 |
|
|
Cassio e Maranhão
SAI CÁSSIO, ENTRA MARANHÃO
Eilzo Matos
Nada de novo na política da Paraíba.
Praticamos os métodos adotados pela República Velha, que vieram com o Descobrimento, dominaram a Colônia, o Império e... senão, vejamos na impávida república brasileira, o desempenho, o sucesso das famílias Maranhão e Cunha Lima – que estimo –, no momento as mais notáveis, e outras menos influentes, na Paraíba, inabaláveis, inalteráveis na sua intransi-gência e arrogância feudais.
São os modernos castelãos, falando em ética repu-blicana, que estão contraditoriamente na moda. Caem e se levantam. Também acontece nos EUA. Fruto da democracia-monetária. No Tesouro está a sua força.
É conservadorismo e esperteza pra valer mesmo! A propósito, afirmou decepcionado certo prócer político con-terrâneo (talvez o deputado federal José Joffily), chocado com a presença e o domínio absoluto das velharias incompetentes e reacionárias entre nós: “A Paraíba pode até viver sem governo”.
Dava e ainda dá para acreditar.
Não que os citados homens públicos representem, eles próprios “velharias incompetentes”. Pelo contrário. Anunciam governo pluralista e democrático – que alguns afirmam ser o conteúdo da própria democracia. Mas como cada um tem “os seus”, miram-se no exemplo corrente e criam os seus núcleos duros de aloprados. Colocam amigos no governo, negociam o patrimônio público, integram o Estado no embalo do “cres-cimento sustentável”, segundo afirma a mídia do jabá.
Afinal outros assim o fizeram, dando o seu tom pessoal, de sua concepção doutrinaria e filosófica sobre os fins do Es-tado: Osvaldo Trigueiro, Rui Carneiro, João Agripino, Tarcisio Buriti e Wilson Braga. Para não ir longe nem usar língua estrangeira, usarei um asserto proclamado pelo sempre admirado Ernani Sátiro – meu contraparente mesmo a con-tragosto (irmão de Firmino primo legítimo do meu pai Tiburtino):
“Respeito os meus antecessores, mas meu governo não é papel carbono”. Manoel Gaudêncio, Valdir Lima e Assis Camelo, entre os vivos e Américo Maia entre os mortos, ouviram muitas vezes essa afirmação.
Poderia ele dizer com sobejas razões: “Tenho os meus planos e metas, e os meus amigos”, o que confirmaria ao longo de sua proveitosa gestão. Um homem sério. Um homem de bem. Todos, criaturas admiráveis.
E deixo claro que não é meu intuito lançar ofensas a pessoas de fino trato, com as quais remotamente convivi. E não sou de incomodar ninguém, especialmente quando me faltam status e atribuições para realizar despachos e audiências. Sou um apo-sentado geral. Maranhão passou oito anos no Palácio e na Granja e nunca botei os pés lá, apesar de pertencermos ao mesmo grupo partidário.
Guardo o devido respeito que os dois merecem. Aliás, quem sou eu, pobre sertanejo que enfrenta sozinho, a dura luta de tapar um açude arrombado no grande inverno deste ano, para serventia do gado e o plantio de vazantes dos moradores! Foram tantas as barragens que cederam à força das enchentes, que daria para criar associação ou movimento, pleiteando reparação como “os sem água”. Que fazer?
O problema é difícil mesmo. Escuto aqui no mato que a Paraíba está em guerra. Nós vivemos a nossa vida, entregues à nossa própria sorte. Não dá para notar. E não é a nossa guerra. É a guerra deles.
O único recurso disponível é o crédito bancário, que é fá-cil, mas o juro é caro no fim das contas. Foi-se o tempo de serviço bom e barato como do meu amigo Agenor Tropeiro, de Aparecida, que tinha um magote de jumentos e construiu, com a cabroeira alegre cantando cocos, açudes e barreiros na minha propriedade e por toda vizinhança.
O tempo urge, que janeiro está chegando com “o nascente trubado”, como diz o meu colega de mesa, poeta Amaro Vieira no Bar da Bomba (de gazolina), em São José da Lagoa Tapada. Que fazer?
...................................................................................
Peixe/Piranhas/Piancó. 25/11/2008
Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 14h11
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Prosa Caótica II, Cad (l988/2002) 10,11,12,13,
10
Continuo morando na fazenda, entre-gue a lembranças do passado, sem planos de-finidos para o futuro. Uma vida preguiçosa. Indisposto, e quase indiferente às pequenas ne-cessidades administrativas deste pequeno pa-trimônio que produz pouco resultado financeiro, vivo mesmo de rendimentos de uma aposen-tadoria no serviço público estadual.
Não posso esconder da minha cons-ciência, as marcas familiares e sociais deixados pela minha separação judicial. Entreguei à mi-nha ex-esposa, é verdade, quase tudo que pos-suíamos em comum. Tranqüiliza-me a sua si-tuação e dos filhos em relação às condições ma-teriais de vida. Em relação a mim, a falta de convivência no lar e na sociedade onde sempre vivi, dificulta o meu relacionamento, inibe as minhas ações em certos ambientes que passei a evitar. Sobrevivo, na solidão da fazenda, impon-do, tacitamente, aos que me visitam, gente pobre do campo, o teor das conversas. Procuro desem-penhar com eficiência as tarefas do meu projeto social. É a prática da teoria a partir da própria teoria.
