Prosa Caótica


Prosa Caótica II Cad VI (1990,1992) 1,2,3,4,5,6

 

1

 

 

Os partidos políticos no Brasil, com as exceções que confirmam a regra, são um misto de hospital de indigentes mentais com estação de férias e balcão de negócios para milionários, ou o que é pior: organizações facinorosas.

Deputado Estadual em dois mandatos, secretario de Estado e outros cargos menores que exerci, marcam a minha passagem na roda-viva da vida pública brasileira.

Circunstâncias locais filiaram-me ao partido dos que tinham participado do golpe militar de 64. Percebi, logo, que dera um passo errado. Mas o período era de escuridão, e a luz que avis-távamos era João Agripino na sua resistência e valentia de chefe político sertanejo, impondo certos princípios a serem respeitados no seu Es–tado. Acomodei-me, de certa forma.

Como deputado, fiz discursos sem importância relatando pequenos problemas, recla-mando soluções para impasses comuns na ad-ministração. Como secretário, cuidei de preparar a minha reeleição, deixando aos burocratas a exe-cução das tarefas administrativas que entendia, respeitada a dignidade do cargo.

Afastei-me da vida pública sem os grandes pecados. E durante esses vinte anos de poder e mando, nada pude fazer para mudar a realidade asfixiante, redimir os oprimidos. Por isso me afastei.

Duas realizações, apenas, nas quais me empenhei, registro como fatos compensatórios do tempo decorrido: a criação da Faculdade de Direito de Sousa e o Festival de Verão de Areia. Quanto à primeira, independentemente do meu mandato de deputado estadual, tê-la-ia concretizado, bastando-me o idealismo do mestre Afonso Pereira, e a dedicação a um trabalho mal remunerado, do professor Raul Córdula; quanto à segunda, o am-biente intelectual sufocado pelo AI-5, precisava de um respiradouro. Todos me apoiaram.

Criei a Faculdade de Direito de Sousa porque a cidade crescera em quase todos os sen-tidos. E não era possível manter a juventude pobre afastada da universidade. Escolhi o curso de direito por não necessitar de aparelhamento técnico especializado e de alto custo para o seu funcio-namento, e por ser o curso mais aberto à discussão das idéias sociais, úteis, para a vida prática.

Enfrentei o desinteresse, a descon-fiança, e até, a dura tentativa de descrédito da iniciativa. Resisti porque para o povo, e também para os que me combatiam, destinava-se o curso. Um dia eles calariam suas vozes, ou as elevariam para exaltar o fato como marco de progresso, motivo de orgulho para a cidade.

Aí está a Faculdade de Direito de Sousa, hoje Campus VI da Universidade Federal da Paraíba. Os detratores do passado ocupam cátedras, compõem os escalões burocráticos. E por que não? A escola é um serviço público. Sobre-viveu ao destino de privatização, de terminar como uma fundação familiar, como tentaram fazê-lo, e supunham que eu desejasse para mim.

2

Cheguei a João Pessoa no início dos anos setenta, eleito deputado estadual. Amigo de Virginius da Gama e Melo desde o tempo em que ele, desterrado político, exercia o jornalismo no Recife, o nosso relacionamento acrescentou à minha notoriedade de homem público, o prestígio da intimidade com as letras.

Data dessa época a minha apresentação ao poeta José João Torres, num dos bares da cidade. Relembro os seus ternos elegantes, a apa-rência felina, o gesto brando das mãos delicadas prontas para exibirem unhas afiadas, a agressão iminente. Brilhava como um nobre na alta so-ciedade, à qual pertencia.

Apresentei-lhe Vânia Guimarães, que conheci num restaurante, em circunstância que me fogem à memória. Dizendo-se de passagem, vinda do Rio Grande do Norte, ela foi ficando.

Outro exemplo, outra personalidade tirada da vida ou da arte, não me ocorre para caracterizar aquela extraordinária mulher, senão o da trágica Manon Lescaut.

“Ah! Pérfida Manon!” Quantas vezes, como o gentil cavaleiro Des Grieux, terá excla-mado o nosso infeliz poeta Torres.

Criatura impressionante no porte, no falar, envolvente e calculista, Vânia encontrou em José João o cativo dos seus encantos, o servo dos seus caprichos e extravagancias. Escreveu para jornais, freqüentou com intimidade o Palácio do Governo.

Participei das festas perdulárias que eles patrocinavam numa casa na Balaustrada das Trincheiras, onde passaram a morar e nunca pa-garam aluguel.

Endividados deixaram João Pessoa. Soube que José João morreu de cirrose hepática, no Recife, para onde se tinha mudado. De Vânia não tive nenhuma noticia mais.

Não precisei acompanhar-lhes os pas-sos para conhecer os acontecimentos de suas vidas. Leio-os nas paginas do Abade Prevost na sua imorredoura história. Amor, farsa, mistério, per-júrio, traição, fausto, pobreza.

O sinete das vidas desgarradas no grande drama da humanidade.

3

A obra de arte literária, no caso a literatura imaginativa, como produto social e fenômeno de cultura, comporta variados enfoques na abordagem e estudo crítico-interpretativo. Em muitos casos exsurge, de logo, a particularização irrelevante, o cientismo extravagante, frascário.

A acumulação de conhecimentos, a erudição, na crítica é uma faca de dois gumes, Se por um lado orienta o pensamento, leva à descoberta de aspectos singulares do desenvol-vimento do objeto do estudo, por outro, facilita ge-neralizações, elaborações teóricas que valorizam exclusivamente o estudo em si, tornando-o um apêndice desnecessário.

A expressão dialética de forma e conteúdo, esgota o estudo da arte, objetivamente considerada, não me cansarei de repeti-lo, porque  sobejamente demonstrada por Georg Lukács, Ernest Fisher, entre outros.

Existe uma função social na literatura? Existe uma função social no trabalho? A estas perguntas ajusta-se a colocação de Álvaro Lins: “A mensagem dirigida pelo artista a todos e a cada um dos seus leitores, não há de ser apenas de conteúdo ou natureza estética, ela é de natureza humana, popular e social, como representação de indivíduo, de grupos  e de povos, em estado de caracterização e nacionalização.”

Este estado de caracterização e nacio-nalização de que fala o crítico pernambucano, nos é revelado pela forma “sui generis” de conhe-cimento (Welllek, Warren) que é a própria essência da arte.

4

A lingüistica moderna, aplicada a análise da obra de arte literária, pouco ou nada tem a acrescentar, oferecer. Continua envolvida, com a nova terminologia, nas mesmas questões morfo-lógicas e sintáticas discutidas nas velhas gramá-ticas. Apenas uma fantasia, uma mascará num baile carnavalesco que não elimina a identidade verdadeira do usuário.

5

“Andróide?   Cyborg?”

Essas criaturas não existem. Se vierem a existir no futuro – criações da ciência – na sociedade humana, serão equipamentos tecno-lógicos desenvolvidos à seu serviço.

Os jovens de hoje conhecem bem estas irrisórias palavras, numa iniciação pseudocien-tífica, que objetiva tirar do homem o papel de agente da historia. Presta-se à justificação de uma ridícula teoria sobre um tipo de organização social, perturbada e até conduzida por máquinas.

“Máquinas pensantes.” Quantas vezes temos visto estas palavras impressas em pu-blicações variadas! Máquinas governando os homens, intervindo na ordem social. Existe e existirão máquinas operando sistemas criados pelo homem, no estrito limite de suas finalidades programadas. Apenas um prolongamento da mão, uma força do intelecto.

Esses “monstros cibernéticos” não traduzem ameaça, dependendo da sociedade que os possua. No caso, não serão as máquinas, mas os homens que as operam, que agem. Sob outro prisma, controlados por interesse de mercado ou de idéias expansionistas totalitárias, tomam a forma de arsenais de mísseis atômicos teleguiados, de satélites espiões. Acionados sempre pelo homem, em suma um produto social.

Não posso conceber, mesmo num futuro remoto, o homem sem as necessidades fundamentais: trabalho, liberdade, moradia, saúde, educação e cultura. Nos tempos da cibernética, quais os processos e formas da arte? O seu conteúdo será sempre a vida.

6

Vencido pelo estilo.

