Prosa Caótica

Jornal



Prosa Caótica II, Cad (l988/2002) 10,11,12,13,

10

Continuo morando na fazenda, entre-gue a lembranças do passado, sem planos de-finidos para o futuro. Uma vida preguiçosa. Indisposto, e quase indiferente às pequenas ne-cessidades administrativas deste pequeno pa-trimônio que produz pouco resultado financeiro, vivo mesmo de rendimentos de uma aposen-tadoria no serviço público estadual.

Não posso esconder da minha cons-ciência, as marcas familiares e sociais deixados pela minha separação judicial. Entreguei à mi-nha ex-esposa, é verdade, quase tudo que pos-suíamos em comum. Tranqüiliza-me a sua si-tuação e dos filhos em relação às condições ma-teriais de vida. Em relação a mim, a falta de convivência no lar e na sociedade onde sempre vivi, dificulta o meu relacionamento, inibe as minhas ações em certos ambientes que passei a evitar. Sobrevivo, na solidão da fazenda, impon-do, tacitamente, aos que me visitam, gente pobre do campo, o teor das conversas. Procuro desem-penhar com eficiência as tarefas do meu projeto social. É a prática da teoria a partir da própria teoria.

A reflexão sobre o papel que desempenho no mundo e que não pode ser fruto do meu “livre arbítrio”, dissipa outras situações. Como frisei anteriormente, arranjei outra mulher e novos filhos que moram numa cidade próxima à fazenda. Criatura modesta, de família pobre de analfabetos operários rurais, ela trabalha no hospital do Estado em emprego que lhe arranjei.  Amo-a e as crianças, habituei-me com as suas visitas, procuro fazer algo para garantir-lhes o futuro quanto à educação e alguns recursos e bens materiais, que poderão satisfazer precisões eventuais no decurso de suas vidas.

11

     Descoberto o Brasil, os que chegaram para colonizá-lo, relata Darcy Ribeiro no seu O POVO BRASILEIRO (Ed. Schwarcz–Círculo do Livro, 1995), buscavam seus ganhos “em ouros e glórias, ainda que estas fossem principalmente es-pirituais, ou parecessem ser, como ocorria com os missionários. Para alcançá-las tudo lhes era concedido, uma vez que sua ação de além-mar, por mais abjeta e brutal que chegasse a ser, estava previamente sacramentada pelas bulas e falas do papa e do rei.” (pág. 44)

Mais adiante DR esclarece: “Apesar de o projeto jesuítico de colonização do Brasil nascente ter sido formulado sem qualquer escrúpulo huma-nitário, tal foi a ferocidade da colonização leiga, que estalou, algumas décadas depois, um sério conflito entre os padres da Companhia e os povoa-dores dos núcleos agrário-mercantis.” (pág.53). E continua na ob. cit:

“Nas tarefas da conversão do gentio e sua integração na cristandade, foram soldados princi-pais o jesuíta, o franciscano e o carmelita. Os ina-cianos, inspirando, apoiando, incentivando o braço secular para que, guerreando e avassalando, pusessem os índios, humilhados, a seus pés, dentro das missões.” (pág.60).

Esta questão, no tocante à chamada cate-quização dos silvícolas, como me ensinaram no colégio, trata, nas exatas palavras de Darcy Ribeiro de “uns santos homens (que), em sua alienação iluminada, continuaram crendo que cumpriam uma destinação cristã de construtores do reino de Deus no novo mundo, de soldados apostólicos da cristandade universal... o projeto jesuítico era tão claramente oposto ao colonial que resulta espantoso haver sido tentado simultaneamente e nas mesmas áreas e sob a dominação do mesmo reino.”(pág.54)

DR nos informa, ainda, detalhes da Nova Cruzada, em que os dois monarcas transformavam o episódio trágico e desumano da colonização do Brasil e das possessões de Espanha. E na riqueza de sua linguagem e estilo, o indigenista revela o espanto do nosso povo, transformado maldosa-mente em objeto de curiosidade e chacota vil, de exploração grosseira e execrável, de forma “que o índio passou a ser, depois do pau-brasil, a principal mercadoria de exportação para a metrópole.” (Newen Zeitung 1515).

12

Impõe-se uma palavra em defesa da nossa Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. A minha igreja, cuja prática social e cultural professo, é a única verdadeira e originariamnte cristã, fundada por Pedro, apóstolo de Jesus. Digo-o em desdouro das demais também ditas cristãs, de fato dissidentes, pelo primitivismo de seus apelos, obtusidade dos seus comentários e de suas interpretações bíblicas, no impossível escondi-mento do seu chulo oportunismo. Eterna a nossa igreja, como o próprio Deus, são eternas as suas oportunidades para a reconciliação, o cumprimento dos desígnios divinos. A conversa é outra.

13

É inegavelmente dolorosa a leitura do relato de DR na crueza de suas revelações: “Mais tarde, com a destruição das bases da vida social indígena, a negação de todos os seus valores, o despojo, o cativeiro, muitíssimos índios deitavam em suas redes e se deixavam morrer, como só eles têm o poder de fazer... Sobre esses índios assombrados com o que lhes sucedia é que caiu a pregação mis-sionária, como um flagelo. Com ela, os índios souberam que era por culpa sua, de sua iniqüidade, de seus pecados, que o bom deus do céu caíra sobre eles, como um cão selvagem, ameaçando lançá-los para sempre nos  infernos.” (pág.43).

Os catequistas cerraram fileira: “figuras mais capazes de indignação moral, como Antonio Viei-ra, os jesuítas assumiram grandes riscos no res-guardo e na defesa dos índios. Foram, por isso, expulsos, primeiro, de São Paulo e, depois, do estado do Maranhão e do Grão-Pará pelos colonos. Afinal, a própria Coroa, na pessoa do marquês de Pombal, decide acabar com aquela experiência socialista precoce, expulsando-os do Brasil. Então ocorre o mais triste. Os padres entregam obedientemente as missões aos colonos ricos, contemplados com a propriedade das terras e dos índios pela gente de Pombal, e são presos e reco-hidos à Europa, para amargar por décadas o triste papel de sujigadores que tinham representado.”(pág.56). 

Repito a afirmativa anterior, que esta monumental obra histórico-sociológica O POVO BRASILEIRO, na riqueza de sua visão detalhada ou abrangente da formação do que seria a nossa civilização, deve ocupar o lugar de livro de cabeceira de todos os brasileiros, fundamental para formação de uma ética e de uma consciência nacional.

O que insisto em chamar a “nossa Bíblia” nos capítulos sobre o chamado “Processo Civi-lizatório”, “Gestação Étnica”, “Os Brasis na História e mais teses relativas ao nosso de-senvolvimento econômico e sócio-cultural, oferece a clara revelação de situações históricas que as determinaram e são escamoteadas da discussão, silenciadas, por não atenderem às conveniências da elites do nosso país. 

 

             .....................................................

 

 

 



Escrito por Eilzo Matos às 11h01
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Prosa Caótica II Cad VII (1988/2002) 10

10

Continuo morando na fazenda, entre-gue a lembranças do passado, sem planos de-finidos para o futuro. Uma vida preguiçosa. Indisposto, e quase indiferente às pequenas ne-cessidades administrativas deste pequeno pa-trimônio que produz pouco resultado financeiro, vivo mesmo de rendimentos de uma aposen-tadoria no serviço público estadual.

Não posso esconder da minha cons-ciência, as marcas familiares e sociais deixados pela minha separação judicial. Entreguei à mi-nha ex-esposa, é verdade, quase tudo que pos-suíamos em comum. Tranqüiliza-me a sua si-tuação e dos filhos em relação às condições ma-teriais de vida. Em relação a mim, a falta de convivência no lar e na sociedade onde sempre vivi, dificulta o meu relacionamento, inibe as minhas ações em certos ambientes que passei a evitar. Sobrevivo, na solidão da fazenda, impon-do, tacitamente, aos que me visitam, gente pobre do campo, o teor das conversas. Procuro desem-penhar com eficiência as tarefas do meu projeto social. É a prática da teoria a partir da própria teoria.

A reflexão sobre o papel que desempenho no mundo e que não pode ser fruto do meu “livre arbítrio”, dissipa outras situações. Como frisei anteriormente, arranjei outra mulher e novos filhos que moram numa cidade próxima à fazenda. Criatura modesta, de família pobre de analfabetos operários rurais, ela trabalha no hospital do Estado em emprego que lhe arranjei.  Amo-a e as crianças, habituei-me com as suas visitas, procuro fazer algo para garantir-lhes o futuro quanto à educação e alguns recursos e bens materiais, que poderão satisfazer precisões eventuais no decurso de suas vidas.

.....................................................................



Escrito por Eilzo Matos às 10h51
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Prosa Caotica II, Cad VII, 1988/1995 -6,7,8,9,10,11,12,13,14

6

Ruíu o internacionalismo proletário como idéia e a sua forma política e constitucional foram desfeitas. Os acontecimentos na Europa socialista mar-caram o “início do fim”. O que aconteceu na URSS de-monstra que tal conceito, tal estrutura real inexistia, estava relegada apenas ao mundo das idéias e não se concretizava na prática.

O desenvolvimento dos fatos na sua rapidez, fruto da facilidade de comunicação, que protegeu Luthero no passado – no caso a recém-inventada im-prensa – é uma expressão nacionalista de relevos variados. Ora forma cultural de afirmação, ora desejo liberal de modernização em face da estabilidade de instituições garantidas pela força, às vezes, e em alguns casos, pela premência de questões econômicas, e igualdade política, na participação do poder.

Assim se desfez o Império Austríaco e foi destruído o Império Otomano, para falarmos apenas de fatos do século passado. Revoltas nacionalistas que explodem, provocadas sempre por potências rivais e pelo sentimento patriótico facilmente estimulado. Co-nhecemos a CIA e a KGB, exemplos que bastam.

O nosso compatriota Jacob Gorender que viveu em Moscou os dias conturbados do relatório Krushov, confirma a dor moral dos soviéticos com as revelações de arbítrio e crueldade inomináveis na construção de um projeto político, ignorados, desco-nhecidos até então. Ele chega à conclusão que Marx era um determinista utópico, queria algo que a realidade não confirmou, tornou-se obsoleto. No seu anuncio da ex-tinção do Estado, da realização do auto-governo, ignorou a necessidade de definição de prioridades no âmbito da sociedade, da vida das instituições que re-gulam a atividade social, coletiva, quando quase tudo é imprevisível. Os russos tinham o orgulho de sua pátria e do seu povo, construiram com a revolução leninista não um país livre, mas um regime de força, um estado confessional

Desapareceram, nestas condições, o socialismo no mundo e as condições que o suscitaram? Restam a China e Cuba, somente?

A imprensa ocidental não fala de dezenas de outras nações do planeta que constroem o socialismo de estado dentro de suas peculiaridades históricas locais. Países pobres, submetidos ainda à supremacia do mer-cado internacional dominado pelos grupos capitalistas, pouco valem dentro dos organismos imperialistas que controlam quase os dois hemisférios. Depois da fase de liquidação dos laços coloniais entre os povos, voltamos à questão nacionalista. Quem sabe, um dia, serão que-brados os grilhões que torturam as ilhas de Porto Rico e Havaí, tutelados pelos Estados Unidos da América do Norte.

No caso da URSS, a destruição violenta dos símbolos da união ideológica e cultural do povo, nos leva à meditação. Que fatos dolorosos provocaram tal violência, tão profunda retaliação? Mero estimulo.

7

Qual a significação dos acontecimentos re-centes no Leste Europeu e na União Soviética? Eis uma pergunta que muito se fazem.

Essa luta dos povos socialistas é pela demo-cracia e pela liberdade, assim entendo. Naquelas nações, incluídas entre as mais atrasadas e preconceituosas da Europa, antes do advento do socialismo, persistiam alguns fatos objetivos como o sectarismo utópico e messiânico e a tradição que incluía arraigada crença religiosa.

A passagem de uma classe para a que é sua adversária, não esgota os vestígios do passado, É um processo cujas tendências impõem verificação cuidadosa, leis de exceção, como nas nações capitalistas. Pode-se cair em erros graves ou oportunistas.

Tais fatos levaram ao esquecimentos da pro-cura do “elo seguinte da cadeia”, preconizado por Lênin, no confronto dos fatos pelo órgão de luta do conjunto do proletariado, que se torna órgão estatal, que deveria ultrapassar vitoriosamente “a mentalidade burguesa de sua camada dirigente”,  adverte Georg Lukács.

No seu “História e Consciência de Classe” (posfácio de 1967), o filósofo húngaro esclarece que “na III internacional, Zinoviev e seus discípulos tinham introduzido hábitos burocráticos e que, durante os seus últimos anos de doença, Lênin andava preocupado com a luta a travar, com base na democracia proletária, contra a burocratização crescente e expontânea, da Re-publica Soviética. Esta afirmação corrobora outra de Edmund Wilson em “Rumo à Estação Finlândia”. Em discussão com Trotski dissera Lênin: “O regime bolchevique não era ainda de todo uma república de trabalhadores, e sim – como os trabalhadores ainda eram governados por autoridades muitas das quais não eram de origem proletária – uma república de trabalhadores com distorções burocráticas.”