A reflexão sobre o papel que desempenho no mundo e que não pode ser fruto do meu “livre arbítrio”, dissipa outras situações. Como frisei anteriormente, arranjei outra mulher e novos filhos que moram numa cidade próxima à fazenda. Criatura modesta, de família pobre de analfabetos operários rurais, ela trabalha no hospital do Estado em emprego que lhe arranjei. Amo-a e as crianças, habituei-me com as suas visitas, procuro fazer algo para garantir-lhes o futuro quanto à educação e alguns recursos e bens materiais, que poderão satisfazer precisões eventuais no decurso de suas vidas.
11
Descoberto o Brasil, os que chegaram para colonizá-lo, relata Darcy Ribeiro no seu O POVO BRASILEIRO (Ed. Schwarcz–Círculo do Livro, 1995), buscavam seus ganhos “em ouros e glórias, ainda que estas fossem principalmente es-pirituais, ou parecessem ser, como ocorria com os missionários. Para alcançá-las tudo lhes era concedido, uma vez que sua ação de além-mar, por mais abjeta e brutal que chegasse a ser, estava previamente sacramentada pelas bulas e falas do papa e do rei.” (pág. 44)
Mais adiante DR esclarece: “Apesar de o projeto jesuítico de colonização do Brasil nascente ter sido formulado sem qualquer escrúpulo huma-nitário, tal foi a ferocidade da colonização leiga, que estalou, algumas décadas depois, um sério conflito entre os padres da Companhia e os povoa-dores dos núcleos agrário-mercantis.” (pág.53). E continua na ob. cit:
“Nas tarefas da conversão do gentio e sua integração na cristandade, foram soldados princi-pais o jesuíta, o franciscano e o carmelita. Os ina-cianos, inspirando, apoiando, incentivando o braço secular para que, guerreando e avassalando, pusessem os índios, humilhados, a seus pés, dentro das missões.” (pág.60).
Esta questão, no tocante à chamada cate-quização dos silvícolas, como me ensinaram no colégio, trata, nas exatas palavras de Darcy Ribeiro de “uns santos homens (que), em sua alienação iluminada, continuaram crendo que cumpriam uma destinação cristã de construtores do reino de Deus no novo mundo, de soldados apostólicos da cristandade universal... o projeto jesuítico era tão claramente oposto ao colonial que resulta espantoso haver sido tentado simultaneamente e nas mesmas áreas e sob a dominação do mesmo reino.”(pág.54)
DR nos informa, ainda, detalhes da Nova Cruzada, em que os dois monarcas transformavam o episódio trágico e desumano da colonização do Brasil e das possessões de Espanha. E na riqueza de sua linguagem e estilo, o indigenista revela o espanto do nosso povo, transformado maldosa-mente em objeto de curiosidade e chacota vil, de exploração grosseira e execrável, de forma “que o índio passou a ser, depois do pau-brasil, a principal mercadoria de exportação para a metrópole.” (Newen Zeitung 1515).
12
Impõe-se uma palavra em defesa da nossa Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. A minha igreja, cuja prática social e cultural professo, é a única verdadeira e originariamnte cristã, fundada por Pedro, apóstolo de Jesus. Digo-o em desdouro das demais também ditas cristãs, de fato dissidentes, pelo primitivismo de seus apelos, obtusidade dos seus comentários e de suas interpretações bíblicas, no impossível escondi-mento do seu chulo oportunismo. Eterna a nossa igreja, como o próprio Deus, são eternas as suas oportunidades para a reconciliação, o cumprimento dos desígnios divinos. A conversa é outra.
13
É inegavelmente dolorosa a leitura do relato de DR na crueza de suas revelações: “Mais tarde, com a destruição das bases da vida social indígena, a negação de todos os seus valores, o despojo, o cativeiro, muitíssimos índios deitavam em suas redes e se deixavam morrer, como só eles têm o poder de fazer... Sobre esses índios assombrados com o que lhes sucedia é que caiu a pregação mis-sionária, como um flagelo. Com ela, os índios souberam que era por culpa sua, de sua iniqüidade, de seus pecados, que o bom deus do céu caíra sobre eles, como um cão selvagem, ameaçando lançá-los para sempre nos infernos.” (pág.43).
Os catequistas cerraram fileira: “figuras mais capazes de indignação moral, como Antonio Viei-ra, os jesuítas assumiram grandes riscos no res-guardo e na defesa dos índios. Foram, por isso, expulsos, primeiro, de São Paulo e, depois, do estado do Maranhão e do Grão-Pará pelos colonos. Afinal, a própria Coroa, na pessoa do marquês de Pombal, decide acabar com aquela experiência socialista precoce, expulsando-os do Brasil. Então ocorre o mais triste. Os padres entregam obedientemente as missões aos colonos ricos, contemplados com a propriedade das terras e dos índios pela gente de Pombal, e são presos e reco-hidos à Europa, para amargar por décadas o triste papel de sujigadores que tinham representado.”(pág.56).
