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Comentário do dia
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Diário da Fazenda O SERTÃO DE ALENCAR E O MEU SERTÃO O Natal de Machado e o meu Natal (Diário da Fazenda) A estrada é conhecida. Da boleia da camionete, protegido, observo a paisagem que cintila na agressividade da galharia seca, do bochorno. A temperatura lá fora é opressiva, sufocante no sol do meio dia. Mês de dezembro já marchando para o final. Escuto incomodado, o ruído surdo e rascante do motor, de pancadas dos pneus nas rochas desnudas no leito da estrada esburacada, deserta, o ronco provocado pelo rompimento das emendas do cano de escape, isolando o chamado silencioso. Nenhum veículo de transporte de carga nem de pessoas. Nenhum viandante. Todos passaram a morar nas cidades. Entrego-me a conjeturas várias. Atravessamos os malsinados “berreobrós”, como designamos em soletração econômica, a última sílaba dos últimos quatro meses do ano, que terminam em “bro” -, setembro, outubro, novembro e dezembro, meses da seca, meses aziagos. Uma lamentação que se repete ao longo do tempo. Meses difíceis, apesar dos redobrados cuidados com que tratamos da precária e vasqueira agricultura e pecuária - que nos tomam o tempo inteiro. Viajo sozinho, buscando no pensamento algo que favoreça os sertanejos que ainda moram nas brenhas, neste mundão deserto de gente. Perda de tempo. A verdade é que o governo os ignora, assiste e premia os que moram nas cidades. E os convoca para o cinema e o teatro com a ajuda inclusiva mais recente: a bolsa cultura. Véspera de Natal. Deverei regressar ainda hoje para encontrar amigos na cidade, para as comemorações tradicionais. Um dever social que sou obrigado a aceitar e cumprir. Nenhum familiar ou amigo, aceita convite para uma ceia na fazenda. Com certeza não é pela falta da Missa do Galo, mas das bandas com dançarinas com e sem calcinha, pagas pela prefeitura que não cuida das estradas. Não sobra dinheiro. Muitos negócios envolvem o ex-edil agora chamado “gestor”, na febril, esperta e arreliada negociação de pedaços de terra, mansões e casebres, apartamentos na capital, boiadas, cabeças de gado. Por sinal, vale a pena uma suposição, que me ocorre, a propósito da mudança do horário da Missa do Galo. Tradicionalmente celebrada à meia noite, parece justa a opção paroquial, em face do chamamento em carros de som, para espetáculos incrementados no clube e em restaurantes e bares locais. Então, àquela hora as ruas já se teriam esvaziado. Tempo e governo, governo e tempo. Não escapamos, assim como os cantadores glosando motes e temas. Cada um com o seu estilo, a sua retórica, mas submetidos a ditames incontornáveis. * * * “O sôfrego baio mastigava o freio e espumava... A chapada, que os viajantes atravessavam neste momento, tinha o aspecto desolado e profundamente triste que tomam aquelas regiões no tempo da seca... Nessa época o sertão parece a terra combusta do profeta; dir-se-ia que por aí passou o fogo e consumiu toda a verdura, que é o sorriso dos campos e a gala das árvores, ou o seu manto, como chamavam poeticamente os indígenas... O sol ardentíssimo côa através do mormaço da terra abrasada uns raios baços que vestem de mortalha lívida e poenta os esqueletos das árvores, enfileirados uns após outros como uma lúgubre procissão de mortos... Êstes ares em outra época povoados do turbilhões de pássaros loquazes, cuja brilhante plumagem rutilava aos raios do sol, agora ermos e mudos como a terra, são apenas cortados pelo vôo pesado dos urubús que farejam a carniça... Aí se encontram, semeadas pelo campo, touceiras erriçadas de puas e espinhos em que se entrelaçam os cardos e as carnaúbas. Sempre verdes, ainda quando não cai do céu uma só gota de orvalho, estas plantas simbolizam no sertão as duas virtudes cearenses, a sobriedade e a perseverança... Assim fizera o dono do comboio que no dia 10 de dezembro de 1764 seguia pelas margens do Sitiá buscando as faldas da Serra de Santa Maria, no sertão de Quixeramobim. Uma longa fila de cargueiros tocados por peões despeja o caminho nessa marcha miúda e batida a que dão lá o nome de carrêgo baixo, e que tanto distingue os alegres comboios do norte das tropas do sul a passo tardo e monótono.Os recoveiros armados de sua clavina e faca de mato formavam boa escolta para o caso de necessidade. Além deles, acompanhava a pesada bagagem uma caterva de fâmulos de serviço doméstico e acostados.Um dos acostados que trazia a trombeta a tiracolo, levou-a à bôca e tocou uma alvorada cujos sons festivos deramaram-se pelo espaço e encheram a solidão”. (José de Alencar O SERTANEJO). * * * Imagino cenas da noite quando regressar para a cidade. Familiares e amigos no anedotário de sempre, pouco falando do Nascimento, de Jesus que veio ao mundo para nos salvar. Por sinal, uma suposição me ocorre, a propósito da mudança do horário da Missa do Galo. Acodem-me passadas leituras de Machado sobre fatos antigos, a vida das pessoas, os costumes. O fecho de ouro de um soneto seu quando indagava: “Mudaria o Natal ou mudei eu?”; e a sensualidade contida do agregado, desfrutando o “balanço do corpo”, o “pisar mansinho” de Conceição, no conto antológico Missa do Galo. Na verdade, espetacular já não é o fato histórico do nascimento de Jesus, mas as feéricas correntes de lâmpadas coloridas acesas, piscantes, enfeitando monumentais árvores de natal, em volutas barrocas, compondo desenhos criados para impressionar as mentes, transmitir mensagens e fixar a correlação comercial que o evento bíblico descreve. “Rigorosamente, acentuou um jornalista perquiridor, só mudou o horário da Missa do Galo. Que fazer, senão adaptar-se à sem-gracice?” Aqui em Coremas acontece a mesma coisa. Tempo e governo, governo e tempo. Não escapamos, assim como os cantadores glosando temas. Cada um com o seu estilo, a sua retórica, mas submetidos a ditames incontornáveis. ................Sertão com chuva à vista 24/12/2009………..
Escrito por Eilzo Matos às 12h56
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Diário da Fazenda AREIA, CIDADE RELÍQUIA A VERDADE SOBRE O FESTIVAL DE ARTES DE AREIA (Diário da Fazenda) Volto a falar de Areia e de sua gente, levado pelo peso de sua tradição na política e no mundo das artes, que mais contam na sociedade dos homens. Conquistou aquela cidade, um galardão que outras maiores entre as comunidades paraibanas sequer ousaram. Leiam “Brejo de Areia” do mais orgulhoso dos seus filhos Horácio de Almeida. Ela que atingira o ápice do destaque, erguendo-se do fundo poço da decadência, a que a relegaram décadas e mais décadas de incúria administrativa que dominou a Paraíba, ofereceu-se como modelo e porta-voz de reivindicações em nome da democracia. Tudo me ocorre na solidão da fazenda, ao deparar na memória, os momentos melhores de minha vida, que ficaram para traz. Ativo na militância, que discute as questões sociais relevantes, descobri, como respiradouro para a sociedade que sucumbia à censura ditada pelo arbítrio político, a chance de deixar Areia falar, escutar o seu discurso. E o fiz. * * * A idéia surgiu da necessidade de criar na Paraíba e oferecer ao país, um espaço para reunião e debate de temas da literatura e da arte, das ciências políticas, da cultura em geral. Vivíamos os tempos ominosos da censura imposta pelo regime militar no poder desde 1964. O país, contudo, reagia na imprensa, na ação e palavras de militantes em prol da liberdade de expressão e da democracia. Era uma exigência nacional. Queríamos fazer a nossa parte. Desfrutava o nosso Estado uma situação de invejável prestígio intelectual e político: era a terra de José Américo de Almeida, um proscrito pela ditadura do Estado Novo, vivo no seu refúgio em Tambaú, em torno do qual gravitavam escritores e militares companheiros de farda do seu filho general Reinaldo Almeida, líder inconteste e destacado no estamento dominante. Eram filhos de Areia. Em conversas com Virginius da Gama e Melo, Paulo Melo e aficionados, nos encontros costumeiros em bares e restaurantes da cidade, comentei, e propus, a exemplo do que se fazia na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, com o seu “Festival de Inverno”, a realização na Paraíba de algo nesse estilo. Aludindo aos fatos da tradição política e intelectual da cidade de Areia, argumentei: - Existe um apelo em todo o país, no sentido da realização de tais conclaves. Recorrendo ao marketing voltado para o turismo como valor relevante, criaremos similar no Nordeste, com a sugestão do seu clima quente como chamamento, de sua importância na literatura e nas artes do país. Será o “Festival de Verão de Areia”. Os seus filhos ilustres nos apoiarão. Eles nos serão úteis e poderemos usá-los honestamente. A idéia pegou, pronunciei discurso na Assembléia Legislativa do Estado no dia 14 de março de 1974, o que consta dos seus anais, com apartes dos deputados José Fernandes de Lima, Américo Maia, Edme Tavares, Jonas Leite Chaves e Orlando Almeida, que apoiaram a idéia-proposta que eu defendia. Ofereci na ocasião uma expressão-legenda que distinguia merecidamente o burgo serrano, cognominando-o: “Areia, Cidade Relíquia da Paraíba”. Tenho em meu poder cópia do apanhado taquigráfico do pronunciamento. A década setenta do século vinte lotou seminários e fóruns, que ali reuniram os pensadores que falavam em nome do país. Todos foram citados, referidos, apresentados com a força de suas idéias, no cinema, no teatro, na teoria da literatura, na filosofia, na sociologia, na ciência política. A imprensa aplaudiu e glosou a minha proposta-sugestão. José Leal e Aurélio de Albuquerque entre tantos. O festival, de que antes jamais se falara, foi criado como sugeri, e alguns tiveram lugar em Areia. Depois mudaram a denominação e o local de sua realização. Ficou somente a honrosa legenda, que exaltava os feitos gloriosos daquela comunidade. Quanto a alegações de burocratas que assinaram atos e elaboraram planilhas, é outra coisa, é diferente da decisão e da vontade política que anunciou e sustentou a idéia. Que eles se declarem colaboradores ou opositores na realização do evento, vá lá que seja, mas se arvorarem e reservarem autoria, essa não aguento. Passa da conta. Direi, finalmente, como José Américo ao criar a Universidade Federal da Paraíba: “Eu vos dei raízes, outros vos darão asas e o selo da perpetuidade”. O caso é que, inimigos gratuitos e figuras menores, movidas pela inveja, inventam e divulgam versões falaciosas sobre o fato. Intrometendo-se onde não cabem, e omitindo, propositalmente e de má fé, a autoria que me cabe na implantação desse projeto político cultural, marcante na história da Paraíba, oferecem, o que é pior, dados inverídicos sobre fatos que determinaram acontecimentos marcantes na nossa história. Permanecem mesmo assim, como histriões, na periferia, no “sereno”, da história, como preferia o nosso Zé Lins do Rego. Os documentos o comprovam. ....................................................................................