O poderoso estamento burocrático soviético, “órgão” supremo do Estado, criou a contradição entre povo e poder, agravou a alienação numa população de elevado nível cultural e técnico. Acresce a circunstância do fenômeno contemporâneo de ocidentalização da cultura nos seus aspectos lúdicos, com as conquistas da técnica de comunicação, levar a “burocracia” a impor e estabelecer ralações de força naquelas sociedades.

Os fatos da repressão stalinista, na Hungria, na Checoslováquia, da adulteração de relatórios sociais no período Krushev, sobre planos qüinqüenais de desenvol-vimento, foram produzidos por desvios burocráticos em esquemas de força, sufocando as liberdades e o processo elo a elo do desenvolvimento das relações socialistas.

Todos conhecem os métodos de infiltração e espionagem dos estados capitalistas, celebrizados nas ações da CIA, do “Agente 007” da espionagem bri-tânica. Até na ficção aperfeiçoam o marketing, moti-vando os, “casos de consciência”, o surgimento de agentes provocadores nos países visados.

Hegel ensinou que “a razão governa o mundo e é somente na superfície que reina o jogo dos acasos irracionais.”

A história (que é racional) explode sistemas fechados, e a razão restabelece a ordem quando a história parece absurda e sem sentido. Eis a causa objetiva dos acontecimentos comentados. Esta é a concepção do desenvolvimento da historia na lição do filósofo Roland Corbisier.

8

O episódio do meu afastamento do grupo liderado pelo senador Antônio Mariz, revelou o meu despreparo para a política partidária. Indispus-me com um companheiro de partido, indivíduo pouco escru-puloso, e sem razão briguei com todos. Fugi ao modelo, deixei de lado a prática dominante    salvar interesses e vantagens imediatas, esquecer a ética nos seus man-damentos morais.

Saí de um partido que me assegurava presença no Estado e filiei-me a outro que me tolhia os passos, forçando-me a encerrar a minha passagem na cena política. Primário, voluntarioso, acomodado, prisioneiro de normas de condutas política incômodas, não admi-tidas na prática oportunista em voga, paguei o preço da inexperiência, da errada compreensão da política paro-quial de castas.

Fui considerado um “bom deputado” em razão de discursos de certo conteúdo intelectual, que pronunciei da tribuna da Assembléia e a convite em reuniões no ambiente social, mas era passado para trás no jogo da apropriação e da partilha das benesses administrativas.

Não tenho, é preciso registrar, qualquer reparo a fazer, nos longos anos de nossa convivência, ao espírito público de Antônio Mariz, à sua lealdade em razão de compromissos, partidários. Homem honrado pessoalmente, levou para a política a marca da se-riedade, não tendo sido, ao longo de trinta anos de desempenho de mandatos, acusado de qualquer deslize. Um fato inacreditável, um “milagre” na vida pública brasileira. Não vejo na política paraibana outro que o suplante. Nem Epitácio Pessoa que chegou ao Supremo Tribunal Federal e à Presidência da República – malgrado fatos levantados contra sua conduta de ser-vidor público –, em face do que qualificam de oportunismo ou esperteza na obtenção de vantagens próprias da categoria, em relação à acumulação de cargos, contagem de tempo de serviço público, apo-sentadoria, possivelmente de má fé, pode-se dizer. O que, mesmo assim, não aconteceu com Antonio Mariz.

9

De Voltaire:

“O cristianismo só ensina a simplicidade, a humanidade, a caridade. Querer reduzir-lo à metafísica é transformá-lo numa fonte de erros.” (Cartas Inglesas)

“Anaxágoras atreveu-se a afirmar que o sol não era guiado por Apolo montado numa quadriga; chamam- lhe ateu e é obrigado a dar às de Vila-Diogo. Aristóteles é acusado de ateísmo por um sacerdote; como não pode mandar punir o acusador, retira-se para Cálcis. Mas a morte de Sócrates é decerto ainda o caso mais odioso da história grega.” (Dicionário Filosófico).

“Vendo, pois, que um número prodigioso de homens não tinha a menor idéia das dificuldades que me inquietam, e nem desconfiava daquilo que se diz nas escolas sobre o ser em geral, sobre a matéria, sobre o espirito, etc.; vendo também que freqüentemente muitos caçoavam do que eu queria saber, suspeitei que não seria absolutamente necessário que o soubéssemos. Pensei que a natureza deu a cada ser a porção que lhe convém; acreditei que as coisas que não podemos alcançar não são nossa partilha. No entanto, malgrado esse desespero, não aban-dono o desejo de ser instruído, e minha curiosidade enganada é sempre insaciável.”( O Filósofo Ignorante )

10

De Diderot:

“Se o sistema moral está corrompido, é inevitável que o gosto seja falso.” (Dos Autores e dos Críticos).

“Se a questão da prioridade do ovo sobre a galinha ou da galinha sobre o ovo vos embaraça, é porque supondes que os animais foram originariamente o que são agora.” ( Dialogo de D’Alembert e Diderot).

11

Continuo morando na fazenda, entregue a lembranças do passado, sem planos definidos para o futuro. Uma vida preguiçosa. Indisposto e quase indiferente às pequenas necessidades administrativas deste pequeno patrimônio que produz pouco resultado financeiro, vivo mesmo de rendimentos de uma aposentadoria pública estadual.

Não posso esconder da minha consciência, as marcas familiares e sociais deixados pela minha separação judicial. Entreguei à minha ex-esposa, é verdade, quase tudo que possuíamos em comum. Tranqüiliza-me a sua situação e dos filhos em relação às condições materiais de vida. Em relação a mim, a falta de convivência no lar e na sociedade onde sempre vivi, dificulta o meu relacionamento, inibe as minhas ações em certos ambientes que passei a evitar. Escapo na solidão da fazenda, impondo tacitamente, aos que me visitam, gente pobre do campo, o teor das conversas. Procuro desempenhar com eficiência as tarefas do meu projeto social. É a prática da teoria à partir da própria teoria.

A reflexão sobre o papel que desempenho no mundo e que não pode ser fruto do meu “livre arbítrio”, dissipa outras situações. Arranjei outra mulher e novos filhos que moram numa cidade próxima à fazenda. Criatura semi-analfabeta, de família pobre de analfa-betos operários rurais, ela trabalha no hospital do Estado em emprego que lhe consegui. Amo as crianças, habi-tuei-me com as suas visitas, procuro fazer algo para garantir-lhes o futuro quanto à educação e alguns recursos e bens materiais que poderão satisfazer pre-cisões eventuais no decurso de suas vidas.

 

 

 

 



Escrito por Eilzo Matos às 07h01
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Prosa Caotica II, Cad VII (1988/1995) 1,2,3,4,5,

 

1

 

 

 

Passados alguns meses, retorno às anotações neste caderno, interrompidas por ocupações variadas em trabalhos na fazenda, participação na política partidária em Sousa e no Estado, diminuída, é verdade, e algumas leituras. Fui reabsorvido, em suma, pela vida social, por compro–missos que se mostraram inevitáveis.

Escrevi duas plaquetas: uma sobre a criação da Faculdade de Direito de Sousa, tema de real necessidade para restabelecer a verdade sobre a sua história, pois notórios inimigos, que nos combateram nos dias difíceis, começavam a se arvorar de beneméritos, pelo fato de ocuparem, hoje, ali, cátedras remuneradas, emprego público; outra sobre a vida do meu tio Salviano Leite, velho e honrado político paraibano, que alcançou posições na vida estadual e nacional, exercendo-as em nome de uma representação, cujo interesse  público e partidário colocava acima de qualquer compromisso. Pelo fato de ter morrido pobre (ex-presidente da Caixa Econômica Federal), afastado da política de interesses inconfessáveis dos dias atuais, caíra no esquecimento.

Sobre as minhas atividades, quase diletantes, reconheço que não alcançaram rendimento considerável, quer na atividade rural, quer na política, quer na seara intelectual. Continuo sem fortuna, isto é, sem recursos financeiros para alguma projetos familiares e pessoais, sem posição relevante na vida política local ou estadual, e, nada importante produzi literariamente. Ressalvo boas leituras e releituras, esclarecedoras de dúvidas do passado.

Considero-me melhor preparado para a reflexão sobre temas da literatura (sua crítica e sua historia) abordados noutras páginas, mas dentro daquelas idéias expostas. Fundadas na concepção materialista e dialética da natureza e da sociedade.

“As grandes sínteses esclarecedoras, escreveu Otto Maria Carpeaux, na sua ‘Historia da Literatura Ocidental’, não podem se basear em pesquisas originais; são feitas de ‘segunda mão’ aproveitando documentação já utilizada. Fatalmente cai-se na rotina. Rotina, quer dizer, confiança absoluta na opinião dos autores utilizados. Na historia literária, a rotina prejudica particularmente o lado crítico dos trabalhos. Ninguém pode ter lido tudo; e até com respeito às obras muito conhecidas os autores de histórias literárias preferem, as mais das vezes, repetir opiniões consagradas.”

       

 

2

 

Julgava–me bem informado sobre Darcy Ribeiro, pela admiração que lhe devotava como político atuante na minha linha de pensamento. Indigenista, criador da Universidade de Brasília, senador, exilado político, antropólogo, sociólogo, pensador de esquerda como o qualificavam, o tornaram modelo de homem público admirado por mim e tantos brasileiros mais. Pouco, entretanto, conhecia de sua vasta e autorizada obra de sociólogo e de pesquisador da história, do pro-cesso de colonização do nosso país, das condições que resultaram na formação do que era e viria a ser o povo e o estado brasileiro.

Tenho em mãos o seu recente livro O POVO BRA-SILEIRO, e deixarei que ele o explique. Antes, porém, sem fanatismo nem proselitismo, ofereço uma sugestão aos meus compatrícios: adotem–no como a “Bíblia do Brasil”. Assim o nosso país dará certo.

  “Escrever este livro foi o desafio maior que me propus”,´ ele afirma no prefácio. E prossegue, informando sobre a escolha de suas fontes, do seu método, do seu material de trabalho: “Meu sentimento era de que nos faltava uma teoria geral, cuja luz nos tornasse explicáveis em seus próprios termos, fundada em nossa experiência histórica. As teorizações oriundas de outros contextos eram todas elas eurocêntricas demais e, por isso mesmo, impotentes para nos fazer inteligíveis. Nosso passado, não tendo sido o alheio, nosso presente não era necessariamente o passado deles, nem nosso futuro um futuro comum.”

E conclui com a coragem e ética que lhe são peculiares: “Não se iluda comigo, leitor. Além de antropólogo, sou homem de fé e de partido. Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por fundo patriotismo. Não procure aqui análises isentas. Este é um livro que quer ser participante, que aspira influir sobre as pessoas, que aspira ajudar o Brasil a encontrar–se a si mesmo.”

Assim comportou–se o Cristo ao expulsar os vendilhões do templo, ao anunciar que mais fácil seria um camelo passar no fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino do céu, ao se opor à pobreza e se colocar do lado da fartura no milagre da multiplicação dos pães.

 

3

 

Acerca da diversidade de teses sobre histórias da literatura, quer fundadas em esquemas cronológicos, mo-nografias sobre autores, classificação de gêneros, passando por De Sanctis, Croce, Dilthey, os sociólogos Max Weber e Karl Manheim até os dias atuais, acentua Carpeaux, chegou-se à separação absoluta entre história literária e crítica literária, num academicismo que as coloca em posições hostis

A história e a crítica se complementam. Tais investigações inserem-se na teoria do conhecimento. Embora envolvida em especificidade, a literatura tal como a sua história e a sua crítica, não se ajustam à idéias, pré-fabricadas, ou fabricadas no “mundo platônico dos ideias, imóveis e eternamente iguais a elas mesmas”. São produtos históricos, circunstanciais. Daí a necessidade de compre-ensão das leis objetivas da sociedade na qual essas obras são produzidas, e que permitem explicá-las no seu desenvol-vimento. Todos lemos, alguma vez, sobre Brunetière, Taine, Herder, Samuel Johnson, Carducci, Richards, cujas idéias pessoais, eliminadas as formas de existência da sociedade, a racionalidade do discurso, nos levam à impossibilidade de percebermos a essência da literatura, pela impropriedade do método ou pela sua inexistência para a abordagem do problema.

Um filósofo brasileiro nunca assás divulgado, Roland Corbisier, ensina que a verdade não é fruto da intuição ou da revelação mística, mas a construção pela descoberta da racionalidade do mundo natural e humano. Não se constrói a verdade com palavras. Daí a produção de obras meramente conceituais no plano das idéias.

 

 

4

 

 

Recordação do dia 1º de Maio na fazenda. Olho à distância a movimentação das pessoas nos seus afazeres. Aqui não se conhece esta data comemorativa, em 1991. O regime é de quase servidão, não existe o trabalhador cidadão, com direitos assegurados. A idéia da igualdade entre os homens não é explicada sequer pelos pregadores religiosos, segundo a qual todos os homens são irmãos porque são todos filhos do mesmo pai. As seitas cristãs não ensinam mais acerca dos fundamentos da sua religião. Direi com Voltaire que mata a nossa fé, a pouca moral e os muitos dogmas.