Repito a afirmativa anterior, que esta monumental obra histórico-sociológica O POVO BRASILEIRO, na riqueza de sua visão detalhada ou abrangente da formação do que seria a nossa civilização, deve ocupar o lugar de livro de cabeceira de todos os brasileiros, fundamental para formação de uma ética e de uma consciência nacional.
O que insisto em chamar a “nossa Bíblia” nos capítulos sobre o chamado “Processo Civi-lizatório”, “Gestação Étnica”, “Os Brasis na História e mais teses relativas ao nosso de-senvolvimento econômico e sócio-cultural, oferece a clara revelação de situações históricas que as determinaram e são escamoteadas da discussão, silenciadas, por não atenderem às conveniências da elites do nosso país.
.....................................................
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 11h01
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Prosa Caótica II Cad VII (1988/2002) 10
10
Continuo morando na fazenda, entre-gue a lembranças do passado, sem planos de-finidos para o futuro. Uma vida preguiçosa. Indisposto, e quase indiferente às pequenas ne-cessidades administrativas deste pequeno pa-trimônio que produz pouco resultado financeiro, vivo mesmo de rendimentos de uma aposen-tadoria no serviço público estadual.
Não posso esconder da minha cons-ciência, as marcas familiares e sociais deixados pela minha separação judicial. Entreguei à mi-nha ex-esposa, é verdade, quase tudo que pos-suíamos em comum. Tranqüiliza-me a sua si-tuação e dos filhos em relação às condições ma-teriais de vida. Em relação a mim, a falta de convivência no lar e na sociedade onde sempre vivi, dificulta o meu relacionamento, inibe as minhas ações em certos ambientes que passei a evitar. Sobrevivo, na solidão da fazenda, impon-do, tacitamente, aos que me visitam, gente pobre do campo, o teor das conversas. Procuro desem-penhar com eficiência as tarefas do meu projeto social. É a prática da teoria a partir da própria teoria.
A reflexão sobre o papel que desempenho no mundo e que não pode ser fruto do meu “livre arbítrio”, dissipa outras situações. Como frisei anteriormente, arranjei outra mulher e novos filhos que moram numa cidade próxima à fazenda. Criatura modesta, de família pobre de analfabetos operários rurais, ela trabalha no hospital do Estado em emprego que lhe arranjei. Amo-a e as crianças, habituei-me com as suas visitas, procuro fazer algo para garantir-lhes o futuro quanto à educação e alguns recursos e bens materiais, que poderão satisfazer precisões eventuais no decurso de suas vidas.
.....................................................................
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 10h51
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Prosa Caotica II, Cad VII, 1988/1995 -6,7,8,9,10,11,12,13,14
6
Ruíu o internacionalismo proletário como idéia e a sua forma política e constitucional foram desfeitas. Os acontecimentos na Europa socialista mar-caram o “início do fim”. O que aconteceu na URSS de-monstra que tal conceito, tal estrutura real inexistia, estava relegada apenas ao mundo das idéias e não se concretizava na prática.
O desenvolvimento dos fatos na sua rapidez, fruto da facilidade de comunicação, que protegeu Luthero no passado – no caso a recém-inventada im-prensa – é uma expressão nacionalista de relevos variados. Ora forma cultural de afirmação, ora desejo liberal de modernização em face da estabilidade de instituições garantidas pela força, às vezes, e em alguns casos, pela premência de questões econômicas, e igualdade política, na participação do poder.
Assim se desfez o Império Austríaco e foi destruído o Império Otomano, para falarmos apenas de fatos do século passado. Revoltas nacionalistas que explodem, provocadas sempre por potências rivais e pelo sentimento patriótico facilmente estimulado. Co-nhecemos a CIA e a KGB, exemplos que bastam.
O nosso compatriota Jacob Gorender que viveu em Moscou os dias conturbados do relatório Krushov, confirma a dor moral dos soviéticos com as revelações de arbítrio e crueldade inomináveis na construção de um projeto político, ignorados, desco-nhecidos até então. Ele chega à conclusão que Marx era um determinista utópico, queria algo que a realidade não confirmou, tornou-se obsoleto. No seu anuncio da ex-tinção do Estado, da realização do auto-governo, ignorou a necessidade de definição de prioridades no âmbito da sociedade, da vida das instituições que re-gulam a atividade social, coletiva, quando quase tudo é imprevisível. Os russos tinham o orgulho de sua pátria e do seu povo, construiram com a revolução leninista não um país livre, mas um regime de força, um estado confessional
Desapareceram, nestas condições, o socialismo no mundo e as condições que o suscitaram? Restam a China e Cuba, somente?
A imprensa ocidental não fala de dezenas de outras nações do planeta que constroem o socialismo de estado dentro de suas peculiaridades históricas locais. Países pobres, submetidos ainda à supremacia do mer-cado internacional dominado pelos grupos capitalistas, pouco valem dentro dos organismos imperialistas que controlam quase os dois hemisférios. Depois da fase de liquidação dos laços coloniais entre os povos, voltamos à questão nacionalista. Quem sabe, um dia, serão que-brados os grilhões que torturam as ilhas de Porto Rico e Havaí, tutelados pelos Estados Unidos da América do Norte.