Não posso negar que o “jornal lite-rário” de Ascendino Leite é uma obra de arte literária, situando-se entre as melhores do gênero. Dos volumes já publicados li apenas três – SOL A SOL NORDESTINO, VISÕES DO CABO BRANCO E OS DIAS MEMORÁVEIS – incomparáveis em toda literatura brasileira.

Despreocupado com as questões so-ciais, anotando fatos relacionados com a pequena sociedade dos privilegiados, tudo para ele existe do ponto de vista de sua expectativa pessoal. É um vasto/pequeno mundo, repleto de acontecimentos, reflexões, solilóquios, diálogos com animais domésticos, com objetos e coisas nas quais ele se esconde. Dogmático, intransigente, inteligente, eu o devoro condenando-o, na terrível e dolorosa aventura do seu espírito fugindo das dores do mundo. Material farto para discussão à luz da psicanálise, que ele abomina, numa atitude de autodefesa.

Um exemplo de suas atribulações: “dias há em que me conto as horas como gotas de fel que não posso deixar de absorver; outros há em que me apago como a luz de uma vela no meio de um grosso temporal.”

Os grandes problemas políticos da vida nacional, que raramente aparecem no seu jornal, quando revelados, criam frases nuas, inexpres-sivas, não ensejam maior reflexão: “O Governo trancou o Congresso, mandou uma tropa do Exército fechar a Câmara e o Senado e expulsar de lá os parlamentares: temos outra vez a ditadura!”

Eis o segredo de sua arte: “A questão não é ter um estilo mas, tendo esquecê-lo. E usar, nos limites do seu poder, o sentimento, sem o qual toda arte é triste”.



Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 09h29
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Prosa Caótica II Cad V (1988 2000) 12,13,14,15,16,17

 

12

Luiz Augusto Crispim mostrou-me há alguns meses, páginas de um romance que está escrevendo. Li curioso, premido pelo tempo e pelas circunstâncias, as folhas datilografadas.

Vejo com admiração e simpatia o seu trabalho no jornalismo, embora fugindo, de certa forma, ao imperativo de sua formação de crítico, exposta no livro que lhe deu notoriedade, na linha lukácsiana de concepção estético-literária, no eixo marxista de Nélson Werneck Sodré, de Caio Prado Junior. Agora a ficção, a literatura como arte.  Eliott assim o fez.

Falei-lhe em novo encontro, sobre estas notas, e das tentativas frustradas para escrever um romance. Perguntei pelo seu. Estava trabalhando nele, foi a resposta. E incentivou-me, e assegurou-me que se eu dispunha de um tema, o restante ficaria por conta da dedicação à tarefa, à vida dos personagens Difícil para mim. Não iria além de um panfleto, de uma reportagem, este o meu receio.

Sobre as páginas que me mostrou, direi que, se o homem é o estilo, ou se o estilo é o homem, em ambas as ordens deste raciocínio apriorístico, encontrei-o de corpo inteiro na sua narrativa: digno e consciente no fazer artístico; como ele, elegante, declaradamente intelectual, mantendo-se com o peso de sua bagagem literária, uma figura meio enigmática.

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Faço nestas notas, referências pouco elogiosas aos Estados Unidos da América do Norte. Faço-o ao Estado e não ao seu povo. Condições favoráveis de progresso, oriundos da colonização, do meio geográfico, ao tempo da revolução industrial burguesa, elevaram este país, ainda pela emulação e competência de seus lideres na defesa dos seus princípios filosóficos, à situação de liderança que hoje desfrutam.

As contradições do sistema perma-necem. A luta de classe desenvolve-se com ca-racterísticas locais. Um povo que cria e patrocina a musica, a literatura e a arte como o norte-americano, é um povo vivo e atuante. O estágio de desenvolvimento tecnológico e científico, não implica em igual estágio nas relações sociais

14

Gemy Cândido, não fora a ameaça contundente da sua palavra, a justeza dos seus critérios de julgamento, seria o mais festejado crítico literário da Paraíba. Mas é, se não o melhor de todos, o mais completo na apreciação abran-gente ou de particularidades da obra de arte literária.

Leitor habitual e em razão de seu trabalho, dos estudos universitários, o seu pensa–mento universal ilumina e avança. A filosofia, a ciência aplicada aos estudos sociais, e, a literatura, alcançam na sua cosmovisão, adquirem nas suas exegeses criticas, dimensões esclarecedoras.

Epicurista ou marxista ortodoxo, a mente confusa, sem paradeiro e sem pouso para as minhas idéias, a nossa convivência é um misto de admirações e confrontos.

Estimo-o na sua orgulhosa profissio-nalização intelectual, acreditando nos valores da inteligência e da razão, cedendo muitas vezes a preconceitos injustificáveis para o nível dos seus conhecimentos. É uma dedicação exclusiva, sem as vantagens pecuniárias dos que as percebem e não as praticam de fato. Uma conversa com esses mestres “retides” da nossa universidade federal oferece-nos um quadro mesquinho.

15

OS MORTOS DE SOBRECASACA, de Álvaro Lins, uma coletânea de ensaios sobre a obra de escritores desaparecidos. Aqueles não ressuscitaram engrandecidos da pena do critico. Apenas o talento de AL destacou-lhes as figuras, incorporando definitivamente, e esclarecedora–men-te sua mundividência na grande suma da literatura brasileira.

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Em poucas palavras a recensão completa, insuperável de um autor. Um apanhado global, multivário dos aspectos que podem interessar verdadeiramente nos estudos literários: a biografia, a história, o estilo, o conteúdo, a refe-rência comparativa quer entre nacionais e entre estrangeiros.

Nada excede, atrapalha, aborrece, na crítica de Agripino Grieco. Nem o epigrama. O nosso Voltaire abaixo do Equador.   

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A minha geração que freqüentou o ginásio nas décadas de 40 e 50, conheceu Rui Barbosa através de referências e citações, de frases de efeito. Cognominavam-no “A Águia de Haia”, por haver participado de uma conferência inter-nacional naquela cidade, como representante do Brasil, e de ter “falado em dez idiomas”. Diziam também que vindo a residir em Londres (talvez como exilado político), para sobreviver, em certa época, passara a ensinar inglês (aos ingleses), colocando um aviso na janela do seu quarto que dava para a rua. As novas e atuais gerações talvez não conheçam essas exaltações do pátriotismo, da reverência e do respeito devotados à ética e à cultura naquele tempo.

O “cume da sabedoria” alcançado pelo advogado brilhante, opinião que se formou no país inteiro, refletia a luz da inteligência que se satisfaz, lamentavelmente, na perfeição verbal, no resultado instantâneo, no impacto veloz do raciocínio. Faltando-lhe a filosofia e a ciência, valia-se o intelectual das artes retóricas, contentava-se fácil-mente em invectivar ou exaltar pessoas ou a sociedade como um todo. Ficaram a poesia de Olavo Bilac e os romances de Machado de Assis, seus contemporâneos, e o pensamento jurídico do seu coetâneo Clóvis Beviláqua, revivesce em citações notáveis, mas rebaixaram o tribuno altissonante a uma modesta e quiçá esquecida posição de criador de frases.

Num país que se libertava da tessitura de filigranas barrocas para exprimir o pensamento, Rui era um modelo racional, diríamos, razoável, no comentário político, jurídico e social do seu tempo, encarnando as aspirações de uma classe média sedenta de posições que lhes eram negadas na sociedade aristocrática. Mas isso dura pouco, como a prosa do célebre português Latino Coelho, tida como “um estilo a procura, de um assunto”, a despeito de toda sua beleza e vigor.

Rui era cívico, altissonante, possuidor de elogiadas qualidades morais. O culto exagerado da perfeição gramatical numa elite semiletrada, quase apática, moldou-lhe o tipo, a personalidade irre-preensível. Mas registrou na reflexão  e conclusões a que entregou a sua inteligência, no campo da filosofia, do direito, à redação de notáveis textos doutrinários sobre os temas constitucionais, espe-cialiando-se sobremaneira na ciência política, na formação e administração do Estado. A nação embevecida cumulou-o de honras, relegando-o, por fim, às resenhas escolares do primeiro e segundo graus, onde o sepultou, aos apelos frascários das elites na busca de frases de feito entronizadas.



Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 09h17
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Prosa Caótica II Cad V (1988 2000) 5,6,7,8,9,10,11

5

As alusões ao professor Tarcísio Buriti, na maioria desfavoráveis, faço-as por conhecer de perto a sua atuação na vida pública. Desde o seu ingresso na administração do Estado, secretários que fomos do mesmo governo. Depois, ele gove-rnador e eu deputado estadual, pertencentes ao mesmo partido político. Foi, portanto, uma con-vivência muito aproximada, do ponto de vista da participação nos eventos políticos e administra–tivos de uma época.

Até que o admiro pelo seu amor a arte e à cultura, mas uma dedicação deformada por sentimentos burgueses, duvidosos.

Os conceitos sobre ética pública no seu governo, não implicam em absolvição dos que lhe antecederam no cargo. Apenas retratam o obscu-rantismo e o oportunismo que mascaram posições erroneamente humanistas, no sentido genérico do termo. E nisto ele é mestre.

Assinaladamente distributivas e não participativas, as ações nos seus governos retratam a sua ambivalência intelectual.

 “– Seu Eilzo, como é difícil governar com a democracia.– disse-me certa ocasião, an-gustiado no seu gabinete, sentindo–se ofendido por manifestações populares de protesto em frente ao palácio. – Para  João Agripino e Ernani Sátyro, tu-do era fácil. Tinham o AI-5.”

Curioso é o seu conceito de democracia e imprensa, na teoria e na prática. No gabinete do seu Secretario de Comunicação Social mandou colocar um quadro com uma frase chinfrin, de  sua lavra, assinada embaixo: “Não existe democracia sem imprensa livre.” Vejam só.

Tornara-se praxe na Paraíba, que os secretários de comunicação dos governos, fossem jornalistas com prestígio na classe e larga ex-periência. Ele achou pouco. Transformou todos os assinantes de colunas, repórteres, entrevistadores de rádio, focas, com exceção dos operários das oficinas ligados à imprensa, em funcionários públicos.

Não existe hoje na Paraíba, um inte-grante dessa categoria, que não esteja ligado ao serviço público estadual por uma “amarração” qualquer. Era esse o quadro no fim do seu primeiro governo. Quanto aos proprietários de rádio e jor-nais, estes participam da divisão do grande bolo das verbas publicitárias de todos os governos.

 Cedo descobriram os trabalhadores na imprensa paraibana, que estavam sendo instru-mentos na difusão de um artificioso processo, destinado a perpetuar a exploração de que eles próprios são vítimas. E reivindicam privilégios no serviço público, melhorias salariais, num antago-nismo intolerável a outras categoria, frente as aspirações dos demais funcionários. Bem organi-zados, contudo, atropelam a desejada subserviência com que sonhava o governador, numa  forma esperta de acomodação,

 

6

“Nossa conjuntura literária – crítica inclusive – é dominadora, porque o é nossa estrutura literária; e esta é desanimadora, também porque o é nossa estrutura social, anacrônica, retardatária, reacionária. A literatura no Brasil tem que lutar contra a conjuntura literária, contra a estrutura social para a libertação do homem no Brasil..

Esta reflexão de Antônio Houaiss, revela uma antiga preocupação dos intelectuais brasileiros, aqueles com maior base de conhe-cimentos e erudição. A posição de luta do escritor, de que fala Houaiss, é também uma convicção de Mário de Andrade: “acho que o artista mesmo que queira, jamais deverá fazer uma Arte desin-teressada. O artista pode pensar que serve a ninguém, que só serve à arte, digamos assim. Aí está o erro, a ilusão. No fundo o artista está sendo um instrumento nas mãos dos mais poderosos. O pior é que o artista honesto, na ilusão de arte livre, não se dá conta de que está servindo de instrumento, muitas vezes, para coisas terríveis. É o caso dos escritores apolíticos, que são servos inconscientes do fascismo, do capitalismo, do quin-ta-colunismo.”

Opondo-se às posições retrógradas dos estruturalistas e lingüistas, explica Ferreira Gullar que o papel do artista, e que o uso correto da linguagem, não terminam com meras tentativas de renovação apenas  na forma.

“Urge que o poeta – escreveu Gullar – desça à realidade. Não o conseguirá, no entanto, se se mantiver preso àquela concepção de obra li-terária que, conforme se tem dito, o coloca diante da seguinte opção: a obra ou a vida. Isto é, ou o poeta permanece fiel à sua obra ou à sua condição de ser social. De fato, se admite que a realização da obra exige o não compromisso com outros homens, o alheamento dos problemas vitais, que acossam a sociedade à qual pertence, então não será possível ao poeta ser poeta e cidadão ao mesmo tempo. Tanto mais que os próprios conceitos críticos  em voga, concebem a obra literária como uma estrutura sem significado, fora de situação, cujo  valor só pode ser aferido por uma objetividade dita cientifica (...) Mas que valores levará em conta,  neste caso, o poeta? A resposta é simples: os va-lores da linguagem concebida como meio de comunicação social e não como código para iniciados. (...) De fato, nesse ou naquele modo de usar a linguagem está toda uma visão do mundo. Se me conformo em explorar as relações implícitas entre as palavras, estou afirmando que me cansei de indagar o mundo enquanto realidade concreta, ou que o mundo está já inteiramente formulado na linguagem. Se pelo contrário, a linguagem é para mim um meio, é que estou convencido de que a todo momento a realidade produz o novo – a realidade dinâmica e dialética, ultrapassa a lin-guagem e me ultrapassa. “HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA. N. W. Sodré).

As renovações formais na literatura têm dupla origem, duas fontes: em primeiro lugar as que são “projeções e estímulos de mutações significativas, mutações na vida histórica e cultural da humanidade;” em segundo lugar as que separam a arte da vida, procuram seduzir pelo hermetismo ou pelo cientismo, escondendo a realidade a ser refletida esteticamente.

Não devemos esquecer a lição de Garaudy sobre a especificidade do reflexo da realidade na literatura:

“Marx explicava que é fácil explicar os vínculos históricos existentes entre as tragédias de Sófocles e o regime social em que elas nasceram; fica, entretanto, por explicar a causa de, ainda hoje, num regime absolutamente diferente, elas nos proporcionarem um prazer estético e até nos parecem como modelos insuperáveis.”

7

Em Sousa, encontro entre os nossos, indecisão para escolha do candidato a prefeito, causada pela prolongada ausência de Antônio Mariz. Preso a compromissos de trabalho na Assembléia Nacional Constituinte, ele pouco tem aparecido.

Esse o papel do líder. Esperam-no para as decisões que deverão levar-nos à vitória, para oferecer-lhe mais uma condecoração.

A submissão a um projeto familiar de realização política, prejudicou a luta socialista de Antônio Mariz. Pai, avô, bisavô, tios, primos, foram governadores, deputados, senadores. Esse traço caseiro, a prosápia, refreou-lhe o ímpeto, desviou a linha de sua ação. Mas permanece entre os paraibanos – é preciso que se diga – pelo seu caráter, pelo exemplo dos seus, admirado pelas qualidades morais no trato da coisa pública. Não vejo, atualmente, entre os políticos paraibanos, outro que pudesse arrancar o Estado do caos administrativo, da frouxidão moral em que o en-terraram os últimos governos.

Lembro-me de Ernani Sátyro, rea-cionário, íntegro, no seu sonho monárquico de uma casa de reis. O lema do seu governo era contra-ditório no enunciado: “tradição e renovação.” Tradição pelo que fizeram os seus antepassados, pelo que ele fazia e pelo que fariam outros com o seu sobrenome. Enfim, a renovação.

8

Citei num destes cadernos, uma frase de Marshall McLuhan, porque a li em divulgadores de novidades estrangeiras na filosofia e na lite-ratura, esquecidos das nossas.

Hoje descobri em NOTAS PARA UM DIÁRIO DE CRÍTICA, de Álvaro Lins, pensa-mento parecido, no sentido que Antenor Nascentes dá ao vocábulo.

Diz o crítico pernambucano:

“Desprezadas as extravagâncias inevi-táveis em todas as revoluções, dizer que a revo-lução contemporânea da poética, nada tem de extravagante: ela interpreta, revela e exprime o mundo mesmo e os próprios homens que a re-pelem. O que nela existe de desordem aparente, transformações de valores, eclosão de conhe-cimentos irracionais e ilógicos, o que ela contém de verdadeiramente novo e de verdadeiramente revolucionário, não representa uma conquista arbitraria. Representa o reflexo da vida, ela mesma, que esteve se modificando durante muito tempo num mesmo ritmo revolucionário. Ao poeta, como é de sua missão, coube viver e sentir, antes dos outros, esta vida moderna, no que ela trazia de mais complexo e profundo para a sua revolução.”