 

 

5 

 

Volto às lembranças da infância.

A nossa vida familiar em Sousa, decorreu no limite do interesse do meu pai pelos negócios de sua representação comercial; depois, liquidado o pequeno empreendimento, o seu irmão Antonio Leite Montenegro, deputado estadual, nomeou–o para o serviço público como Agente Fiscal, dedicando-se a partir de então aos deveres do seu emprego. Ele conhecia pela experiência no seio da família, em Piancó, que as pessoas do lugar não cedem a estranhos, sem reação, participação no poder político, vin-culado à tradição local. Evitava, assim, externar opiniões sobre a política municipal. Acompanhava a sua família na política estadual. Era uma posição ditada puramente pela razão de quem conhecia os costumes. Integrava-se, entretanto, participativamente à vida social da cidade.

Em tais condições, a minha infância transcorreu sem a agitação doméstica das casas dos chefes políticos, sem as indisposições entre famílias, que caracterizavam o nosso meio.

 Aos dez anos de idade fui levado para conhecer a família do meu pai em Piancó. Alguns tios nos visitavam em tempo de carnaval e noutras festas importantes, e eu já fora levado algumas vezes em companhia do meu pai e de minha mãe àquela cidade, porém, muito pequeno ainda, não guardava qualquer lembranças das casas, das pessoas. Naquela idade eu era realmente um menino e a minha vida consistia no aprendizado de brincadeiras.

A viagem entre Sousa e Piancó levou pra-ticamente dois dias, cansativa, despertando-me a curiosi-dade e descobertas. Seguia em companhia de um morador das terras de minha avó, que todos os anos, nos tempos difíceis, trazia cargas de milho e feijão para nossa casa, em lombo de jumentos. Ignoro as razões de submeterem-me a tal jornada.

Em frente à minha casa, fui colocado em cima de uma cangalha bem forrada de panos pela minha mãe, que recomendava cuidados a João Velho, e olhava-me já com saudades. Partimos depois do almoço, o sol muito quente. Atravessamos algumas ruas, ganhamos a catinga. João Velho explicava-me que tinha ponto certo para dormida e descanso dos animais. Refeitos pelo sono da jornada da tarde, sairíamos pela madrugada e chegaríamos a Piancó para o almoço.

 Menino da cidade a paisagem rural encantava-me no seu aspecto agreste naquele mês do ano (provavelmente agosto ou setembro). Aves e pequenos animais, nas árvores, em vôos rápidos, atravessando a estrada em disparada. Cuidadoso, João Velho perguntava-me repetidamente se me sentia cansado, se tinha sede, oferecia-me bolachas e pedaços de rapadura que minha mãe lhe entregara.

Fui recebido com surpresa, curiosidade e carinho na chegada em pleno almoço da família na casa de minha avó.. Estranhei os gestos amáveis dos desconhecidos, o olhar espantado das empregadas da cozinha. Encabulado,  recusei a comida e a muito custo engoli algumas bocados saborosos. Confundiam-me as perguntas sobre “Tiburtino.” Somente ali ouvia chamarem o meu pai pelo seu nome próprio, porque em Sousa tratavam-no pelo sobrenome: “Seu” Matos.

O ambiente não era moderno e liberal como parecia o de minha casa. Móveis antigos, o interior das salas e dos quartos escuros e silenciosos, a vida estava na cozinha e nas cadeiras na calçada para intermináveis conversas que não me interessavam. A minha avó, agitada, desdobrava-se, reclamava o seu cigarro de fumo da terra, feito à mão por uma menina que ele criava. Destacava-se nas reuniões pela tarde e à noite, a voz tonitruante de tio Mário, de pele queimada de sertanejo, rosto grosseiro, respeitado, ouvido em silêncio. Irmão de minha avó parecia, pela idade, o chefe da família. Agradavam-me as expressões meigas das minhas tias Elisa e Maria José, viúvas, discretamente sentadas. O vigário da paróquia, de cor escura, cabelos grisalhos, era recebido com deferência. Vestia uma batina negra e suja, fumava muito. Amigo da família, abancava-se, entrava na conversa como um dos nossos. Depois vim a saber que fora deputado estadual, era romancista e historiador. Não parecia.

 

 



Escrito por Eilzo Matos às 06h32
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Prosa Ca'otica II (1992/2000) Cad VI - 13, 14

13

     Leitura de TUDO QUE É SÓLIDO DES-MANCHA NO AR, de Marshall Berman, lançado com divulgação privilegiada.

É inegável o crescimento da produção inte-lectual dos norte-americanos em comparação com outros países do ocidente. Os centros culturais, parece, deslo-caram-se de Londres, Paris, Berlim e Viena para as universidades americanas. Harvard, Yale, Cornell e outras notáveis, são os nomes da moda. E não se firmará sequer como modismo, o que não receber a chancela, o “imprimatur” de Nova York. Pelo menos no Brasil.

     Os prêmios concedidos ao trabalho intelectual – nas ciências e nas artes –, dá aos americanos aquele destaque a que aludi. É o que tenho lido e recebido como informação divulgada pela midia, de fontes que desco-nheço a  origem.

Os índices remissivos e onomásticos, as bibliografias sistemáticas de qualquer livro sobre arte e ciência – especialmente o ensaio – trazem uma proporção considerável de referências e fontes na relação EUA /outros países, nos últimos quarenta anos.

Estaríamos sendo vitimas – pergunto-me com a paranóia terceiro-mundista –, de um poderoso e indisfarçável colonialismo cultural? Movendo-nos na relação que é dependência geopolítica, copiamos modelos. Ignoro a repercussão dessa atividade intelectual noutros centros do mundo capitalista.

     Algo existe, no meu entender, para justificar tal eficiência. Os intelectuais americanos do pós-guerra – “não raro trabalhando para generosas instituições gover-namentais, subsidiadas por fundações” – elaboram teses que “desenvolvem a fim de exportar para o Terceiro Mundo.” (pág.25).

     Outro não é o trabalho de Berman, senão reinterpretar filosofias contrárias ao “American Way of Life”, em nome de uma modernidade que teria nascido com o capitalismo, e possui uma capacidade interior inesgotável de se renovar como sistema econômico e forma de organização social, promovendo o autodesen-volvimento, o crescimento material da sociedade.

     Na análise e comentários de Berman, depois do aparecimento da burguesia, do trabalhador assalariado, nada mais aconteceu, ou melhor, as estruturas sociais de relações de produção permanecem imutáveis, e assim permanecerão, mercê da intrínseca e centrípeta força que tudo atrai para o seu núcleo. É o sonho da perpetuidade das formas de exploração, acalentado e defendido – este sim, a própria essência da consciência burguesa de classe.

     Seguindo uma velha trilha, Berman acentua o fato de Marx haver falhado pela inocorrência de mudanças generalizadas nos países capitalistas. E afirma que algo inusitado aconteceu na sociedade, desaparecendo a luta de classes em face “do ritmo frenético da vida moderna...o cenário mundial se desintegrou e se metamorfoseou em algo irreconhecível... a ponto de seu SCRIPT revolu-cionário precisar ser inteiramente refeito.” (pág. 90).

     Em face dessa artificiosa argumentação, im-põem-se perguntas: Se o lucro – fazer dinheiro, acumular capital, armazenar excedentes é o objetivo final do modelo capitalista, o que determinou a modificação na forma de exploração do trabalhador, a partir dos primórdios da revolução burguesa até os nossos dias?

     Haveremos de convir que a evolução política dos trabalhadores, a sua organização classista, impôs aos donos do capital um custo financeiro pesado, na forma de redução da jornada de trabalho, obrigações previden-ciárias, participação nos lucros das empresas, etc. Esses encargos impostos ao capital representam conquistas crescentes dos trabalhadores na sua luta que é de classe, e não concessões magnânimas do coração de capitalistas apiedados.

     O lucro máximo (perseguido mais do que nunca, é a “força centrípeta” de que fala Berman), nestas condições, será fruto da sonegação fiscal, da proteção do Estado na política de preços, da dominação colonial, da mais valia, contradições insolúveis do sistema, “script” difícil de ser reescrito, que o próprio sistema não tem meios para mudá-lo, porque é de sua própria essência. A contradição persiste, portanto.

                    14

     Tenho registrado nestas breves anotações, aspectos da minha vida, desde a infância em Sousa à experiência acadêmica no Recife e, de modo especial, os tempos recentes com o meu ingresso na política partidária militante. A formação da minha consciência, isto é a minha concepção da vida, ressalta a cada parágrafo. Trata-se de enfoques episódicos que relutei em escrevê-los. Anotações esparsas incluídas neste pretendido volume de confissões que chamarei “jornal”, dada a variedade, su-perficialidade e pressa no tratamento do material; porém especulativo, e fundado na verdade dos fatos, no resultado de reflexões que considero verdadeiramente relevante.

     Este foi um período cheio de dúvidas e de certezas que se sucediam, às vezes paradoxalmente, ali-mentadas por fatos do passado que influíram na minha formação moral e intelectual. O desfecho de algumas situações exigem equilíbrio e justiça no seu julgamento. Ressalto as atribulações por dificuldades financeiras no seio da família, que nos mostravam a separação entre as pessoas, entre os grupos sociais; a constatação e a cons-ciência da posse e da perda de uma condição destacada, antes desfrutada.

     As dificuldades enfrentadas motivaram maqui-nações maldosas de retaliações sem-razão. Um desajus-tamento, enfim, que algumas vezes é percebido, com-pensado e atenuado, no meu caso pessoal, pela existência de uma tradição familiar de poder e de representação. Quanto aos fatores determinantes da concepção do mundo, a formação escolar e as leituras, prepararam-me para enfrentar as situações adversas e posicionar-me movido pela razão. Assim entendia, externando um compor-tamento pretensamente racionalista, exacerbado, que não admitia contestação ou reparo.

     Do iluminismo para o marxismo transitou o meu pensamento, com reflexões empolgadas pelo hu-manismo amplamente discutido na sociedade, ajudado com leituras afins. O frescor da idade entregou-me às aventuras e sonhos românticos, expondo-me à impre-visíveis perturbações. Mas consegui afirmar-me pelo que consideravam o meu destaque cultural, através da pu-blicação de notas chinfrins na revista literária da minha cidade. Alcancei um modelo de conduta, afinal, que me redimia dos pecados menores.

     Ao chegar ao Recife, procurei conscien-temente superar o atraso escolar, motivado por circuns-tâncias variadas. Ajudado pela família, mantinha-me mo-destamente nos estudos, até a nomeação para um emprego público. A partir de então, as circunstâncias do momento formaram em definitivo, a minha memória, o meu in-telecto.

 



Escrito por Eilzo Matos às 06h02
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Prosa Ca'otica II (1990/1992) Cad VI, 7,8,9,10,11,12

 

7

Estive outra vez em João Pessoa, o que faço periodicamente. Encontros com políticos e jornalistas, amigos do passado. Nada importante a tratar. Apenas rápidas conversas, a curiosidade, a ansiedade expectante dos meus interlocutores. Percebo que lhes interesso como uma pessoa extravagante; perscrutam-me o íntimo em diálogos hábilmente conduzidos.

Almocei com o deputado Antônio Mariz e o amigo Chico Souto. Comentamos a “turbulência” da vida política do Estado, desde a entrada em cena do governador Buriti. Um homem do caráter de Antônio Mariz, com as suas responsabilidades, tradições e planos, sofre amar-gamente para manter o equilíbrio no meio dos escombros morais em que está soterrada a vida política e admi-nistrativa do Estado.

Hospedei-me no apartamento do jornalista Jório Machado, ex-preso político em Fernando de Noronha. Militante esquerdista na juventude, Jório cultiva relações de amizade com antigos companheiros. Lá encontrei Assis Lemos que admiro pelo seu ar distinto. O oposto da imagem que somos levados a fazer de um incendiário de canaviais, que fez tremer os usineiros do Nordeste nos anos sessenta.

Por enquanto Jório cuida do seu dinheiro, des-fruta de bela paisagem na beira mar, em Tambaú. Dono de um jornal, aproveita-se da obsessão de publicidade em torno de seu governo, que alimenta o ego do governador Buriti e corrói as finanças do Estado. Fatura alto. Pragmá-tico, hoje, Jório vem acumulando fortuna, crescendo na crise da qual aprendeu a tirar proveito.

8

No Cassino da Lagoa, muita bebida, como sempre com Severino Ramos e outros que vão chegando. Já havia encontrado na cidade, Waldemar Duarte e Gonzaga Rodrigues. Afastados do álcool, eles curtem a literatura em artigos para jornais, em leituras.

Abmael Morais, com os olhos amarelados, quase cirrótico, enche um copo com gelo e guaraná, consegue aquela cor de topázio do uísque. Bebe sem pressa, conta piadas e repete com tristeza a cada gole: “já esgotei a minha cota...” O medico João Ivani bebe com prazer o seu uísque de verdade. Alma de poeta – quem sabe tem os seus versos escritos e guardados – vive uma boêmia sem termo, inteligente, perspicaz,  admirado por onde passa.