No caso da URSS, a destruição violenta dos símbolos da união ideológica e cultural do povo, nos leva à meditação. Que fatos dolorosos provocaram tal violência, tão profunda retaliação? Mero estimulo.
7
Qual a significação dos acontecimentos re-centes no Leste Europeu e na União Soviética? Eis uma pergunta que muito se fazem.
Essa luta dos povos socialistas é pela demo-cracia e pela liberdade, assim entendo. Naquelas nações, incluídas entre as mais atrasadas e preconceituosas da Europa, antes do advento do socialismo, persistiam alguns fatos objetivos como o sectarismo utópico e messiânico e a tradição que incluía arraigada crença religiosa.
A passagem de uma classe para a que é sua adversária, não esgota os vestígios do passado, É um processo cujas tendências impõem verificação cuidadosa, leis de exceção, como nas nações capitalistas. Pode-se cair em erros graves ou oportunistas.
Tais fatos levaram ao esquecimentos da pro-cura do “elo seguinte da cadeia”, preconizado por Lênin, no confronto dos fatos pelo órgão de luta do conjunto do proletariado, que se torna órgão estatal, que deveria ultrapassar vitoriosamente “a mentalidade burguesa de sua camada dirigente”, adverte Georg Lukács.
No seu “História e Consciência de Classe” (posfácio de 1967), o filósofo húngaro esclarece que “na III internacional, Zinoviev e seus discípulos tinham introduzido hábitos burocráticos e que, durante os seus últimos anos de doença, Lênin andava preocupado com a luta a travar, com base na democracia proletária, contra a burocratização crescente e expontânea, da Re-publica Soviética. Esta afirmação corrobora outra de Edmund Wilson em “Rumo à Estação Finlândia”. Em discussão com Trotski dissera Lênin: “O regime bolchevique não era ainda de todo uma república de trabalhadores, e sim – como os trabalhadores ainda eram governados por autoridades muitas das quais não eram de origem proletária – uma república de trabalhadores com distorções burocráticas.”
O poderoso estamento burocrático soviético, “órgão” supremo do Estado, criou a contradição entre povo e poder, agravou a alienação numa população de elevado nível cultural e técnico. Acresce a circunstância do fenômeno contemporâneo de ocidentalização da cultura nos seus aspectos lúdicos, com as conquistas da técnica de comunicação, levar a “burocracia” a impor e estabelecer ralações de força naquelas sociedades.
Os fatos da repressão stalinista, na Hungria, na Checoslováquia, da adulteração de relatórios sociais no período Krushev, sobre planos qüinqüenais de desenvol-vimento, foram produzidos por desvios burocráticos em esquemas de força, sufocando as liberdades e o processo elo a elo do desenvolvimento das relações socialistas.
Todos conhecem os métodos de infiltração e espionagem dos estados capitalistas, celebrizados nas ações da CIA, do “Agente 007” da espionagem bri-tânica. Até na ficção aperfeiçoam o marketing, moti-vando os, “casos de consciência”, o surgimento de agentes provocadores nos países visados.
Hegel ensinou que “a razão governa o mundo e é somente na superfície que reina o jogo dos acasos irracionais.”
A história (que é racional) explode sistemas fechados, e a razão restabelece a ordem quando a história parece absurda e sem sentido. Eis a causa objetiva dos acontecimentos comentados. Esta é a concepção do desenvolvimento da historia na lição do filósofo Roland Corbisier.
8
O episódio do meu afastamento do grupo liderado pelo senador Antônio Mariz, revelou o meu despreparo para a política partidária. Indispus-me com um companheiro de partido, indivíduo pouco escru-puloso, e sem razão briguei com todos. Fugi ao modelo, deixei de lado a prática dominante – salvar interesses e vantagens imediatas, esquecer a ética nos seus man-damentos morais.
Saí de um partido que me assegurava presença no Estado e filiei-me a outro que me tolhia os passos, forçando-me a encerrar a minha passagem na cena política. Primário, voluntarioso, acomodado, prisioneiro de normas de condutas política incômodas, não admi-tidas na prática oportunista em voga, paguei o preço da inexperiência, da errada compreensão da política paro-quial de castas.
Fui considerado um “bom deputado” em razão de discursos de certo conteúdo intelectual, que pronunciei da tribuna da Assembléia e a convite em reuniões no ambiente social, mas era passado para trás no jogo da apropriação e da partilha das benesses administrativas.
Não tenho, é preciso registrar, qualquer reparo a fazer, nos longos anos de nossa convivência, ao espírito público de Antônio Mariz, à sua lealdade em razão de compromissos, partidários. Homem honrado pessoalmente, levou para a política a marca da se-riedade, não tendo sido, ao longo de trinta anos de desempenho de mandatos, acusado de qualquer deslize. Um fato inacreditável, um “milagre” na vida pública brasileira. Não vejo na política paraibana outro que o suplante. Nem Epitácio Pessoa que chegou ao Supremo Tribunal Federal e à Presidência da República – malgrado fatos levantados contra sua conduta de ser-vidor público –, em face do que qualificam de oportunismo ou esperteza na obtenção de vantagens próprias da categoria, em relação à acumulação de cargos, contagem de tempo de serviço público, apo-sentadoria, possivelmente de má fé, pode-se dizer. O que, mesmo assim, não aconteceu com Antonio Mariz.