Escrito por Eilzo Matos às 19h27
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Comunicado
ALERTA SOUSA! INTRUJÃO À VISTA. Eilzo Matos Li notícia sobre visita de Ricardo Coutinho, prefeito de João Pessoa, a Sousa e Aparecida. Advirto: ele é viciado na dissimulação, na mentira e na ameaça. Não joga limpo. Os ouvidos das pessoas vão sofrer o estrondo do som que divulga Ricardo candidato, pago com dinheiro da prefeitura de João Pessoa ou roubado de outro serviço público. Assim financia suas campanhas políticas. Coisa de intrujão mesmo. Os espertos sabem que ele é homem de qualquer negócio, lícito ou criminoso, e estão se chegando. Dá pra notar. Ele quer deitar falação em qualquer lugar. Mas gosta mesmo é de restaurante caro, de chefe de partido político que se vende (confiram os apoios que ele recebe), de festas para homenageá-lo tudo comprado e pago com o dinheiro público. Gosta de funcionários humildes e desamparados, submissos ao arbítrio de sua crueldade nazista. E ele quer ser diferente. Impossível. Os outros corromperam e ele corrompe, os outros se aproveitaram do cargo e ele se aproveita. Não tenho medo de errar: abra-se qualquer processo por desvio (roubo) de dinheiro público, condenação por crimes na gestão de cargos públicos e lá cabe a cara de Ricardo. Diferença não existe: ele é igual a muitos e pior do que todos. No leilão da honra, Ri-cardo parte na frente, arreganha os dentes que saem da boca torta e grunhe: – Pago mais! Cubro qualquer parada! E está organizando uma coligação para apoiá-lo que eu chamo Coligação Cano de Esgoto, financiada com dinheiro da público. Lá corre, como disse Lula, toda a “merda” da política. Tudo pago com o dinheiro desviado da prefeitura é preciso deixar claro. * * * Alerto o meu amigo Laercinho e seus companheiros de Aparecida sobre o equívoco, o erro que cometem homenageando Ricardo Coutinho, colocando a austera Acauã Cultural à serviço de interesses de um estelionatário. Caberia a ele, a magoada e sofrida exclamação do poeta Augusto dos Anjos, comparando-o à “pele de rinoceronte”, à “asa de corvo... asa de mau agouro...” que ameaçam os cidadãos paraibanos. E chamo também a atenção sobre a advertência que já fazia o tribuno romano Cícero (42 AC): “Uma nação pode, sobreviver aos idiotas e até aos gananciosos, mas não pode so-breviver à traição gerada dentro de si mesma. (É o caso de Ricardo). Ele arruína as raízes da sociedade; ele trabalha em segredo e oculto na noite para demolir as fundações da nação; ele infecta o corpo político a tal ponto que este sucumbe”. * * * O meu compromisso é com a democracia e acho que é possível encontrá-la. Concordo com Norberto Bobbio que “A democracia não goza no mundo de ótima saúde, mas não está à beira do túmulo.” Não se trata de “...otimismo ingênuo. Apesar de seus defeitos, a democracia permite a esperança, pois pode ser melhorada”. Afastando, é claro, da cena, os intrujões do tipo de Ricardo Coutinho. Invisto contra todos que pela esquerda e pela direita, de forma antidemocrática, en-ganaram o povo, traíram compromissos assumidos de forma solerte e criminosa, como o fizeram Franco, Salazar e outros conhecidos genocidas, que servem de modelo inspirador a tipos como Ricardo Coutinho. Em defesa de Sousa e da Paraíba recorro à memória de Antonio Mariz quando resistia aos abusos dos poderosos, e levantava a sua voz, em discurso pronunciado como postulante, na convenção partidária que escolheria candidato a governador do Estado da Paraíba, no plenário da Assembléia Legislativa: “Todos entoam hinos à liberdade. Todos clamam por justiça social. Todos condenam a violência e o arbítrio. Mas quantos se dispõem a levantar a voz? Todos condenam os governos aristocráticos e fechados, os governos de gabinetes trancados (como o de Ricardo), mantendo o povo do lado fora. Mas quantos se dispõem a resistir?” Os registros públicos trazem a lista dos corruptos, dos processados e condenados pela polícia e pela justiça. Ali estão os nomes dos que apóiam Ricardo. Os que se dizem herdeiros do ilustre sousense desaparecido AntonioMariz, de que lado estão? Herdam somente as vantagens? Deixam de lado a honra e a ética pública? Se aproveitam espertamente?
Escrito por Eilzo Matos às 11h43
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Diário da Fazenda
O blog Prosa Caótica (eilmomatos.zip.net), que eu mantenho na internet (web), tem o simples e único propósito de divulgar e deixar arquivados, para livre acesso, algo do que escrevi nos últimos cinqüenta anos: o meu trabalho intelectual. Um caso de hipergrafia? Sim e não. Retorno e argumento: talvez um hábito familiar decorrente do con-tato com o objeto livro, da prática da leitura e da reflexão, ou uma “sín-drome psiquiátrica culturalmente específica”, que atribui à composição literária e suas circunstâncias, um valor a ser conhecido, preservado. Vale a pena ler a obra citada, que traz como epígrafe: “Muitos sofrem do incurável mal da escrita, e ele se torna crônico em suas mentes enfermas”. JUVENAL, Sátiras 7.51. A autora relaciona e refere nomes famosos como Flaubert, Proust, Dostoievski, Balzac entre outros autores que têm a compulsão pela escrita em comum com alguns epiléticos do lobo temporal. E deixa para o leitor a indagação: “A hipergrafia talvez reflita uma distorção maníaca do desejo, em particular ocidental, de ser publicado”. Entre notáveis e pouco conhecidos entre nós, acredito, o nosso Solha mais uma vítima da violência do nazista Ricardo Coutinho, é indiscutivelmente um hipergráfico. Numa atividade, misto de jornalismo e criatividade artística, teoria da cultura, ele nos brinda com uma valiosa obra. Não cabe no caso, o paralelo com o logorreico “normal”, nem ao equivocado distúrbio esquizofrênico atribuído a Ezra Pound. * * * Definindo um perfil voltado para política, arte e cultura, o meu blog Prosa Caótica oferece as matérias em categorias subtituladas esclare-cedoramente de “jornal”, “comentário do dia” e “textos antigos”. Nele incluirei, a partir de agora, inovando, contos, poesias, trechos de romances e ensaios. Que os julguem os aficionados. Pretendi e talvez volte a tentar a criação de uma página pessoal, um site com a riqueza de detalhes e da interatividade que permitem os pro-gramas usados pelo computador. Vale, por enquanto, o blog e a corres-pondência semanal que envio através de e-mails para amigos cujo endereço consegui. O meu ser, a minha vida. Afastado das boas conversas na cidade, das notícias e informações boca a boca, ao pé do ouvido, na alegre e vezes conspícuas perorações, entrego-me a motivações que o campo me oferece. Trabalho pessoal, ma-nual de mover objetos, caminhadas para sítios afastados de casa para verificação e avaliação do andamento dos trabalhos em curso. Coisa de pouca monta, mas é o que me cabe fazer. E de maneira especial, influe nos meus raciocínios a constatação do movimento da natureza. A posição dos astros no céu: a lua, o sol, marte, constelações indi-cando o rumo do tempo e do clima, conhecidos desde a mais remota antiguidade. Aceito-as como verdades pela repetição de experiências conhecidas. E manifestações vivas, biológicas através de insetos, animais, peixes, árvores que cobrem a terra. * * * Do meu livro de poesia “A Face do Tempo”, ilustrado por Régis Cavalcanti e prefaciado por Luiz Augusto Crispim (A UNIÃO, João Pessoa 1985) LEMBRANÇAS “A pátria é a infância” - Luiz Jardim De manhã, cedinho, O grande açude, e a cerca Espelhando o território e limitando o sonho. O arame - as cordas de alaúde, Eriçadas e cruéis – Ferindo, vibram consumindo As tranças do menino. Ah! O tempo. Contemplo agora a paisagem E a imagem derelicta, Escapando inconsumida. Por toda vida. ................Sertão aguardando como sempre chuvada de dezembro e inverno de janeiro. 12 de dezembro de 2009 ....................