Vai chegando a hora de cada um. Mareado, Biu Ramos embarca num sonho que não termina, propõe mudarmos de bar. Prefiro, como sempre, o Cassino. O ambiente não tem aquele ar solene e afetado dos res-taurantes caros, onde os ricos descarregam as suas fu-tilidades, dão curso às suas safadezas. Os garçons, estes são realmente pessoas. Antigos no serviço, despiram-se do modo mecânico e desajeitado de fazer mesuras, conhecem a maioria dos fregueses. Antônio, que serve a mesa onde estamos, nos observa discreto. Ele mostrou-me um caderno de versos, e numa tarde de pouco movimento, cantou baixo para eu ouvir, composições de sua autoria.

9

Não sei de obras novas criadas por autores velhos. Aos organismos vivos, nos limites da vida, a na-tureza nega até o poder da reprodução.

A criação na velhice aparece como um filho da juventude, esquecido, talvez renegado ou escondido. Na velhice assumimos as coisas por adoção. É duro re-conhec^e-lo mas ‘e verdade..

10

Ganha prestigio entre os leitores uma nova es-critura da história. O seu exercício implica em pesquisa especializada, acúmulo de leituras e de uma técnica aproximada do jornalismo. É sabido que as novas rea-lidades sociais têm como resultado novas maneiras de ver, de compreender e de fazer.

Esta inovadora análise e exposição dos eventos sociais consolida-se como gênero, e é chamada jornalismo de reconstrução. Foge dos cânones da ciência da história, exime-se do sentido de tese do ensaio, não se ajusta às par-ticularidades do romance histórico, diria melhor, da lite-ratura imaginativa.

Dois autores brasileiros e três norte-ame-ricanos, para mim, oferecem destacadamente exemplos dessa meta-literatura, que ultrapassa tanto a forma como o conteúdo da narrativa histórica ou romanesca. Refiro-me a Fernando Morais, Zuenir Ventura, W. L. Shirer, H. Lottman e Edmund Wilson. Presumo, entretanto, bastante difundida essa maneira de escrever, como natural de-corrência do aperfeiçoamento das técnicas de comu-nicação e de pesquisas nos dias atuais, das novas rea-lidades que dizem respeito à vida, objetivamente consi-derada no seu progresso material e espiritual. Vem o g^enero de Julio César com a reportagem De Bello Galico, para falar na nossa civilizacao ocidental.

Do ponto de vista editorial (valem as informa-ções que possuo) modernamente Shirer inaugura o gênero com o seu DIÁRIO DE BERLIM e FIM DO DIÁRIO DE BERLIM, recheados de documentos autênticos e fatos do  III Reich. Concentra-se nos acontecimentos e personagens de um período de vida de uma nação, na criação de um Estado, cujo expansionismo criminoso e fundamentos éticos de sua existência, determinaram a sua destruição pelo mundo amea-çado.

Outro é o campo de trabalho de Edmund Wilson em RUMO À ESTAÇÃO FINLANDIA. A sua narrativa eru-dita, com o sabor de romance do pensamento na sua evolução socialista, parte das formulações teóricas de Jules Michelet (o mundo social é certamente obra do homem) inspirado nas idéias de Giambatista Vico sobre uma nova ciência da história. É uma aventura humana personificada em filósofos, agitadores, utopistas e estadistas, e termina com Marx e Engels, Lênin e Trotski na implantação da Republica dos Soviets, animando as suas páginas com traços pessoais desses heróis pensadores.

Paris é cenário da grande batalha entre intelectuais, retratada por H. Lotman, envolvidos no enfrentamento capitalismo/ socialismo, na primeira metade deste século.

Os franceses têm o domínio do cenário pela sua tradição de pátria berço da cultura. Análise e exposição documental vastíssima compõem a fascinante narrativa do RIVE GAUCHE, oferecem o panorama dominado pelos  intelectuais à partir a Primeira Guerra Mundial, até o declínio de sua influência. As ações dos artistas e pensadores são superadas pelo desenvolvimento da ciência e do imperialismo à serviço da guerra. Vale agora o poder de destruição. Chega o momento em que um manifesto não alcança a repercussão de uma simples opinião, como a de Gide ao declarar para o mundo “o direito de todo Estado inspecionar o território do vizinho”, por questões de segurança internacional, de respeito aos direitos humanos.

Escritos com rigorosa técnica informativa, os livros dos ianques são atraentes e esclarecedores, induzem à reflexão sobre o desenvolvimento das instituições sociais, as suas causas políticas, as formulações teóricas de pensadores que lhes oferecem fundamentos filosóficos.

Os brasileiros, numa clara oposição aos totalitarismos, retratam dois momentos da vida brasileira sob a ditadura. Em OLGA, de Fernando Morais, a narrativa atravessa os anos do Estado Novo com os seus crimes e dissimulações. Os tentáculos do III Reich e o patrocínio da URSS às revoluções proletárias do mundo, tinham alcançado o Brasil, produzindo as suas vitimas e os seus heróis. Zuenir Ventura em 1968 O ANO QUE NÃO TERMINOU, descreve todo o processo de domínio da sociedade brasileira pelo aparato policial-militar, abalado pela reação de forças aparentemente imponderáveis e insignificantes, assumindo os intelectuais e os jovens uma posição e de liderança incontestável.

A obra de arte literária e as narrativas históricas, à partir dos códigos éticos, das lendas religiosas dos primórdios da civilização, desenvolveram-se com o co-nhecimento, adotaram formas e conteúdos históricos. Seria o jornalismo de reconstrução a expressão da ideologia coletiva, criando novas maneiras de escrever a história e o romance, sem a profundidade filosófica de Hegel e Marx, entre tantos, e temas não puramente ficcionais encontrados em Homero, Dante, Camões?                    

 

11

Numa tarde friorenta de domingo, em Madrid, por uma extravagância do comportamento, a contragosto, dirigi-me a uma praça para assistir na arena a morte dos touros e toureiros “a las cinco de la tarde”, como escreveu Garcia Lorca, vítima de Franco, fuzilado a desoras.

Na verdade os toureiros não morrem, mas os touros, sim. Morrem aos milhares pela Espanha, num espetáculo grotesco da covardia humana. Entre as fan-arras e gritos histéricos, o indefeso animal e acossado por uma turba delirante e sanguinária protegida em escon-derijos dentro da arena. O que pulsa no coração daquela gente, eu não me canso em me perguntar.

Numa dessas tardes vividas gloriosamente por Hemingway, o espetáculo é mais ou menos este: surge na arena o touro bravio, indômito, e, numa coreografia estu-dada, traiçoeiros partícipes do espetáculo, seguramente protegidos, furam–lhe a carne, fazem jorrar–lhe o sangue; atingem profundamente regiões do corpo, partes sensíveis do animal hercúleo e leal no combate, diminuindo–lhe, anulando–lhe a força guardada nos músculos. Vêm aos magotes, montados em cavalos resguardados por ar-maduras acolchoadas, invulneráveis. Lança em punho, atassalham o touro. Outros, escondidos em inexpugnáveis esconderijos, como um bando de salteadores, caem sobre o animal desamparado, vítima do sacrifício cruel. Enfiam–lhe agulhas no couro, enchem–no de fitas, bandeiras coloridas cravadas na carne. Esgotado, aniquilado pela desigualdade do combate o touro estaca exangue, já sem forças, Frustraram-se as investidas valentes. Desnorteado, derrotado pelas inumeráveis manobras suspicazes, exa-nime, o touro recebe com indiferença a entrada em cena do herói da tarde.

A multidão brada. Vibram os clarins nos acor-des do “pasodoble.” Com ar de imbecil, os passos estu-dados, os gestos dissimulados, adianta-se o matador. De soslaio observa o touro imobilizado, vencido, Cum-primenta a massa de fanáticos. Cresce nas arquibancadas o consumo de conhaque. Começa o sacrifício perverso, im-piedoso. Esgotado, o touro empaca com o olhar amor-tecido, as forças anuladas. Que substâncias teriam-lhe inoculado nas veias? O touro está prostrado, exausto na sua resistência, está domado. O toureiro mata-o .

Esta não é, certamente, uma forma de ganhar a vida conforme o jargão ibérico: “trabalhando como um mouro”, cujo tipo figura na sua ascendência genealógica, familiar.

12

Num dos seus breves ensaios, Bertrand Russel levanta a questão das possibilidades da fala como algo suscetível de valor estético. O que viria a ser o “estético? A percepção, o belo? É uma questão que os estudiosos à partir de Platão e Aristóteles, chegam a Valery, num amplo debate, conforme analisa Luiz Costa Lima no seu TEORIA DA LITERATURA E SUAS FONTES.

É inegável que o estético, em literatura, al-cança- se através da carga intencional do pensamento. Se o propósito elementar da fala é a comunicação prática, o pensamento ao ordenar as palavras o faz em obediência a códigos culturais estabelecidos. Afirmam teóricos moder-nos que o rompimento dos padrões da língua, destingue os elementos estéticos da fala.

Mas o que vem a ser “valor estético”? somente a literatura culta o realizaria? Qual a diferença entre li-teratura popular e literatura erudita? O que as destingue?

Ambas pertencem à categoria da escritura ima-ginativa. Diferencia-as a linguagem, uma criação elabo-rada pelo espírito crítico dos autores, excluindo toda consciência do real.

Inexistem temas eruditos e populares mas enredos, simplesmente, tratados pela literatura crítica, caracterizando os gêneros literários, e também pela sua forma,  pela vida concreta dos personagens.



Escrito por Eilzo Matos às 17h52
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Prosa Caótica II Cad VI (1990,1992) 1,2,3,4,5,6

 

1

 

 

Os partidos políticos no Brasil, com as exceções que confirmam a regra, são um misto de hospital de indigentes mentais com estação de férias e balcão de negócios para milionários, ou o que é pior: organizações facinorosas.

Deputado Estadual em dois mandatos, secretario de Estado e outros cargos menores que exerci, marcam a minha passagem na roda-viva da vida pública brasileira.

Circunstâncias locais filiaram-me ao partido dos que tinham participado do golpe militar de 64. Percebi, logo, que dera um passo errado. Mas o período era de escuridão, e a luz que avis-távamos era João Agripino na sua resistência e valentia de chefe político sertanejo, impondo certos princípios a serem respeitados no seu Es–tado. Acomodei-me, de certa forma.

Como deputado, fiz discursos sem importância relatando pequenos problemas, recla-mando soluções para impasses comuns na ad-ministração. Como secretário, cuidei de preparar a minha reeleição, deixando aos burocratas a exe-cução das tarefas administrativas que entendia, respeitada a dignidade do cargo.

Afastei-me da vida pública sem os grandes pecados. E durante esses vinte anos de poder e mando, nada pude fazer para mudar a realidade asfixiante, redimir os oprimidos. Por isso me afastei.

Duas realizações, apenas, nas quais me empenhei, registro como fatos compensatórios do tempo decorrido: a criação da Faculdade de Direito de Sousa e o Festival de Verão de Areia. Quanto à primeira, independentemente do meu mandato de deputado estadual, tê-la-ia concretizado, bastando-me o idealismo do mestre Afonso Pereira, e a dedicação a um trabalho mal remunerado, do professor Raul Córdula; quanto à segunda, o am-biente intelectual sufocado pelo AI-5, precisava de um respiradouro. Todos me apoiaram.

Criei a Faculdade de Direito de Sousa porque a cidade crescera em quase todos os sen-tidos. E não era possível manter a juventude pobre afastada da universidade. Escolhi o curso de direito por não necessitar de aparelhamento técnico especializado e de alto custo para o seu funcio-namento, e por ser o curso mais aberto à discussão das idéias sociais, úteis, para a vida prática.

Enfrentei o desinteresse, a descon-fiança, e até, a dura tentativa de descrédito da iniciativa. Resisti porque para o povo, e também para os que me combatiam, destinava-se o curso. Um dia eles calariam suas vozes, ou as elevariam para exaltar o fato como marco de progresso, motivo de orgulho para a cidade.

Aí está a Faculdade de Direito de Sousa, hoje Campus VI da Universidade Federal da Paraíba. Os detratores do passado ocupam cátedras, compõem os escalões burocráticos. E por que não? A escola é um serviço público. Sobre-viveu ao destino de privatização, de terminar como uma fundação familiar, como tentaram fazê-lo, e supunham que eu desejasse para mim.

2

Cheguei a João Pessoa no início dos anos setenta, eleito deputado estadual. Amigo de Virginius da Gama e Melo desde o tempo em que ele, desterrado político, exercia o jornalismo no Recife, o nosso relacionamento acrescentou à minha notoriedade de homem público, o prestígio da intimidade com as letras.

Data dessa época a minha apresentação ao poeta José João Torres, num dos bares da cidade. Relembro os seus ternos elegantes, a apa-rência felina, o gesto brando das mãos delicadas prontas para exibirem unhas afiadas, a agressão iminente. Brilhava como um nobre na alta so-ciedade, à qual pertencia.

