Eleições na APL

ELEIÇÃO NA APL -  A “MAROLA” SUB PRIME PEGOU LULA E ALCANÇA O MEU REBANHO

(Diário da Fazenda)

 

De volta à fazenda, retorno ao meu lugar no alpendre, para os momentos de lassidão na rede, entregue agora à lembrança de fatos recentes, de cenas em que figurei como protagonista, cercado de amigos e contemporâneos de uma longa aventura ci-tadina deixada para trás. Seis dias fora pesam no andamento de trabalhos, mesmo de rotina ordinária na zona rural. É retomar, pois, conversas e vistorias, avaliações, acer-car-me de novo dos livros, do computador, acessar a internet. E atender à curiosidade de alguns sobre o breve reaparecimento do meu nome ao noticiário da imprensa.

Eia, mãos a obra !

Contrafeito, embora – coisa do hábito interiorano e sedentário de longos anos seguidos, rumara para a capital no dia 15. Tinha, na verdade, assuntos e inusitados compromissos inadiáveis para atender: na noite do mesmo dia comparecer à solenidade de entrega ao jornalista e amigo Gonzaga Rodrigues, do título de Doutor Honoris Causa, pela UFPB. Marcante foi a reunião do Conselho Universitário, a que com-pareceu o governador do Estado, para comprovar que jornalismo escrito e literatura, apesar dos novos tempos da web, de que falam tanto, ainda desfrutam de singular e evidente prestígio. A sociedade civil, militar e eclesiástica, fez-se presente. No dia seguinte, visitaria a Academia Paraibana de Letras, para me inteirar de formalidades a cumprir no dia da eleição (18) para escolha do futuro titular da Cadeira 3, que fora ocupada pelo escritor Luiz Augusto Crispim, falecido há alguns meses. Com dois jorna-listas e intelectuais paraibanos, disputaria os votos dos acadêmicos. Pessoas ilustres e escritores de obra consagrada, Josélio Gondim e João Trindade, mostraram-se isentos e decentes no decorrer do pleito. Venci sem o ímpeto de retaliações, e seqüelas que nos viessem a incomodar.

Sobre o apoio recebido, anunciado de público por alguns, e de outros, apurado na contagem dos votos dados, abstenho-me de comentários, apenas declaro a honra que me proporcionaram. E, naquela Ilustríssima Casa, procurarei me comportar segundo as suas regras estatutárias, na concretização dos seus objetivos culturais, no limite de minha formação ética, política e literária.

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Na ida e na volta, durante o dia, a viagem de sempre, no ônibus “pinga-pinga” do interior para João Pessoa. Homens e mulheres ansiosos, crianças inquietas – sem a alegria que imaginamos em recreio e lazer –, completam um destino insondável e inesperado. Muita gente pobre em busca de respostas para questões essenciais na sua vida, cuja solução afasta-se cada vez mais da vizinhança de suas moradas. Agências administrativas austeras, algumas dominadas pela corrupção, com guardas armados na porta, mantêm os interessados e titulares de direito em situação de agentes suspeitos, na iminência de receberem voz de prisão pela prática de um delito. Rememoram, amar-gurados alguns, relatos de fatos antigos, antevêem desenlace funesto no enca-minhamento do pleito que levam. Ditos, choramingas e pilhérias mostravam a verve de cada um. Eles demandavam o mundo somente com o bilhete-passagem de ida e volta para a cidade de Patos, sede do atendimento público regional, sem um centavo mais. Escutei histórias dolorosas sobre pessoas que, submetidas a um despudorado aten-dimento burocrático, perderam o transporte de volta para casa, nada esclareceram sobre pretensos direitos, restando-lhes a noite para aguardar o dia seguinte quando tentariam voltar para o lar, a fome devorando-lhes as entranhas.

Esse o Brasil rico de Lula, que empresta dinheiro ao FMI, onde ninguém dorme com fome. Ele diz.

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Ocorre-me entre outros pensamentos, o pronunciamento do acadêmico Gonzaga em agradecimento pelo título recebido.

