Prosa Ca'otica II (1990/1992) Cad VI, 7,8,9,10,11,12
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Estive outra vez
Almocei com o deputado Antônio Mariz e o amigo Chico Souto. Comentamos a “turbulência” da vida política do Estado, desde a entrada em cena do governador Buriti. Um homem do caráter de Antônio Mariz, com as suas responsabilidades, tradições e planos, sofre amar-gamente para manter o equilíbrio no meio dos escombros morais em que está soterrada a vida política e admi-nistrativa do Estado.
Hospedei-me no apartamento do jornalista Jório Machado, ex-preso político em Fernando de Noronha. Militante esquerdista na juventude, Jório cultiva relações de amizade com antigos companheiros. Lá encontrei Assis Lemos que admiro pelo seu ar distinto. O oposto da imagem que somos levados a fazer de um incendiário de canaviais, que fez tremer os usineiros do Nordeste nos anos sessenta.
Por enquanto Jório cuida do seu dinheiro, des-fruta de bela paisagem na beira mar,
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No Cassino da Lagoa, muita bebida, como sempre com Severino Ramos e outros que vão chegando. Já havia encontrado na cidade, Waldemar Duarte e Gonzaga Rodrigues. Afastados do álcool, eles curtem a literatura em artigos para jornais, em leituras.
Abmael Morais, com os olhos amarelados, quase cirrótico, enche um copo com gelo e guaraná, consegue aquela cor de topázio do uísque. Bebe sem pressa, conta piadas e repete com tristeza a cada gole: “já esgotei a minha cota...” O medico João Ivani bebe com prazer o seu uísque de verdade. Alma de poeta – quem sabe tem os seus versos escritos e guardados – vive uma boêmia sem termo, inteligente, perspicaz, admirado por onde passa.
Vai chegando a hora de cada um. Mareado, Biu Ramos embarca num sonho que não termina, propõe mudarmos de bar. Prefiro, como sempre, o Cassino. O ambiente não tem aquele ar solene e afetado dos res-taurantes caros, onde os ricos descarregam as suas fu-tilidades, dão curso às suas safadezas. Os garçons, estes são realmente pessoas. Antigos no serviço, despiram-se do modo mecânico e desajeitado de fazer mesuras, conhecem a maioria dos fregueses. Antônio, que serve a mesa onde estamos, nos observa discreto. Ele mostrou-me um caderno de versos, e numa tarde de pouco movimento, cantou baixo para eu ouvir, composições de sua autoria.
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Não sei de obras novas criadas por autores velhos. Aos organismos vivos, nos limites da vida, a na-tureza nega até o poder da reprodução.
A criação na velhice aparece como um filho da juventude, esquecido, talvez renegado ou escondido. Na velhice assumimos as coisas por adoção. É duro re-conhec^e-lo mas ‘e verdade..
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Ganha prestigio entre os leitores uma nova es-critura da história. O seu exercício implica em pesquisa especializada, acúmulo de leituras e de uma técnica aproximada do jornalismo. É sabido que as novas rea-lidades sociais têm como resultado novas maneiras de ver, de compreender e de fazer.
Esta inovadora análise e exposição dos eventos sociais consolida-se como gênero, e é chamada jornalismo de reconstrução. Foge dos cânones da ciência da história, exime-se do sentido de tese do ensaio, não se ajusta às par-ticularidades do romance histórico, diria melhor, da lite-ratura imaginativa.
Dois autores brasileiros e três norte-ame-ricanos, para mim, oferecem destacadamente exemplos dessa meta-literatura, que ultrapassa tanto a forma como o conteúdo da narrativa histórica ou romanesca. Refiro-me a Fernando Morais, Zuenir Ventura, W. L. Shirer, H. Lottman e Edmund Wilson. Presumo, entretanto, bastante difundida essa maneira de escrever, como natural de-corrência do aperfeiçoamento das técnicas de comu-nicação e de pesquisas nos dias atuais, das novas rea-lidades que dizem respeito à vida, objetivamente consi-derada no seu progresso material e espiritual. Vem o g^enero de Julio César com a reportagem De Bello Galico, para falar na nossa civilizacao ocidental.
Do ponto de vista editorial (valem as informa-ções que possuo) modernamente Shirer inaugura o gênero com o seu DIÁRIO DE BERLIM e FIM DO DIÁRIO DE BERLIM, recheados de documentos autênticos e fatos do III Reich. Concentra-se nos acontecimentos e personagens de um período de vida de uma nação, na criação de um Estado, cujo expansionismo criminoso e fundamentos éticos de sua existência, determinaram a sua destruição pelo mundo amea-çado.
Outro é o campo de trabalho de Edmund Wilson em RUMO À ESTAÇÃO FINLANDIA. A sua narrativa eru-dita, com o sabor de romance do pensamento na sua evolução socialista, parte das formulações teóricas de Jules Michelet (o mundo social é certamente obra do homem) inspirado nas idéias de Giambatista Vico sobre uma nova ciência da história. É uma aventura humana personificada em filósofos, agitadores, utopistas e estadistas, e termina com Marx e Engels, Lênin e Trotski na implantação da Republica dos Soviets, animando as suas páginas com traços pessoais desses heróis pensadores.
Paris é cenário da grande batalha entre intelectuais, retratada por H. Lotman, envolvidos no enfrentamento capitalismo/ socialismo, na primeira metade deste século.
