Bruno Tolentino

“VOLTEI PARA ENSINAR. QUERO O MEU

PAÍS DE VOLTA”

(Diário da Fazenda)

 

 

         Causou-me um choque inaudito e mesmo inesperado, o surgimento do poeta Bruno Tolentino  (1940/2007, desconhecido para mim), na mídia literária. Escrevia sonetos em alexandrinos perfeitos, poemas em tercetos como na Divina Comédia, metrificava e rimava harmoniosamente, versos brancos tudo na forma do meu agrado: “descritivos e narrativos, versos regulares” na classificação de Wilson Martins, para quem, em razão de  suas atitudes polêmicas ele “é visto menos como poeta do que como personalidade da vida literária”. Para mim, embarcávamos numa insólita aventura, porque, desde a Semana de Arte Moderna em 22, e antes até, Mario de Andrade e luminares da época tinham abandonado a métrica e a rima. Mas, amparavam o poeta-polemista “consagradoras apreciações de respeitados escritores” como Arnaldo Jabor, João Cabral de Melo Neto, Antonio Houaiss” e es-trangeiros como Yves Bonnefoy, Jean Starobinski, Saint-John Perse, Ungaretti, W. H. Auden e Samuel Beckett em trinta anos de intenso convívio.

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Li ávidamente, pouco da sua poesia acessível na web, no meu PC, conheci alguns dos seus crí-ticos e exegetas – ele tornara-se famoso pela erudição, a biografia singular, o temperamento voltado para afirmações peremptórias, sempre a pretexto de interpretação filosófica da sociedade, e da literatura como fenômeno cultural testemunha da civilização, em momentos definidos de sua trajetória histórica. Ele mesmo esclarece no ensaio “Castro Alves Contemporâneo” comentando a poesia como presença concreta no universo social:

“Elevar um discurso para fora do alcance do poder letal do tempo significa, justamente, tem-poralizar ao mais alto grau as coisas e as linguagens da mente... Estou dizendo que o poeta máximo é aquele cujo dizer, fundado nas coisas deste mundo, num presente vivido, tende de modo natural àquelas alturas do pensamento a que convergem o universal, os mistérios da sensibilidade de um poeta e as sutilezas de seu idioma. A partir de então este pode “mudar” o quanto seja – e nosso léxico preferencial e até nossa sintaxe mudaram muito desde a composição de “Vozes d’África” – mas não lhe será mais possível furtar nada ao impacto emotivo-verbal que a um dado ponto na história nele encarnou-se perfeitamente”.

Tenho as minhas idéias e meu critério de avaliação e julgamento, sobre fatos da vida, mormente em se tratando da arte e de suas manifestações na pintura, na escultura, nas letras, não nas teses relativas à ciência, que não as desprezo, mas as das letras ditas imaginativas e sua teoria e interpretação – a poesia e a prosa: romance, poema, teatro.

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Por solicitação, recebi pelo correio nacional, oferta do meu parente Nivaldo Tolentino, nascido em Piancó, hoje residindo em Florianópolis “A Imitação do Amanhecer” e “A Balada do Cárcere” do citado carioca Bruno Tolentino, objeto desta estimulante reflexão. Antes de tratar de sua poesia, no ensejo falo sobre algumas idéias, declarações e traços de sua biografia, em entrevista concedida a Geraldo Mayrinki, página de Jornal de Poesia 22/5/1998, oportunamente também publicada na revista Veja de 20 de março de 1996 (http:www.revista.agulha.nom.br/btolentino01e.html) e outros textos e fontes a que voltarei:

- o avô foi conselheiro do Império;

- sobrinho de Lúcia Miguel Pereira e Otávio Tarquínio de Sousa, primo de Bárbara Heliodora e Antonio Cândido;

- ainda era analfabeto em português quando duas preceptoras mlle. Bouriau e mrs. Morrinson o ensinaram a conversar em francês e inglês dentro de casa;

- em 1964 emigrou para a Europa, onde freqüentou rodas boemias e literárias e cumpriu pena de 22 meses de prisão numa penitenciária em Londres, por porte de drogas, retornando ao Brasil em 1993;

- professor de literatura em Bristol e em Oxford na Grã-Bretanha;

- orgulha-se de ter filhos com mulheres descendentes do filósofo Bertrand Russelll e do poeta Rainer Maria Rilke. O mais novo Rafael de 8 anos, nascido em Oxford, onde ensinou literatura durante 11 anos, é filho da francesa Martine, neta do poeta René Char;

- publicou livros de poesia em francês e inglês;

- “Caetano Veloso está virando tese de professores universitários, cada macaco no seu galho e o galho de Caetano é o show biz. Por mais poético que seja é entretenimento. E entretenimento não é cultura”;

- “se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas a música popular não se confunde com a erudita. Então como é que música vai se confundir com poesia?”

- “é preciso perguntar dia e noite: por que Chico, Caetano e Benjor no lugar de Bandeira, Adélia Prado e Ferreira Gullar?”

- “foi Wilson Martins quem levantou essa idéia, ao dizer que as obras de Chico Buarque e Jô Soares eram imitações da literatura”;

- “na República das Letras ainda estamos à espera das diretas já. A usurpação do poder legal por vinte anos deixou-nos seus legados nas patotas literárias que desde então controlam a entrada em circulação, ou a exclusão pelo silêncio, de livros, autores, obras inteiras”;

- “que intelectuais (Caetano e Gal) são esses? Se os irmãos Campos (Augusto e Haroldo) não sabem inglês, imagine eles”;

- “o departamento de filosofia da USP nunca produziu filosofia nenhuma, por inépcia ou preguiça, mas por um estranho espírito de renúncia parecido ao espírito de porco;

- a cultura filosófica brasileira é quase nula”;

- “votei no Fernando Henrique Cardoso por que era uma oportunidade única, desde Ruy Barbosa, de ter um intelectual no poder. E o que ele fez na sua primeira entrevista coletiva? Citou Machado de Assis ou Euclides da Cunha? Não. Citou o mano Caetano. Uma coisa tão espantosa quanto Ruy Bar-bosa se tivesse ganho a eleição citasse Chiquinha Gonzaga... Quero saber quem seqüestrou a inteligência brasileira. Quero meu país de volta”.

Este o homem, o intelectual, o poeta, à cuja vida e obra pretendo ainda tecer comentários, entre uma ida e volta ao curral e ao chiqueiro, ao sítio, ao plantio de capim.

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Alegria geral! Chuvas “regulares” em agosto. Perdura o verde. 2009