9
De Voltaire:
“O cristianismo só ensina a simplicidade, a humanidade, a caridade. Querer reduzir-lo à metafísica é transformá-lo numa fonte de erros.” (Cartas Inglesas)
“Anaxágoras atreveu-se a afirmar que o sol não era guiado por Apolo montado numa quadriga; chamam- lhe ateu e é obrigado a dar às de Vila-Diogo. Aristóteles é acusado de ateísmo por um sacerdote; como não pode mandar punir o acusador, retira-se para Cálcis. Mas a morte de Sócrates é decerto ainda o caso mais odioso da história grega.” (Dicionário Filosófico).
“Vendo, pois, que um número prodigioso de homens não tinha a menor idéia das dificuldades que me inquietam, e nem desconfiava daquilo que se diz nas escolas sobre o ser em geral, sobre a matéria, sobre o espirito, etc.; vendo também que freqüentemente muitos caçoavam do que eu queria saber, suspeitei que não seria absolutamente necessário que o soubéssemos. Pensei que a natureza deu a cada ser a porção que lhe convém; acreditei que as coisas que não podemos alcançar não são nossa partilha. No entanto, malgrado esse desespero, não aban-dono o desejo de ser instruído, e minha curiosidade enganada é sempre insaciável.”( O Filósofo Ignorante )
10
De Diderot:
“Se o sistema moral está corrompido, é inevitável que o gosto seja falso.” (Dos Autores e dos Críticos).
“Se a questão da prioridade do ovo sobre a galinha ou da galinha sobre o ovo vos embaraça, é porque supondes que os animais foram originariamente o que são agora.” ( Dialogo de D’Alembert e Diderot).
11
Continuo morando na fazenda, entregue a lembranças do passado, sem planos definidos para o futuro. Uma vida preguiçosa. Indisposto e quase indiferente às pequenas necessidades administrativas deste pequeno patrimônio que produz pouco resultado financeiro, vivo mesmo de rendimentos de uma aposentadoria pública estadual.
Não posso esconder da minha consciência, as marcas familiares e sociais deixados pela minha separação judicial. Entreguei à minha ex-esposa, é verdade, quase tudo que possuíamos em comum. Tranqüiliza-me a sua situação e dos filhos em relação às condições materiais de vida. Em relação a mim, a falta de convivência no lar e na sociedade onde sempre vivi, dificulta o meu relacionamento, inibe as minhas ações em certos ambientes que passei a evitar. Escapo na solidão da fazenda, impondo tacitamente, aos que me visitam, gente pobre do campo, o teor das conversas. Procuro desempenhar com eficiência as tarefas do meu projeto social. É a prática da teoria à partir da própria teoria.
A reflexão sobre o papel que desempenho no mundo e que não pode ser fruto do meu “livre arbítrio”, dissipa outras situações. Arranjei outra mulher e novos filhos que moram numa cidade próxima à fazenda. Criatura semi-analfabeta, de família pobre de analfa-betos operários rurais, ela trabalha no hospital do Estado em emprego que lhe consegui. Amo as crianças, habi-tuei-me com as suas visitas, procuro fazer algo para garantir-lhes o futuro quanto à educação e alguns recursos e bens materiais que poderão satisfazer pre-cisões eventuais no decurso de suas vidas.
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 07h01
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Prosa Caotica II, Cad VII (1988/1995) 1,2,3,4,5,
1
Passados alguns meses, retorno às anotações neste caderno, interrompidas por ocupações variadas em trabalhos na fazenda, participação na política partidária em Sousa e no Estado, diminuída, é verdade, e algumas leituras. Fui reabsorvido, em suma, pela vida social, por compro–missos que se mostraram inevitáveis.
Escrevi duas plaquetas: uma sobre a criação da Faculdade de Direito de Sousa, tema de real necessidade para restabelecer a verdade sobre a sua história, pois notórios inimigos, que nos combateram nos dias difíceis, começavam a se arvorar de beneméritos, pelo fato de ocuparem, hoje, ali, cátedras remuneradas, emprego público; outra sobre a vida do meu tio Salviano Leite, velho e honrado político paraibano, que alcançou posições na vida estadual e nacional, exercendo-as em nome de uma representação, cujo interesse público e partidário colocava acima de qualquer compromisso. Pelo fato de ter morrido pobre (ex-presidente da Caixa Econômica Federal), afastado da política de interesses inconfessáveis dos dias atuais, caíra no esquecimento.
Sobre as minhas atividades, quase diletantes, reconheço que não alcançaram rendimento considerável, quer na atividade rural, quer na política, quer na seara intelectual. Continuo sem fortuna, isto é, sem recursos financeiros para alguma projetos familiares e pessoais, sem posição relevante na vida política local ou estadual, e, nada importante produzi literariamente. Ressalvo boas leituras e releituras, esclarecedoras de dúvidas do passado.
Considero-me melhor preparado para a reflexão sobre temas da literatura (sua crítica e sua historia) abordados noutras páginas, mas dentro daquelas idéias expostas. Fundadas na concepção materialista e dialética da natureza e da sociedade.
