sempre é perda de tempo. Assim achava Evandro Nóbrega, e dialogava com os livros, solitário, como do seu feitio. Passei muito tempo sem saber de sua vida, e agora descubro-o autor de um livro. E que livro!

           Evandro é militante da multimídia, do hardware, do software, em tempo integral. Discípulo dos Enciclopedistas (ainda mestres do pensamento), acredito; embora se diga cético, conduz-se conforme a razão. E nada mais racional nestes dias atuais, que a rapidez da informática, dos computadores.   

A “interatividade” é um aspecto da tensão dialética entre o conhecimento e o tempo. Os computadores, todavia, não inventam, não criam: descobrem e encaminham raciocínios. A “realidade virtual” não “recria”. Responde e informa no circuito da mesma realidade. Não adianta recorrer a opções contrárias à racionalidade, que é o fluir natural do indivíduo na história, a “irrupção do infinito no finito” (Spinosa). Seria “improgramável” semelhante procedimento. “A razão governa o mundo... e é somente na superfície que reina o jogo dos acasos irracionais... restabelece a ordem quando a história parece absurda e sem sentido” (Hegel).

           Homem dado ao estudo, ao aprendizado de tudo o que disseram ou dizem,  pensaram ou pensam, ao longo dos tempos, até o “politicamente correto/incorreto” atual   -  que não exprime um valor social relevante, mas intuo que trata de compromissos e descompromissos salafrários dos jornais, revistas, tevês e congêneres  –, daí nasceu a sua tese enciclopedista-literária sobre o “terceiro olho”: o olho pi-neal, o olho metafórico, o terceiro olho necessário aos que têm dois e não querem enxergar.

           E verdade que, em virtude dessa situação fronteiriça entre a fonte impura do jornalismo no “usar informação de amigo”,  não optar simplesmente por “mentir” e a literatura     para a desgraça desta, quantas vezes  –, nasceu o livro revelação-denúncia de Evandro Nóbrega, obedecendo, entretanto, a procedimentos e padrões da arte literária.

           Afinal de contas as nossas raízes são ibéricas, se bem que portuguesas, com a inevitável vizinhança espanhola invadindo os nossos ouvidos. Destarte o aproveitamento de elementos típicos que encarnam o ardil, a astúcia, a vigarice, nas nossas narrativas mais exemplares, recolhendo entre libertinos, jactanciosos, pícaros e estelionatários, momentos vivos e propícios ao humorismo, filosóficos na sua essência. É a reação que se impõe ao temor em face da opressão, à contestação de idéias e conceitos impostos contra a equidade.

           O “burgês fidalgo” admirou-se ao descobrir que falava em “prosa”, forma de expressão literária que certamente o destacaria entre os homens.  Do mesmo jeito os teorizadores recorreram aos declamadores ambulantes  da Grécia Antiga, para classificarem certas obras musicais de Tomaschek, Lizt, Brahms  como “rapsódias”, o que levou os estudiosos brasileiros a enquadrarem no modelo, por extensão, a genial narativa de Mário de Andrade  “Macunaíma”.

           As regras, pois, existem. Que dizer de “A Pedra do Reino”, “O Nome da Rosa”, das “Aventuras de Pedro Malazartes” e sobre os inventores Mário, Eco, Ariano e José Vieira? Nesse time joga muito bem Evandro Nóbrega, com as suas memórias de repórter-aprendiz, elevando-se à massiva e compacta erudição da  “Encilopaedia Britanica 15ª Edição”.

           Se tudo é genialidade ou velhacaria no livro, desde a ciência mais legítima aos personagens mais reais, a exemplo da “oquidade da terra” (certamente da matéria) admitida por cientistas do III Reich e pelo Conde Alexandre, que dizer de reencarnações através dos séculos, sem “elevação ou purificação”, ditando a mesma e incorrigível conduta do “veraz” Arnald Tavaritch; do “frenologista” Guedes Neonatus no aprofundamento de pesquisas sobre o Ponto G, determinante do maior prazer sexual entre as mulheres; do “potente” Satie Hernán , no seu poema “olhar de lince”, acompanhando o vôo de um “coragyps atratus foetens”, dos céus dos Patins-do-Majó-Migué até as pro-ximidades de Pombal!!

           O húngaro Georg Lukács, com a inteligência dos ciganos, ensinou aos sabidos da literatura que  “toda obra de arte autêntica obedece e amplia ao mesmo tempo, as leis do seu próprio gênero.”

           Acho que a partir de Cervantes até Evandro, tal regra mostra-se verdadeira. O Conde Alexandre, como o Quixote, como Quaderna e os seus séquitos, os desejos e as denuncias novelosas, são páginas da literatura, e como tal, reflexos estéticos da luta entre o novo e o velho. Acusa-a sabiamente o terceiro olho, hoje mais do que nunca necessário, para esclarecer as nuanças (patifarias) liberalizantes, globalizantes no mundo governado pelo famoso predador G7 (grupo dos sete países mais ricos na sociedade internacional), do qual temos o mais venal de seus agentes no nosso país, o presidente Fernando Henrique Cardoso.

           Desse ponto de vista, vê-se a desnecessidade de ajustamentos ao modelo novela/romance/reportagem, do delicioso e auspicioso relato/narrativa/memória, enfim rapsódia, dos fatos do nosso povo nordestino, nas peripécias rocambolescas do Conde Alexandre e do Foca Aprendiz, conforme manda a literatura imaginativa na opinião de muitos, talvez de poucos.

           Vale uma indagação para terminar: Evandro é mais Cervantes?  Evandro é mais do que outros famosos narradores pícaros, visto cada um isoladamente ou no conjunto de sua obra? Responderei:  Evandro, eu acho, é a pluralidade na unidade: é cosmos, é construção.

           Os escritores, no caso, os que relatam a vida, espantam-se frequentemente com achegas críticas de qualquer natureza que visam a sua obra. O caso é que a teoria nem sempre informa corretamente a prática. Sensibilidade, posições políticas, filosóficas, resíduos ideológicos procuram fazer valer as suas teses. De sorte que a literatura imaginativa enfrenta o risco de chegar aos “compêndios”, estranha aos seus autores.

                    Lagoa de Baixo, 1996.



Escrito por Eilzo Matos às 09h56
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Mudança de Partido Filiação ao PT

MUDANÇA DE PARTIDO, 2001 – NOTA DE ESCLARECIMENTO.

 

                                                     

       Milito na política paraibana há mais de trinta anos. Esta, a razão dos esclarecimentos que ofereço nesta nota dirigida aos meus atuais e ex-correligionários de partido. E, sobretudo ao povo que, com o seu apoio, inspirou-me nesta luta.    Ingressei na política por opção pessoal, influenciado pelas situações sociais que me sensibilizavam e formavam a minha consciência.  Intelectualmente coloquei-me à esquerda no campo das idéias, convivendo com as circunstâncias que me levavam a alianças e contestações.

       Sem disputar mandatos, ultimamente, enveredei por outro caminho  - o da prática literária. Entendo que, a política como a arte, buscam o conhecimento, isto é, a revelação da sociedade e o aprimoramento do homem no sentido ético.