Apresentei-lhe Vânia Guimarães, que conheci num restaurante, em circunstância que me fogem à memória. Dizendo-se de passagem, vinda do Rio Grande do Norte, ela foi ficando.

Outro exemplo, outra personalidade tirada da vida ou da arte, não me ocorre para caracterizar aquela extraordinária mulher, senão o da trágica Manon Lescaut.

“Ah! Pérfida Manon!” Quantas vezes, como o gentil cavaleiro Des Grieux, terá excla-mado o nosso infeliz poeta Torres.

Criatura impressionante no porte, no falar, envolvente e calculista, Vânia encontrou em José João o cativo dos seus encantos, o servo dos seus caprichos e extravagancias. Escreveu para jornais, freqüentou com intimidade o Palácio do Governo.

Participei das festas perdulárias que eles patrocinavam numa casa na Balaustrada das Trincheiras, onde passaram a morar e nunca pa-garam aluguel.

Endividados deixaram João Pessoa. Soube que José João morreu de cirrose hepática, no Recife, para onde se tinha mudado. De Vânia não tive nenhuma noticia mais.

Não precisei acompanhar-lhes os pas-sos para conhecer os acontecimentos de suas vidas. Leio-os nas paginas do Abade Prevost na sua imorredoura história. Amor, farsa, mistério, per-júrio, traição, fausto, pobreza.

O sinete das vidas desgarradas no grande drama da humanidade.

3

A obra de arte literária, no caso a literatura imaginativa, como produto social e fenômeno de cultura, comporta variados enfoques na abordagem e estudo crítico-interpretativo. Em muitos casos exsurge, de logo, a particularização irrelevante, o cientismo extravagante, frascário.

A acumulação de conhecimentos, a erudição, na crítica é uma faca de dois gumes, Se por um lado orienta o pensamento, leva à descoberta de aspectos singulares do desenvol-vimento do objeto do estudo, por outro, facilita ge-neralizações, elaborações teóricas que valorizam exclusivamente o estudo em si, tornando-o um apêndice desnecessário.

A expressão dialética de forma e conteúdo, esgota o estudo da arte, objetivamente considerada, não me cansarei de repeti-lo, porque  sobejamente demonstrada por Georg Lukács, Ernest Fisher, entre outros.

Existe uma função social na literatura? Existe uma função social no trabalho? A estas perguntas ajusta-se a colocação de Álvaro Lins: “A mensagem dirigida pelo artista a todos e a cada um dos seus leitores, não há de ser apenas de conteúdo ou natureza estética, ela é de natureza humana, popular e social, como representação de indivíduo, de grupos  e de povos, em estado de caracterização e nacionalização.”

Este estado de caracterização e nacio-nalização de que fala o crítico pernambucano, nos é revelado pela forma “sui generis” de conhe-cimento (Welllek, Warren) que é a própria essência da arte.

4

A lingüistica moderna, aplicada a análise da obra de arte literária, pouco ou nada tem a acrescentar, oferecer. Continua envolvida, com a nova terminologia, nas mesmas questões morfo-lógicas e sintáticas discutidas nas velhas gramá-ticas. Apenas uma fantasia, uma mascará num baile carnavalesco que não elimina a identidade verdadeira do usuário.

5

“Andróide?   Cyborg?”

Essas criaturas não existem. Se vierem a existir no futuro – criações da ciência – na sociedade humana, serão equipamentos tecno-lógicos desenvolvidos à seu serviço.

Os jovens de hoje conhecem bem estas irrisórias palavras, numa iniciação pseudocien-tífica, que objetiva tirar do homem o papel de agente da historia. Presta-se à justificação de uma ridícula teoria sobre um tipo de organização social, perturbada e até conduzida por máquinas.

“Máquinas pensantes.” Quantas vezes temos visto estas palavras impressas em pu-blicações variadas! Máquinas governando os homens, intervindo na ordem social. Existe e existirão máquinas operando sistemas criados pelo homem, no estrito limite de suas finalidades programadas. Apenas um prolongamento da mão, uma força do intelecto.

Esses “monstros cibernéticos” não traduzem ameaça, dependendo da sociedade que os possua. No caso, não serão as máquinas, mas os homens que as operam, que agem. Sob outro prisma, controlados por interesse de mercado ou de idéias expansionistas totalitárias, tomam a forma de arsenais de mísseis atômicos teleguiados, de satélites espiões. Acionados sempre pelo homem, em suma um produto social.

Não posso conceber, mesmo num futuro remoto, o homem sem as necessidades fundamentais: trabalho, liberdade, moradia, saúde, educação e cultura. Nos tempos da cibernética, quais os processos e formas da arte? O seu conteúdo será sempre a vida.

6

Vencido pelo estilo.

Não posso negar que o “jornal lite-rário” de Ascendino Leite é uma obra de arte literária, situando-se entre as melhores do gênero. Dos volumes já publicados li apenas três – SOL A SOL NORDESTINO, VISÕES DO CABO BRANCO E OS DIAS MEMORÁVEIS – incomparáveis em toda literatura brasileira.

Despreocupado com as questões so-ciais, anotando fatos relacionados com a pequena sociedade dos privilegiados, tudo para ele existe do ponto de vista de sua expectativa pessoal. É um vasto/pequeno mundo, repleto de acontecimentos, reflexões, solilóquios, diálogos com animais domésticos, com objetos e coisas nas quais ele se esconde. Dogmático, intransigente, inteligente, eu o devoro condenando-o, na terrível e dolorosa aventura do seu espírito fugindo das dores do mundo. Material farto para discussão à luz da psicanálise, que ele abomina, numa atitude de autodefesa.

Um exemplo de suas atribulações: “dias há em que me conto as horas como gotas de fel que não posso deixar de absorver; outros há em que me apago como a luz de uma vela no meio de um grosso temporal.”

Os grandes problemas políticos da vida nacional, que raramente aparecem no seu jornal, quando revelados, criam frases nuas, inexpres-sivas, não ensejam maior reflexão: “O Governo trancou o Congresso, mandou uma tropa do Exército fechar a Câmara e o Senado e expulsar de lá os parlamentares: temos outra vez a ditadura!”

Eis o segredo de sua arte: “A questão não é ter um estilo mas, tendo esquecê-lo. E usar, nos limites do seu poder, o sentimento, sem o qual toda arte é triste”.



Escrito por Eilzo Matos às 09h29
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Prosa Caótica II Cad V (1988 2000) 12,13,14,15,16,17

 

12

Luiz Augusto Crispim mostrou-me há alguns meses, páginas de um romance que está escrevendo. Li curioso, premido pelo tempo e pelas circunstâncias, as folhas datilografadas.

Vejo com admiração e simpatia o seu trabalho no jornalismo, embora fugindo, de certa forma, ao imperativo de sua formação de crítico, exposta no livro que lhe deu notoriedade, na linha lukácsiana de concepção estético-literária, no eixo marxista de Nélson Werneck Sodré, de Caio Prado Junior. Agora a ficção, a literatura como arte.  Eliott assim o fez.

Falei-lhe em novo encontro, sobre estas notas, e das tentativas frustradas para escrever um romance. Perguntei pelo seu. Estava trabalhando nele, foi a resposta. E incentivou-me, e assegurou-me que se eu dispunha de um tema, o restante ficaria por conta da dedicação à tarefa, à vida dos personagens Difícil para mim. Não iria além de um panfleto, de uma reportagem, este o meu receio.

Sobre as páginas que me mostrou, direi que, se o homem é o estilo, ou se o estilo é o homem, em ambas as ordens deste raciocínio apriorístico, encontrei-o de corpo inteiro na sua narrativa: digno e consciente no fazer artístico; como ele, elegante, declaradamente intelectual, mantendo-se com o peso de sua bagagem literária, uma figura meio enigmática.

13

Faço nestas notas, referências pouco elogiosas aos Estados Unidos da América do Norte. Faço-o ao Estado e não ao seu povo. Condições favoráveis de progresso, oriundos da colonização, do meio geográfico, ao tempo da revolução industrial burguesa, elevaram este país, ainda pela emulação e competência de seus lideres na defesa dos seus princípios filosóficos, à situação de liderança que hoje desfrutam.

As contradições do sistema perma-necem. A luta de classe desenvolve-se com ca-racterísticas locais. Um povo que cria e patrocina a musica, a literatura e a arte como o norte-americano, é um povo vivo e atuante. O estágio de desenvolvimento tecnológico e científico, não implica em igual estágio nas relações sociais

14

Gemy Cândido, não fora a ameaça contundente da sua palavra, a justeza dos seus critérios de julgamento, seria o mais festejado crítico literário da Paraíba. Mas é, se não o melhor de todos, o mais completo na apreciação abran-gente ou de particularidades da obra de arte literária.

Leitor habitual e em razão de seu trabalho, dos estudos universitários, o seu pensa–mento universal ilumina e avança. A filosofia, a ciência aplicada aos estudos sociais, e, a literatura, alcançam na sua cosmovisão, adquirem nas suas exegeses criticas, dimensões esclarecedoras.

Epicurista ou marxista ortodoxo, a mente confusa, sem paradeiro e sem pouso para as minhas idéias, a nossa convivência é um misto de admirações e confrontos.

Estimo-o na sua orgulhosa profissio-nalização intelectual, acreditando nos valores da inteligência e da razão, cedendo muitas vezes a preconceitos injustificáveis para o nível dos seus conhecimentos. É uma dedicação exclusiva, sem as vantagens pecuniárias dos que as percebem e não as praticam de fato. Uma conversa com esses mestres “retides” da nossa universidade federal oferece-nos um quadro mesquinho.

15

OS MORTOS DE SOBRECASACA, de Álvaro Lins, uma coletânea de ensaios sobre a obra de escritores desaparecidos. Aqueles não ressuscitaram engrandecidos da pena do critico. Apenas o talento de AL destacou-lhes as figuras, incorporando definitivamente, e esclarecedora–men-te sua mundividência na grande suma da literatura brasileira.

16

Em poucas palavras a recensão completa, insuperável de um autor. Um apanhado global, multivário dos aspectos que podem interessar verdadeiramente nos estudos literários: a biografia, a história, o estilo, o conteúdo, a refe-rência comparativa quer entre nacionais e entre estrangeiros.

Nada excede, atrapalha, aborrece, na crítica de Agripino Grieco. Nem o epigrama. O nosso Voltaire abaixo do Equador.   

17

A minha geração que freqüentou o ginásio nas décadas de 40 e 50, conheceu Rui Barbosa através de referências e citações, de frases de efeito. Cognominavam-no “A Águia de Haia”, por haver participado de uma conferência inter-nacional naquela cidade, como representante do Brasil, e de ter “falado em dez idiomas”. Diziam também que vindo a residir em Londres (talvez como exilado político), para sobreviver, em certa época, passara a ensinar inglês (aos ingleses), colocando um aviso na janela do seu quarto que dava para a rua. As novas e atuais gerações talvez não conheçam essas exaltações do pátriotismo, da reverência e do respeito devotados à ética e à cultura naquele tempo.

O “cume da sabedoria” alcançado pelo advogado brilhante, opinião que se formou no país inteiro, refletia a luz da inteligência que se satisfaz, lamentavelmente, na perfeição verbal, no resultado instantâneo, no impacto veloz do raciocínio. Faltando-lhe a filosofia e a ciência, valia-se o intelectual das artes retóricas, contentava-se fácil-mente em invectivar ou exaltar pessoas ou a sociedade como um todo. Ficaram a poesia de Olavo Bilac e os romances de Machado de Assis, seus contemporâneos, e o pensamento jurídico do seu coetâneo Clóvis Beviláqua, revivesce em citações notáveis, mas rebaixaram o tribuno altissonante a uma modesta e quiçá esquecida posição de criador de frases.

Num país que se libertava da tessitura de filigranas barrocas para exprimir o pensamento, Rui era um modelo racional, diríamos, razoável, no comentário político, jurídico e social do seu tempo, encarnando as aspirações de uma classe média sedenta de posições que lhes eram negadas na sociedade aristocrática. Mas isso dura pouco, como a prosa do célebre português Latino Coelho, tida como “um estilo a procura, de um assunto”, a despeito de toda sua beleza e vigor.

Rui era cívico, altissonante, possuidor de elogiadas qualidades morais. O culto exagerado da perfeição gramatical numa elite semiletrada, quase apática, moldou-lhe o tipo, a personalidade irre-preensível. Mas registrou na reflexão  e conclusões a que entregou a sua inteligência, no campo da filosofia, do direito, à redação de notáveis textos doutrinários sobre os temas constitucionais, espe-cialiando-se sobremaneira na ciência política, na formação e administração do Estado. A nação embevecida cumulou-o de honras, relegando-o, por fim, às resenhas escolares do primeiro e segundo graus, onde o sepultou, aos apelos frascários das elites na busca de frases de feito entronizadas.



Escrito por Eilzo Matos às 09h17
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Prosa Caótica II Cad V (1988 2000) 5,6,7,8,9,10,11

5

As alusões ao professor Tarcísio Buriti, na maioria desfavoráveis, faço-as por conhecer de perto a sua atuação na vida pública. Desde o seu ingresso na administração do Estado, secretários que fomos do mesmo governo. Depois, ele gove-rnador e eu deputado estadual, pertencentes ao mesmo partido político. Foi, portanto, uma con-vivência muito aproximada, do ponto de vista da participação nos eventos políticos e administra–tivos de uma época.