“As grandes sínteses esclarecedoras, escreveu Otto Maria Carpeaux, na sua ‘Historia da Literatura Ocidental’, não podem se basear em pesquisas originais; são feitas de ‘segunda mão’ aproveitando documentação já utilizada. Fatalmente cai-se na rotina. Rotina, quer dizer, confiança absoluta na opinião dos autores utilizados. Na historia literária, a rotina prejudica particularmente o lado crítico dos trabalhos. Ninguém pode ter lido tudo; e até com respeito às obras muito conhecidas os autores de histórias literárias preferem, as mais das vezes, repetir opiniões consagradas.”
2
Julgava–me bem informado sobre Darcy Ribeiro, pela admiração que lhe devotava como político atuante na minha linha de pensamento. Indigenista, criador da Universidade de Brasília, senador, exilado político, antropólogo, sociólogo, pensador de esquerda como o qualificavam, o tornaram modelo de homem público admirado por mim e tantos brasileiros mais. Pouco, entretanto, conhecia de sua vasta e autorizada obra de sociólogo e de pesquisador da história, do pro-cesso de colonização do nosso país, das condições que resultaram na formação do que era e viria a ser o povo e o estado brasileiro.
Tenho em mãos o seu recente livro O POVO BRA-SILEIRO, e deixarei que ele o explique. Antes, porém, sem fanatismo nem proselitismo, ofereço uma sugestão aos meus compatrícios: adotem–no como a “Bíblia do Brasil”. Assim o nosso país dará certo.
“Escrever este livro foi o desafio maior que me propus”,´ ele afirma no prefácio. E prossegue, informando sobre a escolha de suas fontes, do seu método, do seu material de trabalho: “Meu sentimento era de que nos faltava uma teoria geral, cuja luz nos tornasse explicáveis em seus próprios termos, fundada em nossa experiência histórica. As teorizações oriundas de outros contextos eram todas elas eurocêntricas demais e, por isso mesmo, impotentes para nos fazer inteligíveis. Nosso passado, não tendo sido o alheio, nosso presente não era necessariamente o passado deles, nem nosso futuro um futuro comum.”
E conclui com a coragem e ética que lhe são peculiares: “Não se iluda comigo, leitor. Além de antropólogo, sou homem de fé e de partido. Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por fundo patriotismo. Não procure aqui análises isentas. Este é um livro que quer ser participante, que aspira influir sobre as pessoas, que aspira ajudar o Brasil a encontrar–se a si mesmo.”
Assim comportou–se o Cristo ao expulsar os vendilhões do templo, ao anunciar que mais fácil seria um camelo passar no fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino do céu, ao se opor à pobreza e se colocar do lado da fartura no milagre da multiplicação dos pães.
3
Acerca da diversidade de teses sobre histórias da literatura, quer fundadas em esquemas cronológicos, mo-nografias sobre autores, classificação de gêneros, passando por De Sanctis, Croce, Dilthey, os sociólogos Max Weber e Karl Manheim até os dias atuais, acentua Carpeaux, chegou-se à separação absoluta entre história literária e crítica literária, num academicismo que as coloca em posições hostis
A história e a crítica se complementam. Tais investigações inserem-se na teoria do conhecimento. Embora envolvida em especificidade, a literatura tal como a sua história e a sua crítica, não se ajustam à idéias, pré-fabricadas, ou fabricadas no “mundo platônico dos ideias, imóveis e eternamente iguais a elas mesmas”. São produtos históricos, circunstanciais. Daí a necessidade de compre-ensão das leis objetivas da sociedade na qual essas obras são produzidas, e que permitem explicá-las no seu desenvol-vimento. Todos lemos, alguma vez, sobre Brunetière, Taine, Herder, Samuel Johnson, Carducci, Richards, cujas idéias pessoais, eliminadas as formas de existência da sociedade, a racionalidade do discurso, nos levam à impossibilidade de percebermos a essência da literatura, pela impropriedade do método ou pela sua inexistência para a abordagem do problema.
Um filósofo brasileiro nunca assás divulgado, Roland Corbisier, ensina que a verdade não é fruto da intuição ou da revelação mística, mas a construção pela descoberta da racionalidade do mundo natural e humano. Não se constrói a verdade com palavras. Daí a produção de obras meramente conceituais no plano das idéias.
4
Recordação do dia 1º de Maio na fazenda. Olho à distância a movimentação das pessoas nos seus afazeres. Aqui não se conhece esta data comemorativa, em 1991. O regime é de quase servidão, não existe o trabalhador cidadão, com direitos assegurados. A idéia da igualdade entre os homens não é explicada sequer pelos pregadores religiosos, segundo a qual todos os homens são irmãos porque são todos filhos do mesmo pai. As seitas cristãs não ensinam mais acerca dos fundamentos da sua religião. Direi com Voltaire que mata a nossa fé, a pouca moral e os muitos dogmas.
5
Volto às lembranças da infância.