9

Sousa deu à Paraíba uma romancista, Inês Mariz. Poucos conhecem a sua obra de escritora. Ainda em Sousa, escreveu o seu A BARRAGEM, que li nos meus “verdes anos”. Trata-se de um romance de costumes, entre nós o modelo da época, cujo tema abrange os embates eleitorais em Sousa, o aparecimento dos primeiros sinais dos tempos modernos no sertão, com a construção de um grande açude pelo governo federal.

Esses os aspectos superficiais que pude guardar de uma leitura antiga. Em critério puramente literário, seria o roman-à-cléf de que falam os franceses. Até a inversão, anagramática, de um nome de família ela usou, lembro-me bem. “SERPI = PIRES”.

Inês Mariz emigrou para o Rio de Janeiro, como outros nordestinos. Lá colaborou em revistas da época, desenvolveu atividades na vida literária, que precisam ser resgatadas. Nada li à respeito, mas tive informações que A BARRA-GEM, o romance da minha conterrânea, mereceu elogios da crítica de então.

10

Projeto de um texto sobre o tempo social. Sobre a sociedade no tempo, diria melhor, em eventos de ficção. A criação literária como dialética da arte. Percebo a dificuldade descoberta por Antônio Cândido: a necessária escolha de fatos e tipos. Em relação a estes, observamos a carac-terística da serem melhor compreendidos em sua totalidade do que um ser vivo, porque adquirem coerência e unidade quando o escritor dispões os fragmentos de uma existência dentro de uma perspectiva racional.

“A compreensão  – escreveu AC – que nos vem do romance, sendo estabelecida uma vez por todas, é muito mais precisa do que a que nos vem da existência. Daí podermos dizer que o personagem é mais lógico, embora não mais simples, do que o ser vivo.” (IDEIAS – JB).

11

// Vigoroso, ocioso, P. adentra as sombras dos chalés e dos sobrados. O tempo é o mesmo, imagina. Ruídos e nomes, entretanto, traduzem mudanças. A evolução de um tempo pretérito, do tempo presente. Na esquina as placas azuis com letras brancas e nomes esquecidos das ruas antigas. As árvores velhas de troncos limosos, enegrecidos, os galhos entrelaçados nas alturas, exalam odores vetustos. Nomes e perfumes nas aléias. Uma rua invadindo a outra em linhas perpendiculares.

//Algumas vezes, nos encontros de família, durante as refeições, ouviam sua palavra fluente, as sua idéias claras, a sua preocupação com os problemas da sociedade, esquecido da própria vida. “Tudo bem. A sua teoria é boa mas na prática não funciona.” Repeliam.

// Mais velhos, beirando os trinta anos, casados, os irmãos o estimavam e evitavam comentários sobre o seu comportamento fora dos padrões da família: profissão, casamento, fortuna.

// Concluído o curso superior P. não instalou escritório profissional. Relacionava-se bem com todas as pessoas do seu pequeno círculo de amizades, com a sua família de dois irmãos apenas. Enquanto não aparecia a oportunidade do desejado emprego, acostumara-se à complacência dos de casa que o proviam de roupas, algum dinheiro, e inequívoco desprezo e indiferença pelas suas ocupações.



Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 09h06
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Prosa Caótica Cad V (1988/1990) 1,2,3,4,

1

Há alguns dias dedico-me inteiramente aos assuntos da fazenda, com a implantação de redes de transmissão de energia elétrica. De ime-diato operou-se uma completa mudança nos meios hábitos. Quase não faço as caminhadas, passei a examinar e executar planos de desenvolvimento das atividades produtivas, aquisição de equipa-mentos elétricos e eletrónicos: motores para bombeamento de água para irrigação, para maquinas forrageiras, geladeiras, televisor.

Como o nadador espera o momento propício para lançar-se à corrente, sinto que es-preitei esta oportunidade. A televisão é o principal item perturbador de minha perdida paz. É difícil resistir à tela colorida, ao som estereofônico, ao brilho e luminosidade das imagens, à contem-poraneidade e atualidade das informações. 

2

Reflito sobre as conseqüências literá-rias e políticas da publicação destas notas. No tocante às primeiras, falarão da superficialidade no tratamento das questões especificas da literatura, na subordinação a concepções anacrônicas, na apreciação do fenômeno estético-literario. A minha concepção neste campo, contraria toda uma ten-dência da moderna crítica voltada para o texto em si, nos seus elementos mais intrínsecos, fabricada nas universidades norte-americanas. É, efetiva-mente, o que tenho feito ao longo destas anotações, dentro de uma concepção da natureza e da sociedade que a ciência e a filosofia, antes de condená-la demostram-na como irrecusável.

No que diz respeito ao aspecto político, considero uma prática salutar a sua leitura, e o melhor desenvolvimento dos assuntos aqui refle-tidos. A acomodação é um desvio permissivo, dá fôro de autonomia e autoridade a formulações puramente idealistas, retrógradas, inibidoras das forças sociais em desenvolvimento.

3

O privilégio concedido a certa cate-goria da intelectuais  – não à escória  – termina sempre com o seu sacrifício em nome dos interesses maiores da ideologia do Estado tota-litário, que os absorve e incorpora.

Nos tempos do III Reich, representante diplomático do seu país no Oriente, narra Pablo Neruda esta pequena historia em CONFESSO QUE VIVI:

“O cônsul alemão Hertz adorava as artes plásticas, os cavalos azuis de Franz Marc, as figuras alongadas de Wilhelm Lehmbruck. Era uma pessoa sensível e romântica, um judeu com séculos de herança cultural. Perguntei-lhe uma vez:

   – E esse Hitler, cujo nome aparece de vez em quanto nos jornais, esse chefe anti-semita e anti-comunista, não acha que ele possa chegar ao poder?

– Impossível – disse.

         – Como impossível se o absurdo é o que mais se vê na História?

                – É que você não conhece a Alemanha  – sentenciou. – Ali é totalmente impossível um agitador louco como esse poder governar sequer uma aldeia.

Pobre amigo, pobre cônsul Hertz! Aquele agitador louco por pouco não governou o mundo. E o ingênuo Hertz deve ter terminado numa anônima monstruosa câmara de gás com toda a sua cultura e o seu romantismo.”

4

Leitura de algumas páginas de SOL A SOL NORDESTINO, de Ascendino Leite. Tenta-tiva de descobrir as razões do seu pensamento, do que eu considero um modelo (invejável? Indesejável?) de narcisismo intelectual.

Sou nordestino com todo o peso do atraso secular desta região, tão caracteristicamente nacional. Daqui não me afastei, senão em breves períodos que nunca chegaram a cinqüenta dias. Não deformei, portanto, a minha consciência na busca do patrono, comum aos imigrantes, tangidos pela necessidade, pelo sonho.

Desculpe-me o meu ilustre parente, um julgamento assim. Trancado num individualismo exacerbado pela literatura, o Nordeste de Ascen-dino resume-se ao brilho do sol, ao acidente geográfico do Cabo Branco – caixas de resso-nância do seu ego – e superficiais frases de efeito sobre um passado vivido em dificuldades, que ainda não foram superadas. E nos deixa naquela humilhante situação de dependência de idéias alheias.

É forte o nordestino; forte é o gaúcho; o caboclo da Amazônia é temerário; intrépidos são os portugueses, os espanhóis. Que dizer dos negros africanos, trazidos como escravos para o Novo Mundo, hoje livres e senhores?

O mundo, para ele, é um produto do seu pensamento criador. Uma excrescência meta-física, já se vê. Chega a duvidar que a coragem do nordestino supere as “maldições” que estão acima da compreensão. De quê maldições fala o querido jornalista? Da seca, da chuva.

Como outros discípulos de Ernst Re-nan, Ascendino sobrevive ao anátema, e está convencido, nas suas elucubrações, que somente uma “Reforma Intelectual e Moral”, imposta por um governo forte “que force os bons rústicos a realizar nossa parte de trabalho enquanto espe-culamos ... resgataria a dívida da nossa con-denação. E lhe permitiria realizar a sua já conmsagrada obra literária.

A fuga, a cômoda submissão ao pa-trocínio literário, na criação de um mundo com-plementar que o absolva dos pecados da vida real.

