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Saint-Saens e Luiz Gonzaga
Saint-Saens e Luiz Gonzaga (Diário da Fazenda) Amanhecia o dia. Ainda estava no claro-escuro. Escutei da minha rede, num doce despertar, o costumeiro ruído de pe-quenos movimentos na tirada de leite, no curral. Ao fundo as vozes alertas de pássaros e animais, que soavam gloriosamente “primaveris”, no engalanado sertão de rochas, de arbustos, de árvores, de serrotes, de grotas fundas. Diria mais acertadamen-te, próprias do inverno que, no semi-árido produz inaudita alegria nas pessoas, nos bichos, na cobertura vegetal verdíssima da nossa gleba, ora agitada pela brisa, ou adormecida, plena pela consubstanciação da matéria viva e morta. Nasceu na minha cabeça súbita música de fundo para ani-mar a vida tão embelezada, na sua completa realização, em atos do trabalho, do existir: explodiu o Rondo Capriccioso do Prelúdio de Camile Saint-Saens, excertos da Carmen, executados ao vio-lino pela yanque-amarela Sarah Chang, conduzida por Wolfgang Swavalische na Philadelphia Orchestra, e também pela Berlin Philharmonic, regência de Plácido Domingo! Não existe uma re-lação nem regra cromossômica, na origem e nos personagens, determinando os fatos da vida social. Mas a simbiose permite formas variadas de sua exteriorização. Exibicionismo cultural desarrazoado? Jamais. Simplesmente Integração dos sentimentos humanos, pro-piciada pela tecnologia que nos introduz num mundo novo sem deixar de lado o atual, o antigo. O ambiente dos hackers na web e dos bandidos escondidos por trás de árvores e pedras, na tocaia fatal, os veículos automotores velozes na perseguição completando a inevitável tragédia que cerca todos e cada um, no relacionamento manifesto de todas as coisas, de todos os fatos da vida. Saint-Saens e Bizet na “Lagoa de Baixo”! Por que não? E as Arias Zingaras de Sarasate também – o gosto do momento, da ocasião. Meu sertão é ibérico, é belo, alegre, feliz e trágico. Acrescentando-lhe páginas do Gonzagão na “Volta da Asa Bran-ca”, das bandas-de-música roncando os instrumentos de sopro, estourando os bombos, e o estrídulo rasgado do bater dos pratos – eis a consumação da glória da sociedade nas festas de Araripina e de todo o Nordeste, homenageando os coronéis. Então não ficará faltando nada. Silêncio! Não me contestem que o povo gosta mesmo de homenagear os grandes em todas as sociedades. Esse negócio de liderança é o momento crucial, maior na vida da comunidade de homens, insetos, bichos, bactérias, de todas as famílias. Recordo de férias na casa de minha avó dona Chiquinha Leite, em Piancó. Dos preparativos no engalanamento de salas e quartos da casa antiga, do provimento da despensa, da agitação na cozinha para atender o seu filho e os que chegavam para vê-lo, meu tio Salviano, importante entre os mais importantes do Estado, que visitava a terra natal no período da festa da padroeira. À noite, a banda regida pelo Maestro Ventura, perfilada na sua porta, executava dobrados em sua homenagem. E os amigos eram recebidos na sala, na calçada, o povão aglomerava-se, e saiam todos em procissão sob o espocar de rojões, para a no-vena rezada para o santo padroeiro, na antiga e bela igreja, que guardava a história da cidade. Desde o patamar de entrada à sacristia, passando pela nave central e pelos espaços livres, pelo altar-mor e nichos laterais onde se realizava a “via sacra”. Então a emoção dominava todos. Todos se sentiam pene-trados de profunda fé religiosa e confiança nas famílias do lugar. Ah que o governo, a igreja, a coletividade e a pátria, existem! O universo revela-se inteiramente, até no ruído perceptível do trabalho coletivo das formigas nos seus caminhos, carregando mantimentos para não sofrerem as dores da cigarra cantadeira, tísica, atacada pela fome nos tempos difíceis. Tchaikovsky acom-panha Maria, meditabunda, levando o café quentinho para o marido se aquecer no frio do amanhecer, pitar o primeiro cigarro de fumo brabo do dia. Ele se sente feliz no serviço - o bronco que ela ama. São freqüentes e intensos os gemidos de gozo e prazer que os envolve, como prova a meninada em torno bebendo o leite do peito da vaca, tirado na horinha, ainda quente. Eita sertão da juriti chorosa, do anum vigilante, das ca-sacas-de-couro festeiras, do tetéu arreliado! As cobras fedem, as abelhas atacam. As flores exalam o seu perfume. Todos se com-pletam, se irmanam. ...........................Sertão outubro de 2009
Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 16h29
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Lula Gestor