A nossa vida familiar em Sousa, decorreu no limite do interesse do meu pai pelos negócios de sua representação comercial; depois, liquidado o pequeno empreendimento, o seu irmão Antonio Leite Montenegro, deputado estadual, nomeou–o para o serviço público como Agente Fiscal, dedicando-se a partir de então aos deveres do seu emprego. Ele conhecia pela experiência no seio da família, em Piancó, que as pessoas do lugar não cedem a estranhos, sem reação, participação no poder político, vin-culado à tradição local. Evitava, assim, externar opiniões sobre a política municipal. Acompanhava a sua família na política estadual. Era uma posição ditada puramente pela razão de quem conhecia os costumes. Integrava-se, entretanto, participativamente à vida social da cidade.
Em tais condições, a minha infância transcorreu sem a agitação doméstica das casas dos chefes políticos, sem as indisposições entre famílias, que caracterizavam o nosso meio.
Aos dez anos de idade fui levado para conhecer a família do meu pai em Piancó. Alguns tios nos visitavam em tempo de carnaval e noutras festas importantes, e eu já fora levado algumas vezes em companhia do meu pai e de minha mãe àquela cidade, porém, muito pequeno ainda, não guardava qualquer lembranças das casas, das pessoas. Naquela idade eu era realmente um menino e a minha vida consistia no aprendizado de brincadeiras.
A viagem entre Sousa e Piancó levou pra-ticamente dois dias, cansativa, despertando-me a curiosi-dade e descobertas. Seguia em companhia de um morador das terras de minha avó, que todos os anos, nos tempos difíceis, trazia cargas de milho e feijão para nossa casa, em lombo de jumentos. Ignoro as razões de submeterem-me a tal jornada.
Em frente à minha casa, fui colocado em cima de uma cangalha bem forrada de panos pela minha mãe, que recomendava cuidados a João Velho, e olhava-me já com saudades. Partimos depois do almoço, o sol muito quente. Atravessamos algumas ruas, ganhamos a catinga. João Velho explicava-me que tinha ponto certo para dormida e descanso dos animais. Refeitos pelo sono da jornada da tarde, sairíamos pela madrugada e chegaríamos a Piancó para o almoço.
Menino da cidade a paisagem rural encantava-me no seu aspecto agreste naquele mês do ano (provavelmente agosto ou setembro). Aves e pequenos animais, nas árvores, em vôos rápidos, atravessando a estrada em disparada. Cuidadoso, João Velho perguntava-me repetidamente se me sentia cansado, se tinha sede, oferecia-me bolachas e pedaços de rapadura que minha mãe lhe entregara.
Fui recebido com surpresa, curiosidade e carinho na chegada em pleno almoço da família na casa de minha avó.. Estranhei os gestos amáveis dos desconhecidos, o olhar espantado das empregadas da cozinha. Encabulado, recusei a comida e a muito custo engoli algumas bocados saborosos. Confundiam-me as perguntas sobre “Tiburtino.” Somente ali ouvia chamarem o meu pai pelo seu nome próprio, porque em Sousa tratavam-no pelo sobrenome: “Seu” Matos.
O ambiente não era moderno e liberal como parecia o de minha casa. Móveis antigos, o interior das salas e dos quartos escuros e silenciosos, a vida estava na cozinha e nas cadeiras na calçada para intermináveis conversas que não me interessavam. A minha avó, agitada, desdobrava-se, reclamava o seu cigarro de fumo da terra, feito à mão por uma menina que ele criava. Destacava-se nas reuniões pela tarde e à noite, a voz tonitruante de tio Mário, de pele queimada de sertanejo, rosto grosseiro, respeitado, ouvido em silêncio. Irmão de minha avó parecia, pela idade, o chefe da família. Agradavam-me as expressões meigas das minhas tias Elisa e Maria José, viúvas, discretamente sentadas. O vigário da paróquia, de cor escura, cabelos grisalhos, era recebido com deferência. Vestia uma batina negra e suja, fumava muito. Amigo da família, abancava-se, entrava na conversa como um dos nossos. Depois vim a saber que fora deputado estadual, era romancista e historiador. Não parecia.
