Diário da Fazenda
SOBRE A ORFANDADE DOS HOMENS
(Diário da Fazenda)
Ah! Este alpendre e esta rede!
“... e renasce todo um mundo lá atrás”
Com estes versos anima-se o poeta Bruno Tolentino em “A Imitação do Amanhecer”, alentada obra de reflexão e realização poética, contruída laboriosamente em 538 sonetos-estrofe, “dispostos em seqüências temáticas encadeadas”, como esclarece o comentarista-anunciante-editor (Globo 2006). E sonetos perfeitos, petrarqueanos, como se diz.
Que nos resta a nós homens e mulheres no mundo? Fugir do futuro que nos envelhece, nos encaminha para a morte a cada segundo que passa – e isto não desejamos, a isto nos recusamos inegável-mente. Salva-nos, o fingimento da auto-análise, que outra coisa não é que o mimetismo natural dos irracionais, na luta pela sobrevivência no ambiente adverso, em face de predadores. Os suicidas buscam a vida: outra vida noutro lugar.
Um imperativo a decifração desse flash-back interativo, que re-vela a orfandade da condição humana, que nos ocorre a cada momento em relação ao momento anterior. Explicações ao gosto filosófico ma-terialista, idealista, em prosa e verso constituem a extensa e ines-gotável saga, a tralha das sucessivas diásporas na humanidade.
Não insinuo leviana e maldosamente a inutilidade de Sócrates, Platão e Aristóteles, de Nietsche e Mathias Aires. De Santo Agostinho e Camus, de Marx, Hegel e Claude Levi-Strauss. De ninguém, de nenhum dentre eles e outros. Cada um com os seus apólogos, re-ferenciados no mundo lá atrás. Outros virão. Tiremos as nossas conclusões, busquemos no passado que o futuro nada revela, e logo se esvai. Esta a minha certeza.
*
“E um dia hei de morrer eu também. Totalmente”.
Lamenta-se e adverte ainda Bruno Tolentino, polemista erudito – que “ensinou literatura em Oxford e Bristol, na Grã-Bretanha... reconhecido também por Antonio Houaiss, João Cabral de Melo Neto e José Guilherme Merquior” –, na abertura de mais um soneto. Verso magmático, despoético como alguns de Guimarães Rosa à guisa de cantar sertanejo (mineiro), como os agalopados na construção de uma cantata-sertaneja (nordestina) ensejando teorias políticas e retaliadoras de Ariano Suassuna. Whitman e Baudelaire, feias criaturas: os seus versos urdidas partituras. Todos as conhecem. Mimeses irretocáveis.
Os poetas são seres abomináveis (miseráveis filósofos), cada um a seu modo. Existem os adoráveis, serafínicos, que nos dão a mão, nos puxam para trás, que por um instante nos reconciliam com o mundo e com a vida, em face do memento na solução da hora final.
“Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!”
Desconheço memória mais trágica em toda poesia do mundo. Esta a inglória-glória de Casimiro de Abreu. Certamente os homens ameaçados assim entenderão. Eis o que pacifica o meu raciocínio. Como sempre se sustentando nas conclusões de profundas meditações, de vivências alheias. Encontrei em Brito Broca a infusão narcótica deste bálsamo: “A hipocrisia reveste-se às vezes de formas tão simpáticas, determinando efusões tão cativantes, que chega a confundir-se com a sinceridade”. Hoje, para mim um mentor amigo, porque ele mesmo diz que a inteligência cria amizades mais duradouras que o coração. Batemos assim, a nossa rota batida. Impossível fugir e fingir.
*
Escuto ruído de cavalo em passo de estrada, ainda distante de casa. Não me surpreendo, pois ainda cavalgam velhos ser-tanejos, os que não adquiriram camionetes e não sustentam o guidom de uma moto. Imagino sobre o visitante: se de passagem ou a negócio. Avisto adentrando o pátio o negro do cabelo macio Zé Bululu, namorador, montando um cavalo enfeitado de arreios caros. Meu amigo e cliente de negócios de compra venda e troca de bichos. Decente e sabido, amigo de muito tempo quando tra balhou para mim pegando boi de carreira, ganhando por dia de campo. Idoso, hoje viúvo passando dos setenta, alto, esguio, continua freqüentador de festas, exímio dançarino de dança agarrada ( não pelo agarrado) pelo costume do seu tempo que lhe ensinou os passos, os volteios que o tornaram conhecido a cada vez.
Gosto de sua visita, de sua presença no alpendre, aprumado, sentado numa cadeira de balanço ou derreado numa rede com as pernas cruzadas, ao meu lado. Fala do comércio de gado e de outros assuntos do momento. Bebe o café quente que a em-pregada lhe traz, tira do bolso o pacote de fumo brabo picado, pede palha de milho, enrola o cigarro, aciona o isqueiro e começa a soltar baforadas que não me incomodam, pelo contrário, me agradam pelo cheiro forte do fumo que fui obrigado a deixar com saudade, e não tenho coragem de tornar a praticá-lo, outra vez.
Entre uma frase e outra no meio de uma transação, per-guntei-lhe certo dia, se ele ainda pensava em casar, e ele com muito humor, respondeu:
– Tenho sempre alguma coisa em vista. Agora lhe digo doutor, homem da nossa idade não deve procurar moça nova.
Corrigiu-se educadamente:
– Falo por mim. Melhor mesmo é a coroa. A moça combina e não comparece. A coroa espera no meio da capoeira, escondida no capim matando borrachudo e dando tapa em muriçoca, e não sai. Respeita o trato.
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Sertão. Inverno terminado.Junho 2009.
Escrito por Eilzo Matos às 14h27
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