Escrito por Eilzo Matos às 19h01
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Diário da Fazenda ENFIM O PARAISO DE LULA (Diário da Fazenda)
Remexia na estante, livros e papéis para organizar assuntos e pro-jetos ali deixados em anotações antigas ou recentes. Um hábito de cada manhã, com o ouvido sempre atento naquela hora, ao noticiário de estações de rádio de Sousa e de Piancó, região onde nasci e moro. Sobressaltei-me. Falava uma voz de mulher, francamente irritada e revoltada com o desamparo a que estavam entregues as famílias ali residentes: - Veja, seu radialista, estão roubando e assaltando no pingo do meio dia aqui nas “Cavalhadas!” Cada dia a situação piora. Nunca se viu nada igual! A linguagem era simples e direta. Assustei-me porque o acontecimento de perto me dizia respeito. Tratava-se da fazenda dos meus falecidos avós, onde nasceu o meu pai, em Piancó, e o meu irmão Edvar, quando em breve reencontro com parentes, ausentara-se de Sousa a minha mãe. Mas pensava mesmo na visita que eu realizara na véspera a pessoas amigas. Tudo se relacionava: a violência e a inocuidade e até má fé das ações governamentais para detê-la. O nome da fazenda marcava o romantismo colonial das festas populares de justa ou torneio ali realizadas, hoje esquecidas, mas lembradas em Taperoá por Balduino Lelis e Manelito Vilar em rememorações e desfiles de cavaleiros brasonados, tradicionais, sob a supervisão de Ariano Suassuna. Na verdade, a manhã anterior transcorrera alegre e animada entre amigos e conhecidos, em conversa na grande sala da frente do casarão dos Mamede do “Pau Ferrado”. Plantado está o solar em pequena elevação a cerca de cem metros do Rio Piancó, hoje perenizado pela gigantesca barragem de Coremas, que oferece recursos extras para a lavoura e o gado. Construída nos anos quarenta do século passado, induz lembranças. O tempo que comen-távamos, entretanto, era anterior - os vinte -, quando o seu leito seco, logo terminado o inverno, guardava nos bancos de areia somente cacimbas e bebedouros para o povo e para os bichos. Outro mundo. Ali aportara Chico Pereira, da fazenda Jacu, localizada no povoado de Nazarezinho que pertencia ao município de Sousa. Rapagão louro, de família de posses, habituado ao trabalho, tangia tropa de animais de carga. Dedicava-se no momento à compra de cal virgem, para revenda ao governo federal que a usava nas obras de construção da barragem de São Gonçalo e de prédios, que compunham o complexo residencial e mais instalações para funcionamento da máquina técnico-burocrática que geria as obras. A hospitalidade sertaneja recebeu-o e ele, ao se despedir, partiu re-fém de uma paixão que lhe despertara a menina Jarda, filha da casa cujo patriarca fora vitimado em emboscada por inimigos. Jurou protegê-la. A família era numerosa e o romance tornou-se crucial pela força do destino, que unia pessoas de famílias marcadas pela morte traiçoeira, trágica e desleal, diferente da morte decorrente de doenças, da idade avançada, da hombridade no enfrentamento que guardam na sua rusticidade os sertanejos de escol. Ele teria o pai, o irmão e amigos covardemente assassinados. Os assassinos impunes arengando nas feiras, a Justiça de olhos vendados, esquecida dos seus deveres. Teve organizar bando para se defender, de cair no mato, dormindo fora de casa. Foi bárbara e covardemente assassinado aos vinte e oito anos de idade. * * * Os jovens casaram-se “por procuração”, proibido que fora Chico Pereira de freqüentar lugares públicos. Irmão de Jarda, Nel Mamede aos noventa e oito anos, com boa memória, boa visão e escutando bem, voz forte ainda, desfiava memórias dolorosas e escolhidas, acentuando os noventa e nove anos que completará no dia onze de janeiro próximo. Apontava, indicava e mostrava detalhes da construção diria colossal para aqueles sertões. Paredes grossas como de igrejas, salas, quartos e camarinhas em piso de tijolos e cimento queimado, com fotos na parede, a escada de madeira com grade e corrimão que dava acesso ao sótão, portas e janelas remendadas deixando à mostra os buracos das balas. E a bica, o beiral avançando sobre a ampla e alta calçada que alteava a construção, emprestando-lhe domínio e dignidade. Mostrou a linha da cumeeira, caibros e ripas trocados. O madeiramento antigo fora destruído pela fuzilaria para derrubar o telhado, num cerco policial. Reagindo e se evadindo, o valente Chico mostrara-se em pleno terreiro, com um rifle na mão e um revólver na noutra, caindo na mata sem um ferimento. Jarda e outros irmãos atirando, defendendo-se, ficaram à mercê da meganha. Internara-se na catinga para evitar inimigos que usavam o governo e a justiça para arrotar coragem e prestígio. Por fim, traído pelos que se propunham ajudá-lo, enganado na sua boa-fé, foi assassinado traiçoeira-mente, vítima de um vergonhoso conluio entre dois governadores, exe-cutado pela polícia do Rio Grande do Norte. Prestei à sua memória, a homenagem de um momento de silêncio, ao visitar a cela onde o sousense esteve preso na cadeia pública da cidade de Acari, hoje museu local. * * * Tudo vem a propósito de noticiário persistente sobre trabalhos do Congresso Nacional para por fim à violência no país. Pela TV Câmara e Senado, acompanho a discussão do assunto, e fico realmente assustado e ameaçado mais do que já vivo, com os números apresentados. Vi na televisão há poucos dias, helicóptero da polícia do Rio de Janeiro cair em chamas, derrubado por bandidos, mas não sabia que morrem a cada ano no Brasil mais de 40 mil pessoas assassinadas. Mais do que nas guerras do Oriente Médio e do Afeganistão! Como pode? É este o paraíso milionário do Pré-Sal? Do país rico que empresta dinheiro ao FMI? Sabem as mães que o destino de seis em cada dez jovens, é se entregarem ao consumo ou ao tráfico de drogas, morrerem nos cárceres imundos e superlotados, nos acidentes, nos tiroteios com a polícia. Enquanto isso a Amazônia e o Pantanal ardem em chamas, a saúde e a educação envergonham qualquer país que diz civilizado. Estradas, economia? Em ruínas, vítimas do mercado financeiro (agiotagem) ) a que o governo corrompido submete o país. Devemos mais de um trilhão e oitocentos bilhões de reais, que nos arranca mais de cento e oitenta bilhões de reais de juros cada ano. Obras públicas afundam em buracos gigan-tescos, blocos inteiros de construções em concreto, mal calculadas e administradas desequilibram, caem. Edifícios destinados ao serviço público essencial restam abandonados. Um deputado federal alagoano que trata de assistência a jovens e adolescentes, declarou em entrevista à televisão, que vinte anos atrás o percentual de envolvimento com drogas chegava a oito por cento (8%) dos assistidos, e hoje, assustadoramente ultrapassa oitenta e seis por cento (86%). Afinal, a quê e a quem devemos tamanho descalabro moral? Respondo. À prática da corrupção no país que vem de longe, e assumiu no Governo Lula níveis jamais imaginados, inexistentes em outros Estados. Ao MENSALÃO DO PT instalado no núcleo duro do Palácio do Planalto e ao MENSALÃO DO DEM, no governo do Distrito Federal. O PSDB teve o seu em Minas Gerais. Com certeza, ajuda o cinismo do nosso presidente, que disse que nada sabia sobre o primeiro, e que as cenas mostradas na televisão sobre o segundo, não eram suficientes para convencê-lo. E à imprensa cooptada, que de forma subliminar esconde a verdade. ........................Sertão. Chuva fina e variada. Dezembro 2009.........
Escrito por Eilzo Matos às 15h42
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Diário da Fazenda
SOLHA NO “TRIGAL C0M CORVOS” EM TRAJE CIVIL NORDESTINO-PARAIBANO, SEGURANDO UM RELHO AMEÇADOR (Diário da Fazenda)
Solha, para mim, na sua atividade estético-artística, sempre reinventa a história e recria a ficção – dá corda à imaginação. Extrapola o que consideramos os limites racionais das escolas literárias. Duvidam? Leiam “Shake-up”. Não se trata de romance histórico muito menos a clef. Cansava, ele percebeu, repetir aleatória e pachorrentamente a mesmice do que não se renova debaixo do sol, que todos já sabem como é, e o reconhece e confirma a sabedoria do Eclesiastes, com a força bíblica de revelação da palavra de Deus. Elevar-se acima da divindade criando coisas novas? Muitos o pretenderam e ele também, e outros mais o farão. No cosmo, do meu conhecimento, por enquanto, só ele e alguns parceiros humanos o fazem. Fustigam. Malta surrealista? Anarquista? Quando ele despontou vivamente intelectualizado na Paraíba − simplesmente bancário em Pombal −, não dei tento, apesar da sua aventurosa realização de um “longa metragem” jamais imaginado entre nós. Nos bastava a consagração de Linduarte Noronha com o seu “curta” Aruanda. Entregava-me naqueles anos setenta do século vinte, a arquitetar e reinventar esquemas e golpes de ativismo político-partidário, dissimulando, preferencialmente, pela surpresa do resultado. Conferia esperteza, hoje chamada marqueteiramente de jogo de cintura, no círculo do poder. Algo monárquico, talvez, como deseja Salvador Dali: autoridade vertical no ápice da pirâmide, permitindo bagunça e avacalhação na base. Li algo a respeito. * * Por aqui, cada qual com o seu cada qual, ensinam no trabalho na roça, no curral, na broca, na feira, vivendo a vida que podem viver sem armar arapucas para a apocalíptica existência terrena dos homens. No caso uns tratam da infâmia outros da angústia, mas da vida sempre. Expressão skinneriana da contingência do reforço no comportamento humano. A gestalt? Quá, quá, quá. Oligofrenia, esquizofrenia? Assim o mestre Solha − mestre Solha, repito −, um ente paraibano, que nada ele guarda do São Paulo da Semana de Vinte e Dois, das fábricas, dos complexos mercantis de coisas materiais, do registro-lançamento de dados que constituem interpretativamente, realidades concretas na sociedade organizada onde nasceu. Diferente da nordestina. Ele gosta mesmo de guardar conhecimentos numa erudição sem limite, como os fazendeiros guardam gado nas roças de pasto, os trabalhadores os grãos que lhes tocam na partilha, orações fortes que fecham o corpo. Numa perspectiva, “já sem perspectiva alguma” como as gigantescas colunas de Luxor e Carnac, “aguardam sem reação nenhuma pelo seu fim final”, ele Solha o afirma. Aí está o engano dos mestres, dos presumidos. O patrimônio reunido o comprova: os bens, os conhecimentos acumulados, mostrados, como sinais de realizações e conquistas. * * Passaram anos, deixei a política de lado e regressei para o sertão onde nasci, passei a morar numa fazenda. Ali ninguém sabia de Antonio Conselheiro. Sabem todos, aliás, sabiam, isto sim, do Padre Cícero, de Manoel Luiz dos Santos com os seus folhetos vendidos nas feiras, que traziam as previsões de inverno, secas, safras, preços, lucros e prejuízos na lavoura e no gado − a nossa bolsa de mercadorias. Fazia-se roda na feira para escutar, discutir, este assunto capital. Por que não? Ninguém ignora que o dinheiro é a mola do mundo, como descobriram e acreditam piamente os que vivem do trabalho e dos negócios. Hoje comentam a “bolsa família” e a “calcinha preta”, e aguardam cheios de certeza, a anunciada “bolsa celular”. Inegavelmente uma vitória dos “excluídos”. * * Tendo ao meu lado na página de Elpídio Navarro, o notável Solha, ainda não me dava tento. Desconfiava de incongruências (dificuldades para o saber ordinário) na sua prosa. Preguiça e preconceito. Até que, fulgurante, rebrilhante, veloz como um meteoro, a capa de um livro em cores vivas denotativas, cegou-me momentaneamente. Conhecia o negro, o amarelo e o vermelho retratando em traços fortes o drama psíquico da paranóia goguiana, a que Solha acrescentou o seu descontentamento na biotípica figura humana de um carrasco. Não do tipo que executa, extermina, mas, azorraga, fustiga, tortura. Ele não trata da morte, mas da vida. Nada de patíbulo, fuzis, guilhotina. Um homem velho ainda forte de músculos, segura um chicote pelo cabo. Um auto-retrato descobri depois nos “créditos” da edição, porque não poderia identificá-lo. Não o conheço de vista. Um dia nos encontraremos para um papo. Quem sabe? Artista plástico, teatrólogo, cineasta, romancista, poeta, ator, folósofo, protagonista da vida, enfim. E notável pela sua obra, porque rebuscar a arte muitos tentam. Por enquanto guardo ao pé da rede dois títulos seus. Passarei a digeri-los, que de fato me agradaram, de início. .........................Dentro de quatro dias viajarei de volta para o sertão. 12/11/2009.......