       Foi o afastamento da ética, o desprezo pelos seus princípios mais comezinhos, que passara a adotar o PMDB, integrando a chamada "base de sustentação do governo" no Congresso Nacional, o que me fez procurar a alternativa partidária. No momento histórico-político nacional, o Partido dos Trabalhadores assume esses compromissos com a ética política, a democracia e a pátria, ignorados pelo governo FHC e a sua "falange espanhola".

       Faz-se importante esclarecer, no tocante à vida política paraibana e sousense, que o PMDB, que se jactara de não tolerar "camaleões" nas suas fileiras, tornara-se, passivamente, "barriga de aluguel" dos arrogantes "tucanos". E esta prática política eu não aceitava. Os insultos trocados entre os chamados grupos tradicionais da política estadual dizem de sua prática. Ronaldo apela para o heroísmo do seu passado e rende-se, afoga-se no pântano do PSDB. Maranhão divulga a honorabilidade do seu governo, mas favorece e patrocina figuras notórias de conduta irregular, envolvidas em assuntos escusos, que participam do seu governo, freqüentam a mesa da residência oficial.

Chegou a hora de resistir. Conclamei através de manifesto, as lideranças do meu partido que, postergaram um passado de lutas, passaram a coonestar com as suas bancadas no Congresso, todos os crimes e patifarias de FHC. Não fora o patriotismo e a coragem do deputado Avenzoar Arruda, que enfrenta com decidido apoio popular, esta trama lesa-pátria, a Paraíba restaria desmoralizada por unanimidade.

        As eleições do próximo ano têm como objetivo principal à reestruturação do Estado Brasileiro, desmontado e arruinado pelo conluio Fernando Henrique Cardoso e especuladores financeiros estrangeiros, cuja arma de dominação foi à corrupção apoiada na violência. O resultado aí está nas estatísticas desastrosas do crescimento das dívidas interna e externa, dos factóides programáticos fracassados, de que são exemplos a famosa Corregedoria fantasma, a segurança pública, o controle dos preços, o apagão, a violência das operações-abafa, as agências reguladoras dos serviços privatizados, onde os titulares dos negócios, ganham sempre do governo corrompido e do povo feito vítima. Ninguém ignora estes fatos. A verdade é que existe no país um implacável sistema de coação social, também apoiado na mídia, pressionando o cidadão.

       Perdeu, assim, o país, o seu patrimônio no espúrio e imoral processo de privatização das empresas públicas, e o respeito internacional. Dói no coração dos brasileiros saber que o seu presidente é cínico, mente e é debochado como apregoa a imprensa. Que dizer mais deste homem? Sua penúria moral está arruinando os nossos costumes. Formamos no elenco dos subalternos, dos vendilhões da pátria. No comentário de jornalistas competentes, este é um governo de negociantes e negociatas. 

       Integrado, pois, à luta dos patriotas, dos militantes do Partido dos Trabalhadores, conclamo os paraibanos, para buscarmos nas eleições que se aproximam, a alternativa de um novo governo, de um novo legislativo, isentos de tantos vícios que comprometeram a nossa soberania, a nossa história. Esta opção está no PT com os seus aliados.  Sousa, novembro de 2001. Eilzo Matos.........................................

 



Escrito por Eilzo Matos às 06h59
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FHC É BOM PARA O BRASIL? - A UNIÃO, 31/8/1994

 

FHC é bom para o  Brasil?

             Eilzo Matos (A UNIÃO, 31/8/1994 

  

 

“O Real nào foi criado para eleger FHC, FHC é que foi concebido para viabilizar no Brasil as teses do Consenso de Washington”. José Luís Fiori. Folha de São Paulo, 3/7/94.

 

A globalização política e econômica em modelo capitalista, ditada pelo líder do sistema, os EUA, no diretório do Grupo dos Sete Mais Ricos, avassala e domina o forum mundial dos debates, impõe-se pela força através de instituições e organismos adrede ordenados no cenário inter-nacional. Dissimula esse projeto, acobertado por pseudos tribunais, o império da coaçào e da conquista, da “moderna” colonizaçào.

Com a dissolução do sistema político-econômico socialista mais forte, na União Soviética e no leste Europeu, o G7, isolando as pequenas comunidades nacionais em golpes de força, rege o concerto mundial do livre comércio (uma falácia), desdenha da soberania das nações. São conhecidos em todo o mundo o recurso ao bloqueio econômico, a invasão armada, praticada pelo colegiado G7. Quer em relação à política, quer à economia., é preciso que se ajustem os países, organizem a sociedade e o Estado nos moldes do novo colonialismo, na obediência humilhante da vassalagem. Que o digam o Iraque, Granada, o México, a Argentina, entre outras vítimas notavéis do rolo compressor transnacional.

A estratégia globalizante – técnica promeiromundista eficiente de submeter, de dobrar para desfrutar –, é exercida na concepçào de um aparato ideológico, planificador, coerente com tais objetivos, nos detalhes mínimos. Propõe-se a adaptar e assentar a economia dos países periféricos numa fórmula ditada pelo governo norte-amaericano, o FMI e o Banco Mundial, através de privatizações, abertura dos mercados nacionais para adaptá-los à nova realidade do capitalismo mundial, arrocho orçamentário, embora a presumível estabilização econômica agrave (como tem acontecido em outros países que adotaram o modelo) o apartheid social.

Para tanto, deve existir um governo forte, apoiado exter-namente, unido por coalizões à direita, garantindo pela credibilidade da força do esquema, e no reconhecimento de supostos méritos intelectuais do astro da cena, no caso o nosso Fernando Henrique Cardoso, pai do plano Real, filho do Consenso de Washington, que acabamos de definir.

Cito, oportunamente, de José Luís Fiori (titular de Economia da UFRJ) uma transcrição  recentíssima da revista NEWSWEEK, dos EUA, de 1º de Agosto de 94, algo que reforça a nossa reação ao Plano Real, à condidatura FHC como seu executor provável, nesta aliança com Marco Maciel, Antonio Carlos Magalhães, Ronaldo Caiado, et caterva. “Os novos colonialistas são membros da sociedade internacional dos países do Primeiro Mundo, liderada pelo World Bank e pelo Fundo Monetário Internacional e incluem tudo, das embaixadas ocidentais aos bancos comerciais, às as-cendentes organizações não governamentais... Mas precisamos de orga-nizações para estabelecer padrões. Do contrário países em desenvolvimento serão excluídos de tudo no mundo.”

Não é preciso dizer mais, e FHC sabe das ciosas. Não deseja, por isso mesmo, outra vez o risco do exílio, mesmo dourado, que sofreu no passado, porque em certa ocasião, aventurou-se a dizer que a nossa condição será sempre a de “sócio menor” do capitalismo mundial, enquanto vigorarem as linhas políticas e econômicas ditadas por “Washington, e a elas nas submetermos. Para FHC, devidamente acolitado pela figura monacal do ministro Ricupero, melhor esquecer o que disse, e ascender à presidência da república, saudado pelas fanfarras da Rede Globo de Televisão, gozando, quiçá, a popularidade de personagem de “novela das oito”. Quanto à pátria, por enquanto, quem define (em novelas) o seu conceito é o consagrado acadêmico-celular, corretor de negócios escusos, via satélite, Roberto Marinho, também “coronel do Brasil”, como já o apelidaram jocosamente.

