Lula, os desabrigados e o cerimonial
SOBRE OS DESABRIGADOS, A LITERATURA
E O CERIMONIAL
(“Na pataca do zurave (usurário) Satanás tem catorze vinténs e vem buscar” – sentença da sabedoria popular)
Gosto de ver o presidente Lula, no seu pisar bamboleante de malandro, flexionando, jogando as pernas, com um discreto, mas perceptível gingado, olhando de esguelha, com um riso maroto que destoa do momento solene, muitas vezes. Objeto de ansiosa e curiosa observação, ele toma tento, sente-se perdido, gira um e outro braço dentro da manga do paletó, acoroçoado procura um bolso para enfiar a mão mansamente. Desiste do intento, agarra, abraça, dá tapinhas, cutuca, balança a cabeça como se dirigindo a um apostador numa parada de porrinha, no lado oposto da roda, num gesto suspeito, atento como numa briga de galos.
O povo o aplaude, sente-se nele representado, pois ele não é filho de empresário urbano ou rural, de alto funcionário da buro-cracia, da elite que ocupa as cadeiras dos três poderes da república como seus donos; fere, assim, o populacho, de morte, o ídolo e dado fundamental constitutivo do sistema capitalista que o oprime: a propriedade. Os cerimonialistas, os cultores de etiqueta, aplaudem contidos, com o olho nos negócios de Estado que permitem renda mensal generosa e boladas extras como a mega sena. Impossível esconder e negar tal comandita.
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A crítica social e também a estritamente política, constituem expressão filosófica da teoria do conhecimento, exercício incontor-nável na prática da literatura imaginativa e de sua interpretação, o que alguns acham fora do seu propósito. Eu, não. Assim na poesia, assim na prosa, como entendo e insisto. Razão, para mim, tem Álvaro Lins ao afirmar que o destino da literatura há de ser aquele de constituir-se em expressão – principal talvez – voltado para o debate e conhe-cimento dos problemas nacionais. Ele escreveu: “A mensagem dirigida pelo artista a todos e a cada um dos seus leitores, não há de ser apenas de conteúdo ou natureza estética, ela é de natureza humana, popular e social, como representação de indivíduo, de gru-pos e de povos, em estado de caracterização e nacionalização.”
Daí a minha insistente convocação para que os homens de letras (os jornalistas inclusive), os que se dedicam a arte, tenham viva na mente esta consciência do dever, da responsabilidade social, que se impõe a todos e deve orientar a cada um no seu mister.
Deixando de lado a demagogia, a pura fantasia e a mistificação, eis, portanto, a base que suporta a temática artístico-literária. Esta é a minha opinião. Constatamos a verdade dessa assertiva, nos docu-mentos que nos chegam desde o Velho Testamento, papiros egíp-cios, petróglifos e mais textos descobertos na vastidão do planeta terra. Tudo trata de vitórias e derrotas, de conquistas e fracassos, no amor, na política: invenção, imaginação, constatação em suma, segundo as regras do seu tempo, que os fatos e os escritos não caem do céu; sem ofensa a Deus, digo, nascem, têm origem aqui mesmo na terra. São fatos do homem.
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A reflexão acima, vem a propósito do que a imprensa nacional divulga sub-repticiamente, neste período invernoso de grandes chu-vas em algumas regiões do país. O noticiário fala de desabrigados, de pessoas infelizes, de estradas lamacentas, esburacadas e mais atro-pelos, fruto do fenômeno natural que determina a estação climática do inverno, eventualmente de precipitações abundantes, de ventos fortes. E o Congresso Nacional, em opiniões contrastantes, veemen-tes, trata do problema. É o que vejo na TV, a que dedico algumas horas na tranqüilidade da fazenda: governo de um lado, oposição do outro, como é natural verificar-se nas democracias parlamentares.
Mas constato que os problemas se abatem outra vez, repeti-damente sobre aquelas mesmas populações médias, pobres, mais vulneráveis aos efeitos da tragédia. Como negar? Esta a minha denúncia.