Escrito por Eilzo Matos às 19h47
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Principios do direito O MINISTRO E ESCRITOR JOSÉ AMÉRICO E OS PRINCÍPIOS GERAIS DO DIREITO (Diário da fazenda) “O pior cego é o que não quer ver”. (JA) Refiro esta concisa e precisa observação-advertência do paraibano José Américo de Almeida, areiense de nascimento, jurista e pensador, político e escritor, como suporte e fundamento para este breve comentário. É que a conduta hipócrita da Justiça brasileira, no tocante aos feitos relacionados com as questões eleitorais a que é levada a apreciar, clama aos céus. A tal regra não foge a justiça paraibana. Parece que não julgam o direito de que trata a demanda, julgam de fato as pessoas envolvidas. Erro capital, imperdoável, que marcará a história do direito, da justiça, sempre que praticado. Anota a imprensa a evidente contradição que marca os julgados neste campo. Não me aprofundo no comentário, pois me reconheço um bacharel de poucas letras-jurídicas, socorrendo-me apenas os princípios gerais do direito que tratam de tudo na vida social organizada. O detalhamento da lei fica para os praticantes, os profissionais, E poucos os guardaram na me-mória, mormente certos magistrados atentos ao relacionamento pessoal nos grupos que freqüentam na sociedade. Recordo o meu tempo de estudante de direito no Recife, acossado pela sede do saber, pela glória de Justiça, inspirado em Del Vecchio, Radbruch, Kelsen, Nelson Hungria, Clovis, Duguit entre tantos nacionais e estrangeiros. Embarafustava no aprendizado do alemão, do italiano, do francês, melhorava o meu latim, que a sabedoria ali, consistia em ler os autores no original. Muito difícil, pouco consegui. O paraibano Gláucio Veiga citava em todos os idiomas ocidentais, e por tradução até autores orientais. Um erudito. O mestre constitucionalista Pinto Ferreira, admirava a comunidade universitária no país inteiro. Para ele o conhecimento e a teoria do direito não tinham fronteiras lingüísticas, ele tanto escrevia como, na gagueira do seu falar, de sua pronúncia, perorava, poliglótico. Separados todos, contudo, pelo inevitável en-quadramento político-filosófico: esquerda, direita, idealistas, materialistas. Soriano Neto, Everardo Luna, Arnóbio Graça, Lourival Vilanova, o terrível Almeida de “Introdução” ditavam sua doutrina, suas teses. O meu tempo foi o da chegada, da presença de jovens bolsistas retornando do estrangeiro, arrotando todo o conhecimento criado pelos estudiosos famosos, toda sabedoria do mundo, usando a cátedra como uma tribuna – não do júri, de um argumento oral numa audiência, mas um palanque político, meetingueiro. Ocorrem-me os nomes de Germano Coelho, Vamireh Chacon, Nelson Saldanha, Pessoa de Morais, entre outros. Meramente praticantes da sociologia em voga, inspirada em Max Weber, Schumpeter, Durkheim e outros também citados, eles esqueciam Gilberto Freire, Astrojildo Pereira, Caio Prado Junior, deixavam de lado conceitos filosóficos fundamentais para defesa de teses do conhecimento que explicavam a história do nosso país. Mas venceram assim mesmo. Conquistaram cátedras, mandatos executivos, legislativos. Restava ainda viva na lembrança da faculdade, quando lá cheguei, o episódio cruel do fuzilamento do estudante Demócrito de Sousa na histórica campanha pela redemocratização do país, que renovavam os nossos compromissos com as lutas em defesa das teses do momento – as “Reformas de Base”. Campanha cuja bibliografia vastíssima revela nomes de paraibanos como Ivan Bichara, Odilon Ribeiro Coutinho, e tantos citados pelo recifencisado José Rafael de Menezes no seu “A Geração de 45” (Editora A UNIÃO. Um livro insubstituível que se junta aos de Clóvis Beviláqua, Nilo Pereira e Glaucio Veiga sobre as idéias em voga na sociedade brasileira a partir da criação do curso jurídico em Olinda em 1827. Aliás, essa questão partidária no campo do conhecimento, empolgou sempre a sociedade organizada, buscando definir, consolidar, mudar rumos. Todos os povos registram na história esses momentos. O Brasil e a Paraíba, por que não? Rememorava o meu bedel-de-turma, Armandinho, intelectualizado, na sua verve inquieta - baixinho, empalitozado, engravatado, passo miúdo mas estirado avançando o pé direito, como num desfile, em salão de dança, fatos notáveis da vida acadêmica, escolar – comparecera à defesa de tese do paraibano Assis Chateuabriand, para catedrático de Direito Romano na tradicional escola do direito – assim ele testemunhava. E acrescentava o destaque e brilho de acadêmicos notáveis pela aplicação nos estudos, o saber elogiado; os boêmios ilustrados pela literatura, pelo acesso à fechada sociedade pernambucana nos seus bailes e saraus, aplaudidos. Citava João Bernardo de Albuquerque, Virginius da Gama e Melo, Celso Novais. Uma crônica especial de traços heróicos e consagradores da co-ragem e da inteligência, que ornam muitos dos que viveram aqueles momentos. Individualizados, nominados, a história nos guarda a todos. No arquivo onde estão depositados os feitos da magistratura estão as suas sentenças, honrando-os ou desonrando-os. Uma certeza. As partes envolvidas conhecem da celeridade e da lentidão na tramitação dos feitos em exame. E a imprensa, por sua vez, comenta, insinuando parcialidade. Aos meus colegas bacharéis, hoje magistrados, promotores públicos, muitas vezes assoberbados pelo número elevado de ajuizamento de ações para pareceres e decisões, e ainda pelo tumulto da vida moderna, sobrando pouco tempo para consulta a fontes doutrinárias raras e eruditas, chamo a atenção para os citados princípios gerais do direito, que valem para todas as questões, repito sem medo de errar. Não precisa mais. Razão tinha José Américo: o pior cego é o que não quer ver. ...................João Pessoa, recuperando-me de cirurgia de cataratas, louco para voltar para o sertão. Novembro 2009................