FHC não é um tolo e defende-se de tais acusações. Palavroso com é, ele fala em “visões e estereótipos conspiratórios”, certamente contra a sua condidatura negociada. Acontece que analistas internacionais imunes às exdrúxulas concepções “social-democratas” e “neo-liberais” do “esquema” FHC/MM/ACM, sabem que o Plano Real  é fruto da “torçào de braço”, apli-cada corriqueiramente a governos que recorrem ao gabinete do diretor do FMI, Michael Camdessus. E FHC, com os músculos (a consciência) ainda machucados e doloridos, tem à sua frente a tarefa de assegurar o cumprimento    do compromisso firmado com a sua concordância, em relaçào às exigências do G7.

Para encerrar estas breves considerações, feitas na intenção de protestar em nome da Nação enganada, desmoralizada pela submissão do governo brasileiro coagido, quero revelar um fato insólito que me foi contado pelo senador Antonio Mariz, relator do projeto de lei sobre Patentes, que tramita na Câmara Alta do país. Sabemos que os deputados, senadores e governadores, no desempenho de seus mandatos, despendem ingentes es-forços para conseguirem uma audiência com Ministro de Estado. Esperam na fila, aceitam o calendário que disciplina o expediente ministerial. Pois bem. Para discutir os interesses do EUA, na Lei de Patentes, é óbvio, três ministros brasileiros (Relações Exteriores, Indústria e Comércio, e Tecnologia) solicitaram audiência ao senador paraibano, que os recebeu no seu próprio gabinete. Algo parecido, só aconteceu com FHC então Ministro da Fazenda, em visitas periódicas ao Congresso Nacional para defender o Plano Real, isto é, as teses do Consenso de Washington.

Esclareço, e o senador Antonio Mariz sabe, que o interesse primordial dos EUA em relação à Lei de Patentes, é o aumento de proteção à  “propriedade intelectual”, incluindo software, sementes, medicamentos e assim por diante. Tais medidas destinam–se a assegurar às empresas ali sediadas, o controle da tecnologia do futuro, incluindo biotecnologia, que se espera, irá permitir que a empresa privada controle a saúde, a agricultura e os meios de vida em geral, trancando a maioria pobre na prisão da dependência e da impotência, permitindo–lhes ainda, nos seus negócios, um lucro adicional anual de sessenta bilhões de dólares.

O Plano Real foi, desta maneira implementado conforme as teses do G7, para assegurar tal desempenho global nas nações periféricas. E FHC foi cooptado para esta certeza. Surpreendentemente disse bem, há dois dias passados, em entrevista à televisão (SBT), numa frase a seu gosto, o conhecido traidor da pátria Roberto Campos (alcunhado Bob Fields), que o plano de FHC não solta o Brasil na pista olímpica da disputa internacional pelo desenvolvimento. Pelo contrário, é um simples exercício de fundo de quintal, e como tal deverá prosseguir a duras penas, enquanto satisfizer os interesses do G7. Matéria para reflexão de FHC.

Para finalizar, uma pergunta e uma resposta, em face das eleições presidenciais à vista. P – Devemos votar em FHC?  R – Claro que não. Com certeza em Brizola ou Lula, que não aceitam tutela, ou em qualquer dos demais que, pelo menos, não foram escolhidos pelo G7 para traírem o Brasil.    

 

 

 

 

 



Escrito por Eilzo Matos às 08h54
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A crônica que não foi lida

 

 

A CRÔNICA QUE NÃO FOI LIDA – PREFÁCIO

Eilzo Matos

Tenho em mãos, os originais em dois volumes de um trabalho elaborado por Evilásio Marques Pinto, que trata do resgate literário de aspecto interessante da memória sócio-cultural da nossa cidade de Sousa: o jornalismo de uma época.

Meticuloso e cuidadoso como fazia o seu falecido pai, o emérito Professor Virgílio Pinto de Aragão, em relação à vida de sua cidade, narrada e descrita em textos e documentos, Evilásio assume a herança intelectual, elabora o seu livro. O título da obra “A Crônica Que Não Foi Lida”, alude a fatos destacados pela sua reconhecida importância, quando aconteceram, reais, dominando, certamente, o painel das idéias da nossa urbe, da nossa gente, e supostamente guardados.

Não se tendo tornado os fatos, convencionalmente públicos, isto é, através do seu Serviço de Alto-Falante Voz da Mocidade – modo e meio competente na época –, sabiam os interessados, que tais lembranças desapareceriam com a memória pessoal de cada um. Para sorte de todos, porém, Evilásio quer salvá-los, levá-los mais longe no tempo, reduzindo-os à forma escrita e impressa. Pois aqui está o livro, revelando as “crônicas não lidas”, este veraz e delicioso saltério sousense.

Farta é a documentação reunida em textos autênticos colhidos pelo serviço de alto-falantes, que tratam do cotidiano de uma comunidade como outras: da administração pública, das atividades empresariais urbanas e rurais, da educação, da cultura, da saúde, do urbanismo, do esporte, do lazer, da política, enfim. Oportuno o esforço, melhor o resultado. Inclusive a reprodução fac-similar de jornais do passado, e a Portaria 65 do Serviço de Censura e Diversões Públicas, autorizando o funcionamento da “Voz da Mocidade”, com estatuto publicado no Diário Oficial, devidamente apresentado no Cartório do Registro de Títulos, tudo com data e chancela. Como não? Posso afirmá-lo como sousense, contemporâneo das vivas ocorrências, e está no livro, para conhecimento geral.  

O autor goza entre os seus conterrâneos o prestígio de iniciativas e realizações no ambiente da cultura, criando um cadastro de dados acessível à população, podemos dizer. A sua vocação para o jornalismo nos presenteou com o “Serviço de Alto-Falante Voz da Mocidade”, de que tratamos, e a revista literária “Fatos”, que durante largo espaço de tempo existiram e serviram de meio e apoio na divulgação de notícias e debates, desempenharam relevante trabalho no campo da Comunicação Social no nosso meio.

Ali reencontro o rapaz Nozinho de Aldo falando dos seus amores, da saudade de Sousa, exilado, longe no estudo, mais tarde juiz de direito, fundador e diretor da Faculdade de Direito de Sousa, jornalista, intelectual consagrado com o seu nome próprio Firmo Justino de Oliveira. Cola-borador erudito, Edísio Justino cultivava grandes temas, ao lado do sisudo Otávio Mariz e do espirituoso e irônico Zú Silva contando as suas histórias. E mais Sylvio Timótheo e Gastão Medeiros evocando datas, pessoas, Eládio Melo, e Professor Senhorzinho discutindo os costumes, os vultos venerandos da pátria. Romeu Gonçalves e Nias Gadelha, em discussões veementes sobre a política partidária local, secundados por Luiz O. Maia o mais terno, trágico e mavioso entre os poetas de Sousa ou que aqui viveram, outros e outros, inumeráveis, tratando de intimidades, opinião pública, cidadania.