LULA GESTOR - O FACTOIDE SOCIALISTA (Diário da Fazenda) Dava para perceber que comadre Alice e Maria de Neguinho, o vaqueiro, guardavam preocupações. Brigas com o marido? Sabia que não. O espírito e os gestos desusados indicavam, todavia, a sua inquietação. Transitavam de casa para o açude, para a capoeira na busca de água e de lenha, o olhar mais baixo do que de costume – na verdade o sertanejo olha mais por onde pisa, para evitar ataques peçonhentos, mas perscruta também o céu, para ver à distancia. Elas também olhavam para cima. Do espaço, os pássaros na busca da presa, indicam o que acontece fora da nossa vista. Deus, quem sabe! Sei da inquietação e do malogro do povo. Vivo no meio de ricos e de pobres, de patrões e de empregados. Deixo o tempo correr, passar, sem o antigo apetite de lucros, sem disputar posições na sociedade civil. Estou vivendo melhor assim. Sinto-me um privilegiado na idade que estou. Pouco tenho do que reclamar – a não ser a dificuldade de trafegar na imprestável estrada municipal que liga minha propriedade à cidade, e os assaltos a mão armada. Pois bem: na prefeitura, para começar, está o problema. Acontece que, amparados os prefeitos (agora chamados gestores) por legislação protecionista editada pelo corrupto FHC e o não menos Lula, os escândalos se sucedem nesta área. Estou lembrado da divulgação na imprensa falada, escrita e televisionada, paga pelo serviçal da Avenida Paulista - certamente rendendo gordas comissões para a sua galera -, anunciando que prefeito não roubaria mais, conforme o texto que o governo publicava chamado Lei de Responsabilidade Fiscal. Aplauso geral. Eu, e acho que muitos de boa-fé acreditaram. Foi enganada a nação. É que o capitalista não brinca na defesa do seu interesse maior: o lucro. Passou gato por lebre. Tanto que a tal lei a rigor, prende somente os gestores que frustrarem o pagamento dos empréstimos, juros e adian-tamentos devidos e tomados à insaciável loba financeira que abocanha o planeta, alimentada no Brasil pelo Banco Central e pela Receita Federal. Os escândalos proliferam impunes. E Lula está lá em cima nas pesquisas de opinião, e falam que Serra é o candidato que vai ganhar a eleição do próximo ano. Ora, tudo está muito claro: o povo conhece o potencial (pelo menos) de sua força no cenário do debate democrático, facilitado pelos capitalistas. Por isso derrotou o metalúrgico em três eleições seguidas, elegendo-o somente quando ele assinou a carta de rendição aos princípios neoliberais da globalização. E sabe que Serra é da galera de FHC. Quem o negará? Hoje o povo recebe a propina que jamais pediu. Aceita-a contrafeito. Sem cobrança de contrapartida, digamos o voto. Porque nós da elite dirigente deste país, sempre que chegávamos às casas pobres “de quatro em quatro anos” indagávamos somente quantos eleitores existiam ali e oferecíamos ou atendíamos um pedido de ajuda: comprávamos o voto. Lula fez diferente e deu certo. Aprendeu com os mestres universitários opor-tunistas e os sindicalistas (em férias perpétuas, dispensados do trabalho) que os factóides os fizeram mestres e dirigentes. Fala a psicologia coletiva que o povo busca facilidades. Assim aconteceu com Lech Walesa e Lula. No final o povo é levado para as grandes concentrações, como os bichos para a bebida e adeus, adeus. Cháu, cháu, como rola hoje nas plenárias das ongs. De maneira que, entre os 396 escândalos vergonhosos, anotados no governo Lula, evidencia-se outro (eu anunciei): relatório mostra que apenas 8,9 % de moradias, do milhão anunciado pelo Presidente, foi encaminhado para análise. Conclusão: o povo não acreditou não aderiu ao projeto, pois sabemos que o déficit de moradias passa de dez milhões. Complemento a denúncia com as seguintes constatações: - de cada internamento hospitalar que a saúde publica enumera, abafa centenas de milhares que sobraram nas filas; - de cada ambulância que atravessa ruas e estradas transportando doentes, silenciam sobre dezenas de milhares que morrem sem acesso ao serviço. Educação? Milhões de crianças que cur-sam a oitava série não assinam sequer o próprio nome. Faculdade é ponto de venda de pipoca: dá pra conferir. Segurança pública? Amazônia? Nem falar. Aí está correndo dinheiro grosso pra galera habilitada. Em boa hora o senador Tasso Jereissati denunciou da tribuna do senado que o governo Lula é uma mentira total, pois os anúncios não correspondem à realidade da economia, do Estado e do povo. E aludiu ao famoso BRIC para termos de comparação. Acredito que a tristeza e desalento de minha comadre Alice e de Maria, a mulher do vaqueiro, têm origem na encruzilhada em que Lula as deixou. É bom garantir escola e refeição para os filhos, economizar com a feira e por cima receber dinheiro. Elas sabem e agradecem. Mas, aqui acolá falta o transporte até a escola para os estudantes. E a freqüência às aulas garante a bolsa, elas também sabem. São levadas, portanto, a acreditar que, somente dando o voto a Lula garantem o recebimento do benefício. Mas o chamado sexto sentido das mães, leva-as a desconfiar de algo que se evidencia no ar. A realidade entra pelos olhos, e elas chegam à desesperadora con-clusão: a sociedade brasileira vive um clima de guerra civil. Suspeitam que a ameaça maior para os seus filhos, entrevista no futuro, é restar para seis de cada dez jovens, desde agora e na vida adulta a adesão ao tráfico e consumo de drogas, o recolhimento a um presídio fétido, desses que são construídos às dezenas, enriquecendo os empreiteiros, que não atendem a demanda por vagas, dado o crescente índice nacional de criminalidade. No Nordeste pelos menos. Elas e todas as mães pensam nos seus filhos, pensam assim. Folgado Presidente! votei primeiro em Brizola, depois em vossa excelência em todas as eleições. Atente, Ainda há tempo para mudar. ....................Sertão. outubro 2009
Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 08h19
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