Escrito por Eilzo Matos às 11h35
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SOS
SERTÃO PEDE SOCORRO – 30/10/2009 Secretário Leonardo Gadelha: Cumprimento-o como conterrâneo. Escutei-o e o vi em entrevista prestada â televisão da capital, onde me encontro em tratamento de saúde. Nada de mais grave: cirurgia de cataratas, apenas. Coisa de velho. Renovei esperanças – que nunca me faltaram – na retomada de ações administrativas do governo estadual, atendendo pleitos antigos da po-pulação da minha região, que dizem respeito à atuação de sua pasta. Afinal somos também contribuintes. Desde o governo Wilson Braga sofremos a indiferença dos que o sucederam. Falo de ampliação e melhoria na rede de estradas que inter-ligam cidades, que permitem o acesso de população rural aos centros urbanos, que, com exclusividade concentram os serviços públicos. Inacreditável para mim, que vigore tal politica de isolamento social, quando a badalada “inclusão social” levou Lula ao governo e lhe dá ine-gável popularidade, como muitos entendem. E o governo Maranhão III que você integra, é aliado e base de sustentação de Lula. Vejamos alguns pontos de estrangulamento (falo da região onde moro) que sufocam o desenvolvimento esperado. 1 – Estrada Coremas/Piancõ, mesma área político-administrativa e geogrãfica, onde famílias entrelaçadas não se visitam nem na alegria nem na tristeza, não comercializam a sua produção pois a estrada estadual de barro existente, imprestável não recebe sequer uma patrol para sua conservação. 2 – Estrada São Bentinho/Coremas que dá acesso à BR 230, alfaltada por Wilson Braga resta imprestável para veículos, com cerca de 80% intransitável, isola os dois municípios. 3 – Estrada Coremas/ São José da Lagoa Tapada com nove qui-lometros asfaltados por Tarcisio Buriti, tem 90% intransitável e a parte de barro não recebe sequer uma patrol para terraplanagem. 4 – Estrada do Canal da Redenção (serve aos moradores da área, leva a Sousa, Aparecida e Coremas) vedada ao transito porque está totalmente destruída, e o canal com a estrutura semi-destruida. Outro assunto: açudes arrombados nos invernos 2008 e 2009. Sabemos que nos dois últimos anos caiu e correu muita água no sertão. Alguns açudes arrombaram. Escutei os governantes nas horas críticas, anunciarem amparo e socorro aos atingidos. Deixamos registros dos prejuízos nos escritórios da EMATER, seguindo recomendações. Tudo terminou em “colchonetes e cestas básicas”, para uns e outros não. E agora? Bem. É renovar expectativas, como aconselha a sabedoria popular, que 2010 é ano de eleição e os anúncios já começam e se repetem sobre assistência e melhoria no serviço publico. Podemos confiar? Nem tanto. Acontece que os prefeitos hoje chamados gestores, uns viraram fazendeiros ou turistas praieiros. Apelar pra quem? O zeloso deputado Jeová tratou do assunto dos açudes em reunião com a superintendencia do Banco do Nordeste, em Sousa, da qual participei. Grandes projetos, grandes idéias foram discu-tidas, anunciadas. Faz um tempão.De lá pra cá nada. Que fazer? Um novo inverno se aproxima. Cordiais Saudações Eilzo Matos
Escrito por Eilzo Matos às 15h55
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Saint-Saens e Luiz Gonzaga
Saint-Saens e Luiz Gonzaga (Diário da Fazenda) Amanhecia o dia. Ainda estava no claro-escuro. Escutei da minha rede, num doce despertar, o costumeiro ruído de pe-quenos movimentos na tirada de leite, no curral. Ao fundo as vozes alertas de pássaros e animais, que soavam gloriosamente “primaveris”, no engalanado sertão de rochas, de arbustos, de árvores, de serrotes, de grotas fundas. Diria mais acertadamen-te, próprias do inverno que, no semi-árido produz inaudita alegria nas pessoas, nos bichos, na cobertura vegetal verdíssima da nossa gleba, ora agitada pela brisa, ou adormecida, plena pela consubstanciação da matéria viva e morta. Nasceu na minha cabeça súbita música de fundo para ani-mar a vida tão embelezada, na sua completa realização, em atos do trabalho, do existir: explodiu o Rondo Capriccioso do Prelúdio de Camile Saint-Saens, excertos da Carmen, executados ao vio-lino pela yanque-amarela Sarah Chang, conduzida por Wolfgang Swavalische na Philadelphia Orchestra, e também pela Berlin Philharmonic, regência de Plácido Domingo! Não existe uma re-lação nem regra cromossômica, na origem e nos personagens, determinando os fatos da vida social. Mas a simbiose permite formas variadas de sua exteriorização. Exibicionismo cultural desarrazoado? Jamais. Simplesmente Integração dos sentimentos humanos, pro-piciada pela tecnologia que nos introduz num mundo novo sem deixar de lado o atual, o antigo. O ambiente dos hackers na web e dos bandidos escondidos por trás de árvores e pedras, na tocaia fatal, os veículos automotores velozes na perseguição completando a inevitável tragédia que cerca todos e cada um, no relacionamento manifesto de todas as coisas, de todos os fatos da vida. Saint-Saens e Bizet na “Lagoa de Baixo”! Por que não? E as Arias Zingaras de Sarasate também – o gosto do momento, da ocasião. Meu sertão é ibérico, é belo, alegre, feliz e trágico. Acrescentando-lhe páginas do Gonzagão na “Volta da Asa Bran-ca”, das bandas-de-música roncando os instrumentos de sopro, estourando os bombos, e o estrídulo rasgado do bater dos pratos – eis a consumação da glória da sociedade nas festas de Araripina e de todo o Nordeste, homenageando os coronéis. Então não ficará faltando nada. Silêncio! Não me contestem que o povo gosta mesmo de homenagear os grandes em todas as sociedades. Esse negócio de liderança é o momento crucial, maior na vida da comunidade de homens, insetos, bichos, bactérias, de todas as famílias. Recordo de férias na casa de minha avó dona Chiquinha Leite, em Piancó. Dos preparativos no engalanamento de salas e quartos da casa antiga, do provimento da despensa, da agitação na cozinha para atender o seu filho e os que chegavam para vê-lo, meu tio Salviano, importante entre os mais importantes do Estado, que visitava a terra natal no período da festa da padroeira. À noite, a banda regida pelo Maestro Ventura, perfilada na sua porta, executava dobrados em sua homenagem. E os amigos eram recebidos na sala, na calçada, o povão aglomerava-se, e saiam todos em procissão sob o espocar de rojões, para a no-vena rezada para o santo padroeiro, na antiga e bela igreja, que guardava a história da cidade. Desde o patamar de entrada à sacristia, passando pela nave central e pelos espaços livres, pelo altar-mor e nichos laterais onde se realizava a “via sacra”. Então a emoção dominava todos. Todos se sentiam pene-trados de profunda fé religiosa e confiança nas famílias do lugar. Ah que o governo, a igreja, a coletividade e a pátria, existem! O universo revela-se inteiramente, até no ruído perceptível do trabalho coletivo das formigas nos seus caminhos, carregando mantimentos para não sofrerem as dores da cigarra cantadeira, tísica, atacada pela fome nos tempos difíceis. Tchaikovsky acom-panha Maria, meditabunda, levando o café quentinho para o marido se aquecer no frio do amanhecer, pitar o primeiro cigarro de fumo brabo do dia. Ele se sente feliz no serviço - o bronco que ela ama. São freqüentes e intensos os gemidos de gozo e prazer que os envolve, como prova a meninada em torno bebendo o leite do peito da vaca, tirado na horinha, ainda quente. Eita sertão da juriti chorosa, do anum vigilante, das ca-sacas-de-couro festeiras, do tetéu arreliado! As cobras fedem, as abelhas atacam. As flores exalam o seu perfume. Todos se com-pletam, se irmanam. ...........................Sertão outubro de 2009
Escrito por Eilzo Matos às 16h29
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Lula Gestor
LULA GESTOR - O FACTOIDE SOCIALISTA (Diário da Fazenda) Dava para perceber que comadre Alice e Maria de Neguinho, o vaqueiro, guardavam preocupações. Brigas com o marido? Sabia que não. O espírito e os gestos desusados indicavam, todavia, a sua inquietação. Transitavam de casa para o açude, para a capoeira na busca de água e de lenha, o olhar mais baixo do que de costume – na verdade o sertanejo olha mais por onde pisa, para evitar ataques peçonhentos, mas perscruta também o céu, para ver à distancia. Elas também olhavam para cima. Do espaço, os pássaros na busca da presa, indicam o que acontece fora da nossa vista. Deus, quem sabe! Sei da inquietação e do malogro do povo. Vivo no meio de ricos e de pobres, de patrões e de empregados. Deixo o tempo correr, passar, sem o antigo apetite de lucros, sem disputar posições na sociedade civil. Estou vivendo melhor assim. Sinto-me um privilegiado na idade que estou. Pouco tenho do que reclamar – a não ser a dificuldade de trafegar na imprestável estrada municipal que liga minha propriedade à cidade, e os assaltos a mão armada. Pois bem: na prefeitura, para começar, está o problema. Acontece que, amparados os prefeitos (agora chamados gestores) por legislação protecionista editada pelo corrupto FHC e o não menos Lula, os escândalos se sucedem nesta área. Estou lembrado da divulgação na imprensa falada, escrita e televisionada, paga pelo serviçal da Avenida Paulista - certamente rendendo gordas comissões para a sua galera -, anunciando que prefeito não roubaria mais, conforme o texto que o governo publicava chamado Lei de Responsabilidade Fiscal. Aplauso geral. Eu, e acho que muitos de boa-fé acreditaram. Foi enganada a nação. É que o capitalista não brinca na defesa do seu interesse maior: o lucro. Passou gato por lebre. Tanto que a tal lei a rigor, prende somente os gestores que frustrarem o pagamento dos empréstimos, juros e adian-tamentos devidos e tomados à insaciável loba financeira que abocanha o planeta, alimentada no Brasil pelo Banco Central e pela Receita Federal. Os escândalos proliferam impunes. E Lula está lá em cima nas pesquisas de opinião, e falam que Serra é o candidato que vai ganhar a eleição do próximo ano. Ora, tudo está muito claro: o povo conhece o potencial (pelo menos) de sua força no cenário do debate democrático, facilitado pelos capitalistas. Por isso derrotou o metalúrgico em três eleições seguidas, elegendo-o somente quando ele assinou a carta de rendição aos princípios neoliberais da globalização. E sabe que Serra é da galera de FHC. Quem o negará? Hoje o povo recebe a propina que jamais pediu. Aceita-a contrafeito. Sem cobrança de contrapartida, digamos o voto. Porque nós da elite dirigente deste país, sempre que chegávamos às casas pobres “de