Diário da Fazenda
AREIA, CIDADE RELÍQUIA
A VERDADE SOBRE O FESTIVAL DE
ARTES DE AREIA
(Diário da Fazenda)
Volto a falar de Areia e de sua gente, levado pelo peso de sua tradição na política e no mundo das artes, que mais contam na sociedade dos homens. Conquistou aquela cidade, um galardão que outras maiores entre as comunidades paraibanas sequer ousaram. Leiam “Brejo de Areia” do mais orgulhoso dos seus filhos Horácio de Almeida. Ela que atingira o ápice do destaque, erguendo-se do fundo poço da decadência, a que a relegaram décadas e mais décadas de incúria administrativa que dominou a Paraíba, ofereceu-se como modelo e porta-voz de reivindicações em nome da democracia.
Tudo me ocorre na solidão da fazenda, ao deparar na memória, os momentos melhores de minha vida, que ficaram para traz. Ativo na militância, que discute as questões sociais relevantes, descobri, como respiradouro para a sociedade que sucumbia à censura ditada pelo arbítrio político, a chance de deixar Areia falar, escutar o seu discurso. E o fiz.
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A idéia surgiu da necessidade de criar na Paraíba e oferecer ao país, um espaço para reunião e debate de temas da literatura e da arte, das ciências políticas, da cultura em geral. Vivíamos os tempos ominosos da censura imposta pelo regime militar no poder desde 1964. O país, contudo, reagia na imprensa, na ação e palavras de militantes em prol da liberdade de expressão e da democracia. Era uma exigência nacional.
Queríamos fazer a nossa parte.
Desfrutava o nosso Estado uma situação de invejável prestígio intelectual e político: era a terra de José Américo de Almeida, um proscrito pela ditadura do Estado Novo, vivo no seu refúgio em Tambaú, em torno do qual gravitavam escritores e militares companheiros de farda do seu filho general Reinaldo Almeida, líder inconteste e destacado no estamento dominante. Eram filhos de Areia.
Em conversas com Virginius da Gama e Melo, Paulo Melo e aficionados, nos encontros costumeiros em bares e restaurantes da cidade, comentei, e propus, a exemplo do que se fazia na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, com o seu “Festival de Inverno”, a realização na Paraíba de algo nesse estilo.
Aludindo aos fatos da tradição política e intelectual da cidade de Areia, argumentei: - Existe um apelo em todo o país, no sentido da realização de tais conclaves. Recorrendo ao marketing voltado para o turismo como valor relevante, criaremos similar no Nordeste, com a sugestão do seu clima quente como chamamento, de sua importância na literatura e nas artes do país. Será o “Festival de Verão de Areia”. Os seus filhos ilustres nos apoiarão. Eles nos serão úteis e poderemos usá-los honestamente.
A idéia pegou, pronunciei discurso na Assembléia Legislativa do Estado no dia 14 de março de 1974, o que consta dos seus anais, com apartes dos deputados José Fernandes de Lima, Américo Maia, Edme Tavares, Jonas Leite Chaves e Orlando Almeida, que apoiaram a idéia-proposta que eu defendia. Ofereci na ocasião uma expressão-legenda que distinguia merecidamente o burgo serrano, cognominando-o: “Areia, Cidade Relíquia da Paraíba”. Tenho em meu poder cópia do apanhado taquigráfico do pronunciamento.
A década setenta do século vinte lotou seminários e fóruns, que ali reuniram os pensadores que falavam em nome do país. Todos foram citados, referidos, apresentados com a força de suas idéias, no cinema, no teatro, na teoria da literatura, na filosofia, na sociologia, na ciência política.
A imprensa aplaudiu e glosou a minha proposta-sugestão. José Leal e Aurélio de Albuquerque entre tantos. O festival, de que antes jamais se falara, foi criado como sugeri, e alguns tiveram lugar em Areia. Depois mudaram a denominação e o local de sua realização. Ficou somente a honrosa legenda, que exaltava os feitos gloriosos daquela comunidade.
Quanto a alegações de burocratas que assinaram atos e elaboraram planilhas, é outra coisa, é diferente da decisão e da vontade política que anunciou e sustentou a idéia. Que eles se declarem colaboradores ou opositores na realização do evento, vá lá que seja, mas se arvorarem e reservarem autoria, essa não aguento. Passa da conta.
Direi, finalmente, como José Américo ao criar a Universidade Federal da Paraíba: “Eu vos dei raízes, outros vos darão asas e o selo da perpetuidade”.
O caso é que, inimigos gratuitos e figuras menores, movidas pela inveja, inventam e divulgam versões falaciosas sobre o fato. Intrometendo-se onde não cabem, e omitindo, propositalmente e de má fé, a autoria que me cabe na implantação desse projeto político cultural, marcante na história da Paraíba, oferecem, o que é pior, dados inverídicos sobre fatos que determinaram acontecimentos marcantes na nossa história.
Permanecem mesmo assim, como histriões, na periferia, no “sereno”, da história, como preferia o nosso Zé Lins do Rego. Os documentos o comprovam.
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Escrito por Eilzo Matos às 19h27
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