Até que o admiro pelo seu amor a arte e à cultura, mas uma dedicação deformada por sentimentos burgueses, duvidosos.

Os conceitos sobre ética pública no seu governo, não implicam em absolvição dos que lhe antecederam no cargo. Apenas retratam o obscu-rantismo e o oportunismo que mascaram posições erroneamente humanistas, no sentido genérico do termo. E nisto ele é mestre.

Assinaladamente distributivas e não participativas, as ações nos seus governos retratam a sua ambivalência intelectual.

 “– Seu Eilzo, como é difícil governar com a democracia.– disse-me certa ocasião, an-gustiado no seu gabinete, sentindo–se ofendido por manifestações populares de protesto em frente ao palácio. – Para  João Agripino e Ernani Sátyro, tu-do era fácil. Tinham o AI-5.”

Curioso é o seu conceito de democracia e imprensa, na teoria e na prática. No gabinete do seu Secretario de Comunicação Social mandou colocar um quadro com uma frase chinfrin, de  sua lavra, assinada embaixo: “Não existe democracia sem imprensa livre.” Vejam só.

Tornara-se praxe na Paraíba, que os secretários de comunicação dos governos, fossem jornalistas com prestígio na classe e larga ex-periência. Ele achou pouco. Transformou todos os assinantes de colunas, repórteres, entrevistadores de rádio, focas, com exceção dos operários das oficinas ligados à imprensa, em funcionários públicos.

Não existe hoje na Paraíba, um inte-grante dessa categoria, que não esteja ligado ao serviço público estadual por uma “amarração” qualquer. Era esse o quadro no fim do seu primeiro governo. Quanto aos proprietários de rádio e jor-nais, estes participam da divisão do grande bolo das verbas publicitárias de todos os governos.

 Cedo descobriram os trabalhadores na imprensa paraibana, que estavam sendo instru-mentos na difusão de um artificioso processo, destinado a perpetuar a exploração de que eles próprios são vítimas. E reivindicam privilégios no serviço público, melhorias salariais, num antago-nismo intolerável a outras categoria, frente as aspirações dos demais funcionários. Bem organi-zados, contudo, atropelam a desejada subserviência com que sonhava o governador, numa  forma esperta de acomodação,

 

6

“Nossa conjuntura literária – crítica inclusive – é dominadora, porque o é nossa estrutura literária; e esta é desanimadora, também porque o é nossa estrutura social, anacrônica, retardatária, reacionária. A literatura no Brasil tem que lutar contra a conjuntura literária, contra a estrutura social para a libertação do homem no Brasil..

Esta reflexão de Antônio Houaiss, revela uma antiga preocupação dos intelectuais brasileiros, aqueles com maior base de conhe-cimentos e erudição. A posição de luta do escritor, de que fala Houaiss, é também uma convicção de Mário de Andrade: “acho que o artista mesmo que queira, jamais deverá fazer uma Arte desin-teressada. O artista pode pensar que serve a ninguém, que só serve à arte, digamos assim. Aí está o erro, a ilusão. No fundo o artista está sendo um instrumento nas mãos dos mais poderosos. O pior é que o artista honesto, na ilusão de arte livre, não se dá conta de que está servindo de instrumento, muitas vezes, para coisas terríveis. É o caso dos escritores apolíticos, que são servos inconscientes do fascismo, do capitalismo, do quin-ta-colunismo.”

Opondo-se às posições retrógradas dos estruturalistas e lingüistas, explica Ferreira Gullar que o papel do artista, e que o uso correto da linguagem, não terminam com meras tentativas de renovação apenas  na forma.

“Urge que o poeta – escreveu Gullar – desça à realidade. Não o conseguirá, no entanto, se se mantiver preso àquela concepção de obra li-terária que, conforme se tem dito, o coloca diante da seguinte opção: a obra ou a vida. Isto é, ou o poeta permanece fiel à sua obra ou à sua condição de ser social. De fato, se admite que a realização da obra exige o não compromisso com outros homens, o alheamento dos problemas vitais, que acossam a sociedade à qual pertence, então não será possível ao poeta ser poeta e cidadão ao mesmo tempo. Tanto mais que os próprios conceitos críticos  em voga, concebem a obra literária como uma estrutura sem significado, fora de situação, cujo  valor só pode ser aferido por uma objetividade dita cientifica (...) Mas que valores levará em conta,  neste caso, o poeta? A resposta é simples: os va-lores da linguagem concebida como meio de comunicação social e não como código para iniciados. (...) De fato, nesse ou naquele modo de usar a linguagem está toda uma visão do mundo. Se me conformo em explorar as relações implícitas entre as palavras, estou afirmando que me cansei de indagar o mundo enquanto realidade concreta, ou que o mundo está já inteiramente formulado na linguagem. Se pelo contrário, a linguagem é para mim um meio, é que estou convencido de que a todo momento a realidade produz o novo – a realidade dinâmica e dialética, ultrapassa a lin-guagem e me ultrapassa. “HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA. N. W. Sodré).

As renovações formais na literatura têm dupla origem, duas fontes: em primeiro lugar as que são “projeções e estímulos de mutações significativas, mutações na vida histórica e cultural da humanidade;” em segundo lugar as que separam a arte da vida, procuram seduzir pelo hermetismo ou pelo cientismo, escondendo a realidade a ser refletida esteticamente.

Não devemos esquecer a lição de Garaudy sobre a especificidade do reflexo da realidade na literatura:

“Marx explicava que é fácil explicar os vínculos históricos existentes entre as tragédias de Sófocles e o regime social em que elas nasceram; fica, entretanto, por explicar a causa de, ainda hoje, num regime absolutamente diferente, elas nos proporcionarem um prazer estético e até nos parecem como modelos insuperáveis.”

7

Em Sousa, encontro entre os nossos, indecisão para escolha do candidato a prefeito, causada pela prolongada ausência de Antônio Mariz. Preso a compromissos de trabalho na Assembléia Nacional Constituinte, ele pouco tem aparecido.

Esse o papel do líder. Esperam-no para as decisões que deverão levar-nos à vitória, para oferecer-lhe mais uma condecoração.

A submissão a um projeto familiar de realização política, prejudicou a luta socialista de Antônio Mariz. Pai, avô, bisavô, tios, primos, foram governadores, deputados, senadores. Esse traço caseiro, a prosápia, refreou-lhe o ímpeto, desviou a linha de sua ação. Mas permanece entre os paraibanos – é preciso que se diga – pelo seu caráter, pelo exemplo dos seus, admirado pelas qualidades morais no trato da coisa pública. Não vejo, atualmente, entre os políticos paraibanos, outro que pudesse arrancar o Estado do caos administrativo, da frouxidão moral em que o en-terraram os últimos governos.

Lembro-me de Ernani Sátyro, rea-cionário, íntegro, no seu sonho monárquico de uma casa de reis. O lema do seu governo era contra-ditório no enunciado: “tradição e renovação.” Tradição pelo que fizeram os seus antepassados, pelo que ele fazia e pelo que fariam outros com o seu sobrenome. Enfim, a renovação.

8

Citei num destes cadernos, uma frase de Marshall McLuhan, porque a li em divulgadores de novidades estrangeiras na filosofia e na lite-ratura, esquecidos das nossas.

Hoje descobri em NOTAS PARA UM DIÁRIO DE CRÍTICA, de Álvaro Lins, pensa-mento parecido, no sentido que Antenor Nascentes dá ao vocábulo.

Diz o crítico pernambucano:

“Desprezadas as extravagâncias inevi-táveis em todas as revoluções, dizer que a revo-lução contemporânea da poética, nada tem de extravagante: ela interpreta, revela e exprime o mundo mesmo e os próprios homens que a re-pelem. O que nela existe de desordem aparente, transformações de valores, eclosão de conhe-cimentos irracionais e ilógicos, o que ela contém de verdadeiramente novo e de verdadeiramente revolucionário, não representa uma conquista arbitraria. Representa o reflexo da vida, ela mesma, que esteve se modificando durante muito tempo num mesmo ritmo revolucionário. Ao poeta, como é de sua missão, coube viver e sentir, antes dos outros, esta vida moderna, no que ela trazia de mais complexo e profundo para a sua revolução.”

9

Sousa deu à Paraíba uma romancista, Inês Mariz. Poucos conhecem a sua obra de escritora. Ainda em Sousa, escreveu o seu A BARRAGEM, que li nos meus “verdes anos”. Trata-se de um romance de costumes, entre nós o modelo da época, cujo tema abrange os embates eleitorais em Sousa, o aparecimento dos primeiros sinais dos tempos modernos no sertão, com a construção de um grande açude pelo governo federal.

Esses os aspectos superficiais que pude guardar de uma leitura antiga. Em critério puramente literário, seria o roman-à-cléf de que falam os franceses. Até a inversão, anagramática, de um nome de família ela usou, lembro-me bem. “SERPI = PIRES”.

Inês Mariz emigrou para o Rio de Janeiro, como outros nordestinos. Lá colaborou em revistas da época, desenvolveu atividades na vida literária, que precisam ser resgatadas. Nada li à respeito, mas tive informações que A BARRA-GEM, o romance da minha conterrânea, mereceu elogios da crítica de então.

10

Projeto de um texto sobre o tempo social. Sobre a sociedade no tempo, diria melhor, em eventos de ficção. A criação literária como dialética da arte. Percebo a dificuldade descoberta por Antônio Cândido: a necessária escolha de fatos e tipos. Em relação a estes, observamos a carac-terística da serem melhor compreendidos em sua totalidade do que um ser vivo, porque adquirem coerência e unidade quando o escritor dispões os fragmentos de uma existência dentro de uma perspectiva racional.

“A compreensão  – escreveu AC – que nos vem do romance, sendo estabelecida uma vez por todas, é muito mais precisa do que a que nos vem da existência. Daí podermos dizer que o personagem é mais lógico, embora não mais simples, do que o ser vivo.” (IDEIAS – JB).

11

// Vigoroso, ocioso, P. adentra as sombras dos chalés e dos sobrados. O tempo é o mesmo, imagina. Ruídos e nomes, entretanto, traduzem mudanças. A evolução de um tempo pretérito, do tempo presente. Na esquina as placas azuis com letras brancas e nomes esquecidos das ruas antigas. As árvores velhas de troncos limosos, enegrecidos, os galhos entrelaçados nas alturas, exalam odores vetustos. Nomes e perfumes nas aléias. Uma rua invadindo a outra em linhas perpendiculares.

//Algumas vezes, nos encontros de família, durante as refeições, ouviam sua palavra fluente, as sua idéias claras, a sua preocupação com os problemas da sociedade, esquecido da própria vida. “Tudo bem. A sua teoria é boa mas na prática não funciona.” Repeliam.

// Mais velhos, beirando os trinta anos, casados, os irmãos o estimavam e evitavam comentários sobre o seu comportamento fora dos padrões da família: profissão, casamento, fortuna.

// Concluído o curso superior P. não instalou escritório profissional. Relacionava-se bem com todas as pessoas do seu pequeno círculo de amizades, com a sua família de dois irmãos apenas. Enquanto não aparecia a oportunidade do desejado emprego, acostumara-se à complacência dos de casa que o proviam de roupas, algum dinheiro, e inequívoco desprezo e indiferença pelas suas ocupações.



Escrito por Eilzo Matos às 09h06
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Prosa Caótica Cad V (1988/1990) 1,2,3,4,

1

Há alguns dias dedico-me inteiramente aos assuntos da fazenda, com a implantação de redes de transmissão de energia elétrica. De ime-diato operou-se uma completa mudança nos meios hábitos. Quase não faço as caminhadas, passei a examinar e executar planos de desenvolvimento das atividades produtivas, aquisição de equipa-mentos elétricos e eletrónicos: motores para bombeamento de água para irrigação, para maquinas forrageiras, geladeiras, televisor.

Como o nadador espera o momento propício para lançar-se à corrente, sinto que es-preitei esta oportunidade. A televisão é o principal item perturbador de minha perdida paz. É difícil resistir à tela colorida, ao som estereofônico, ao brilho e luminosidade das imagens, à contem-poraneidade e atualidade das informações. 

2

Reflito sobre as conseqüências literá-rias e políticas da publicação destas notas. No tocante às primeiras, falarão da superficialidade no tratamento das questões especificas da literatura, na subordinação a concepções anacrônicas, na apreciação do fenômeno estético-literario. A minha concepção neste campo, contraria toda uma ten-dência da moderna crítica voltada para o texto em si, nos seus elementos mais intrínsecos, fabricada nas universidades norte-americanas. É, efetiva-mente, o que tenho feito ao longo destas anotações, dentro de uma concepção da natureza e da sociedade que a ciência e a filosofia, antes de condená-la demostram-na como irrecusável.