quatro em quatro anos” indagávamos somente quantos eleitores existiam ali e oferecíamos ou atendíamos um pedido de ajuda: comprávamos o voto. Lula fez diferente e deu certo. Aprendeu com os mestres universitários opor-tunistas e os sindicalistas (em férias perpétuas, dispensados do trabalho) que os factóides os fizeram mestres e dirigentes. Fala a psicologia coletiva que o povo busca facilidades. Assim aconteceu com Lech Walesa e Lula. No final o povo é levado para as grandes concentrações, como os bichos para a bebida e adeus, adeus. Cháu, cháu, como rola hoje nas plenárias das ongs. De maneira que, entre os 396 escândalos vergonhosos, anotados no governo Lula, evidencia-se outro (eu anunciei): relatório mostra que apenas 8,9 % de moradias, do milhão anunciado pelo Presidente, foi encaminhado para análise. Conclusão: o povo não acreditou não aderiu ao projeto, pois sabemos que o déficit de moradias passa de dez milhões. Complemento a denúncia com as seguintes constatações: - de cada internamento hospitalar que a saúde publica enumera, abafa centenas de milhares que sobraram nas filas; - de cada ambulância que atravessa ruas e estradas transportando doentes, silenciam sobre dezenas de milhares que morrem sem acesso ao serviço. Educação? Milhões de crianças que cur-sam a oitava série não assinam sequer o próprio nome. Faculdade é ponto de venda de pipoca: dá pra conferir. Segurança pública? Amazônia? Nem falar. Aí está correndo dinheiro grosso pra galera habilitada. Em boa hora o senador Tasso Jereissati denunciou da tribuna do senado que o governo Lula é uma mentira total, pois os anúncios não correspondem à realidade da economia, do Estado e do povo. E aludiu ao famoso BRIC para termos de comparação. Acredito que a tristeza e desalento de minha comadre Alice e de Maria, a mulher do vaqueiro, têm origem na encruzilhada em que Lula as deixou. É bom garantir escola e refeição para os filhos, economizar com a feira e por cima receber dinheiro. Elas sabem e agradecem. Mas, aqui acolá falta o transporte até a escola para os estudantes. E a freqüência às aulas garante a bolsa, elas também sabem. São levadas, portanto, a acreditar que, somente dando o voto a Lula garantem o recebimento do benefício. Mas o chamado sexto sentido das mães, leva-as a desconfiar de algo que se evidencia no ar. A realidade entra pelos olhos, e elas chegam à desesperadora con-clusão: a sociedade brasileira vive um clima de guerra civil. Suspeitam que a ameaça maior para os seus filhos, entrevista no futuro, é restar para seis de cada dez jovens, desde agora e na vida adulta a adesão ao tráfico e consumo de drogas, o recolhimento a um presídio fétido, desses que são construídos às dezenas, enriquecendo os empreiteiros, que não atendem a demanda por vagas, dado o crescente índice nacional de criminalidade. No Nordeste pelos menos. Elas e todas as mães pensam nos seus filhos, pensam assim. Folgado Presidente! votei primeiro em Brizola, depois em vossa excelência em todas as eleições. Atente, Ainda há tempo para mudar. ....................Sertão. outubro 2009
Escrito por Eilzo Matos às 08h19
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Nazismo. Alerta Para'iba! RICARDO, A POLÍTICA E A MÍDIA. ALERTA PARAÍBA! EILZO MATOS ─ Todos os prefeitos, os corruptos principalmente, divulgaram na imprensa paga a realização de grandes projetos. Muita enganação. Dá pra conferir nos jornais e revistas, no rádio e na televisão. Ricardo Coutinho é um deles. Ele paga com o dinheiro da prefeitura, portanto rouba do povo, para falarem bem dele, dizerem que ele é diferente. Não é diferente coisa nenhuma. É igual a uns e pior do que todos. ─ Ricardo é temperamental, psicótico, sofre de um mal conhecido como desvio da personalidade, um trauma que guarda por ter sido pobre quando jovem. Agora quer entrar na nobreza das famílias ricas da Várzea do Paraíba que assassinaram camponeses, incendiaram moradas humildes. Trata mal e agride cruelmente os que o cercam e com ele par-ticipam do processo político administrativo. Diz que é para realizar sua obra. Nero, o tirano romano fazia assim. Assassinou a própria mãe. ─ Ricardo segue na marcha corrupta de organizar apoios para sua candidatura ao governo. Como sempre, roubando dinheiro público para beneficiar aliados. A maioria, todos, são corruptos, indiciados em in-quéritos policiais, processados pela justiça pública. Vejam os nomes, paraibanos! Por aí se vê... É preciso defender a democracia, a honra dos paraibanos. ─ Disse antes, repito e repiso que, a provável coligação que ele financia com o dinheiro da prefeitura para sua campanha eleitoral, outra vez, nada mais é do que um “cano de esgoto que recolhe todos os detritos morais da política paraibana”. É preciso defender a paz, a honra dos paraibanos. ─ Continuo na minha luta em defesa da ética e da democracia traídas por Ricardo. Adolf Hitler também se dizia amante do seu povo e do seu país. Mas torturava, exterminava grupos humanos e sociais. Levou o mundo à guerra mais cruel da história. Confiram, ele é o retrato de Ricardo. ─ O povo dita palavra de ordem - proibir a candidatura de corruptos. Só os que têm o nome limpo devem disputar o voto do cidadão. Ricardo tem o nome sujo, não pode. Pessoalmente ele é de uma maldade doentia. Faço estas alusões e ele não tem coragem de me contestar. Topo o debate o confronto de teses e opiniões. ─ A sua carantonha, a sua boca torta, os seus dentes de vampiro, a sua raiva doentia, surda e bravateira não me intimidam. Não me protejo com capangas alugados. A democracia me vacinou contra essa doença insidiosa que marca o caráter de Ricardo. VIVA A PARAÍBA ÉTICA E DEMOCRÁTICA! FORA OS NAZISTAS!
Escrito por Eilzo Matos às 08h05
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AREIA
AREIA “NINGUÉM SE PERDE NA VOLTA” (Diário da Fazenda) Areia, digo melhor, Brejo de Areia, é entre poucos, tema re-corrente nas minhas lembranças, reflexões e cultivada nostalgia. De todo um entourage fraterno, elegante e generoso num período de minha vida. Guardo na memória essa convivência a que retorno, puxado pela solidão gostosa da fazenda. Explica-se pelas pessoas especiais que o compunham. Corro o risco de nomear, com as omissões possíveis: José Henrique, José Rufino, Horácio, Thales e Amaury Almeida, padre Rui Vieira, Sylvia Perazzo, Élson Cunha Lima, Orlando Almeida, José Américo e Lourdinha Luna, sua secretária, Violeta Brito Lira, Amaury Vasconcelos... A lista seria interminável. A verdade é que a idade avançou e moro sozinho, e tal convívio me faz falta. Abandonei a capital onde vivi por algum tempo, essa quadra agitada, alegre e rancorosa da atividade político-partidária, guindado ao exercício da alta administração estadual, notícia na capa e nas manchetes da imprensa. Que fazer? A família distribuiu-se pela capital, Sousa, Coremas e resta-me entregar-me a rememorações, recluso na moradia rural, que, com camionete nova off-road, na porta, assegura a saída e a chegada a qualquer hora, funciona como fuga e lenitivo. E tem a criação, a reduzida lavoura que proporcionam pequenos lucros, levam a um relacionamento com uma faixa da população que me agrada na característica animação e esperteza de sua presença. “Mato, nem ver..” Replicam e magoam amigos e familiares a um apaixonado e desamparado convite para desfrutar o campo, para um fim de semana, um dia livre de feriado – não dia santo, que é reservado para a Igreja Católica. Meu mundo, meu viver não empolgam mais ninguém, chego a acreditar. * Começou tudo com cenas de molecagens de rua, que eu presenciei, ainda adolescente, de que era vítima um negro de carapinha e barbicha rala embranquecidas, serviçal da família do Professor Senhorzinho. Ele protes-tava com violência à chacota dos rapazes, que apontavam marcas de grilhões (inexistentes) que lhe marcavam o pescoço, os punhos, os tornozelos, e denunciavam a sua condição de ex-escravo. “– Nasci livre num engenho de Brejo de Areia, terra de gente nobre e rica, o que aqui não tem. Vi prato e talher de ouro. Vou fazer uma “relação” pra punir vocês no tribunal... Filhos da puta!” Magro, alto como de pernas de pau, meio alquebrado, marcado pela negritude, alteava-se o pobre homem, no exercício precário da cida-dania, do direito individual. Em alguns momentos indagava-me sobre esse Brejo de Areia de riqueza e nobreza de senhores notáveis, segundo suas palavras, inexistentes no sertão. Até que um dia o descobri personificado, num vulto ilustre que morou certo período na nossa cidade. Um promotor público, natural de Brejo de Areia – José Américo de Almeida – que vivenciou e transferiu para a sua literatura imaginativa o realismo da pobreza e discriminação que tornavam tão diferentes pessoas tão iguais, no sertão e no brejo paraibano, na sociedade, enfim. A denúncia pesou contra os governos pela sobrevivência de costumes tão atrasados, e como literatura, constituí-se num marco que deli-mitava períodos do romance brasileiro, dado o caráter geral da tese que con-denava tal procedimento social. Depois, Brejo de Areia transformou-se para mim num monumento eminentemente civilizador, pela pujança do seu processo de desenvolvimento político, econômico e social. A dedicação de uma considerável parcela da população do burgo às causas nativistas e libertárias, a elevação do descortino e prática das belas artes como marca dos seus costumes impressionavam, e lhe conferiram o pioneirismo na inau-guração do primeiro teatro dramático da Paraíba – o Teatro Minerva –, antes mesmo que a capital do Estado criasse o Santa Rosa. Completavam tais circunstâncias históricas, a caracterização da elevação ética do padrões de conduta do povo. * Certa feita, passava de meia noite quando escutei vozes na calçada, uma algaravia inusitada para a hora, mas só podia tratar-se de amigos. Naquele tempo, quem ousaria incomodar um deputado, secretário de estado de modo tão barulhento? Deixei a cama, a mulher recomendou-me cuidado, cientificar-me de quem se tratava antes de abrir a porta. Atendi-os: três amigos do peito: o escritor Virgínius da Gama e Melo, o comendador José Henrique e o coronel senhor de engenho José Rufino, condestável do Reino de Brejo de Areia. Evidentes sinais de embriagues animavam os seus gestos numa afável fraternidade. Pois bem, vinham da casa do Ministro José Américo, e dele ou-viram elogios e apoio à minha idéia de criação de um festival de artes em Areia, algo como o de Ouro Preto, notável naqueles dias. Depois de goles de uísque e vinhos, queijo e bolachas salgadas, falaram de literatura, ensaiaram um torneio de conhecimento de língua portuguesa na citação nominal de bichos peçonhentos: lacraus, caranguejeiras, na sua variedade... coisa de Zé Rufino. Areia tinha tutano, isto é, um passado e um presente ainda refe-renciais na caracterização de pessoas, de história, de ambientes. Tema pré-ferido a partir de Celso Mariz que dizia topar nas suas ruas e becos sombras ilustres e gloriosas, e filtrava-se pelas venezianas, notas tiradas do piano e do violino, no verdeazulamento da paisagem européia, na linguagem do Menestrel Virgínius, motivo e inspiração para as coisas boas e grandiosas da vida, comprovados em Pedro Américo, José Américo, Abdon Milanez. Assino embaixo! ................................................................................................................... Sertão. Começa a seca com a queda das folhas da catinga. Setembro/2009