A palavra de Ascendino, contudo, é brilhante, ilustrativa. Dessa ilustração que não chega ao âmago das questões suscitadas, e torna-se de leitura fácil para uns, enquanto um tormento para outros.

Não se lhe pode negar, todavia, o brilho do estilo que é o próprio e o inteiro conteúdo de sua arte de escrever. Profissionalmente nos situamos, escolhemos o nosso lado, e ele o faz. Por que não? Assim eu fiz.

Mais compreensiva, para mim, é a consciência política do poeta popular Pinto do Monteiro:

“A América do Norte é quem

Para todo canto sai

É a senhora do mundo,

Manda em filho, manda em pai,

Vai para as bandas da África,

Porém pra Cuba não vai.”

 

 

 



Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 09h01
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Prosa Caótica II, Cad IV (1982/2000) 19,20

19

Depois da leitura de HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA, impõe-se uma correção no que escrevi sobre a literatura de José Saramago, do ponto de vista da linguagem. As observações sobre sintaxe não se aplicam ao escritor português, mas valem para a obra literária genericamente con-siderada.

O problema em Saramago localiza-se na ortografia; na pontuação, para sermos preciosos, que ele assume conscientemente. Como uma des-coberta, ele nos conduz à origem do seu método narrativo: “...eu já estava na vigésima parte do livro, triste, quando senti que o livro podia ser escrito. Percebi que só seria capaz de escrevê-lo se o fizesse como se contasse. Não passando para a escrita o chamado discurso oral, porque isso é impossível, mas introduzindo na escrita um me-canismo de aparente prolixidade, aparente desor-ganização do discurso. Digo aparente porque  sei o trabalho que me deu fazer de conta que era tudo assim.  “( IDEIAS – JB 15/10/88).

A comunicação carrega um conteúdo fático que a linguagem denuncia através das pa-lavras e de outros recursos gramaticais, no caso a pontuação, que marca as pausas, a melodia e a en-tonação da frase, coordenadamente; anuncia a “on-da sentimental e passional”, a entrada e saída de cena dos personagens no diálogo.

O encarte do JB não poupa elogios ao escritor luso: “o mestre maior da língua por-tuguesa”, “atenção, obra prima”, com os quais concordo sem maior poder de julgamento. Mas ficam as anotações anteriores, que exemplifico com a entrada em cena do revisor e do escritor da História do Cerco de Lisboa, na abertura da narrativa

                                                20

CAMPINA 1952

         Éramos poetas das festas populares, coletivas, da cachaça, da rua, do bar ─ sem cerimonial. E desfilávamos nas calçadas como pessoas comuns, alguns calados olhando para o chão, os braços caídos; outros na algaravia de passaredo agitando as asinhas, chilreando, balançavam a cabeça, mo-viam os braços com exagero, o olhar alcançando longe como o dos carcarás sertanejos, caririzeiros.

Piiimmm...  nascia o verso no silêncio abissal dos neurônios cerebrais, depois explodia em palavras, no canto. Era plantado mais um marco na história do pensamento. Com Augusto e Bilac era assim.

        Seguíamos em frente. Atendíamos chamados, rumávamos para encontros de plêiade. Pouco nos importava o orgulho, a vaidade de garbosos filhos de famílias importantes pela tradição, pela posse de bens patrimoniais que nos ignoravam. Problema deles. Onde estão? Quais os seus nomes? Esqueci. Os nossos poetas vivos ou mortos estão vivos na lembrança de todos: Orlando Tejo, Eduardo Ramires, Ronaldo Cunha Lima, Deodato Borges e outros e outros.

 

LITERATURA FEMENINA

                A libido, nas mulheres, revela-se no brilho eterno dos olhar, pulula na flor da pele, ponteando incontida, como nasce o capim no campo, florescem as roseiras nos jardins. Quando elas se tornam escritoras em prosa e verso, caracteristicamente na ficção, tal sobressai no estilo. Impossível evitar. Mulher não cria nem revelas projetos epopéicos (uso a palavra na marra, sem permissão de Ariano, sem medo), não denuncia sonhos, fala de quimera (s). Não busco explicação para o fato em Freud nem em Saussure. Prefiro os poetas populares sertanejos que tudo ex-plicam e sabem, como Pinto do Monteiro que define a poesia como “o que se tira de onde não tem e bota-se onde não cabe”.

                O cangaço e o nordeste viveram primitivamente e na forma elementar de crendices, essencialmente imaginários; nasceram na comunidade, o que revelam as explicações sociológicas sobre a origem das sociedades conhecidas  ─ humana principalmente. Donde se conclui, que o mito é a construção do projeto não o fato revelado, como evento historicamente explicado.

 



Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 09h36
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Prosa Caótica II, Cad IV 1988/200, 16,17,18

 

16

Algumas palavras mais de Edmund Wilson no seu Rumo à Estação Finlândia:

“Há muita violência industrial nos Estados Unidos, muito mais do que costuma ocorrer na Europa; porém, aqui não temos crises cumulativas como ocorrem nos países europeus mais feudais: aqui a luta de classes é constante. E isso é possível porque nos Estados Unidos, mesmo havendo divergência entre os interesses das diferentes classes, chegamos mais perto da igual-dade social; nosso governo não garante a sobre-vivência de uma hierarquia tanto quanto o fazem os sistemas europeus. Somos mais anárquicos, porém mais homogêneos; e nossa homogeneidade consiste em tendências comuns que Marx teria considerado burguesas, mas que na verdade só podem ser atribuídas à concorrência capitalista em parte. O homem comum liberado da sociedade feudal, parece fazer mais ou menos a mesma coisa em todos os lugares – ao contrário do que Marx esperava, porque não era isso que ele gostava de fazer.”

Segundo Edmund Wilson, numa discussão com Trotski, Lênin afirmara: “o regime bolchevique, não era ainda de todo uma república de trabalhadores, e sim – como os trabalhadores eram governados por autoridades muitas das quais não eram de origem proletária – uma republica de trabalhadores com distorções burocráticas.”      

17

Os escritores e sua classificação, se-gundo Ezra Pound:

“ INVENTORES. Homens que desco-briram um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo.

MESTRES. Homens que combinaram um certo número de tais processos e que os usaram tão bem ou melhor que os inventores.

DILUIDORES. Homens que vieram de-pois das duas primeiras espécies de escritor e não foram capazes de realizar tão bem o trabalho.

          BONS ESCRITORES SEM QUALI-DADES SALIENTES. Homens que tiveram a sorte de nascer numa época em que a literatura de seu país está em boa ordem ou em algum ramo particular da arte de escrever é ‘saudável’.Por exemplo, homens que escreveram sonetos no tempo de Dante, homens que escreveram poemas curtos no tempo de Shakespeare ou algumas décadas a seguir, ou que escreveram romances e contos na França, depois que Flaubert lhes mostrou como fazê-lo.

                   5-BELETRISTAS. Homens que, real-mente, não inventaram nada, mas que se espe-cializaram em uma parte particular da arte de escrever, e que não podem ser considerados ‘gran-des homens’, ou autores que tentaram dar uma re-presentação completa da vida de sua época”.

Pound cumpriu doze anos de prisão nos EUA, acusado de traição à pátria por suas atividades na Segunda Guerra Mundial.

“Minhas intenções eram boas, mais enganeime na maneira de alcançá-las. O conhe-cimento me chegou tarde demais. Muito tarde me che-gou a certeza de nada saber.” Ele disse.

Esta confissão do poeta dos CAN-TARES valerá de certa forma para os seus con-ceitos sobre a arte da literatura, influenciados pelo fascismo que o empolgou, como ideologia, nos seus reflexos críticos, textuais.

Mesmo do lado errado, a posição social do escritor deve ser militante. O importante é que, constatado o engano, faça-se a autocrítica, trilhe-se o caminho certo. Fica o exemplo de Ezra Pound. Não basta, entretanto, o arrependimento. Impõe-se a ação consciente e reparadora.

Alguns escritores freqüentam os salões burgueses, comensais inusitados, apregoando a pu-reza da arte. Outros, reacionários por formação, esgotam-se em processos renovadores, que não constituem, entretanto, sinais ou conseqüências de “mutações significativas na vida histórica e cul-tural da humanidade.”