E pasmem! Coisas nacionais e internacionais, universalizando o nosso métier. O Sputnik, o inverno, a seca, o comércio, os bancos, a indústria, os costumes, estão ali no livro. E os severos e cáusticos comentadores e críticos alônimos como “Marcelo”, “Zé da Boa Vista”, e o famosíssimo na época “Léo–Dênis”, que provocou censura e intervenção policial na programação da “Voz da Mocidade”. Duvidam? Comprem o livro. A portaria famigerada será editada em fac-símile.

Chamo a atenção dos leitores para a importância dessas realizações, na atividade hoje denominada mídia, criadas por Evilásio, numa época que não existiam estações de televisão, e a rádio-difusão somente funcionava nas capitais dos Estados, nas grandes cidades.  Localidades do interior, Sousa entre elas, viviam o seu próprio universo humano e social em movimento, mas isolada, ausente do noticiário que falava do hoje, do moderno do que estava por vir.

Entre outras denominações e títulos dados aos programas, tão sugestivos, também este do gosto local, que assegurava audiência e popularidade à sua “Voz da Mocidade”. Ele sabia que era importante despertar curiosidade, provocar suspense para se tornar irresistível, daí a denominação do programa e o título do livro: “A Crônica Que Não Foi Lida”. Intuiu que todos fariam indagações, se entregariam à conjecturas. O que não foi lido? Algo importante, com certeza, envolvendo interesses reservados da sociedade local, que não deveriam ser divulgado na época. E todos desejariam saber. Evilásio fez muito bem em decidir publicar em livro o que foi lido e caminhava para o esquecimento. Está na trilha certa, coberto de razão. O seu livro será lido como as suas notícias eram escutadas e comentadas. Faziam a vida da cidade. E lhe somos gratos. Quantas lembranças renasceram na minha memória cansada, que não se encorajava em buscá-las, não sabia onde procurá-las.

Considero suaves, estimulantes e ternas tais lembranças. Afinal de contas muitas ali elas estão renascidas, para nova fruição. Por que não?.

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Escrito por Eilzo Matos às 05h45
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Ah! A Vida

 

AH!  A  VIDA

Eilzo  Matos

                               Escrevi livros procurando criar personagens notáveis, tipificar condutas e momentos da sociedade, num pretenso estilo literário que me dariam fama, consideração e respeito social. Ideologicamente motivado, é bom esclarecer. Seria eu − como pretendia −, um ser diferente, galardoado, indenizado por um trabalho inédito ao comum dos mortais, o que não era o meu caso, eu achava.

Secretamente, cobicei e desejei sempre, a vocação superior do contador de causos, de anedotas, de contos e fatos tipicamente re-presentativos de pessoas e momentos limites da conduta humana, contemporâneos, essencialmente breves. Uma realidade, enfim, conhe-cida, e vivida por outras pessoas, no terreno do trágico, do dramático, do épico, do lírico, do pilhérico, irreverente e mordaz, que constituem, na verdade, o epicentro do espaço literário, no núcleo do qual se encontra o homem, e se abastece o crítico social; que satisfaz a preguiça e o açodamento de alguns ouvintes, a pressa na conclusão do relato, a am-bicionada resposta imediata ao resultado.

         Dois exemplos apanhados e reproduzidos por Agnello Amorim, inseridos no seu livro “Espiando A Vida”, Editora Gráfica Santa Fé, Campina Grande, 1988, me socorrem:

 1) “Adabel Rocha major da Polícia, poeta e homem de muitas invenções, apregoava que um livro p’ra ser livro, tem que ficar em pé; o resto é brochura, termo que tem a sua versão depreciativa para indicar debilidades viris do homem”.

2) “Uma noite no bar de João Brabo, Dr. José Arruda (delegado de policia) encontrou-se com Mané Pé de Rotor (valentão). Expectativa geral. As sopas ‘Cabeça de Galo’ gelaram nos pratos de beiços que-brados. Os ovos – das sopas –, eram icebergs vagando no caldo apetitoso, feito no WC do café de João Brabo. Doutor Zé Arruda falou:  – Mané estão dizendo que você tá andando com uma Beretta?   Mané, do alto de sua conhecida valentia, respondeu:    Tou doutor Zé. E daí? .  – Dou Cr$ 100,00 nela...”  -    arrefeceu o temível delegado de polícia.”

Desconheço algo mais engraçado e delicioso.  Estes são relatos de fatos verídicos, de inesperadas, ilustrativas e humilhantes provas de impotência, batida de pino, frustradas a desejada seiva, afoiteza e valentia, dos respeitados poeta e brabos campinenses: Major Adabel, Dr. José Arruda e Mané Pé de Rotor. Como matéria literária, no desenrolar do cotidiano, estão contidos nas regras da Estética de Aristóteles.

Ah! A vida.

Eis revivificada, na explicação perspicaz, na vocação imorredoura dos modestos memorialistas de hebdomadários do interior, dos con-versadores de calçadas, de esquinas, de mesas de botequins, fonte dos enciclopedistas, acervo rico dos filósofos e historiadores das letras e das artes. Em suma os meandros da conduta humana, cuja extensão artística, expressa uma dimensão ontológica dentro da eterna problemática humana, um produto ético e estético, no entendimento de Luiz Toledo Machado, doutor em letras pela USP.· Algo de significação antro-pológica, enfim. Impossível negá-lo. Somente desta maneira recriamos a vida na sua autenticidade objetiva.

                A impossibilidade artística de explicação dos fenômenos humanos, faz recorrer, no teatro, ao uso do efeito deus-ex-machina;  à seqüela literária de figuras gramaticais e lingüísticas na poesia e na prosa imaginativa: metáforas, metáforas. Construções efetivamente belas e engenhosas, etimológica e sociologicamente irrecusáveis, porém artefatos humanos, simplesmente.

          Os feitos de João Grilo e as revelações espantosas de Alexandre ao seu perplexo auditório, narrados por José Vieira, e por Graciliano Ramos, são fatos humanos. Sim, fatos não artefatos. O fato é a vida no seu desenvolvimento significativo, do engodo à veracidade. O artefato sobrepõe-se à realidade, amolda-a perigosamente.

 

                           *                          *                          *

 

             Jovem, ainda, em reuniöes, recorri a comentários ocasionais sobre fatos e acontecimentos pessoais, numa tentativa de explicações fantasiosas e fraudulentas, que justificassem observação aguda e presença relevante no ambiente social que habitava. Contradizia-me, entretanto, criando um mundo incompatível com a real situação vivida, anódina, nem tanto nem quanto proeminente, falto de engenhosidade.