Escrito por Eilzo Matos às 10h01
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Bruno Tolentino “VOLTEI PARA ENSINAR. QUERO O MEU PAÍS DE VOLTA” (Diário da Fazenda) Causou-me um choque inaudito e mesmo inesperado, o surgimento do poeta Bruno Tolentino (1940/2007, desconhecido para mim), na mídia literária. Escrevia sonetos em alexandrinos perfeitos, poemas em tercetos como na Divina Comédia, metrificava e rimava harmoniosamente, versos brancos tudo na forma do meu agrado: “descritivos e narrativos, versos regulares” na classificação de Wilson Martins, para quem, em razão de suas atitudes polêmicas ele “é visto menos como poeta do que como personalidade da vida literária”. Para mim, embarcávamos numa insólita aventura, porque, desde a Semana de Arte Moderna em 22, e antes até, Mario de Andrade e luminares da época tinham abandonado a métrica e a rima. Mas, amparavam o poeta-polemista “consagradoras apreciações de respeitados escritores” como Arnaldo Jabor, João Cabral de Melo Neto, Antonio Houaiss” e es-trangeiros como Yves Bonnefoy, Jean Starobinski, Saint-John Perse, Ungaretti, W. H. Auden e Samuel Beckett em trinta anos de intenso convívio. * Li ávidamente, pouco da sua poesia acessível na web, no meu PC, conheci alguns dos seus crí-ticos e exegetas – ele tornara-se famoso pela erudição, a biografia singular, o temperamento voltado para afirmações peremptórias, sempre a pretexto de interpretação filosófica da sociedade, e da literatura como fenômeno cultural testemunha da civilização, em momentos definidos de sua trajetória histórica. Ele mesmo esclarece no ensaio “Castro Alves Contemporâneo” comentando a poesia como presença concreta no universo social: “Elevar um discurso para fora do alcance do poder letal do tempo significa, justamente, tem-poralizar ao mais alto grau as coisas e as linguagens da mente... Estou dizendo que o poeta máximo é aquele cujo dizer, fundado nas coisas deste mundo, num presente vivido, tende de modo natural àquelas alturas do pensamento a que convergem o universal, os mistérios da sensibilidade de um poeta e as sutilezas de seu idioma. A partir de então este pode “mudar” o quanto seja – e nosso léxico preferencial e até nossa sintaxe mudaram muito desde a composição de “Vozes d’África” – mas não lhe será mais possível furtar nada ao impacto emotivo-verbal que a um dado ponto na história nele encarnou-se perfeitamente”. Tenho as minhas idéias e meu critério de avaliação e julgamento, sobre fatos da vida, mormente em se tratando da arte e de suas manifestações na pintura, na escultura, nas letras, não nas teses relativas à ciência, que não as desprezo, mas as das letras ditas imaginativas e sua teoria e interpretação – a poesia e a prosa: romance, poema, teatro. * Por solicitação, recebi pelo correio nacional, oferta do meu parente Nivaldo Tolentino, nascido em Piancó, hoje residindo em Florianópolis “A Imitação do Amanhecer” e “A Balada do Cárcere” do citado carioca Bruno Tolentino, objeto desta estimulante reflexão. Antes de tratar de sua poesia, no ensejo falo sobre algumas idéias, declarações e traços de sua biografia, em entrevista concedida a Geraldo Mayrinki, página de Jornal de Poesia 22/5/1998, oportunamente também publicada na revista Veja de 20 de março de 1996 (http:www.revista.agulha.nom.br/btolentino01e.html) e outros textos e fontes a que voltarei: - o avô foi conselheiro do Império; - sobrinho de Lúcia Miguel Pereira e Otávio Tarquínio de Sousa, primo de Bárbara Heliodora e Antonio Cândido; - ainda era analfabeto em português quando duas preceptoras mlle. Bouriau e mrs. Morrinson o ensinaram a conversar em francês e inglês dentro de casa; - em 1964 emigrou para a Europa, onde freqüentou rodas boemias e literárias e cumpriu pena de 22 meses de prisão numa penitenciária em Londres, por porte de drogas, retornando ao Brasil em 1993; - professor de literatura em Bristol e em Oxford na Grã-Bretanha; - orgulha-se de ter filhos com mulheres descendentes do filósofo Bertrand Russelll e do poeta Rainer Maria Rilke. O mais novo Rafael de 8 anos, nascido em Oxford, onde ensinou literatura durante 11 anos, é filho da francesa Martine, neta do poeta René Char; - publicou livros de poesia em francês e inglês; - “Caetano Veloso está virando tese de professores universitários, cada macaco no seu galho e o galho de Caetano é o show biz. Por mais poético que seja é entretenimento. E entretenimento não é cultura”; - “se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas a música popular não se confunde com a erudita. Então como é que música vai se confundir com poesia?” - “é preciso perguntar dia e noite: por que Chico, Caetano e Benjor no lugar de Bandeira, Adélia Prado e Ferreira Gullar?” - “foi Wilson Martins quem levantou essa idéia, ao dizer que as obras de Chico Buarque e Jô Soares eram imitações da literatura”; - “na República das Letras ainda estamos à espera das diretas já. A usurpação do poder legal por vinte anos deixou-nos seus legados nas patotas literárias que desde então controlam a entrada em circulação, ou a exclusão pelo silêncio, de livros, autores, obras inteiras”; - “que intelectuais (Caetano e Gal) são esses? Se os irmãos Campos (Augusto e Haroldo) não sabem inglês, imagine eles”; - “o departamento de filosofia da USP nunca produziu filosofia nenhuma, por inépcia ou preguiça, mas por um estranho espírito de renúncia parecido ao espírito de porco; - a cultura filosófica brasileira é quase nula”; - “votei no Fernando Henrique Cardoso por que era uma oportunidade única, desde Ruy Barbosa, de ter um intelectual no poder. E o que ele fez na sua primeira entrevista coletiva? Citou Machado de Assis ou Euclides da Cunha? Não. Citou o mano Caetano. Uma coisa tão espantosa quanto Ruy Bar-bosa se tivesse ganho a eleição citasse Chiquinha Gonzaga... Quero saber quem seqüestrou a inteligência brasileira. Quero meu país de volta”. Este o homem, o intelectual, o poeta, à cuja vida e obra pretendo ainda tecer comentários, entre uma ida e volta ao curral e ao chiqueiro, ao sítio, ao plantio de capim. ..................................................................................................................... Alegria geral! Chuvas “regulares” em agosto. Perdura o verde. 2009
Escrito por Eilzo Matos às 11h07
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Watergate Tabajara
WATERGATE TABAJARA.CHEGOU A HORA. ALERTA PARAÍBA! (ADOLF HITLER, RICHARD NIXON, RICARDO COUTINHO – COMPANHEIROS NA TRILHA DO MAL) EILZO MATOS “Pele de rinoceronte... agoureira asa negra de corvo...” estendidas sobre a Paraíba, como cantou o poeta do “Eu”. Eis Ricardo Coutinho. Todos, ou muitos, estão lembrados de dois vultos abomináveis da his-tória ocidental, diria até universal: Adolf Hitler e Richard Nixon – o primeiro, nazista, ditador da Alemanha, que levou o mundo à mais sangrenta guerra da história, tido como o maior e mais cruel inimigo da democracia e dos direitos humanos; o segundo, inimigo da ética política, expulso do go-verno, extremista na forma agressiva do modo capitalista e imperialista de governar. São os modelos que inspiram e retratam a carantonha, a conduta do prefeito Ricardo Coutinho. Não cabem meias-palavras para defender a cidadania, a honra pública. Para dar sustentação à minha tese começo com a advertência-denúncia do notável intelectual brasileiro Oswald de Andrade: “As novas gerações ignoram o que foi o aparecimento sinistro de Hitler no poder. Ao assumir o governo da Alemanha ante a inércia do velho marechal Hindenburg, o criador do nazismo deu como sinal de partida de suas atividades políticas o incêndio do Reischstag”. Ele teve e tem irmãos e seguidores revelados, descobertos, na apuração de processos famosos e vergonhosos. Cito: 1 – Watergate que levou à renúncia o presidente Nixon dos EUA, pelo arrombamento praticado pelos seus sequazes, de escritórios de partidos políticos em Washington. 2 – Watergate Tabajara – teve lugar em João Pessoa com outro arrombamento, desta vez da sede do PSB na nossa capital, praticado no estilo da máfia chinesa ou russa, com violação dos arquivos partidários, que espera a punição dos culpados, que todos conhecem de sobra – Ricardo Coutinho e seus arrogantes sequazes. Acredito que a Justiça também. Hitler afirmava que faria da Alemanha um império de mil anos, Nixon exaltava o orgulho americano de governar o mundo. Deu no que deu. E Ricardo? Gritam e sussurram afáveis e delicados rapazes, e combativas mulheres despenteadas e de vestidos frouxos na cena dos bares esfumaça-dos, que ele é o maior. Ricardo goza de prazer, ri com a boca torta mostrando os dentes de vampiro, agradecendo os elogios, estendendo o braço. Em respeito ao Direito e à Justiça chegou a hora de expulsar Ricardo da Prefeitura, da cena política. Ele trilha o mesmo caminho de outros carrascos. Fala-se, atualmente, muito em Sarney, em desmandos no Senado. Ora, não passam de “fichinhas”, comparados com os escândalos repetidos, divulgados pela midia, que envolvem a prefeitura do Sabugosa do Mal – Ricardo Coutinho. Que o digam os auxiliares gratuitamente declarados suspeitos, os titulares de direitos desrespeitados, ignorados pela burocracia municipal. Mas eles se declaram fortes e o provam, avançando criminosamente no dinheiro da prefeitura. Até quando? Amigo dos ricos. Inimigo dos pobres. Carrasco da ética. Conhecemos Manaira e os grotões pestilentos da periferia da capital. Fácil mostrar. ........................................................................................................
