AREIA

AREIA

“NINGUÉM SE PERDE NA VOLTA”

(Diário da Fazenda)

 

                        Areia, digo melhor, Brejo de Areia, é entre poucos, tema re-corrente nas minhas lembranças, reflexões e cultivada nostalgia. De todo um entourage fraterno, elegante e generoso num período de minha vida. Guardo na memória essa convivência a que retorno, puxado pela solidão gostosa da fazenda. Explica-se pelas pessoas especiais que o compunham. Corro o risco de nomear, com as omissões possíveis: José Henrique, José Rufino, Horácio, Thales e Amaury Almeida, padre Rui Vieira, Sylvia Perazzo, Élson Cunha Lima, Orlando Almeida, José Américo e Lourdinha Luna, sua secretária, Violeta Brito Lira, Amaury Vasconcelos... A lista seria interminável.

                 A verdade é que a idade avançou e moro sozinho, e tal convívio me faz falta. Abandonei a capital onde vivi por algum tempo, essa quadra agitada, alegre e rancorosa da atividade político-partidária, guindado ao exercício da alta administração estadual, notícia na capa e nas manchetes da imprensa. Que fazer? A família distribuiu-se pela capital, Sousa, Coremas e resta-me entregar-me a rememorações, recluso na moradia rural, que, com camionete nova off-road, na porta, assegura a saída e a chegada a qualquer hora, funciona como fuga e lenitivo. E tem a criação, a reduzida lavoura que proporcionam pequenos lucros, levam a um relacionamento com uma faixa da população que me agrada na característica animação e esperteza de sua presença.

        “Mato, nem ver..” Replicam e magoam amigos e familiares a um apaixonado e desamparado convite para desfrutar o campo, para um fim de semana, um dia livre de feriado – não dia santo, que é reservado para a Igreja Católica. Meu mundo, meu viver não empolgam mais ninguém, chego a acreditar.

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            Começou tudo com cenas de molecagens de rua, que eu presenciei, ainda adolescente, de que era vítima um negro de carapinha e barbicha rala embranquecidas, serviçal da família do Professor Senhorzinho. Ele protes-tava com violência à chacota dos rapazes, que apontavam marcas de grilhões (inexistentes) que lhe marcavam o pescoço, os punhos, os tornozelos, e denunciavam a sua condição de ex-escravo.

                 “– Nasci livre num engenho de Brejo de Areia, terra de gente nobre e rica, o que aqui não tem. Vi prato e talher de ouro. Vou fazer uma “relação” pra punir vocês no tribunal... Filhos da puta!”

                 Magro, alto como de pernas de pau, meio alquebrado, marcado pela negritude, alteava-se o pobre homem, no exercício precário da cida-dania, do direito individual. Em alguns momentos indagava-me sobre esse Brejo de Areia de riqueza e nobreza de senhores notáveis, segundo suas palavras, inexistentes no sertão. Até que um dia o descobri personificado, num vulto ilustre que morou certo período na nossa cidade. Um promotor público, natural de Brejo de Areia – José Américo de Almeida – que vivenciou e transferiu para a sua literatura imaginativa o realismo da pobreza e discriminação que tornavam tão diferentes pessoas tão iguais, no sertão e no brejo paraibano, na sociedade, enfim.

                    A denúncia pesou contra os governos pela sobrevivência de costumes tão atrasados, e como literatura, constituí-se num marco que deli-mitava períodos do romance brasileiro, dado o caráter geral da tese que con-denava tal procedimento social. Depois, Brejo de Areia transformou-se para mim num monumento eminentemente civilizador, pela pujança do seu processo de desenvolvimento político, econômico e social. A dedicação de uma considerável parcela da população do burgo às causas nativistas e libertárias, a elevação do descortino e prática das belas artes como marca dos seus costumes impressionavam, e lhe conferiram o pioneirismo na inau-guração do primeiro teatro dramático da Paraíba – o Teatro Minerva –, antes mesmo que a capital do Estado criasse o Santa Rosa.  Completavam tais circunstâncias históricas, a caracterização da elevação ética do padrões de conduta do povo.

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           Certa feita, passava de meia noite quando escutei vozes na calçada, uma algaravia inusitada para a hora, mas só podia tratar-se de amigos. Naquele tempo, quem ousaria incomodar um deputado, secretário de estado de modo tão barulhento? Deixei a cama, a mulher recomendou-me cuidado, cientificar-me de quem se tratava antes de abrir a porta. Atendi-os: três amigos do peito: o escritor Virgínius da Gama e Melo, o comendador José Henrique e o coronel senhor de engenho José Rufino, condestável do Reino de Brejo de Areia. Evidentes sinais de embriagues animavam os seus gestos numa afável fraternidade.

                 Pois bem, vinham da casa do Ministro José Américo, e dele ou-viram elogios e apoio à minha idéia de criação de um festival de artes em Areia, algo como o de Ouro Preto, notável naqueles dias. Depois de goles de uísque e vinhos, queijo e bolachas salgadas, falaram de literatura, ensaiaram um torneio de conhecimento de língua portuguesa na citação nominal de bichos peçonhentos: lacraus, caranguejeiras, na sua variedade... coisa de Zé Rufino.

                 Areia tinha tutano, isto é, um passado e um presente ainda refe-renciais na caracterização de pessoas, de história, de ambientes. Tema pré-ferido a partir de Celso Mariz que dizia topar nas suas ruas e becos sombras ilustres e gloriosas, e filtrava-se pelas venezianas, notas tiradas do piano e do violino, no verdeazulamento da paisagem européia, na linguagem do Menestrel Virgínius, motivo e inspiração para as coisas boas e grandiosas da vida, comprovados em Pedro Américo, José Américo, Abdon Milanez. Assino embaixo!

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Sertão. Começa a seca com a queda das folhas da catinga. Setembro/2009