18

                      Entre outros amigos e companheiros de atividades etílico-literárias, deixados em João Pessoa, acode-me sempre à lembrança o enigmático (para mim) Wills Leal. Agitado, olhar vigilante por trás de óculos que lhe definiam um ar “intelectual”, estatura agigantada, cabelos fartos ora assentados ora revoltos, fazia–se notado ao chegar, assumia posição intervindo na conversa do momento. Não se demorava em nenhum lugar.

Aparentemente agarrado a frivolidades, deixava de lado os “concursos de misses”, invejados, que coordenava, entrava rijo na discussão sobre os rumos da nossa cultura, sobre o romance, o cinema, questões de fundo histórico e sociológico, a intimidade com autores e teses. Espantava. E sabia do que falava.

      Causava-me agradável curiosidade e expec-tativa a sua presença. Nos aproximava o meu bom relacionamento com o pessoal da diretoria e redação do jornal O NORTE, onde era figura de proa o seu irmão Teócrito  Hoje consagrado acadêmico de letras e historiador de ofício, Wills como sempre, cultiva atividades no lado agradável da vida, no ramo do lazer, das coisas boas de cada dia. O turismo é uma de suas especialidades no momento. Melhor para a Paraíba,  pois Wills sabe o que faz.



Escrito por Eilzo Matos às 09h27
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Prosa Caótica II, Cad Iv (1982,2000) 13,14,15

13

Ontem não consegui aproximar–me deste caderno. Envolvido pela preocupação das pessoas com a irregularidade do inverno, recebi visitas, ouvi queixas. Tudo terminaria, como num passe de mágica algumas horas depois, com uma grande chuva.

Entre as visitas, um proprietário vizi-nho, velho de mais de setenta anos, solteirão, arris-cando profecias, comentando fatos. Coisas do relacionamento, a que a vizinhança nos obriga por aqui.

Vive ele, na sua antiga, grande e des-confortável casa, o drama da inadaptação à mo-dernização da vida. Guarda a anacrônica largueza de uma tradição familiar com a mesa cheia de comida de milho, feijão, batata, jerimum, leite, ra-padura e outros produtos da roça.

Para ele ainda existem as chamadas mercadorias do “reino”, produtos de luxo como farinha de trigo, manteiga enlatada, entre tantas que constavam de sua mesa, por ocasião das esporádicas visitas de um sobrinho medico, de um padre ou doutor, coisas do passado.

Mal vestido, mal alimentado, esse coitado vive sob os cuidados de uma sobrinha, moça já madura, e de uma criança de dez ou doze anos, que ele tem a seu serviço, em casa, e su-portam os seus achaques, na expectativa de uma disposição testamentária que os aquinhoe na herança.

Fala com ênfase e impetuosamente so-bre coronéis do passado, respeitados, os moradores da região debaixo de suas ordens. Recrimina o go-verno, os tempos frouxos, permissivos, as reivin–dicações dos trabalhadores que, na estrutura decadente da propriedade rural do Nordeste, come-çam tardiamente a falar em direitos.

“– Os pobres não nasceram para terem terra” – disse-me em atitude provocativa, o peito estufado, as pernas endurecidas pelo reumatismo, inclinando-se na minha direção.

E para liquidar o assunto, completou com um exemplo safado, referindo-se a um jo-gador de baralho e uma prostituta, conhecidos de todos:

“– O senhor é doutor e conhece o mundo melhor do que eu. Mas eu lhe pergunto se a nação teria o que comer em terra de propriedade de Manuel Preto e de Odete!”

A reclamada reforma agrária a tirar-lhe o sono, ameaçando roubar-lhe a importância de ser fazendeiro. Se lhe dessem um pedaço de terra para trabalhar com a força dos seus braços, não saberia o que fazer. E ele acredita que desempenha um grande papel na sua avareza, impondo sacrifícios maiores aos trabalhadores esgotados.

 

14

De Alfredo Bosi na sua HISTORIA DA LITERATURA BRASILEIRA, sobre o conservadorismo no Brasil:

“A inteligência brasileira, salvo as exceções que confirmam a regra, está envolvida no modelo de raciocínio barroco, da criatividade que poderíamos chamar de estéril por estiolar-se no seu próprio objeto. A ‘retórica pela retórica’ de que fala Benedetto Croce”.

15

Comemoramos o centenário da abolição da escravatura no Brasil, oficialmente, porque em outras datas, os negros já alcançavam a liberdade em quilombos, ou alforriados antes da Lei Áurea, por bondosos senhores.

Uma campanha hipócrita, encetada pelo governo enfraquecido, e por instituições cul-turais em busca de recursos financeiros para sua própria sobrevivência, ocupa horários de estações de rádios e televisão, páginas de jornais e revistas, salas de conferências. Dizem que o negro é livre, falam em integrá-lo à sociedade, condenam a dis-criminação, emitem opiniões contrastantes.

É uma verdade dura de se dizer, mas o negro no Brasil continua coisa e não pessoa, a não ser que possua fortuna, qualidades intelectuais destacadas ou de atletas. Caso contrário, não se lhe oferecerá uma cadeira para sentar-se nas reuniões de brancos ou até de mestiços, seus aparentados.

Conheci em Sousa, na década de cinqüenta, um negro velho que falava com ódio dos tempos do cativeiro. A marca ficara–lhe no espírito. Nascera, segundo dizia, livre, beneficiado pela chamada Lei do Ventre Livre. Alto, magro, a pele retinta e relu-zente, a carapinha embran-quecida, trôpego pela avançada idade, reagia com dignidade à chacota dos desocupados que lhe apontavam no pescoço, nos tornozelos e nos pulsos, marca inexistentes de grilhões. Ameaçava com uma “relação” ao Presidente, encaminhado queixa para reconhecimento do seu direito declarado em Lei.

Egresso de um engenho de Brejo de Areia vivia com parentes do Professor Se-nhorzinho, numa fazenda perto da cidade. Conhecera a escravidão de ver os seus submetidos ao tratamento desumano, e por relatos dolorosos. Perdia o controle algumas vezes: “Filho da Puta!” Reagia às provocações.

A rejeição ao negro manifesta-se em uns quanto ao biótipo, o odor característico; em outros à tão enraizada intolerância aristocrática. Assim, esses homens e mulheres oferecem em to-dos os países para onde foram levados, uma saga de luta e sofrimento para realçar a sua negritude, a sua condição humana. Entretanto, quantos brancos dedicaram-se à sua causa!

Que opinião têm os negros na Paraíba sobre a inglesa Nancy Cunard? Entre eles, um dos seus mais ilustres representantes, o meu amigo Secretário Severino Ramos? Conhecem eles a sua história?

Entrego à viva palavra de Pablo Neru-da a narrativa deste recente episódio.

“Herdeira única da CUNARD LINE, filha de Lady Cunard, Nancy escandalizou Londres lá pelos anos de 1930, fugindo com um negro, musico de um dos primeiros jazz–bands im-portados pelo Hotel Savoy. Quando Lady Cunard encontrou a cama vazia de sua filha e uma carta dela em que comunicava orgulhosamente o seu negro destino, a nobre senhora dirigiu-se ao advogado e iniciou o processo para deserdá-la. Assim, pois, o que conheci errante pelo mundo foi uma preterida da grandeza britânica. O salão de sua mãe era freqüentado por Georges Moore (de quem se sussurrava que era o verdadeiro pai de Nancy), Sir Thomas Beecham, o jovem Aldous Huxley e o que depois foi o duque de Windsor, então príncipe de Gales. Nancy revidou o golpe. Em dezembro do ano em que foi excomungada por sua mãe, toda a aristocracia inglesa recebeu como presente de Natal um folheto de capa vermelha intitulado  Negro man and White Ladyship. Não vi nada mais corrosivo, atingindo às vezes a malignidade de Swift. Seus argumentos, cito de memória porque suas palavras eram mais eloqüentes:

“Se você, branca senhora, ou melhor, os seus tivessem sido seqüestrados, golpeados e acorrentados por uma tribo mais poderosa e depois transportados para longe da Inglaterra para serem vendidos como escravos, mostrados como exem-plos irrisórios de fealdade humana, obrigados a tra-balhar debaixo de chicotadas e mal alimentados, que teria subsistido de sua raça? Os negros sofre-ram estas violências e crueldades e muito mais. Depois de séculos de sofrimento, eles, no entanto, são os melhores e os mais elegantes atletas e criaram uma nova música, mais universal que nenhuma outra. Poderiam vocês, brancos como você é, ter saído vitoriosos de tanta iniqüidade? Então: quem vale mais?”

