Pombal

STALINISMO EM POMBAL – A MÁQUINA DO MERCADO E AS DESIGUALDADES CIDADÃS

Para onde estamos sendo arrastados?”  -  Ferreira Gullar  

      I

         Vamos aos fatos, reais e recentes.

Aconteceu aqui mesmo em Pombal – romântica, letrada e trágica pátria de cientistas, políticos, magistrados e cangaceiros de renome estadual, nacional e também internacional: Arruda Cama-ra, Celso Furtado, Rui Carneiro, Antonio Elias, Jesuíno Brilhante, para só falar nestes mais destacados, cuja memória resta cons-purcada cruamente. Poucos ainda conhecem e falam da lendária Maringá. Agora estão na moda a “calcinha preta” e a “dança da garrafa”.

A verdade verdadeira é que a economia, que governa a sociedade é ciência simples no enunciado de suas regras, que podem ser entendidas em operações aritméticas sem termos ocultos: cinco com cinco igual a dez; dez menos cinco igual a cinco. Retrucam com a técnica fraudulenta de cassino e de roletas viciadas, explicando a pobreza e a riquezas das nações (e das pessoas). Mera intrujice. Somos, efetivamente, meros protago-nistas de uma “servidão financeira” como ensina uma PHd da USP.

O Velho Arraial de Piranhas dos historiadores Antonio de Sousa e Wilson Seixas, reproduz em favor do Mercado, métodos arbitrários adotados na URSS stalinista onde ocorriam expurgos nos escalões governamentais, populações inteiras eram expatria-das, desterradas sem direito de protestar, de se defender no ina-lienável exercício da cidadania. Repito que assim tem acontecido em Pombal, na nossa Paraíba.

Cabe à população do Distrito de Várzea Comprida dos Lei-te, do município de Pombal, vítima de inominável e revoltante agressão, levar ao conhecimento do mundo o que é praticado na república apelidada democrática/liberal de Lula/FHC (impossível separar os dois). As autoridades passaram a considerar um es-torvo, assistir administrativamente área situada a tal distância: trinta quilômetros do seu centro de atividades. Precisavam baixar os custos e aumentar os lucros. Assim fizeram.

Não se sabe mais de filhos de Várzea Comprida. Foram dis-persos mundo afora. Onde estão? Onde moram? Em Campina, em São Paulo? Que importa. Tomaram-lhes, vedaram-lhes a identi-dade do nascimento, num novo Holocausto. Sem protesto, sem reação visível eles restam emparedados em favelas nas cidades. Mas a hora é chegada.

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O distrito citado, de vibrante história nos fatos de sua exis-tência como unidade urbana, e de alta produtividade na área rural, destacava-se como possuidor de numerosa e vigorosa população humana, líder no estabelecimento de engenhos de rapadura; pro-prietários de famosos animais de carga e passeio, de extensas áreas cobertas de oiticicas, carnaubeiras e plantadas de cana, al-godão, milho, feijão, gergelim, arroz. Pastavam ali rebanhos de gado vacum, de ovelhas e cabras, sustentadas por uma população ativa e briosa. Espantava pela sua riqueza. Na sua bela igreja dobrava o bronze sagrado nas festas religiosas, no chamado para as missas e novenas que cheguei a freqüentar. A praça e as ruas enchiam-se de gente nos dias de eleição. Realizavam-se cantorias de violeiros famosos. Ainda se encontrava no fundo das malas documentos (requisições, salvo condutos) lavrados pela Coluna Prestes quando por lá passou. Tudo se foi. Como? Alguém pode perguntar.

O eleitorado foi transferido (ex-oficio) na sua totalidade para a cidade que se renova e embeleza – tem até academia de letras. Todo e qualquer serviço público, entretanto, foi fechado no distrito. O recebimento dos benefícios sociais e o cumprimento de obrigações fiscais da população são feitos obrigatoriamente na cidade. Não existem escolas. As autoridades não podem se cansar. O povo sim. A zona urbana semelha as “cidades fantasmas” do oeste americano, e a zona rural arruinada está despovoada.

Fala a demografia, como ciência da população, de leis que tratam do vazio econômico e da atração que exerce a cidade sobre a população rural. Pouco influíram, tais requesitos doutrinários no destino de Várzea Comprida. Em Pombal anteciparam-se os lideres do Mercado. Desterraram uma população inteira sem consulta e mediante pressão.

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Agendei com o professor Martinho Salgado, da UFCG – pombalense de nascimento e benemérito cidadão sousense re-conhecido por lei –, reunião ampla que ele deverá coordenar, com a necessária presença de autoridades administrativas executivas e parlamentares, judiciárias, instituições civis, militares e religiosas para discutir o tema, fazer justiça e permitir o regresso dos ba-nidos, a retomada do progresso local sustentável. Uma anistia necessária e reparadora, pacificadora de espíritos que sofrem a saudade do torrão natal, a perda de sua memória, dos seus bens. (continua no próximo comentário).

............... Sertão, inverno criador. 29/3/2009 ................