Diário da Fazenda
LULA, O PASTOR MALAFAIA, A FERRA E APARTAÇÃO DO MEU GADO
(Diário da Fazenda)
Acordei com gritos possessos na televisão que fora ligada logo cedo pela minha mulher. Incomodado imaginei de imediato uma ocorrência muito grave para tal alarido, receoso que também nos envolvesse. Nada de maior importância. Era o pastor Malafaia em horário comprado, histérico, colérico arre-cadando dinheiro para a sua igreja, ameaçando pessoas indefesas.
A manhã, para mim, revelava a agitação normal nos dias de vacinação, ferra e apartação de gado na fazenda. O vaqueiro depois de idas e vindas de sua casa para o curral, procurou-me para autorizar e presenciar o desenrolar dos trabalhos.
Ali estava eu na “imensa campina, que se dilata por horizontes in-findos, (e) é o sertão de minha terra natal”. Recorro à suavidade da prosa de Alencar para falar da minha vida, pouco atraente, passados quase dois séculos da emotiva descrição do romancista cearense. E quanta diferença na prática e nos costumes entre as duas épocas.
Identifico-me entre aquelas pessoas prejudicadas, segundo adverte Brito Broca, pela “ausência de unidade e critérios mais justos no seu julgamento crítico, pelo prazer da divagação”.
Volto atrás. Nem tanto. A verdade é que aos produtores autônomos, entre os quais me incluo eventualmente, resta a submissão a cláusulas “pétreas” e desleais fixadas pelo Estado para sua inclusão no sistema pro-dutivo nacional. Só nos cabe rememorar, divagar, rebelar-se, que a de-mocracia que se pratica entre nós privilegia exceções, é a dos ricos.
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Algum tempo atrás, aparecia mais gente nessas reuniões, atraída pela animação de encontros e reencontros, anedotas, farta mesa de coa-lhada, cuscus de milho, corredor e costela de boi, pirão, para o “lanche” do pessoal que traquejava as reses, reunindo-as, apartando-as, laçando-as, arrastando-as para imobilizá-las no mourão fincado no centro do curral. Usavam cordas de laçar resistentes, jungindo os animais, em peias, ma-cacos e nós variados que afrouxavam e corriam, quando necessário, ou os chamados “nó-de-porco” (de marinheiro?) que não desatavam, apertavam à medida que mexiam no entrelaçamento das cordas, e permitiam o trabalho seguro da vaqueirama. Hoje disponho de currais travejados e brete. Tudo fica mais fácil de fazer. Não discuto lucratividade.
“As vaquejadas do gado bravio, ou montearias como ainda as chamavam à moda portuguesa e clássica, assinala Alencar, pouca diferença tinham quanto ao modo das que se fazem ainda agora no sertão, durante o inverno e depois. Naquele tempo é certo que o gado barbatão multiplicava-se com prodigiosa rapidez; e os vastos campos incultos, bem como as florestas ainda virgens, ofereciam às manadas selvagens refúgios impe-netráveis. Daí provinham essas famosas correrias tão celebradas nas can-tigas sertanejas, e nas quais vaqueiros gastavam semanas e meses à caça de um boi mocambeiro, que perseguiam com uma tenacidade incansável, menos pelo interesse, do que por satisfação de seus brios de campeadores”.
A paisagem é outra. O gado diminuiu. A pobreza ronda ameaçadora. O povo mudou-se para a cidade, com a bodega a dois passos, cesta básica, bolsa família, radiolas e bandas com música da moda e do momento. Encontrou apoio financeiro para se livrar de patrões ranzinzas. Asseguram, todavia, os senadores Jarbas Vasconcelos e Mão Santa, que os cidadãos são mero objeto e vítimas de um programa imoral e oficial de compra de votos, de um patriarcalismo esperto que dá com uma mão e toma com a outra...
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No mundo todo é assim, daí a validade de conclusões que estudiosos indentificam no comportamento da população, e as enunciam como leis de natureza científica. Vi em documentários na televisão, situação semelhante em regiões vinícolas de Portugal e da França, com a falta de mão de obra para a realização da vindima, a produção dos vinhos, champanhes e conhaques famosos que provamos ou de que ouvimos falar.
Nenhuma acusação faço ao presidente Lula em relação ao êxodo dos nordestinos do campo para a cidade. É coisa velha. Mas uma advertência sobre a ausência de qualquer ação do seu governo, que trate da qualificação dos que mudam de residência, muitas vezes atraídos pelo oportunismo de ONGs que recebem dinheiros públicos para programas deixados de lado, na realidade condenáveis factóides.
E as pessoas, desqualificadas profissionalmente, são levadas na pura enganação. Reagem apelando para a fraude mais disseminada e variada no comportamento social sob a forma de protestos, numa conduta irresponsável e simplesmente reivindicativa. Assim os presídios se multiplicam. Assim a guerra civil está à vista de todos no confronto violento que envolve autoridades e cidadãos.
A propósito, em razão da citação do romancista de “Iracema”, entendo que devemos nós paraibanos, prosseguir na renovação da temática romanesca nordestina, iniciada por José Américo em “A Bagaceira”, abandonarmos o artificialismo retórico do regionalismo, e prosseguirmos na discussão das grandes teses do nosso romancista, maior entre todos do Nordeste, Zé Lins do Rego nos seus romances do Ciclo da Cana de Açúcar.
“Não se trata de submeter a estética ao social; o artista se realiza, naturalmente, no plano estético, mas como não é uma abstração, é um homem – criatura de carne e osso ligada aos problemas inerentes ao meio em que vive – tem que refletir na obra esses problemas.” Assim escreveu o acima referido Brito Broca em breve ensaio a respeito de “Posição e Tarefas da Inteligência” de Astrogildo Pereira.
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Sertão. Inverno bom. Sigo para rever amigos na capital. 19/abril/2009