Nancy não pôde voltar a morar na Inglaterra e abraçou a causa da raça negra per-seguida. Esteve na Etiópia e “ depois chegou aos Estados Unidos – relata Neruda – para solidarizar-se com os rapazes negros de Scottsboro acusados de infâmia que não cometeram. Os jovens negros foram condenados pela justiça racista norte-americana e Nancy foi expulsa pela policia democrática norte-americana.”



Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 09h23
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Prosa Caotic II, Cad. IV (1988/2000) 11,12

11

A evolução da filosofia. A natureza física do mundo. O divino no esquema das coisas. O dualismo, a distinção entre o espírito e a matéria, o bem e o mal, a  harmonia e a discordância.

A vida especulativa o mais alto bem.

Heráclito esclareceu, inapelavelmente, o problema da permanência e da mudança. A força da mente intuitiva em face dos fatos, da obser-vação. A verificação das ciências comprovam a sua tese.

12

Leitura de velhos recortes de jornal. Encontro declarações do então Senador Paulo Brossard: “O Adido Militar junto à Embaixada em Paris, coronel Raimundo Saraiva Martins, em documento encaminhado ao seu Ministério, atribuía ao embaixador Delfim Neto envolvimento em corretagens para captação de empréstimos”. Disse ainda o senador que o citado militar, depondo perante a Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga o processo de endivi-damento do país, fez revelações deste teor: “Eu me sentia envergonhado pelo fato de a Embaixada do Brasil ser conhecida como a ‘embaixada 10%’. Estou tranqüilo, porque se todos cumprissem o seu dever, como eu fiz, não estaríamos devendo cem bilhões de dólares”.

É notório, e já não surpreende ninguém o envolvimento de autoridades brasileiras em casos de corrupção. A Folha de São Paulo denunciou o escândalo da Ferrovia Norte-Sul. Depois foi servido o “prato” do Ministro Aníbal Teixeira, do Planejamento.

Certa vez, no México, o recem-eleito presidente prendeu dois ex-ministros, do seu partido, implicados, em corrupção. Não tardou a vir à tona, o caso de um “rancho californiano” que lhe fora doado por empreiteiros de obras publicas.

Conversando com mexicanos, eu lhes dizia que o problema do seu país, no tocante à divida externa, era mais vergonhoso do que o nosso, pois eles produziam petróleo para consumo interno e ainda  o exportavam, enquanto nos brasi-leiros o importávamos.

Temos hoje no Brasil grãos, ouro, mi-nerais metálicos e não metálicos,  pedras preciosas e semipreciosas, madeira, somos quase auto-suficientes na produção de petróleo. E não vejo perspectivas melhores para o futuro, a não ser em cálculos matemáticos precisos, fazendo as nossas exportações, suficientes apenas para o pagamento dos juros da divida contraída pelo Sr. Delfim Neto e outros agentes do capital financeiro interna-cional, sem nenhum poder competitivo no mercado externo.



Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 09h18
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Prosa Caótica II, Cad IV, (1982/2000) 8,9,10

8

Comprei o romance de Ivan Bichara, CARCARÁ. Leitura agradável. A construção moderna e atual de um romance de tema antigo. Apesar da rigorosa caracterização dos tipos, do domínio absoluto de um estilo apurado, o livro causa a impressão de uma leitura já feita.

Conhecia de Ivan Bichara os seus ensaios, discursos, a sua vida publica, o seu bom caráter de cidadão. Agora conheço a sua ficção. A sua coragem e responsabilidade artística na criação de personagens calcados na realidade de outras épocas, na condução dos seus destinos. Um ho-mem reto.

Acusam-no de integralista na juven-tude. Quantos o foram por este Brasil fora! Até Vinícius de Morais, ídolo da esquerda. Extirpado o mal, desaparecidos os aliciadores, quantos se associaram aos ideais democráticos burgueses, e  até às lutas pela democracia popular!

No período em que governou a Paraíba, testemunho o seu respeito à lei, à ética pública, desprezadas à partir de então por Tarcísio Buriti e Wilson Braga.

9

A polícia estadual efetuou a prisão de dois professores e um estudante que trabalhavam na sede do Partido Comunista, em João Pessoa. Cuidavam eles da correspondência da organização, da arregimentação para o comício por eleições diretas para Presidente da Republica, no corrente ano, o que é uma reivindicação nacional.

Ocorrera um assalto a uma agência bancária nas imediações, e ninguém na nossa democracia-ocidental-e-cristã, ninguém melhor do que um comunista para ser responsabilizado pelos delitos provocados pelo capitalismo selvagem dos nossos dias.

O que incomoda, o que confunde a Nação é ver a ordem jurídica, os compromissos das autoridades maiores deste país, “serem atropelados pelo guarda da esquina”, como denunciou o jurista Pedro Aleixo.

10

Do meu Diário Poético:

 

Ela me quer mal, eu lhe quero bem.

Deus e o Diabo, o Bem e o Mal corrompem.

Este é o meu verso,

Como a vida, não tenho outra.

 

Todas as tardes a relva reverdece

E acontece o piar triste dos pássaros.

Do mundo a permanência e a mudança

Nutrem a angústia dos meus versos.



Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 09h14
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Lula/Obama/Amzonia

LULA / BARACK OBAMA /

AMAZONIA / PT

Eilzo Matos

 

       A eleição do negro Barack Obama para a presidência dos EUA, foi uma conquista da sua boa formação in-telectual e vitoriosa carreira política, baseados os seus conhecimentos e a sua prática partidária, na cidadania e na profunda convicção de sentimentos éticos e democráticos. Essa luta, no seu aperfeiçoamento vem de John dos Passos, Upton Sinclair, Earl Browder.

        Eis uma agenda, uma biografia, dignas de serem con-feridas, pela significação que assume para o mundo, as recentes eleições americanas. Democratas e Republicanos – o imbatível cerco ideológico. Admiro aquele povo com a sua música, a sua garra desenvolvimentista.

Pesando na consciência dos cidadãos, a marca da política de discriminação de raças praticada nos EUA – que tirou a vida de Martin Luther King e condenou os rapazes negros de Scottsboro, acusados de infâmia que não cometeram –, o mundo inteiro festejou a sua vitória. Era preciso mudar.

Até o presidente Lula, que julgávamos por fora, co-memorando o retorno do Corinthias ao Primeiro Grupo do futebol brasileiro, aplaudiu. A memória resgatou-o, no  tempo, esquecido que andava das bandeiradas e panfle-tagens, à serviço da malta de mestres universitáros, sem teses e de poucos conhecimentos acadêmicos. Tal o escudeiro manchego, em busca de uma ilha para desfrutar um governo, e que lhe oferecesse comendas.

Aí está Lula no governo, e os compenetrados dis-cípulos de Gramsci, na sua acomodada dissimulação e covardia foram largados na periferia. Culpa deles. Hoje o governo e o poder ficaram para o novo líder, ladeado pelo empresariado brasileiro e as multinacionais financeiras. Criatura esperta. Assessorado por funcionários demissíveis ad nutum cumpre formalidades diplomáticas Nada de sumidades. Quem sabe é ele.

O presidente tem bradado que os estrangeiros querem tomar a Amazônia. Não permitirá. Tenta despertar o patriotismo nos corações de boa fé, que oferecem o sacrifício da própria vida em nome da pátria. Lança um desafio.

Mas “por baixo do pano”, como no baião de Marinês – pensando que ninguém sabe, ninguém vê – permite que o PT e empresários daqui mesmo, negociem e derrubem a mata. O presidente gritou e anunciou que a amazônia é intocável. Pois está ardendo em chamas. Barack e o mundo estão de olho.

Mas a coisa vai engrossar. O presidente negro disse que a amazônia é “recurso global”. E agora o que dirá o nosso Lula? Ele tem andado articulando o Grupo dos Vinte, ignoro com quais intenções. Qualquer roupa veste o nu. Como a história de touro em curral alheio, que os sertanejos comentam. Essas reuniões, de representações numerosas, como o seu ministério de mais de quarenta titulares, termina sem atentar para a realidade. Esta a situação do nosso país. Ninguém sabe quem cuida de quê.

Estamos enfrentando um período de decadência e incerteza econômica, que a midia do jabá não revela. O mais “trágico é que apenas uma maneira de ver a eco-nomia vai se instalando, vira senso comum”. Enquanto outros crescem a gente voltou para trás, para “a era dos ciclos” como dizia Celso Furtado.