    Mas vivia o meu mundo, atrasado; o meu agreste ambiente, des-frutando-lhe as excelências, sem o fundo musical beethoveano, mas embalado no ritmo das emboladas, no batuque do martelo, do galope dos cantores populares de minha terra. Derrotado, produzi anedotas chinfrins, romances, poemas, artigos de jornal, discursos. Embaralhei, então, os meus sentimentos, desviei-me do meu norte, realizando uma obra estereotipada, em imagens e conceitos.

Resta-me, purgar cansaço e frustrações de baldadas tentativas. Esquecida a profundidade histórico-política e psicológica joyceanas, a épica e a lírica camonianas, cujo modelo não alcancei, que repercutem de forma irresistivel no hermetismo dos nossos perturbados poetas e romancistas brasileiros, entregarei o meu corpo à terra. Amém.

         Coremas, 22/12/2003

                  Eilzo Matos

       

   

 

   

 



· Introdução à edição brasileira de “ As Fontes da Criação Literária” de Carmelo M. Bonet, Editora Mestre Jou, São Paulo, 1970.



Escrito por Eilzo Matos às 11h55
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Gregório de Matos e Augusto dos Anjos

 



Escrito por Eilzo Matos às 09h23
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Gregório de Matos e Augusto dos Anjos

        

GREGÓRIO DE MATOS E AUGUSTO DOS ANJOS

Eilzo Matos

No “Boca do Inferno”, drama histórico da cearense Ana Miranda, colocado pelos teóricos e críticos da literatura entre os cem melhores romances de língua portuguesa no último século − descobri e vivenciei num processo diria catártico, o ambiente, o mundo barroco-colonial da Baía de Gregório de Matos e do Padre Vieira, de alcaides, governadores, bispos e jesuítas, e do populacho anônimo que percorria os becos imundos da Salvador colonial. Movidos pela inveja e pela intriga, os personagens,  interagem, dominam a cena e a trama se desenlaça. Mas fiquei na incerteza sobre realidade e imaginação, vistos em comentadores da história, e contidas na narrativa romanesca. Eis a força da literatura de ficção, quando manejada pela percepção dos mestres da narrativa, realizando a tese luckácsiana da integração da obra de arte na teoria do conhecimento, pela recriação do real, do típico na sociedade.

No romance “A Última Quimera” em que Ana Miranda biografa Augusto dos Anjos, a genial cearense nos oferece material incomparavelmente curioso, revela circunstâncias que decidiram sobre a sua vida, quiçá deixadas de lado ou ignoradas pelos paraibanos. Valioso contributo para aferição de fatos e costumes da nossa impávida terra-mãe naquele início do século XX.

Pouco sei da Paraíba no tempo de Augusto dos Anjos. Somente alguma coisa da vida econômica e política que envolvia as oligarquias, as famílias que desfrutavam o prestigio com a parentela e os compadres.

 Sobre a belle époque na Parahyba, tenho informações corriqueiras e genéricas sobre o mundo dos costumes de então, a crônica dos “bacharéis caça-dotes”.  E sobre Augusto dos Anjos o cidadão, o poeta? Quase nada. Alguns versos das “Cismas do Destino”, dos “Versos Íntimos”, algumas alusões de eruditos e contemporâneos.

A verdade é que os paraibanos que o conheciam, não quiseram ou não puderam ajudá-lo. Um recusou-se fazê-lo.  Reduziram-no à modesta condição de exilado no Rio de Janeiro, anônimo vendedor de apólices de seguro-de-vida, de porta em porta, “carregando uma maleta de couro na mão”, na busca do pretendido cliente, recurvando a espinha e pendendo a cabeça para trás, para ver melhor quando pessoas assomavam à janela dos sobrados. Parecia um caipira apalermado em roupa citadina.

Como podia tão inominável cena se oferecer aos transeuntes, envolvendo tal personalidade, ante a indiferença geral? Transcrevo de Ana Miranda a dolorosa observação abaixo:

“Augusto morreu sem realizar nem mesmo o seu mais trivial desejo, de conseguir uma colocação na capital, que desse a si e a sua família alguma segurança. Como pode ter acontecido isso a uma pessoa como Augusto? Como pode um homem criado pela família com toda atenção e cuidados, bem preparado, nota máxima nos estudos, com fama de o mais sabido, o mais inteligente, o mais erudito, o mais estudioso, o melhor tradutor de grego, o melhor declinador de latim, o melhor conjugador de verbos franceses, o melhor em gramática, história, geografia, português, ciências, o de mais farto vocabulário, mais sólida argumentação, imbatível em qualquer exegese, o que leu mais livros, o maior humanista, o de maior lucidez, de mais agradável retórica, mais brilhante eloqüência, grande palestrador, notável defensor de idéias nos jornais, smartíssimo, sabedor de teorias as mais complexas, ele mesmo teórico, que sabia citar os mais remotos autores, além dos menos remotos, casado com mulher decente, canônica, um homem limpo, cheiroso, cabelos lisos, pele branca, com todos os dentes etc e tal ter uma vida tão melancólica e sem oportunidades? Nem mesmo um emprego para alfabetizar filhos de proletários, quando qualquer professora que conhece um pouco mais que o ABC tem uma vaga a sua espera na escola.”

O destino inexorável teceu a sua teia, alcançando um homem cheio de esperança, como um urubu pousando em sua sorte. Ele mesmo o confessou num dos seus sonetos, sentindo frustradas as expectativas de uma vida digna para a família, sempre viva nas suas reflexões mais íntimas.

Relata o seu coetâneo José Américo de Almeida:  “que (ele) levava uma vida regular, como homem de sua casa, de sua família, de suas obrigações... veio a nossa camaradagem ele já formado... estirávamos as pernas da Igreja da Misericórdia à Praça do Palácio... de paletó escuro e calça listrada, os sapatos envernizados, não era um relaxado no vestir... o meio conspirou contra sua estabilidade emocional; “   refere ainda  revelações de Humberto Nóbrega  sobre a fortuna desfeita, a alienação do Pau d’Árco  “sacrificado por uma hipoteca vencida”. Completa, a dura pena do romancista José Lins do Rego, no realismo de sua revelação, a narrativa da ruína familiar, o patrimônio desfeito, e a humilhação final do poeta: “Só não levaram a santa da capela”.

O que lhe restou dessa vida desgarrada?

         Pelo que sei apenas uma obra poética consagrada, insuperável entre outras; e da vida entre os homens, muitas dores. Recorro a conceitos alheios. “Poeta moderno e vivo”, acentua Otto Maria Carpeaux, e o insuperável Álvaro Lins assegura: “Com espírito filosófico e científico, e com a sua singularidade pessoal, Augusto dos Anjos tornou-se o poeta brasileiro cujo pensamento atingiu mais altura, densidade e consciência.”

         Pouco mais conheci em leituras e apreciações biobibliográficas ocasionais. A imagem pessoal que me restou mostra o homem magro de terno preto, de chapéu preto, de bengala, um injustiçado que “nunca promoveu uma desordem , nunca deu um escândalo. Não jogava  e a bebida não lhe dava animação, não lhe punha a gota de fogo no sangue”, como completa o autor de “A Bagaceira”.