Escrito por Eilzo Matos às 15h11
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Aniversário DIA DO ADVOGADO (Diário da Fazenda) Na tarde animada com o chilreado dos galos de campina e rolinhas catando grãos no terreiro, e o desafio belicoso das casacas de couro nas aroeiras e nos pereiros do pátio, enfeitadas de gigantescos ninhos de garranchos, trapos, recolhidos nos mon-turos, desafiando predadores, poucas lembranças da minha vida de advogado, na comemoração do seu dia. Apenas, a assunção de defesas no tribunal do júri, algumas petições iniciais e contestações, agravos, apelações em ações cíveis, petitório eleitoral, nada mais. Uma exceptio litis per transactionem finitae, em razão de cochilo meu no decorrer da ação. O comum na vida forense. É verdade que insinuações maledicentes levaram às alturas alguns feitos, pelas partes envolvidas, os assuntos tratados. Trazidas as vacas da roça, chiqueirados os bezerros, recolhida a criação miúda nos abrigos cobertos, findava o dia. Agora um café quente, mexer no envelope de fotografias, onde me localizo numa mesa de banquete no “11 de Agosto”, no Recife, ao lado de colegas acadêmicos, todos engravatados, destacando-se o bacharel Marcos Freire, então chefe de gabinete do prefeito Pelópidas Silveira, depois prefeito de Olinda, senador, ministro, o algoz da ARENA em Pernambuco, tragicamente desaparecido em acidente aéreo. À noite era esperar o pio da coruja, o ulular da mãe da lua. * Vivo e gosto de morar em Sousa – na cidade ou na fazenda. É o meu lugar. Para falar, em dois somente (são muitos) – entre os milhares de amigos meus – que sofrem a perda da pátria de nascimento, da atividade profissional destacada, da liderança social, refiro Clarence Píres e Waldir Lima. O birô de escrituração das despesas do engenho, o consultório médico de atendimento em clínica geral, a cortejada nobreza familiar, o destaque a que tinham direito nas solenidades cívicas oficiais, constituem a sua própria história. Vivem hoje acabrunhados, acredito, num exílio inglório, de pura escolha. Dá saudade rememorar o passado. Ninguém gosta de perder nada. Mas, foram arrastados pelos filhos, pelos netos. Tenho certeza. Eles que me contestem. Para ilustrar a argumentação cito Luiz Jardim que disse em estilo suave: “a pátria é a infância;” e Beaudelaire ”vase de tristesse ô grand taciturne”, fixou em poema antológico: “La patrie c’est l’enfance retrouvée”. * Não retrocederei aos hominídeos, nem à busca de nossa origem simiesca, que remonta – deselegantemente, diria –, aos irmãos macacos chipanzé, aos abomináveis gorilas de que falou Darwin. Começarei com a nossa tradição ocidental, com os civilistas e igualmente militaristas gregos – peninsulares e insulares – de Creta, do Peloponeso, de Tróia e enclaves históricos por todo Mediterrâneo, pelo Mar Egeu. Conheci os tessalonicenses, nos comentários evangélicos de São Paulo Apóstolo, escu-tados sem detida atenção, nas missas de domingos e dias santos na Matriz dos Re-médios. Achava belíssimo o gentílico, a prosódia corrida e ritmada do vocábulo, como um verso, envolvido no mistério dos meus reduzidos conhecimentos de história, de geografia e gramatical da nossa língua. São dos gregos, efetivamente, as idéias que percorrem o planeta terra nos seus dois hemisférios, e têm sustentado teses e filosofias, ciência e arte, enfrentamentos e guerras. Hoje, a comodidade do recurso à clareza dos textos via web, que reproduzem as reflexões e as discussões sociais, dispensam afanosa busca em prateleiras e bibliotecas empoeiradas, de recursos limitados. Encontramos tudo que procuramos, com um sim-ples toque de dedo no teclado de um computador ligado à internet. Tal como explicam os instruídos advogado Bosco Fernandes, conterrâneo do Rio do Peixe e o meu primo do Rio Piancó médico Ernani Sá Leite, em citações hiper-eruditas que me destinam fre-quentemente, colhidas na famosa rede www. Isto sem falar em Neumanne, Aranha e Elpídio, aí sim, a coisa toma feição nacional, paraibana – comentam, interpretam, falam de fatos e impasses que de perto nos dizem respeito. Quanto a Elpídio – um detalhe–, ele parece querer “matar o véi". * Contrariando o que venho discorrendo, escarafunchei e descobri na minha estante A RIVE GAUCHE, do norte-americano Herbert Lottman, livro que trata de escritores, artistas e políticos em Paris (1930/1950), e reli algumas páginas. Afirma o autor, apreendendo o drama social e humano desse período que nos “...anos entre guerras, era pacífico considerar a França o centro do mundo literário e artístico, e Paris, natu-ralmente, o centro desse centro.” Ali se organizava a luta contra o nazi-fascismo. Por isso vale a advertência sentida de Oswald de Andrade: “As novas gerações ignoram o que foi o aparecimento sinistro de Hitler no poder. Ao assumir o governo da Alemanha ante a inércia do velho marechal Hindenburg, o criador do nazismo deu como sinal de partida de suas atividades políticas o incêndio do Reischstag (Parlamento)”. Teve e tem seguidores revelados, descobertos, na apuração do Watergate que levou à renúncia o presidente Nixon dos EUA, e no arrombamento da sede do PSB na nossa capital João Pessoa, com violação dos arquivos partidários, que espera a punição dos culpados, que todos conhecem de sobra. Entre os que testemunharam o significativo momento, Lottman cita o brasileiro Jorge Amado, que o viveu, freqüentou editoras, participou de congressos, passo a passo com Gide, Malraux, Ehrenburg, Benda, Sartre, dos Passos, a elite intelectual e mais aficionados, atestando o “caráter coletivo das atividades”, todos alinhados, “engajados” como foram qualificados, no combate ao fascismo implantado na Itália e na segregação violenta de grupos sociais, praticada pelo nacional socialismo – o nazismo – crescendo na Alemanha. Sendo a Justiça um conceito universal, a hora sempre é chegada. Herdamos esta trincheira para a luta. Este o nosso destino, a saga humanístico-bacharelesca, nascida em 1827 em Olinda, com a criação dos cursos jurídicos no Brasil. Esse tempo homérico, para o comunista Jorge Amado e mais esquerdistas da primeira metade do século XX, subsidia os relatos da trilogia “Os Ásperos Tempos”, “Agonia da Noite”, “A Luz no Túnel”, publicados inicialmente como um único romance, contidos no épico “Os Subterrâneos da Liberdade”, que narra a crueza dos dias gloriosos da luta dos patriotas brasileiros contra o Estado Novo. Escrito no Castelo de Dobris na Tcheco Eslováquia (hospedagem paga com os direitos autorais), foi traduzido para o alemão, búlgaro, chinês, espanhol, grego, polonês, romeno, russo, esloveno, sueco e tcheco. Em Paris nos anos Oitenta do século passado, visitando o “Vieux Marais”, indicaram-me entre os sobrados no entorno de um espaçoso pátio retangular, a janela do apartamento pertencente ao autor de Cavaleiro da Esperança.. * A RIVE GAUCHE narra momentos decisivos da vida política no curso da guerra ideológica. Verdadeiramente indicativo, foi o esforço recíproco URSS x EUA, para cooptação de intelectuais para apoio e aprovação do seu modelo de estado. Um retrato do drama universal da luta de classes – não tenho porque esconder esta verdade. Uns preferem defini-lo como entrevero oligárquico, enfeitá-lo com pirotecnia e extra-vagâncias sofisticas e verbais – que não passam de superficiais e típicas modificações do panorama mercantil, do consumo de alimentos, equipamentos e também da arte. Desde os anarquistas do início dos tempos, chegamos a Weber, Marcuse, McLuhan, Fukuyama e mais figuras conjuradas, que falam de impasses de natureza religiosa, de comunicação, de aldeia global, com o objetivo único de preservarem o modo de explo-ração capitalista do trabalhador e da natureza. * Eis a herança grega, que se estendeu por todos os países, em momentos oportunos, e vem dos diálogos de Sócrates com seus interlocutores nas feiras e praças de Atenas, fazendo a filosofia descer do trono dos deuses mitológicos para o meio do povo, como relata Platão. “Representa o reflexo da vida, ela mesma, que esteve se modificando durante muito tempo num mesmo ritmo revolucionário”, o que assinala o patriota Álvaro Lins. Registram melancolicamente alguns analistas dos acontecimentos, o declínio do prestígio dos literatos pensadores, e a ascensão dos cientistas com o desenvolvimento da energia atômica pelo seu poder de destruição – um dado determinante pela iminência da deflagração de guerras. Seria, no caso, mais importante sobre política ouvir cientistas e não poetas. Nem tanto, eu contesto, com uma rebatida irrespondível do poeta Pinto do Monteiro, desdenhando do poder militar da grande nação do Norte, os Estados Unidos da América, referida em conversa no meu alpendre: “A América do Norte é quem Para todo canto sai. É a senhora do mundo Manda em filho, manda em pai, Vai para as bandas da África Porém pra Cuba não vai.” .................................................................................................................... Confluência Peixe/Piranha/Piancó. Agosto 2009
Escrito por Eilzo Matos às 14h59
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