Os franceses têm o domínio do cenário pela sua tradição de pátria berço da cultura. Análise e exposição documental vastíssima compõem a fascinante narrativa do RIVE GAUCHE, oferecem o panorama dominado pelos intelectuais à partir a Primeira Guerra Mundial, até o declínio de sua influência. As ações dos artistas e pensadores são superadas pelo desenvolvimento da ciência e do imperialismo à serviço da guerra. Vale agora o poder de destruição. Chega o momento em que um manifesto não alcança a repercussão de uma simples opinião, como a de Gide ao declarar para o mundo “o direito de todo Estado inspecionar o território do vizinho”, por questões de segurança internacional, de respeito aos direitos humanos.
Escritos com rigorosa técnica informativa, os livros dos ianques são atraentes e esclarecedores, induzem à reflexão sobre o desenvolvimento das instituições sociais, as suas causas políticas, as formulações teóricas de pensadores que lhes oferecem fundamentos filosóficos.
Os brasileiros, numa clara oposição aos totalitarismos, retratam dois momentos da vida brasileira sob a ditadura. Em OLGA, de Fernando Morais, a narrativa atravessa os anos do Estado Novo com os seus crimes e dissimulações. Os tentáculos do III Reich e o patrocínio da URSS às revoluções proletárias do mundo, tinham alcançado o Brasil, produzindo as suas vitimas e os seus heróis. Zuenir Ventura em 1968 O ANO QUE NÃO TERMINOU, descreve todo o processo de domínio da sociedade brasileira pelo aparato policial-militar, abalado pela reação de forças aparentemente imponderáveis e insignificantes, assumindo os intelectuais e os jovens uma posição e de liderança incontestável.
A obra de arte literária e as narrativas históricas, à partir dos códigos éticos, das lendas religiosas dos primórdios da civilização, desenvolveram-se com o co-nhecimento, adotaram formas e conteúdos históricos. Seria o jornalismo de reconstrução a expressão da ideologia coletiva, criando novas maneiras de escrever a história e o romance, sem a profundidade filosófica de Hegel e Marx, entre tantos, e temas não puramente ficcionais encontrados em Homero, Dante, Camões?
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Numa tarde friorenta de domingo, em Madrid, por uma extravagância do comportamento, a contragosto, dirigi-me a uma praça para assistir na arena a morte dos touros e toureiros “a las cinco de la tarde”, como escreveu Garcia Lorca, vítima de Franco, fuzilado a desoras.
Na verdade os toureiros não morrem, mas os touros, sim. Morrem aos milhares pela Espanha, num espetáculo grotesco da covardia humana. Entre as fan-arras e gritos histéricos, o indefeso animal e acossado por uma turba delirante e sanguinária protegida em escon-derijos dentro da arena. O que pulsa no coração daquela gente, eu não me canso em me perguntar.
Numa dessas tardes vividas gloriosamente por Hemingway, o espetáculo é mais ou menos este: surge na arena o touro bravio, indômito, e, numa coreografia estu-dada, traiçoeiros partícipes do espetáculo, seguramente protegidos, furam–lhe a carne, fazem jorrar–lhe o sangue; atingem profundamente regiões do corpo, partes sensíveis do animal hercúleo e leal no combate, diminuindo–lhe, anulando–lhe a força guardada nos músculos. Vêm aos magotes, montados em cavalos resguardados por ar-maduras acolchoadas, invulneráveis. Lança em punho, atassalham o touro. Outros, escondidos em inexpugnáveis esconderijos, como um bando de salteadores, caem sobre o animal desamparado, vítima do sacrifício cruel. Enfiam–lhe agulhas no couro, enchem–no de fitas, bandeiras coloridas cravadas na carne. Esgotado, aniquilado pela desigualdade do combate o touro estaca exangue, já sem forças, Frustraram-se as investidas valentes. Desnorteado, derrotado pelas inumeráveis manobras suspicazes, exa-nime, o touro recebe com indiferença a entrada em cena do herói da tarde.
A multidão brada. Vibram os clarins nos acor-des do “pasodoble.” Com ar de imbecil, os passos estu-dados, os gestos dissimulados, adianta-se o matador. De soslaio observa o touro imobilizado, vencido, Cum-primenta a massa de fanáticos. Cresce nas arquibancadas o consumo de conhaque. Começa o sacrifício perverso, im-piedoso. Esgotado, o touro empaca com o olhar amor-tecido, as forças anuladas. Que substâncias teriam-lhe inoculado nas veias? O touro está prostrado, exausto na sua resistência, está domado. O toureiro mata-o .
Esta não é, certamente, uma forma de ganhar a vida conforme o jargão ibérico: “trabalhando como um mouro”, cujo tipo figura na sua ascendência genealógica, familiar.
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Num dos seus breves ensaios, Bertrand Russel levanta a questão das possibilidades da fala como algo suscetível de valor estético. O que viria a ser o “estético? A percepção, o belo? É uma questão que os estudiosos à partir de Platão e Aristóteles, chegam a Valery, num amplo debate, conforme analisa Luiz Costa Lima no seu TEORIA DA LITERATURA E SUAS FONTES.
É inegável que o estético, em literatura, al-cança- se através da carga intencional do pensamento. Se o propósito elementar da fala é a comunicação prática, o pensamento ao ordenar as palavras o faz em obediência a códigos culturais estabelecidos. Afirmam teóricos moder-nos que o rompimento dos padrões da língua, destingue os elementos estéticos da fala.
Mas o que vem a ser “valor estético”? somente a literatura culta o realizaria? Qual a diferença entre li-teratura popular e literatura erudita? O que as destingue?
Ambas pertencem à categoria da escritura ima-ginativa. Diferencia-as a linguagem, uma criação elabo-rada pelo espírito crítico dos autores, excluindo toda consciência do real.
Inexistem temas eruditos e populares mas enredos, simplesmente, tratados pela literatura crítica, caracterizando os gêneros literários, e também pela sua forma, pela vida concreta dos personagens.
Escrito por Eilzo Matos às 17h52
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