E nunca conseguiu um emprego nos lugares que escolheu para viver: a capital do seu Estado natal e o Rio de Janeiro. A colocação em Leopoldina, arranjada através de um concunhado, socorreu-o quando todos os conterrâneos e confrades da vida literária o ignoravam. Só isto, e pouco mais que escreveram Humberto Nóbrega e Horácio de Almeida, sobre a perda de sua fortuna patrimonial e as razões de sua angústia. Um urubu verdadeiramente pousou ns sua sorte.

Confesso que sou leitor um tanto desatento, muitas vezes não chego ao fundo das questões, como deveria. Em relação ao poeta da “sombra magra.”, impressionam a indiferença dos coetâneos, certamente ameaçados pela evidente superioridade intelectual que o destacaria entre todos. E a recusa em apoiá-lo, nas suas legítimas pretensões, ajudá-lo em face de impasses que enfrentou e marcaram a sua vida.

Boa sorte contar com as pesquisas, a realização da romancista cearense que deslindará algo mais. o que resta por trás dos fatos. E o faz para reconstituição da verdade histórica, atenta à lição do advogado romano Quintiliano que sobre os acontecimentos indagava: Quis, quid, quibus auxiliis, cur, quomodo, quando?  É o que procuramos todos conhecer.

Eilzo Matos. 15 de outubro de 2007

 

        



Escrito por Eilzo Matos às 07h35
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A Literatura é Vítima do Capitalismo

 

A Literatura é Vítima do Capitalismo:

Caderno Especial “O NORTE” 30/6/1996

(Entrevista ao jornalista Severino Ramos)

I

Conhecida como Cidade - Sorriso do sertão paraibano, Sousa sempre exerceu um fascínio impressionante sobre os seus filhos, um arraigamento telúrico tão forte que aonde quer que estejam, estarão sempre com o espírito e o pensamento voltados para a terra natal. Duas das mais expressivas figuras da política estadual, Antônio Mariz e Marcondes Gadelha, davam mais importância às injunções políticas de Sousa do que  às intricadas articulações no Congresso Nacional. Talvez tenha sido esse telurismo que fez com que Eilzo Nogueira Matos, 62 anos, uma das mais lúcidas e brilhantes inteligências da intelectualidade paraibana, abdicasse de cargos e posições, de alegres e sadias rodas de boêmia com intelectuais e amigos sinceros, para retornar a Sousa e entregar-se a um exílio voluntário num sítio de sua propriedade, onde tudo é  precário, a começar pelo acesso, de estrada de barro e quase intransitável. Contemporâneo de Virgínius da Gama e Melo quando cursava a Faculdade de Direito no Recife, Eilzo passou  a dedicar uma atenção especial à literatura e às artes de um modo geral. Embora, na época, não fosse um aficionado, sempre cuidava “dessas coisas do espírito”,  como se diz comumente. Ainda estudante no Recife, 20 anos de idade, participou de um concurso de contos promovido pelo “Correio da Paraíba”, sendo o vencedor entre todos os concorrentes. Este foi o começo de uma profícua produção literária, em se que incluem poesia, contos e romances, dois dos quais mereceram uma acolhida carinhosa da crítica especializada; “A Invasão das cobras” e “Viajantes do Purgatório”, este último lançado na semana passada na API. Primeiro civil a exercer o cargo de Secretário da Segurança Pública na vigência do regime militar, Eilzo Matos sempre esteve voltado para a análise e o debate das questões essenciais que atormentam a humanidade nos dias atuais, revelando-se um dos melhores expositores dessas questões, com as quais sempre se mantém atualizado, fiel às suas convicções políticas e ideológicas, como demonstra nesta entrevista.

Durante muito tempo V. teve um intensa atuação política e intelectual em João Pessoa, mas de  repente afastou-se e ficou confinado num sítio no município de  Sousa. Qual m motivo desse isolamento?

Sem mandato e sem pretender disputar mais eleições, eu decidi que devia voltar para o sertão, atendendo aquele chamamento das origens,  da terra natal e também por um  acidente de percurso, por indisposições familiares, eu me recolhi lá .

Voltei e passei a administrar uma propriedade de potencialidades precárias, naquela obstinação sertaneja, enfrentando uma seca atrás da outra, um insucesso atrás do outro, mas procurando sempre alcançar um resultado melhor no ano seguinte. Já se disse que o sertanejo vive sempre do outro ano: “no outro ano eu faço”. Lá estou vivendo com muita saudade de João Pessoa, da boêmia que eu pratiquei por quase quarenta anos, uma boêmia evidentemente responsável, dedicada ao pensamento, à discussão e ao debate de idéias e estou quase me alienando em face de necessidade do capital para sobreviver. Porque, como diz o matuto, o dinheiro é a mola do mundo.

V. como intelectual, como escritor e homem de pensamento, como vê a literatura paraibana hoje?

Eu acho que a literatura, não só da Paraíba como do mundo inteiro, tem sido vítima da mídia e do capital dominante. Os valores literários e estéticos propriamente ditos não são mais levados em consideração. A revelação de fatos sociais, de  verdades da sociedade que têm que ser retratados pela literatura, como, por exemplo, o ciclo da cana-de–açúcar, de Zé Lins do Rego, o romance da seca, de Graciliano, esse tipo de literatura não tem divulgação da mídia, porque conflita com os interesses dominantes. Assim, surge um Paulo Coelho, que retrata algum momento da sociedade onde não existe seqüestro, onde não existe doença nem crise financeira, onde não existe  problema, porque tudo se supera, na visão desses mágicos da literatura, meditando nos “Caminhos de Santiago”. Da mesma forma, a construção permissiva de romance, embora bem imaginada, nada diz, como o “Xangô de Baker Street”, de Jô Soares, que é um homem muito inteligente, muito preparado, mas não se vê mais um Érico Veríssimo, um Zé Lins do Rego, um Graciliano Ramos ou uma Rachel de Queiroz, porque esses escritores contavam a história da sociedade no seu desenvolvimento e nos seus conflitos, e a mídia não se interessa mais por isso.

E qual tem sido a influência da mídia na política?

Na política, encontramos muitas lideranças silenciadas, inutilizadas, levadas ao anonimato pela mídia. Um exemplo expressivo disso é o nosso falecido amigo Antônio Mariz. Não acreditamos  que Antônio Mariz, um homem inteligente, de grande cultura  política e filosófica não tivesse a inteligência e o preparo intelectual de um Inocêncio de Oliveira. Mas a mídia não o entrevistava porque ele ia contestar, ou pelo menos não defenderia os interesses do mídia.

 Eu fui colega de Faculdade de Marcos Maciel, que é vice–presidente da República. Esse moço é a expressão da inutilidade intelectual, por isso ele fica com aquela cara de quem não pode dizer nada, apegando-se apenas a dados e números. Mas  ele não diz por que não sabe. Ele fica com a fama de hábil articulador, fica na articulação por que ninguém sabe o que ele faz. Mas, ele sabe o que  faz. É levar o seu partido a participar de todos os governos em todas as situações que sejam favoráveis a ele e ao seu partido. Mariz nunca teve chance porque nunca fez isso, nunca ficou a serviço da mídia. Não se pode imaginar que Antônio Mariz não tivesse condições de ser ministro da Educação e Marco Maciel tivesse; que Mariz não pudesse ser ministro da Justiça e Nelson Jobim possa ser. Tudo que Mariz conseguiu foi por causa de sua vinculação  com o povo e não com a mídia.