Na verdade fomos puxados para cima pela China e pela economia estadunidense, pela recuperação do saldo comercial, período que poderia ter sido melhor apro-veitado pelo Brasil, como afirma Ieda Paulani mestra da  USP, em entrevista ao jornalista José Arbex Jr.[*]

O PT quando chegou ao Planalto já tinha trocado um projeto de Nação por um projeto de Poder. Daí para cá, Mensalão, Gautama, etc. 852 escândalos. O povo protesta.

O governo Lula, finório como outros, deixou na retaguarda os tanques de guerra, os navios, os aviões de combate. As armas agora são os artifícios de papel: as normas do Conselho Monetário Nacional, do Banco Central e da Receita Federal, que ditam o que vestir, o que comer, o que comprar, como viver. Por isso volta a importância de conceitos como o capital fictício, que Marx trabalha na seção 5 do livro 3 do Capital. Assinala a mestra acima citada.

 Repito que chegou a hora de colaborarmos com o presidente Lula, ajudando-o a livrar o país da “Servidão Financeira”. Podemos começar. Estou pronto. Mas às claras, nada por baixo do pano.

...................................................................

Sertão. Confluência dos rios do Peixe/Piranhas/Piancó



[*]  “Caros Amigos” Ano XII, n,135 junho 2008



Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 15h51
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Shakespeare, Einstein - 1990

SHAKESPEARE, EINSTEIN, O MACACO RAFAEL, DE PAVLOV

                                  E OS RATOS ALBINOS, DE SKINNER

                                                                                                                                                                                                                                Eilzo Matos

 

           O amigo e intelectual Evandro Nóbrega continua credor de minha admiração, mesmo em face do que escreveu na apresentação do meu romance “Viajantes do Purgatório”, oferecido em memória de Burrhus Frederick Skinner, em que taxei freudianos e lacanianos de embaidores. Apoiado nas suas leituras (que são muitas), ele registrou a  “contribuição skinneriana no leito geral da psicologia deste século”, e que, as discrepâncias devem-se a  “meros contadores burocráticos e anticriativos de respostas estatístico-fisiológicas em cobaias animais e humanas.”

           O formulador da teoria do reflexo condicionado, asseverou num dos seus debates no Instituto de Psicologia de Leningrado, que Sherington disse-lhe, quando de um encontro em Londres: “Vossos reflexos condicionados não terão nenhum êxito na Inglaterra, porque eles cheiram a materialismo.” E sobre  discordâncias à respeito do assunto, Pavlov acres-centava: “Kholer é uma vítima do animismo. Sherington é outra. Faz muito tempo que se vêem pessoas inteligentes que, ao mesmo tempo, são animistas.” (Textos Escolhidos).

           Existem pesquisadores que, na impossibilidade de compreenderem as leis da natureza e da sociedade, pela dificuldade de aferição de certas realidades, preferem partir para a “criação” de teses pessoais, e daí para afirmações simplesmente dedutíveis de tais idéias, que não ultrapassam a inventividade do pensamento. Assim dizem-se infalíveis, “criam” pseudociências e editam leis que não passam, todavia, de meras exaltações fan-tasiosas.

           Compreendo que achem intolerável que eu, um matuto do Sertão do Rio do Peixe, faça reparos a mes-tres de Viena e Paris. Na verdade não os fiz, apenas os repeti, fundado na autoridade de I. P .Pavlov e B. F. Skinner, que, apoiados na ciência têm destroçado teses esdrúxulas sobre o comportamento humano.

           Ensinam aqueles autores que a conduta não se revela à partir de conceitos, mas de situações concretas, cuja determinação e abstração descobre os distúrbios do comportamento. Situações sociais e orgânicas têm de ser avaliadas na sua interdependência, observada a teoria do reflexo, a lógica da determinação, a anterioridade até a razão.

           Submetido à leis irrefutáveis, o homem tem a faculdade de autoregulação como sistema, pelos fatores internos e externos que direcionam a sua existência e são conhecíveis, decomponíveis, eliminando o ranço ges-taltista. Fundamentado na teoria do mestre russo, Skinner aduziu as noções de “condicionamento ope-rante” e “reforço”, ações que constituem mecanismos de aprendizagem de novos comportamentos. No seu entender, a alma, a psique, criações arbitrárias, decorrem exclusivamente da dificuldade para identificar as circunstâncias que produzem a maioria dos comporta-mentos humanos, que formam cadeias muito complexas e não estão nas suas inúmeras relações, suficientemente à mostra para observação comum.

           “De tudo se vê neste mundo!”

   Eis uma exclamação irônica que escuto corri-queiramente, no jargão destas paragens atrasadas do sertão paraibano onde moro. De fato uma análise-síntese do comportamento, sem recursos acadêmicos de uma (pretensiosa) ciência, condição que foi negada à psi-cologia por Williams James e por Wundt que, embora a praticasse, ele sabia e disse que cada mestre tinha dela uma concepção própria. Considero estimulante, no exemplo e referência, o fato da sabedoria popular poder advertir a comunidade universitária, os especialistas mercantis, numa crítica cheia de velado sarcasmo.

           Conhecemos mundos distintos no universo social. Todos (ou a grande maioria) aceitamos a medição da temperatura de Júpiter, a eficácia dos antibióticos para combaterem doenças infecciosas, a precisão astronômica do diâmetro do Sol, etc, etc. Cremos na ciência, mercê de cujas leis, é possível pela mensuração e quan-tificação, transformar e fabricar substâncias e materiais, construir instrumentos seguros, sem  possibilidade de erro para o fim a que se destinam. Assim adentramos o campo da biogenética, viajamos na internet, medimos a velocidade da luz.

           Outro é o mundo dos que aludem a fatos que não podem ser medidos nem quantificados mesmo em hipotéticas formulações matemáticas, não logrando, por conseguinte, construir concretamente, o que só é viável, repito, através das leis da ciência. Desconheço outro método de conhecimento que determine a densidade dos minerais, a eficácia das vacinas, a ebulição da água a cem graus centígrados, etc,etc.

           Os conceitos e explicações sobre o “incons-ciente”, assim como o posicionamento dos astros no instante do nascimento das pessoas, definindo o seu destino, a felicidade e a infelicidade, a riqueza e a po-breza, o caráter, as “intenções” de cada um, nada mais pretendem do que disfarçar as ações criminosas de alguns, as causas do desajustamento social.

 A elaboração de teorias fundadas em hipóteses, sugere atividade intelectual misteriosa, como advinhar cartas de baralho pelas costas, saber quem está cha-mando ao telefone antes de atendê-lo, o que tem sido observado e insinua que alguém dispõe de conhe-cimentos que não estão ao alcance de todos, não podem ser adquiridos pelos  canais ordinários, Não foi assim que o homem chegou à Lua e às fibras óticas.

           Em situações tais, o inteligente Freud – deificado por oportunistas –, entendeu que o conhecimento e a difusão das leis objetivas que regem o comportamento humano, não lhe confeririam os prêmios que pretendia. Pelo contrário, indispô-lo-iam com a sociedade esnobe que frequentava. Ameaçaria o poder de governantes e de capitalistas ambiciosos, e, por consequência, a sua bengala, a sua cartola, o seu fraque, as suas polainas, as suas estações dágua. Era preciso deixar tudo como estava, envolvido em mistério, em referências cripto-gramáticas. Por isso ele e os seus seguidores, juntamente com Sidney Sheldon e Paulo Coelho, mutatis mutandis, são campeões de divulgação, aqui e lá fora.

           Não se aborreça nem se espante o caro Evandro com a afirmação seguinte, que encerra estas consi-derações, e acredito, justificam a dedicatória do livro tal como a fiz. Por processos análogos, semelhantes, comportaram-se o dramaturgo Shakespeare, o físico Einstein, o macaco Rafael, de Pavlov e os ratos albinos de Skinner, no desenvolvimento de suas aptidões e no aperfeiçoamento de sua inteligência, para citar apenas estes, entre outros famosos indivíduos, mas a regra vale para estas espécies dentro do Reino Animal. Para mim, pelo menos.

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 Sertão - Confluência Piranhas/Peixe/Piancó



Categoria: textos antigos
Escrito por Eilzo Matos às 19h25
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