Imprevidência? Não. A verdade verdadeira mesmo, é que esses desabrigados sempre foram pessoas infelizes, deixadas ao desam-paro pelo governo, que moram em terrenos alagadiços, em palafitas, no sopé de barreiras infiltradas de lama e de água das chuvas, gigantescas rochas penduradas por um fio, que desabam inevita-velmente; ou pequenos comerciantes que impossibilitados de se estabelecerem nos shopings burgueses, fixam-se à margem de es-tradas, de rios e riachos que cortam cidades, de ruas baixas com bueiros entupidos. É o que lhes sobra na solitária aventura “severina” da vida urbana, como diria João Cabral de Melo Neto, mutatis mutandis.
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Qual a solução encontrada, anunciada para problema tão grave? Nenhuma, além de alguns colchonetes e cestas básicas, a suspensão de aulas na rede escolar pela ocupação das salas pelos desabrigados.
Depois do alívio momentâneo, de socorro meramente paliativo, oferecido à crônica situação de pobreza e miséria em que vivem, as vítimas desaparecem misteriosamente. Emudecem? Não. Recolhem-se a moradas eventuais? Fogem? Não. As tevês e os jornais, que se proclamam a voz dos excluídos e dos desassistidos silenciam sobre elas. Fizeram a sua parte, denunciaram o fato, escandalosmente, possibilitando julgamentos. Evitam o assunto. Já receberam o paga-mento pelos elogios feitos, insinuando e qualificando figurões bem remunerados da administração pública, de benfeitores desinteressa-dos, dos que sofrem com tais contratempos. Conhecem o mundo onde vivem à farta os aloprados do PT, os beneficiários do Mensalão que sustentam politicamente o governo que os subsidia.
Partem para a propaganda. Falam agora que Lula pagou a dívida do país (no inicio do seu governo devíamos seiscentos bilhões); hoje somos devedores, na verdade, de um trilhão e seiscentos bilhões de reais que custam um juro anual de perto de duzentos bilhões, que pagamos aos agiotas que o sustentam no cargo. É ele na verdade o “Cara” do peito dos usurários, dos banqueiros. Para os desabrigados, só o que sobra do banquete dos felizardos. Mas tudo está às mil maravilhas para os aloprados e os seus patrões. A amazônia pega fogo, arde em chamas? Recrudescem doenças e surtem endemias desaparecidas? E a guerra civil que alcança todas as regiões do país? E a educação?
“ – Deixa pra lá! – brada Lula com o seu grito de capataz enraivecido, o dedo em riste, andando de um lado para outro quando fala. – Somos ricos com o Pré-sal! “
Eu, por mim, advirto:
“ – Cuide-se Presidente. “Na pataca do zurave (usurário) Satanás tem catorze vinténs e vem buscar”. (sentença da sabedoria popular).
Todavia o povo se anima e alguns o aplaudem. Têm vivido sempre com o que arrancam dos ricos, com o que pinga sempre no seu chapéu de pedinte. Não trocarão o certo pelo duvidoso.
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A propósito de literatura – como falava inicialmente – entendo que, de Homero a Camões, de Cervantes a Ariano Suassuna, esta-beleceu-se em termos retóricos e informativos sobre o indivíduo e o Estado, um interminável debate de teor poético lírico e épico. E entregue a reflexões de tal forma singulares, chego a entrever em cada episódio grotesco patrocinado pelo Governo Lula, no teor estapafúrdio dos eventos, uma cena de mamulengo, predominando sempre, como numa advertência, a bravura e a retaliação.
O caso é que, os mulatos Machado de Assis e Lima Barreto, nas suas criações romanescas, mostram a quanto leva a esperteza e até a obnubilação de alguns, valendo-se da boa fé dos cidadãos. Assim em “O Alienista” e “Bruzundangas.”
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Muita chuva. Sertão se desmanchando n’água. 13/5/2009
Escrito por Eilzo Matos às 11h42
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