Semana Santa
NENHUMA TESE – PURA MEMÓRIA
quem toca sino não acompanha procissão
(Diário da Fazenda)
Desde a mais tenra idade – ainda criança de colo, escutava o ronronar e o ecoar de orações e de cânticos, o desenho e o traçado de linhas ordenadas roçando na pele, que representavam sinais. Era o comportamento religioso próprio das pessoas naquele tempo, que foi, de certo modo, o princípio do tempo de cada um. E muito antes, ainda na vida intra-uterina – acreditando no que afirma a medicina de hoje, numa anamnese que reflui dos computadores – escutávamos tilintar de campainhas, distinguíamos cheiro de incenso. Por que não? Estes e demais expressões do relacionamento materno/filial, cons-tituíam por si sós, atos e eventos de cunho religioso, calcados precisamente nos ensinamentos bíblicos, na palavra de Deus revelada aos seus Profetas e Apóstolos.
Comecei, a freqüentar a Igreja Matriz de Sousa, minha cidade de nascimento, levado pela ama da casa dada a espairecer em qualquer ambiente; ou perfumado e penteado, vestido ricamente pela minha mãe, vaidosa, para o cerimonial que admitia tal exibicionismo, na imponente e gigantesca construção, cheia de gente, que dominava a praça que deu origem à povoação. Chegou a hora, finalmente, de receber aulas de catecismo ministradas na nave central do templo, pelas idosas senhorinhas Gerônima Ribeiro e Milu Fontes, das mais importantes famílias da terra, que pertenciam à Irmandade das Filhas de Maria, com os seus laços de fita azul-claro. Esporadicamente o vigário aparecia para rápida argüição sobre o nosso aprendizado. Relembro a cabeça branca do cônego José Viana, de quem os impenitentes Pordeus e filhos do maestro Nicodemos, entre outros, zombavam e criavam anedotas imitando a sua péssima dicção, deixando dúvidas sobre comentários nos sermões das missas costumeiras; o padre Oriel que condenava ao fogo do inferno as costureiras que faziam vestidos e blusas sem mangas, ditas “mangas japonesas” que as moças usavam deixando os braços desnudos; ainda refiro o chamado “politiqueiro” padre João Cartaxo Rolim, meu parente, um avançado para a sua época, apoiando a luta pela sin-dicalização dos trabalhadores rurais. Coisa de comunista, diziam.
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A agitação e os preparativos para externar sentimentos e atos revestidos de fé católica, apostólica romana, na minha casa, começavam pela proximidade da igreja a dez passos, do outro lado da rua, portas fronteiras, nas nossas idas e vindas constantes. Ricos tecidos de seda colorida, de linho branco en-gomado, bicos, rendas, madeira torneada, imagens em moldura e estatuetas de santos, artísticos castiçais, construíam altar simbólico armado numa das janelas que davam para a rua, para a visitação das procissões que paravam para reverenciar o monumento votivo. Um destaque local.
Com outros meninos eu brincava e corria nas vastas calçadas que circundavam a Matriz. Crescido já, respeitosamente adentrava o templo deserto, com os companheiros e vizinhos de rua, benzia-me contritamente diante do altar-mor e nichos outros, alcançava a escada e assomava o coro somente freqüentado em missas solenes, com a presença de cantantes, quando era acionada a serafina. Não galgava as torres como outros mais afoitos o faziam. De janelas no elevado pé-direito, descortinava casebres de taipa afastados do centro da cidade, onde moravam famílias pobres, e a paisagem de fazendas encravadas nas várzeas e serrotes, cobertos de juazeiros, oiticicas, carnaubeiras, madeiras nobres e arbustos: ao nascente as terras dos Elias, dos Sá, dos Queiroga, no poente as terras dos Pires, dos Estrela, ao norte e ao sul as dos Pinto, Gonçalves, Vieira, Rocha, Mariz, Pordeus...
Perdia-me em sonhos, sem indagações.
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Ah! Como povoam a minha memória tais lembranças. A Semana Santa, então, que a Madre Igreja comemora com maior ênfase (hoje quase festivamente com iguarias raras) do que outras datas, o Nas-cimento, por exemplo, sentia de perto no comportamento doméstico, com a cobertura dos santos com tecido roxo, entre o Domingo de Ramos e a Sexta da Paixão e Morte do Senhor, quando se impunha o negro do luto. Assim era no interior da Matriz. E o aprovisionamento da despensa para oferecer o “jejum” aos pedintes: bacalhau, sardinhas, cereais. Orgulhava-me da prática que ditava a Fé. Os sinos, então, sabia o que anunciavam. Hoje mal podem ser ouvidos, sufocados pelos ruídos infernais e medonhos de motores e buzinas de veículos, que também movem indústrias, acionam trovejantes “serviços de som”. Funcionavam como relógio que marcava e informava horários, sobre os acon-tecimentos: as chamadas para a missa, a novena, o lúgubre anúncio de morte. Dobravam finados gravemente, pausadamente em bemol, para os adultos; repicavam como campainhas, em sustenido, quase alegremente o passamento de crianças que subiriam ao Céu.
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Refiro finalmente o bater das matracas. Estranho instrumento, para mim. Não procurei saber por que calavam a nobreza, a beleza dos sinos naqueles dias. Fato curioso. Descobri na internet uma explicação razoavelmente convincente: “E os sineiros, guardiões dessa peculiar forma de comu-nicação, em suas sucessivas gerações, anunciam e pontuam diversas ocasiões com seus festivos repiques ou lúgubres dobres. Do alto dos campanários delas participam à distância, anonimamente. Afinal de contas, quem toca sino não acompanha procissão”(Google)
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Assim o meu destino, vivendo hoje entre os simples de idéias, mas lógicos no comportamento, explica a coerência imperturbável do Cosmo. Os meus momentos existenciais entre iluministas e marxis-tas, levam-me a relatar lembranças, que não se pejam de citar o nosso Euclides de “Os Sertões”, quando afirma no seu “À Margem da História – Estrelas Indecifráveis”:
“Conta-nos São Mateus daqueles três reis magos, que abalaram de seus países em busca do Messias recém-nado, conduzidos por uma estrela extraordinária que, impre-visamente, resplandeceu na altura, em plena luz de um firmamento claro. Não critiquemos impiamente, a narrativa singela do primeiro evangelista. Justifiquemo-la”.
Na objetividade de suas observações, o trágico esteta-cientista que só tinha com-promisso com a verdade, apoiava-se na melhor ciência da época, como afirma o professor Rolando Morel Pinto, um estudioso de sua obra. Explica-se a citação.
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Sertão. Inverno. Semana Santa 10/abril/2009.
Escrito por Eilzo Matos às 19h26
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