No que diz respeito ao aspecto político, considero uma prática salutar a sua leitura, e o melhor desenvolvimento dos assuntos aqui refle-tidos. A acomodação é um desvio permissivo, dá fôro de autonomia e autoridade a formulações puramente idealistas, retrógradas, inibidoras das forças sociais em desenvolvimento.

3

O privilégio concedido a certa cate-goria da intelectuais  – não à escória  – termina sempre com o seu sacrifício em nome dos interesses maiores da ideologia do Estado tota-litário, que os absorve e incorpora.

Nos tempos do III Reich, representante diplomático do seu país no Oriente, narra Pablo Neruda esta pequena historia em CONFESSO QUE VIVI:

“O cônsul alemão Hertz adorava as artes plásticas, os cavalos azuis de Franz Marc, as figuras alongadas de Wilhelm Lehmbruck. Era uma pessoa sensível e romântica, um judeu com séculos de herança cultural. Perguntei-lhe uma vez:

   – E esse Hitler, cujo nome aparece de vez em quanto nos jornais, esse chefe anti-semita e anti-comunista, não acha que ele possa chegar ao poder?

– Impossível – disse.

         – Como impossível se o absurdo é o que mais se vê na História?

                – É que você não conhece a Alemanha  – sentenciou. – Ali é totalmente impossível um agitador louco como esse poder governar sequer uma aldeia.

Pobre amigo, pobre cônsul Hertz! Aquele agitador louco por pouco não governou o mundo. E o ingênuo Hertz deve ter terminado numa anônima monstruosa câmara de gás com toda a sua cultura e o seu romantismo.”

4

Leitura de algumas páginas de SOL A SOL NORDESTINO, de Ascendino Leite. Tenta-tiva de descobrir as razões do seu pensamento, do que eu considero um modelo (invejável? Indesejável?) de narcisismo intelectual.

Sou nordestino com todo o peso do atraso secular desta região, tão caracteristicamente nacional. Daqui não me afastei, senão em breves períodos que nunca chegaram a cinqüenta dias. Não deformei, portanto, a minha consciência na busca do patrono, comum aos imigrantes, tangidos pela necessidade, pelo sonho.

Desculpe-me o meu ilustre parente, um julgamento assim. Trancado num individualismo exacerbado pela literatura, o Nordeste de Ascen-dino resume-se ao brilho do sol, ao acidente geográfico do Cabo Branco – caixas de resso-nância do seu ego – e superficiais frases de efeito sobre um passado vivido em dificuldades, que ainda não foram superadas. E nos deixa naquela humilhante situação de dependência de idéias alheias.

É forte o nordestino; forte é o gaúcho; o caboclo da Amazônia é temerário; intrépidos são os portugueses, os espanhóis. Que dizer dos negros africanos, trazidos como escravos para o Novo Mundo, hoje livres e senhores?

O mundo, para ele, é um produto do seu pensamento criador. Uma excrescência meta-física, já se vê. Chega a duvidar que a coragem do nordestino supere as “maldições” que estão acima da compreensão. De quê maldições fala o querido jornalista? Da seca, da chuva.

Como outros discípulos de Ernst Re-nan, Ascendino sobrevive ao anátema, e está convencido, nas suas elucubrações, que somente uma “Reforma Intelectual e Moral”, imposta por um governo forte “que force os bons rústicos a realizar nossa parte de trabalho enquanto espe-culamos ... resgataria a dívida da nossa con-denação. E lhe permitiria realizar a sua já conmsagrada obra literária.

A fuga, a cômoda submissão ao pa-trocínio literário, na criação de um mundo com-plementar que o absolva dos pecados da vida real.

A palavra de Ascendino, contudo, é brilhante, ilustrativa. Dessa ilustração que não chega ao âmago das questões suscitadas, e torna-se de leitura fácil para uns, enquanto um tormento para outros.

Não se lhe pode negar, todavia, o brilho do estilo que é o próprio e o inteiro conteúdo de sua arte de escrever. Profissionalmente nos situamos, escolhemos o nosso lado, e ele o faz. Por que não? Assim eu fiz.

Mais compreensiva, para mim, é a consciência política do poeta popular Pinto do Monteiro:

“A América do Norte é quem

Para todo canto sai

É a senhora do mundo,

Manda em filho, manda em pai,

Vai para as bandas da África,

Porém pra Cuba não vai.”

 

 

 



Escrito por Eilzo Matos às 09h01
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Prosa Caótica II, Cad IV (1982/2000) 19,20

19

Depois da leitura de HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA, impõe-se uma correção no que escrevi sobre a literatura de José Saramago, do ponto de vista da linguagem. As observações sobre sintaxe não se aplicam ao escritor português, mas valem para a obra literária genericamente con-siderada.

O problema em Saramago localiza-se na ortografia; na pontuação, para sermos preciosos, que ele assume conscientemente. Como uma des-coberta, ele nos conduz à origem do seu método narrativo: “...eu já estava na vigésima parte do livro, triste, quando senti que o livro podia ser escrito. Percebi que só seria capaz de escrevê-lo se o fizesse como se contasse. Não passando para a escrita o chamado discurso oral, porque isso é impossível, mas introduzindo na escrita um me-canismo de aparente prolixidade, aparente desor-ganização do discurso. Digo aparente porque  sei o trabalho que me deu fazer de conta que era tudo assim.  “( IDEIAS – JB 15/10/88).

A comunicação carrega um conteúdo fático que a linguagem denuncia através das pa-lavras e de outros recursos gramaticais, no caso a pontuação, que marca as pausas, a melodia e a en-tonação da frase, coordenadamente; anuncia a “on-da sentimental e passional”, a entrada e saída de cena dos personagens no diálogo.

O encarte do JB não poupa elogios ao escritor luso: “o mestre maior da língua por-tuguesa”, “atenção, obra prima”, com os quais concordo sem maior poder de julgamento. Mas ficam as anotações anteriores, que exemplifico com a entrada em cena do revisor e do escritor da História do Cerco de Lisboa, na abertura da narrativa

                                                20

CAMPINA 1952

         Éramos poetas das festas populares, coletivas, da cachaça, da rua, do bar ─ sem cerimonial. E desfilávamos nas calçadas como pessoas comuns, alguns calados olhando para o chão, os braços caídos; outros na algaravia de passaredo agitando as asinhas, chilreando, balançavam a cabeça, mo-viam os braços com exagero, o olhar alcançando longe como o dos carcarás sertanejos, caririzeiros.

Piiimmm...  nascia o verso no silêncio abissal dos neurônios cerebrais, depois explodia em palavras, no canto. Era plantado mais um marco na história do pensamento. Com Augusto e Bilac era assim.

        Seguíamos em frente. Atendíamos chamados, rumávamos para encontros de plêiade. Pouco nos importava o orgulho, a vaidade de garbosos filhos de famílias importantes pela tradição, pela posse de bens patrimoniais que nos ignoravam. Problema deles. Onde estão? Quais os seus nomes? Esqueci. Os nossos poetas vivos ou mortos estão vivos na lembrança de todos: Orlando Tejo, Eduardo Ramires, Ronaldo Cunha Lima, Deodato Borges e outros e outros.

 

LITERATURA FEMENINA

                A libido, nas mulheres, revela-se no brilho eterno dos olhar, pulula na flor da pele, ponteando incontida, como nasce o capim no campo, florescem as roseiras nos jardins. Quando elas se tornam escritoras em prosa e verso, caracteristicamente na ficção, tal sobressai no estilo. Impossível evitar. Mulher não cria nem revelas projetos epopéicos (uso a palavra na marra, sem permissão de Ariano, sem medo), não denuncia sonhos, fala de quimera (s). Não busco explicação para o fato em Freud nem em Saussure. Prefiro os poetas populares sertanejos que tudo ex-plicam e sabem, como Pinto do Monteiro que define a poesia como “o que se tira de onde não tem e bota-se onde não cabe”.

                O cangaço e o nordeste viveram primitivamente e na forma elementar de crendices, essencialmente imaginários; nasceram na comunidade, o que revelam as explicações sociológicas sobre a origem das sociedades conhecidas  ─ humana principalmente. Donde se conclui, que o mito é a construção do projeto não o fato revelado, como evento historicamente explicado.

 



Escrito por Eilzo Matos às 09h36
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Prosa Caótica II, Cad Iv (1982,2000) 13,14,15

13

Ontem não consegui aproximar–me deste caderno. Envolvido pela preocupação das pessoas com a irregularidade do inverno, recebi visitas, ouvi queixas. Tudo terminaria, como num passe de mágica algumas horas depois, com uma grande chuva.

Entre as visitas, um proprietário vizi-nho, velho de mais de setenta anos, solteirão, arris-cando profecias, comentando fatos. Coisas do relacionamento, a que a vizinhança nos obriga por aqui.

Vive ele, na sua antiga, grande e des-confortável casa, o drama da inadaptação à mo-dernização da vida. Guarda a anacrônica largueza de uma tradição familiar com a mesa cheia de comida de milho, feijão, batata, jerimum, leite, ra-padura e outros produtos da roça.

Para ele ainda existem as chamadas mercadorias do “reino”, produtos de luxo como farinha de trigo, manteiga enlatada, entre tantas que constavam de sua mesa, por ocasião das esporádicas visitas de um sobrinho medico, de um padre ou doutor, coisas do passado.

Mal vestido, mal alimentado, esse coitado vive sob os cuidados de uma sobrinha, moça já madura, e de uma criança de dez ou doze anos, que ele tem a seu serviço, em casa, e su-portam os seus achaques, na expectativa de uma disposição testamentária que os aquinhoe na herança.

Fala com ênfase e impetuosamente so-bre coronéis do passado, respeitados, os moradores da região debaixo de suas ordens. Recrimina o go-verno, os tempos frouxos, permissivos, as reivin–dicações dos trabalhadores que, na estrutura decadente da propriedade rural do Nordeste, come-çam tardiamente a falar em direitos.

“– Os pobres não nasceram para terem terra” – disse-me em atitude provocativa, o peito estufado, as pernas endurecidas pelo reumatismo, inclinando-se na minha direção.

E para liquidar o assunto, completou com um exemplo safado, referindo-se a um jo-gador de baralho e uma prostituta, conhecidos de todos:

“– O senhor é doutor e conhece o mundo melhor do que eu. Mas eu lhe pergunto se a nação teria o que comer em terra de propriedade de Manuel Preto e de Odete!”

A reclamada reforma agrária a tirar-lhe o sono, ameaçando roubar-lhe a importância de ser fazendeiro. Se lhe dessem um pedaço de terra para trabalhar com a força dos seus braços, não saberia o que fazer. E ele acredita que desempenha um grande papel na sua avareza, impondo sacrifícios maiores aos trabalhadores esgotados.

 

14

De Alfredo Bosi na sua HISTORIA DA LITERATURA BRASILEIRA, sobre o conservadorismo no Brasil:

“A inteligência brasileira, salvo as exceções que confirmam a regra, está envolvida no modelo de raciocínio barroco, da criatividade que poderíamos chamar de estéril por estiolar-se no seu próprio objeto. A ‘retórica pela retórica’ de que fala Benedetto Croce”.

15

Comemoramos o centenário da abolição da escravatura no Brasil, oficialmente, porque em outras datas, os negros já alcançavam a liberdade em quilombos, ou alforriados antes da Lei Áurea, por bondosos senhores.

Uma campanha hipócrita, encetada pelo governo enfraquecido, e por instituições cul-turais em busca de recursos financeiros para sua própria sobrevivência, ocupa horários de estações de rádios e televisão, páginas de jornais e revistas, salas de conferências. Dizem que o negro é livre, falam em integrá-lo à sociedade, condenam a dis-criminação, emitem opiniões contrastantes.

É uma verdade dura de se dizer, mas o negro no Brasil continua coisa e não pessoa, a não ser que possua fortuna, qualidades intelectuais destacadas ou de atletas. Caso contrário, não se lhe oferecerá uma cadeira para sentar-se nas reuniões de brancos ou até de mestiços, seus aparentados.

Conheci em Sousa, na década de cinqüenta, um negro velho que falava com ódio dos tempos do cativeiro. A marca ficara–lhe no espírito. Nascera, segundo dizia, livre, beneficiado pela chamada Lei do Ventre Livre. Alto, magro, a pele retinta e relu-zente, a carapinha embran-quecida, trôpego pela avançada idade, reagia com dignidade à chacota dos desocupados que lhe apontavam no pescoço, nos tornozelos e nos pulsos, marca inexistentes de grilhões. Ameaçava com uma “relação” ao Presidente, encaminhado queixa para reconhecimento do seu direito declarado em Lei.

Egresso de um engenho de Brejo de Areia vivia com parentes do Professor Se-nhorzinho, numa fazenda perto da cidade. Conhecera a escravidão de ver os seus submetidos ao tratamento desumano, e por relatos dolorosos. Perdia o controle algumas vezes: “Filho da Puta!” Reagia às provocações.

A rejeição ao negro manifesta-se em uns quanto ao biótipo, o odor característico; em outros à tão enraizada intolerância aristocrática. Assim, esses homens e mulheres oferecem em to-dos os países para onde foram levados, uma saga de luta e sofrimento para realçar a sua negritude, a sua condição humana. Entretanto, quantos brancos dedicaram-se à sua causa!