Mas voltando á literatura, V. não acha que os valores literários surgem independente da mídia.

Isso é um fenômeno que só uma análise sociológica profunda pode determinar. Mas eu não desacredito que existam na Paraíba grandes obras escritas nas gavetas dos escritores que, sem ter acesso á mídia, não conseguem divulgar os seus trabalhos nem aqui no Estado. Nós vivemos  num círculo de ferro; uma mão de ferro  nos agarra e a gente daqui não sai. Ascendino Leite para aparecer, teve que sair da Paraíba. Virgínius venceu na marra porque era extraordinariamente preparado para a tarefa da literatura, e procurava se relacionar com todo o pensamento literário nacional. Virgínius não explodiu literariamente dentro da Paraíba, mas nacionalmente, pelo seu relacionamento com outros nomes. Mas a decadência, a globalização é tão profunda  tão avassalante, que o bispo Edir Macedo já invadiu os Estados Unidos e está invadindo a Europa com as suas  igrejas. Dizem que quando esteve na Áfríca do Sul ele juntou mais gente do que o Papa. A mídia não divulgou isso porque, apesar de ter interesse em Edir Macedo como instrumento do conformismo social, tem também o seu respeito pela Igreja Católica Apostólica Romana. Hoje se vê um Paulo Coelho sendo agraciado com medalha de honra pela Academia Francesa. Não se pode comparar a literatura de Sartre, de Camus, de Racine, de Voltaire com o pensamento de Paulo Coelho. Essa decadência é global. É a fase do capitalismo na sua expansão final e imperialista. É evidente que é preciso que os filósofos, os economistas, os estudiosos definam a rota desse desenvolvimento, porque algo de novo deve estar acontecendo e nós não estamos percebendo.

 Com a queda do império soviético, V. acha que o comunismo está morto e sepultado ou tem condições de ressuscitar?

O que caiu foi a experiência do socialismo soviético. Segundo Robert Kurz, um filósofo alemão, na Rússia não se estava construindo um sistema socialista, mas o que havia era um capitalismo de Estado. Desde o tempo de Lênine,  ele já advertia que aquele ainda não era o mundo dos “soviets”, dos operários, porque os que estavam governado não eram ainda filhos de operários, de trabalhadores socialistas. E de lá para cá a burocracia se instalou e não saiu mais. O que ruiu na União Soviética foi uma experiência capitalista, porque a burocracia não deixava construir–se o socialismo, embora as idéias fossem socialistas. Porque a centralização do poder, a propriedade absoluta dos bens pelo Estado, isso não transformava uma sociedade em socialista, mas num estatismo absoluto. E hoje o que se vê é o FMI emprestando dinheiro a Ieltsin, é o Banco Mundial emprestando dinheiro a Ieltsin, enquanto a Máfia russa vem assombrando o universo...

Isto significa dizer que o socialismo nunca existiu?

  O socialismo é um desenvolvimento das idéias da sociedade para chegar lá. Mas a experiência de construção do socialismo soviético resultou num capitalismo de Estado absoluto, repito, que direcionava o rumo de aplicação  do capital, porque, dadas as discrepâncias que existiam entre a forma de vida dos operários e dos burocratas, a experiência tendia a fracassar. Porque não podia haver socialismo onde moravam três famílias num mesmo apartamento, enquanto outro camarada dispunha de um apartamento com três suítes e mais uma dacha para passar os fins de semana. A partir daí, faliu o modelo, porque a passagem de uma classe para substituir uma adversária não esgota os vestígios do passado, quer dizer, a substituição da nobreza russa por uma nova administração que eram os soviets, não eliminou de maneira nenhuma as tradições e as lembranças dos valores do passado. O processo de substituição de uma classe por outra impõe uma verificação cuidadosa, até, se for preciso, através de leis de exceção. Somente em Cuba e na China houve uma experiência efetiva do socialismo, porque nesses países o investimento social do orçamento é de 80 por cento. (segue).



Escrito por Eilzo Matos às 07h26
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A Literatura é Vítima do Capitalismo

A Literatura é Vítima do Capitalismo:

Caderno Especial “O NORTE” 30/6/1996

(Entrevista ao jornalista Severino Ramos)

                            II

 

Que avaliação V. faz da classe política brasileira? V. acha que existe oposição?

 Oposição de fato neste país fazem os partidos tradicionais em cada Estado, de maneira localizada, como o PFL, PPB, que se opõem apenas na disputa pelo poder, porque a ideologia é a mesma, capitalista, neoliberalista, etc. Mas quem faz oposição de fato, no sentido de estender à sociedade as ações participativas do governo, são os partidos de esquerda, como PT, PDT, PV, PSB e PPS, antigo PCB. Brizola, muito embora alguns não admitam, foi um verdadeiro estadista, depois de Getúlio, profundamente culto e preparado intelectualmente, é quem faz uma oposição consciente. Está aí Fernando Henrique Cardoso, que sempre posou de esquerdista e exilado. Mas ele nunca foi exilado. Filho de general, vivia tirando onda  de esquerdista naqueles bares de São Paulo, pois naquela época era moda ser esquerdista. Quando veio a revolução e ele viu que a situação estava ruim, pegou o seu passaporte e foi par a Argentina, depois para o Chile, mas não como exilado. Ele é um produto da mídia, foi preparado e produzido para ser imposto pela CIA como presidente do Brasil. Só que os presidentes de República hoje em dia são figuras esterilizadas, porque quem decide sobre a guerra e a economia são os empresários, que nomeiam e demitem ministros, elegem e derrotam presidentes da República. Essa é que é a verdade insofismável.

V. condenou o capitalismo estatal soviético e é contra a privatização das empresas  estatais brasileiras. Qual é a diferença?

A diferença é que nós vivemos numa democracia pequeno-burguesa, onde as marcas do capitalismo de Estado devem existir. Petróleo, comunicação, navegação costeira, mineração, são alguns setores onde, por questões econômicas e estratégicas, devem  ficar sob o controle do Estado. Já no capitalismo estatal soviético tudo era absolutamente do Estado, não havia nenhuma de iniciativa privada.

Na sua opinião por que ainda não se fez a reforma agrária no Brasil?