Não concordo com a afirmação do mestre José Américo de Almeida, que “a vida tem muitos mistérios” – simples recurso metafórico –, em cuja validade o novel doutor acredita, e usa como epígrafe no seu discurso. O nosso destino é o fruto das nossas indagações. E elas acontecem em razão da nossa situação social. Quanto ao seu rumo, revela-se este, cristalino, fruto da razão que governa a história, submetido às variáveis da conduta humana, referidas por Burrhus Frederic Skinner na sua teoria do comportamento dos homens. Assim na política. O mais é anedota, criação de frases de efeito. Vejam de quê e de quem fala Gonzaga na sua peroração: de literatos e de choques de opinião que se revelam em ações contrapostas de classes sociais. Desde o escrivão Isaias Caminha à revolução comunista dos barbudos cubanos, que chegou ao meio-fio de sua calçada em 1959, a vida de Gonzaga tem sido coisa mesmo de literato, não diria engajado, dada a sua eufêmica significação, mas marxista no duro. Este papel inelutável está reservado a indivíduos como ele, cuja clareza de idéias cultivada na prática literária o fizeram mestre e doutor.

Assim, por iguais caminhos, de indagações pessoais nasceu o documento produzido pelo mestre padre casado Manoel Batista, e publicado pela UNIPÊ. Uma percuciente análise de idéias políticas de índios da tribo dos potiguares (Pedro Poti, Felipe Camarão e Antonio Paraopaba seqüestrados e jogados presos em Amsterdam), revelados em três cartas-documentos, que tratam da Guerra Holandesa (Inssureição Pernambucana), que me chegou às mãos, por oferta do honoriano José Octávio. Na realidade, além de interesses político-comerciais, os textos intuem expressão religiosa que colocava em campos opostos, ainda pela fé que professavam portugueses católicos e batavos calvinistas. Coisa boa de ler, pelas fontes pesquisadas, levadas ao público, pela aguda análise e exposição do autor professor Manoel Batista.

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Eis-me de novo assoberbado pelos fatos do dia. Difícil sair da fazenda, transitar em veículos por estradas abandonadas ao longo do tempo, na verdade destruídas pelo uso frequente e pela má conservação. Praguejo. Quando viajava a cavalo, tornava-se fácil usar veredas e desvios para evitar os buracos, os atoleiros. Esse tempo passou. Que fazer?

Acode-me e socorre-me a advertência de Alfredo Bosi, mestre da literatura, numa citação de Gramci, no seu “Cultura Brasileira – Temas e Situações” (Ática  2006). Transcrevo-a: “O começo da elaboração crítica é a consciência do que realmente somos, quer dizer, um conhece-te a ti mesmo como produto do processo histórico desenvolvido até agora, e que deixou em ti uma infinidade de marcas recebidas, sem benefício do inventário. É preciso efetuar, inicialmente, esse inventário”. 

Tenho dito! E compilado!

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A criação extensiva dos rebanhos com a fartura da alimentação propiciada pelo inverno, anuncia lucro à vista. Pequeno e superável incidente, todavia de pouca monta, nos atormenta: a morrinha trazida pela friagem e alagadiço, que dá origem a mosquitos e infecção nos cascos dos bichos que perdem peso, diminuem a produção de leite. E o que é pior, a invasão do mercado com carnes tratadas e embaladas higienicamente, vindas de outros centros privilegiados de criação de gado, dificulta a comercialização do produto local vendido em bancas de açougues. Oferecidas como se vende picolés em cada esquina, protegidas pelo governo, as mercadorias de fora dominam a cena. A moda e a exigência do frigorífico trazem obstáculo impossível de superarmos, numa região onde poucos trabalham e todos consomem como usuários de cartões bancários. Tal prática inescrupulosa do governo Lula, submisso ao mandamento neoliberal-global que o orienta, propicia o gasto até a exaustão – rotulados sub prime pelos economistas esti-pendiados de plantão –, e que levou a derrapar a economia yankee, e de cambulhada a do mundo todo.

Mas uma voz mais alta se levanta nos EUA, do Leste ao Oeste, do Pacífico ao Atlântico. Voz que elegeu um presidente, e deve servir de advertência ao aquinhoado negro Barack Obama: a grande Voz da Nação que reivindica e impõe novos costumes à sociedade e novo modelo ao Estado Norte-Americano.

Eia! A hora é chegada.

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Chove ainda no sertão. São João / São Pedro, 2009