Que opinião têm os negros na Paraíba sobre a inglesa Nancy Cunard? Entre eles, um dos seus mais ilustres representantes, o meu amigo Secretário Severino Ramos? Conhecem eles a sua história?

Entrego à viva palavra de Pablo Neru-da a narrativa deste recente episódio.

“Herdeira única da CUNARD LINE, filha de Lady Cunard, Nancy escandalizou Londres lá pelos anos de 1930, fugindo com um negro, musico de um dos primeiros jazz–bands im-portados pelo Hotel Savoy. Quando Lady Cunard encontrou a cama vazia de sua filha e uma carta dela em que comunicava orgulhosamente o seu negro destino, a nobre senhora dirigiu-se ao advogado e iniciou o processo para deserdá-la. Assim, pois, o que conheci errante pelo mundo foi uma preterida da grandeza britânica. O salão de sua mãe era freqüentado por Georges Moore (de quem se sussurrava que era o verdadeiro pai de Nancy), Sir Thomas Beecham, o jovem Aldous Huxley e o que depois foi o duque de Windsor, então príncipe de Gales. Nancy revidou o golpe. Em dezembro do ano em que foi excomungada por sua mãe, toda a aristocracia inglesa recebeu como presente de Natal um folheto de capa vermelha intitulado  Negro man and White Ladyship. Não vi nada mais corrosivo, atingindo às vezes a malignidade de Swift. Seus argumentos, cito de memória porque suas palavras eram mais eloqüentes:

“Se você, branca senhora, ou melhor, os seus tivessem sido seqüestrados, golpeados e acorrentados por uma tribo mais poderosa e depois transportados para longe da Inglaterra para serem vendidos como escravos, mostrados como exem-plos irrisórios de fealdade humana, obrigados a tra-balhar debaixo de chicotadas e mal alimentados, que teria subsistido de sua raça? Os negros sofre-ram estas violências e crueldades e muito mais. Depois de séculos de sofrimento, eles, no entanto, são os melhores e os mais elegantes atletas e criaram uma nova música, mais universal que nenhuma outra. Poderiam vocês, brancos como você é, ter saído vitoriosos de tanta iniqüidade? Então: quem vale mais?”

Nancy não pôde voltar a morar na Inglaterra e abraçou a causa da raça negra per-seguida. Esteve na Etiópia e “ depois chegou aos Estados Unidos – relata Neruda – para solidarizar-se com os rapazes negros de Scottsboro acusados de infâmia que não cometeram. Os jovens negros foram condenados pela justiça racista norte-americana e Nancy foi expulsa pela policia democrática norte-americana.”



Escrito por Eilzo Matos às 09h23
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Prosa Caotic II, Cad. IV (1988/2000) 11,12

11

A evolução da filosofia. A natureza física do mundo. O divino no esquema das coisas. O dualismo, a distinção entre o espírito e a matéria, o bem e o mal, a  harmonia e a discordância.

A vida especulativa o mais alto bem.

Heráclito esclareceu, inapelavelmente, o problema da permanência e da mudança. A força da mente intuitiva em face dos fatos, da obser-vação. A verificação das ciências comprovam a sua tese.

12

Leitura de velhos recortes de jornal. Encontro declarações do então Senador Paulo Brossard: “O Adido Militar junto à Embaixada em Paris, coronel Raimundo Saraiva Martins, em documento encaminhado ao seu Ministério, atribuía ao embaixador Delfim Neto envolvimento em corretagens para captação de empréstimos”. Disse ainda o senador que o citado militar, depondo perante a Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga o processo de endivi-damento do país, fez revelações deste teor: “Eu me sentia envergonhado pelo fato de a Embaixada do Brasil ser conhecida como a ‘embaixada 10%’. Estou tranqüilo, porque se todos cumprissem o seu dever, como eu fiz, não estaríamos devendo cem bilhões de dólares”.

É notório, e já não surpreende ninguém o envolvimento de autoridades brasileiras em casos de corrupção. A Folha de São Paulo denunciou o escândalo da Ferrovia Norte-Sul. Depois foi servido o “prato” do Ministro Aníbal Teixeira, do Planejamento.

Certa vez, no México, o recem-eleito presidente prendeu dois ex-ministros, do seu partido, implicados, em corrupção. Não tardou a vir à tona, o caso de um “rancho californiano” que lhe fora doado por empreiteiros de obras publicas.

Conversando com mexicanos, eu lhes dizia que o problema do seu país, no tocante à divida externa, era mais vergonhoso do que o nosso, pois eles produziam petróleo para consumo interno e ainda  o exportavam, enquanto nos brasi-leiros o importávamos.

Temos hoje no Brasil grãos, ouro, mi-nerais metálicos e não metálicos,  pedras preciosas e semipreciosas, madeira, somos quase auto-suficientes na produção de petróleo. E não vejo perspectivas melhores para o futuro, a não ser em cálculos matemáticos precisos, fazendo as nossas exportações, suficientes apenas para o pagamento dos juros da divida contraída pelo Sr. Delfim Neto e outros agentes do capital financeiro interna-cional, sem nenhum poder competitivo no mercado externo.



Escrito por Eilzo Matos às 09h18
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Prosa Caótica II, Cad IV, (1982/2000) 8,9,10

8

Comprei o romance de Ivan Bichara, CARCARÁ. Leitura agradável. A construção moderna e atual de um romance de tema antigo. Apesar da rigorosa caracterização dos tipos, do domínio absoluto de um estilo apurado, o livro causa a impressão de uma leitura já feita.

Conhecia de Ivan Bichara os seus ensaios, discursos, a sua vida publica, o seu bom caráter de cidadão. Agora conheço a sua ficção. A sua coragem e responsabilidade artística na criação de personagens calcados na realidade de outras épocas, na condução dos seus destinos. Um ho-mem reto.

Acusam-no de integralista na juven-tude. Quantos o foram por este Brasil fora! Até Vinícius de Morais, ídolo da esquerda. Extirpado o mal, desaparecidos os aliciadores, quantos se associaram aos ideais democráticos burgueses, e  até às lutas pela democracia popular!

No período em que governou a Paraíba, testemunho o seu respeito à lei, à ética pública, desprezadas à partir de então por Tarcísio Buriti e Wilson Braga.

9

A polícia estadual efetuou a prisão de dois professores e um estudante que trabalhavam na sede do Partido Comunista, em João Pessoa. Cuidavam eles da correspondência da organização, da arregimentação para o comício por eleições diretas para Presidente da Republica, no corrente ano, o que é uma reivindicação nacional.

Ocorrera um assalto a uma agência bancária nas imediações, e ninguém na nossa democracia-ocidental-e-cristã, ninguém melhor do que um comunista para ser responsabilizado pelos delitos provocados pelo capitalismo selvagem dos nossos dias.

O que incomoda, o que confunde a Nação é ver a ordem jurídica, os compromissos das autoridades maiores deste país, “serem atropelados pelo guarda da esquina”, como denunciou o jurista Pedro Aleixo.

10

Do meu Diário Poético:

 

Ela me quer mal, eu lhe quero bem.

Deus e o Diabo, o Bem e o Mal corrompem.

Este é o meu verso,

Como a vida, não tenho outra.

 

Todas as tardes a relva reverdece

E acontece o piar triste dos pássaros.

Do mundo a permanência e a mudança

Nutrem a angústia dos meus versos.



Escrito por Eilzo Matos às 09h14
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




PROSA CAÓTICA II - O DURO RECOMEÇO, CAD IV 6, 7

6

Entre os trabalhadores intelectuais da Paraíba, destaco José Octávio de Arruda Melo, que a censura, o arbítrio e a castração de inteligências promovidos pela chamada Revolução de Março de 64, desviou dos seus rumos. Mesmo assim, esse culto homem de letras, imerso nas contradições do seu tempo e de sua classe, realiza, paralelamente ao seu penoso trabalho de escritor, uma ação integradora na promoção de estudos e debates sobre todos os aspectos da cultura.

Sobre José Octávio, que iniciou o seu delicado mister naquele período negro da historia brasileira, obrigado a “reciclar” o seu pensamento para o ingresso – diria melhor, o emprego e o destaque – na comunidade universitária de mestres, escrevi em 1971: “O professor José Octávio representa hoje, em termos paraibanos, com toda a força sociológica do gentílico, um valor, uma reserva cultural respeitável. Na crítica e no ensaio, destaca-se com outros conterrâneos, motivados pelas altas dignidades e oportunidades que lhes passou a oferecer a vigiada Universidade Federal da Paraíba. Labora o insigne ensaísta matéria muito especializada, daí a sua pouca divulgação, o que não deverá servir de desestímulo aos seus estudos.”

“Em que pese todo o vigor de que estão impregnados os seus escritos, exsurge no trata-mento cientifico que lhes empresta, o condicio-namento que manieta o crítico, o “escritor ta-refeiro”, nesta época de decadência ideológica, em que a publicidade e a auferição de glorias que lhes são próprias, só as terão se repetirem e glosarem recensões doutorais.”

“Estes os motivos e razões que levaram o ensaísta a prejudicar o seu grande trabalho de pesquisa histórica, refutando simplesmente, até jocosamente, uma corrente do pensamento uni-versal, procurando dissociá-lo do seu método de conhecimento, método esse indefinível, pelo estreito sociologismo de que está carregado.”

José Octávio ligou-se a José Honório Rodrigues por um casamento, diria, duvidoso. Por pressão do famoso AI-5. No negro período de obscurantismo era preciso conquistar os que abis-coitaram a sabedoria, a cátedra, e selecionavam os iniciados.

Mas, por que José Honorio? Poderá al-guém perguntar. Acho que entre os historiadores e/ou historiógrafos do nosso país, ele foi um precursor, menos preconceituoso, de certa forma um criador de novos métodos de recolhimento e interpretação dos fatos históricos. José Honorio tinha a coragem de sustentar opiniões assim:

“A sociedade e a economia brasileiras, por sua tradição colonial, são uma rocha granítica de resistência à mudanças, oferecida pela classe dominante a qualquer intenção reformista ou revo-lucionária da gente média e pobre. Reformam sempre as instituições jurídicas, e raramente as ba-ses econômicas e sociais. O tradicionalismo tende à sustentação de privilégios.”

Absolvo José Octávio de seu desvio em plena juventude, um pecado de muitos, quando tudo podem oferecer. Absolvo-o pelo seu trabalho, que o situa entre aqueles intelectuais que formam com os descamisados, uma força viva da história, não se chocando, na prática, com a sua luta. Pena que tal tenha acontecido, quando “o que é próprio de uma juventude viva é recusar toda servidão.”

 

7

 

Escuto no rádio que estão organizando, em Sousa, um comício por eleições para Presidente da República, ainda este ano. “Diretas Já” é o que pedem.

Ouço o que dizem, conheço alguns dos propagandistas que falam e conclamam a popu-lação assegurando mudanças na estrutura do Es-tado. Defendo a realização periódica de eleições em todos os níveis. Reconheço no fator eleitoral uma das forças de aprimoramento da democracia.

Quais as tarefas dos militantes parti-dários das esquerdas, colocadas no Brasil de hoje? É preciso refletir e não transformar em carnaval o sentido político da abertura democrática, conse-guida à custa dos mártires de 64 e de outros que se lhes seguiram.

A classe dominante, proprietária dos meios de comunicação tem desvirtuado o caráter popular e de vanguarda desses movimentos, trans-formando-os em veladas substituição de censores.

À parte publicações especializadas, o que a “grande impressa” divulga sobre religião e política é pura mistificação.

Assimilamos, muitas vezes, por espí-rito de imitação, essa técnica subliminar de pas-sarmos adiante verdades dúbias, falsificações cri-minosas dos fatos.

A “grande imprensa” andou espa-lhando no ultimo período de seca, que os Nor–destinos estavam comendo ratos. Ninguém, nin-guém mesmo, alcançado pela propaganda de massa, duvida desse fato.

A historia não é apenas mentirosa e impatriótica, mas dolorosa. Objetiva esconder os antagonismos sociais, inculcar subliminarmente na consciência coletiva a ilusão de uma tolerância, de um impossível rebaixamento da população, e semelhante degradação humana. Desafio quem tenha visto no nosso sertão, uma pessoa sequer conduzindo ratoeiras, perseguindo os bichinhos feios e pestilentos para comê-los. Vemos, isto sim, pessoas de olhos fundos, o desespero na face, pe-rambulando ameaçadoramente pelos campos e pelas cidades, com sacos vazios nas mãos, assal-tando depósitos de gêneros alimentícios. A historia é outra. Outra é a verdade.



Escrito por Eilzo Matos às 04h30
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Meu perfil
BRASIL, Nordeste, SOUSA, Homem, Portuguese, English, Arte e cultura, Política
Yahoo Messenger -

Histórico
Categorias
  Todas as Categorias
  Jornal
  Comentário do dia
  textos antigos
Outros sites
  UOL - O melhor conteúdo
  BOL - E-mail grátis
Votação
  Dê uma nota para meu blog



O que é isto?