É um contra-senso inexplicável não se fazer a reforma agrária. Está provado que a reforma agrária é uma necessidade. De que adianta se ter uma propriedade hoje  em dia e não ter mão de obra, porque o povo está fugindo do campo, dada a espoliação vergonhosa de que sempre foi vítima? Eu sou um pequeno proprietário de terra e sei o que é isso. O povo não fugiu da minha propriedade porque não quer trabalhar, mas porque eu não pago um salário digno. O trabalhador do campo só ganha o dia que ele trabalha. Se durante toda a semana, ele só trabalhar na quarta-feira, ele só recebe pelo que trabalhou na quarta-feira. Ele não tem repouso remunerado, não tem aposentadoria, pois ele morre antes de se aposentar pelo Funrural porque não chega aos 60 anos de idade. No campo, ele não tem dentista, não tem médico, não tem escola. A reforma agrária ainda não foi feita porque a propriedade de terra dá acesso a negócios milionários através dos bancos, os chamados créditos privilegiados. Além da poderosa bancada ruralista no Congresso, que vive chan–tageando o governo da defesa dos interesses dos grandes latifundiários.

Existe uma preocupação dos governantes com relação a uma explosão demográfica. Quando deputado, V. se preocupava muito com esse problema do controle da natalidade.

Quando eu era deputado, criei um Grupo Parlamentar para Estudos de População e Desenvolvimento. Naquele tempo, apesar de eu ser um militante ideológico  de esquerda, eu adotava algumas teses que meus companheiros  criticavam muito. Ocorre que há uma realidade social e uma realidade biológica, que é a reprodução humana, que tem conseqüências previsíveis. Os pobres não podem fazer qualquer tipo de planejamento familiar porque não têm os meios informativos a respeito, ao contrário da classe  média, que consegue ter quantos filhos queira. Porque isso é comum, é elementar. Nem sempre quando se tem uma relação sexual, se quer fazer um filho. E quando nasce um filho é um problema, porque exige assistência à gestante, exige o berçário, tem que haver o médico e depois a creche, a escola e o emprego. É preciso que o Estado aja com responsabilidade, orientando as familías para que pratiquem o planejamento familiar consciente.

Nós estamos vivendo em plena revolução da informática. Quais as suas expectativas com respeito ao avanço da tecnologia e que banefícios poderá trazer para o homem?

Inestimáveis benefícios. A informática, com a chamada interatividade, é de uma importância absoluta. O computador,  como equipamento técnico para ajudar o homem a produzirr e  a conhecer, é um dos maiores acontecimentos de todos os séculos. Uma atividade que exigiria milhares de pessoas para executar pode  ser desenvolvido sozinha só com um computador. O milagre da informática permite que, num CD Rom, por exemplo, você disponha de cem mil págimas impresas sobre os mais diversos assuntos. Com isso, se democratiza o acesso ao conhecimento. Agora, os benefícios da informática vão depender do sistema político que governa cada nação. É claro que a informática vai desempregar muita gente. O sistema de governo é que vai dizer se o povo será ou não bem assistido, com a criação de métodos e processos para dar ocupação às pessoas que porventura foram desempregadas pelo computador, descobrir meios para preencher as horas  de lazer e de ócio dessa gente........................

 



Escrito por Eilzo Matos às 07h24
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João Pessoa - Tempos Passados

 

  Parte I

 João Pessoa - Tempos Passados, Algumas Lembranças

 

ANTECEDENTES

 

 

         Cheguei a João Pessoa em 1970, eleito deputado estadual.  Es-tranho à cidade, para integrar-me no circuito dos acontecimentos restabeleci uma convivência iniciada em Recife, nas décadas Cin-qüenta/Sessenta com Virginius da Gama e Melo, então prestigiado colunista político do “Diário da Noite” da empresa “Jornal do Comércio” do Grupo Pessoa de Queiroz (que muito tem a ver com a história da Paraíba), e destacada presença semanal no seu “Suple-mento Literário” dos domingos, na Mauricéia.

Matriculado na Faculdade de Direito eu buscava o sonhado título de bacharel, um compromisso assumido comigo, com a família e com a minha cidade. Nos aproximamos nos bares fre-quentados pela imprensa, por bravos paraibanos exilados na impávida e augusta Mauricéia, e por políticos e intelectuais à pro-cura de evidência.

Os campinenses dominavam o cenário com os Gaudêncio, os do Ó, os Agra, e outros. A influência completava-se na ligação familiar do brejo paraibano com o temido e respeitado chefe político Chico Heráclito do Rego, glória e presença marcante do coronelismo no Estado vizinho, que dominava Limoeiro e Carpina, pai do de-putado pernambucano-campinense (casado na familia Figueiredo), Veneziano do Rego  -  com mandato nos dois Estados.

O ubíquo parlamentar – que hospedara Virgínius no período de ostracismo enfrentado pela família derrotada por José Américo em 1950 –,  era pai do acadêmico Vital, um apaixonado pelo Direito, que exibia no bar “A Portuguesa”, na rua Diário de Pernambuco, um volume contendo os “Cem Melhores Sonetos Jurídicos do Brasil”.  Mas gravitávamos todos, na verdade, em torno de Virginius.

Assim,  o cangaço (os Gaudêncio e Oldack do Ó, exibiam armas na cintura, e as disparavam intimidativamente a esmo, umas vezes, outras com alvo certo), e também a política e a literatura levavam Campina Grande às alturas, desde que,Virginius dividia-se matreiramente: “João Pessoa é a capital do Estado, tem relevância, não discuto, mas Campina é a maior cidade da Paraíba”.Ele dizia. Honrava, assim, elevando a voz nasalada, gesticulando, a ascendência materna da  família  Figueiredo, da Rainha da Borborema, que, igualmente aos Gama e Melo, de João Pessoa, governara o Estado, dera prefeitos, deputados e senadores ilustres, firmara tradição.

Em João Pessoa eu era, pois, um  “ilustre desconhecido”. A minha parte paraibana convivera em Pernambuco os momentos melhores da juventude e lá guardava as suas relações, a sua memória.

Frequentei o curso secundário e a universidade no Recife. Sem a convivência geracional (na expressão de José Rafael de Menezes) no meu Estado, era um estranho à minha capital. Não vivi  os  dias gloriosos  do “Bar Pedro Américo”, consagrado em livro pelo médico-sociólogo-escritor-cervejeiro-cabarezeiro Paulinho Soares. Mas cheguei bafejado pelo dobrado prestígio do “político-intelectual”, que me atribuira o generoso e amado Menestrel, com referências constantes e elogiosas a meu respeito no seu colunismo consagrado nos jornais mais importantes da nossa Paraíba, que me embaraçavam algumas vezes.

Nos bares de João Pessoa fiz amizades no companheirismo da vida boêmia, um gosto da época, anedótico para a “alta-roda”, de mau gosto para pessoas vips, todavia uma deliciosa realidade, uma inesgotável fonte da história em todos os lugares do mundo.

Os movimentos artísticos e políticos que se universalizaram, nascidos nos cafés parisienses, nas peñas freqüentadas por Buñuel nos bares noturnos em Madri, no Village em Nova York, os ideais abolicionistas e republicanos, a harmonia parnasiana dominando a Confeitaria Colombo, e a Lapa revelando nas mesas do Café Nice o talento carioca de Pixinguinha e Mario Lago, confirmam esta afirmação. Aquelas pessoas vips, da alta-roda, preferem frequentar mansões, festas privativas, condomínios fechados, e outros lugares inacessíveis aos mortais comuns.



Escrito por Eilzo Matos às 07h05
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