Diário da Fazenda
LULA E OSWALD DE ANDRADE
(Diário da Fazenda)
Tarde de domingo, os moradores batem a pelada no campo ao lado da casa do vaqueiro. Muitas vozes e gritos entusiásticos. Bebo o café novo, quentinho, isolado no alpendre, o olhar atento para o que acontece ao meu redor. A empregada, como sempre, fica em pé ao lado, esperando para duas palavras, para voltar com a xícara para a cozinha. Vivemos sozinhos, semanas inteiras, as famílias morando na cidade. A casa vazia de pessoas e de ruídos às vezes torna-se soturna, guarda sombras. Mutuamente nos ajudamos, entretanto, trocamos informações sobre assuntos próprios da vivência doméstica, da vida em derredor. Mas cantam passarinhos, os bichos do terreiro, a criação da fazenda, se mostram nutridos e sadios no pátio, no curral, nos chiqueiros.
O inverno se aproxima do fim, com regularidade, chuvas pesadas, sem os prejuízos que, lamentavelmente acontecem em outras regiões do país, mostrados na televisão. Pois bem, nessa área menor, correspondendo a um milionésimo no percentual da área do sertão paraibano, vivemos este momento de paz e de satisfação.
Entro, então, na aferição mental de rendas e ganhos. Pouca coisa é verdade, que a atividade na agricultura e pecuária por aqui, resume-se ao uso da enxada e da corda de laçar. Impraticável a mecanização numa região de serrotes, lajeiros, escassez de água, que não permitem instalações de alto custo. Rende, contudo, alguma coisa, convenhamos. Ah! Vidão! Ou, Fuja daí! Alguém dirá.
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O que é bom dura pouco, adverte a sabedoria popular.
Algo me chama à razão, ao ver aquela gente quase feliz: a consciência de que existe o mundo das batidas policiais, de domicílios pobres e imundos varejados, desrespeitados na sua privacidade; dos assassinatos, dos tiroteios, dos incêndios propositais criminosos, das balas perdidas, do desemprego, dos doentes sem atendimento médico-hospitalar, das estradas intransitáveis, das escolas sem professores habilitados, das aulas improvisadas, suspensas, da entrega dos negócios nacionais à ganância e gerência alienígena, que se farão sentir inevitavelmente. Pouco se fala de uma guerra ali, já na próxima curva da estrada. Existe também o empobrecimento do país, o esgotamento de suas potencialidades agro-minerais, destruição do meio ambiente, negado pelo governo e pela mídia que falam em riqueza, em liquidez financeira. E nos espoliam cinqüenta e sete tipos de impostos, juros de uma dívida de um trilhão e seiscentos bilhões de reais a juros de mais de dez por cento. É muita indignidade mesmo. Para onde estamos sendo arrastados? Que fazer?
Como democrata penso logo nas eleições, e recuo. Elas trouxeram o governo FHC que se consumiu em atentados à dignidade da república, na consumação de crimes de lesa-pátria. Chegamos a Lula que, seguindo a linha infeliz do governo que sucedeu, fez desaparecer no cidadão a consciência da honra pessoal e do patriotismo como sentimento maior de todo cidadão em qualquer lugar no mundo. A distribuição indiscriminada de cartões bancários, tornou todos consumidores, e o presidente garante que ninguém irá dormir com fome. Lula na infância chegou a dormir com o estômago vazio, e sabe que tal fato leva ao revanchismo ou à acomodação com esmolas. Esta a origem da criação da frase. Mas é preciso mudar.
Virei pessimista depois da derrota do socialismo soviético e do Leste Europeu..
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O caso do metalúrgico presidente é que ele, jogado no cenário do grande centro de desenvolvimento do país, saiu da precária condição de miserável, de vendedor de pipoca para a de trabalhador profissionalizado. Arranjou emprego e passou a desfrutar do peleguismo sindical, da dispensa do expediente e do trabalho diário. Carente de consciência política tornou-se um oportunista, formou a sua personalidade aproveitando-se do falso intelectualismo de militantes de graduação universitária, preguiçosos, presunçosos.
No esquerdismo desprovido de convicções socialistas, no embate envolvendo patrões e trabalhadores, estes são jogados para uma militância que se tornará meramente oportunista. Lula afirmou e a imprensa nacional divulgou com muito destaque sua indiferença às teses esquerdistas e qualquer ligação com o partido comunista. Cuidava da defesa do direito dos trabalhadores. A evolução e formação de sua personalidade, revela-o um homem sem idéias próprias, estabelecidas no campo da política e da administração pública. Descobriu o jeito de “jogadas” aprendidas no sindicalismo do ABC, que o projetaram, o fizeram presidente, e ele gostou, mesmo manietado pelo G8, cedendo às imposições dos corruptos do PT e de outros partidos que formam a sua base de sustentação no governo. Assim garante o seu emprego, a manutenção da família. Por enquanto. Algo parecido aconteceu com Oswald de Andrade que revela nas palavras introdutórias do seu romance “Serafim Ponte Grande”:
“A situação ‘revolucionária’ desta bosta mental sul-americana, apresentava-se assim: o contrário do burguês não era o proletário – era o boêmio! As massas ignoradas no território e como hoje, sob a completa devassidão econômica dos políticos e dos ricos. Os intelectuais brincando de roda. De vez em quando davam tiros entre rimas... Com pouco dinheiro, mas fora do eixo revolucionário do mundo, ignorando o Manifesto Comunista e não querendo ser burguês, passei naturalmente a ser boêmio”.
Mas teremos eleições, acredito. Não percebo nenhum “golpe” a caminho, em que pese a suspeita proposta do senador Collor de Melo de um terceiro mandato consecutivo para o atual presidente.
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Inverno chegando ao fim, afinando. 25 /5 /2009.
Escrito por Eilzo Matos às 20h30
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