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 06h32
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
Prosa Ca'otica II (1992/2000) Cad VI - 13, 14
13 Leitura de TUDO QUE É SÓLIDO DES-MANCHA NO AR, de Marshall Berman, lançado com divulgação privilegiada. É inegável o crescimento da produção inte-lectual dos norte-americanos em comparação com outros países do ocidente. Os centros culturais, parece, deslo-caram-se de Londres, Paris, Berlim e Viena para as universidades americanas. Harvard, Yale, Cornell e outras notáveis, são os nomes da moda. E não se firmará sequer como modismo, o que não receber a chancela, o “imprimatur” de Nova York. Pelo menos no Brasil. Os prêmios concedidos ao trabalho intelectual – nas ciências e nas artes –, dá aos americanos aquele destaque a que aludi. É o que tenho lido e recebido como informação divulgada pela midia, de fontes que desco-nheço a origem. Os índices remissivos e onomásticos, as bibliografias sistemáticas de qualquer livro sobre arte e ciência – especialmente o ensaio – trazem uma proporção considerável de referências e fontes na relação EUA /outros países, nos últimos quarenta anos. Estaríamos sendo vitimas – pergunto-me com a paranóia terceiro-mundista –, de um poderoso e indisfarçável colonialismo cultural? Movendo-nos na relação que é dependência geopolítica, copiamos modelos. Ignoro a repercussão dessa atividade intelectual noutros centros do mundo capitalista. Algo existe, no meu entender, para justificar tal eficiência. Os intelectuais americanos do pós-guerra – “não raro trabalhando para generosas instituições gover-namentais, subsidiadas por fundações” – elaboram teses que “desenvolvem a fim de exportar para o Terceiro Mundo.” (pág.25). Outro não é o trabalho de Berman, senão reinterpretar filosofias contrárias ao “American Way of Life”, em nome de uma modernidade que teria nascido com o capitalismo, e possui uma capacidade interior inesgotável de se renovar como sistema econômico e forma de organização social, promovendo o autodesen-volvimento, o crescimento material da sociedade. Na análise e comentários de Berman, depois do aparecimento da burguesia, do trabalhador assalariado, nada mais aconteceu, ou melhor, as estruturas sociais de relações de produção permanecem imutáveis, e assim permanecerão, mercê da intrínseca e centrípeta força que tudo atrai para o seu núcleo. É o sonho da perpetuidade das formas de exploração, acalentado e defendido – este sim, a própria essência da consciência burguesa de classe. Seguindo uma velha trilha, Berman acentua o fato de Marx haver falhado pela inocorrência de mudanças generalizadas nos países capitalistas. E afirma que algo inusitado aconteceu na sociedade, desaparecendo a luta de classes em face “do ritmo frenético da vida moderna...o cenário mundial se desintegrou e se metamorfoseou em algo irreconhecível... a ponto de seu SCRIPT revolu-cionário precisar ser inteiramente refeito.” (pág. 90). Em face dessa artificiosa argumentação, im-põem-se perguntas: Se o lucro – fazer dinheiro, acumular capital, armazenar excedentes é o objetivo final do modelo capitalista, o que determinou a modificação na forma de exploração do trabalhador, a partir dos primórdios da revolução burguesa até os nossos dias? Haveremos de convir que a evolução política dos trabalhadores, a sua organização classista, impôs aos donos do capital um custo financeiro pesado, na forma de redução da jornada de trabalho, obrigações previden-ciárias, participação nos lucros das empresas, etc. Esses encargos impostos ao capital representam conquistas crescentes dos trabalhadores na sua luta que é de classe, e não concessões magnânimas do coração de capitalistas apiedados. O lucro máximo (perseguido mais do que nunca, é a “força centrípeta” de que fala Berman), nestas condições, será fruto da sonegação fiscal, da proteção do Estado na política de preços, da dominação colonial, da mais valia, contradições insolúveis do sistema, “script” difícil de ser reescrito, que o próprio sistema não tem meios para mudá-lo, porque é de sua própria essência. A contradição persiste, portanto. 14 Tenho registrado nestas breves anotações, aspectos da minha vida, desde a infância em Sousa à experiência acadêmica no Recife e, de modo especial, os tempos recentes com o meu ingresso na política partidária militante. A formação da minha consciência, isto é a minha concepção da vida, ressalta a cada parágrafo. Trata-se de enfoques episódicos que relutei em escrevê-los. Anotações esparsas incluídas neste pretendido volume de confissões que chamarei “jornal”, dada a variedade, su-perficialidade e pressa no tratamento do material; porém especulativo, e fundado na verdade dos fatos, no resultado de reflexões que considero verdadeiramente relevante. Este foi um período cheio de dúvidas e de certezas que se sucediam, às vezes paradoxalmente, ali-mentadas por fatos do passado que influíram na minha formação moral e intelectual. O desfecho de algumas situações exigem equilíbrio e justiça no seu julgamento. Ressalto as atribulações por dificuldades financeiras no seio da família, que nos mostravam a separação entre as pessoas, entre os grupos sociais; a constatação e a cons-ciência da posse e da perda de uma condição destacada, antes desfrutada. As dificuldades enfrentadas motivaram maqui-nações maldosas de retaliações sem-razão. Um desajus-tamento, enfim, que algumas vezes é percebido, com-pensado e atenuado, no meu caso pessoal, pela existência de uma tradição familiar de poder e de representação. Quanto aos fatores determinantes da concepção do mundo, a formação escolar e as leituras, prepararam-me para enfrentar as situações adversas e posicionar-me movido pela razão. Assim entendia, externando um compor-tamento pretensamente racionalista, exacerbado, que não admitia contestação ou reparo. Do iluminismo para o marxismo transitou o meu pensamento, com reflexões empolgadas pelo hu-manismo amplamente discutido na sociedade, ajudado com leituras afins. O frescor da idade entregou-me às aventuras e sonhos românticos, expondo-me à impre-visíveis perturbações. Mas consegui afirmar-me pelo que consideravam o meu destaque cultural, através da pu-blicação de notas chinfrins na revista literária da minha cidade. Alcancei um modelo de conduta, afinal, que me redimia dos pecados menores. Ao chegar ao Recife, procurei conscien-temente superar o atraso escolar, motivado por circuns-tâncias variadas. Ajudado pela família, mantinha-me mo-destamente nos estudos, até a nomeação para um emprego público. A partir de então, as circunstâncias do momento formaram em definitivo, a minha memória, o meu in-telecto.
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 06h02
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
 |
| [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |