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FHC É BOM PARA O BRASIL? - A UNIÃO, 31/8/1994
FHC é bom para o Brasil?
Eilzo Matos (A UNIÃO, 31/8/1994
“O Real nào foi criado para eleger FHC, FHC é que foi concebido para viabilizar no Brasil as teses do Consenso de Washington”. José Luís Fiori. Folha de São Paulo, 3/7/94.
A globalização política e econômica em modelo capitalista, ditada pelo líder do sistema, os EUA, no diretório do Grupo dos Sete Mais Ricos, avassala e domina o forum mundial dos debates, impõe-se pela força através de instituições e organismos adrede ordenados no cenário inter-nacional. Dissimula esse projeto, acobertado por pseudos tribunais, o império da coaçào e da conquista, da “moderna” colonizaçào.
Com a dissolução do sistema político-econômico socialista mais forte, na União Soviética e no leste Europeu, o G7, isolando as pequenas comunidades nacionais em golpes de força, rege o concerto mundial do livre comércio (uma falácia), desdenha da soberania das nações. São conhecidos em todo o mundo o recurso ao bloqueio econômico, a invasão armada, praticada pelo colegiado G7. Quer em relação à política, quer à economia., é preciso que se ajustem os países, organizem a sociedade e o Estado nos moldes do novo colonialismo, na obediência humilhante da vassalagem. Que o digam o Iraque, Granada, o México, a Argentina, entre outras vítimas notavéis do rolo compressor transnacional.
A estratégia globalizante – técnica promeiromundista eficiente de submeter, de dobrar para desfrutar –, é exercida na concepçào de um aparato ideológico, planificador, coerente com tais objetivos, nos detalhes mínimos. Propõe-se a adaptar e assentar a economia dos países periféricos numa fórmula ditada pelo governo norte-amaericano, o FMI e o Banco Mundial, através de privatizações, abertura dos mercados nacionais para adaptá-los à nova realidade do capitalismo mundial, arrocho orçamentário, embora a presumível estabilização econômica agrave (como tem acontecido em outros países que adotaram o modelo) o apartheid social.
Para tanto, deve existir um governo forte, apoiado exter-namente, unido por coalizões à direita, garantindo pela credibilidade da força do esquema, e no reconhecimento de supostos méritos intelectuais do astro da cena, no caso o nosso Fernando Henrique Cardoso, pai do plano Real, filho do Consenso de Washington, que acabamos de definir.
Cito, oportunamente, de José Luís Fiori (titular de Economia da UFRJ) uma transcrição recentíssima da revista NEWSWEEK, dos EUA, de 1º de Agosto de 94, algo que reforça a nossa reação ao Plano Real, à condidatura FHC como seu executor provável, nesta aliança com Marco Maciel, Antonio Carlos Magalhães, Ronaldo Caiado, et caterva. “Os novos colonialistas são membros da sociedade internacional dos países do Primeiro Mundo, liderada pelo World Bank e pelo Fundo Monetário Internacional e incluem tudo, das embaixadas ocidentais aos bancos comerciais, às as-cendentes organizações não governamentais... Mas precisamos de orga-nizações para estabelecer padrões. Do contrário países em desenvolvimento serão excluídos de tudo no mundo.”
Não é preciso dizer mais, e FHC sabe das ciosas. Não deseja, por isso mesmo, outra vez o risco do exílio, mesmo dourado, que sofreu no passado, porque em certa ocasião, aventurou-se a dizer que a nossa condição será sempre a de “sócio menor” do capitalismo mundial, enquanto vigorarem as linhas políticas e econômicas ditadas por “Washington, e a elas nas submetermos. Para FHC, devidamente acolitado pela figura monacal do ministro Ricupero, melhor esquecer o que disse, e ascender à presidência da república, saudado pelas fanfarras da Rede Globo de Televisão, gozando, quiçá, a popularidade de personagem de “novela das oito”. Quanto à pátria, por enquanto, quem define (em novelas) o seu conceito é o consagrado acadêmico-celular, corretor de negócios escusos, via satélite, Roberto Marinho, também “coronel do Brasil”, como já o apelidaram jocosamente.
FHC não é um tolo e defende-se de tais acusações. Palavroso com é, ele fala em “visões e estereótipos conspiratórios”, certamente contra a sua condidatura negociada. Acontece que analistas internacionais imunes às exdrúxulas concepções “social-democratas” e “neo-liberais” do “esquema” FHC/MM/ACM, sabem que o Plano Real é fruto da “torçào de braço”, apli-cada corriqueiramente a governos que recorrem ao gabinete do diretor do FMI, Michael Camdessus. E FHC, com os músculos (a consciência) ainda machucados e doloridos, tem à sua frente a tarefa de assegurar o cumprimento do compromisso firmado com a sua concordância, em relaçào às exigências do G7.
Para encerrar estas breves considerações, feitas na intenção de protestar em nome da Nação enganada, desmoralizada pela submissão do governo brasileiro coagido, quero revelar um fato insólito que me foi contado pelo senador Antonio Mariz, relator do projeto de lei sobre Patentes, que tramita na Câmara Alta do país. Sabemos que os deputados, senadores e governadores, no desempenho de seus mandatos, despendem ingentes es-forços para conseguirem uma audiência com Ministro de Estado. Esperam na fila, aceitam o calendário que disciplina o expediente ministerial. Pois bem. Para discutir os interesses do EUA, na Lei de Patentes, é óbvio, três ministros brasileiros (Relações Exteriores, Indústria e Comércio, e Tecnologia) solicitaram audiência ao senador paraibano, que os recebeu no seu próprio gabinete. Algo parecido, só aconteceu com FHC então Ministro da Fazenda, em visitas periódicas ao Congresso Nacional para defender o Plano Real, isto é, as teses do Consenso de Washington.
Esclareço, e o senador Antonio Mariz sabe, que o interesse primordial dos EUA em relação à Lei de Patentes, é o aumento de proteção à “propriedade intelectual”, incluindo software, sementes, medicamentos e assim por diante. Tais medidas destinam–se a assegurar às empresas ali sediadas, o controle da tecnologia do futuro, incluindo biotecnologia, que se espera, irá permitir que a empresa privada controle a saúde, a agricultura e os meios de vida em geral, trancando a maioria pobre na prisão da dependência e da impotência, permitindo–lhes ainda, nos seus negócios, um lucro adicional anual de sessenta bilhões de dólares.
O Plano Real foi, desta maneira implementado conforme as teses do G7, para assegurar tal desempenho global nas nações periféricas. E FHC foi cooptado para esta certeza. Surpreendentemente disse bem, há dois dias passados, em entrevista à televisão (SBT), numa frase a seu gosto, o conhecido traidor da pátria Roberto Campos (alcunhado Bob Fields), que o plano de FHC não solta o Brasil na pista olímpica da disputa internacional pelo desenvolvimento. Pelo contrário, é um simples exercício de fundo de quintal, e como tal deverá prosseguir a duras penas, enquanto satisfizer os interesses do G7. Matéria para reflexão de FHC.
Para finalizar, uma pergunta e uma resposta, em face das eleições presidenciais à vista. P – Devemos votar em FHC? R – Claro que não. Com certeza em Brizola ou Lula, que não aceitam tutela, ou em qualquer dos demais que, pelo menos, não foram escolhidos pelo G7 para traírem o Brasil.
Categoria: textos antigos
Escrito por Eilzo Matos às 08h54
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PROSA CAÓTICA II - O DURO RECOMEÇO, CAD IV 6, 7
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Entre os trabalhadores intelectuais da Paraíba, destaco José Octávio de Arruda Melo, que a censura, o arbítrio e a castração de inteligências promovidos pela chamada Revolução de Março de 64, desviou dos seus rumos. Mesmo assim, esse culto homem de letras, imerso nas contradições do seu tempo e de sua classe, realiza, paralelamente ao seu penoso trabalho de escritor, uma ação integradora na promoção de estudos e debates sobre todos os aspectos da cultura.
Sobre José Octávio, que iniciou o seu delicado mister naquele período negro da historia brasileira, obrigado a “reciclar” o seu pensamento para o ingresso – diria melhor, o emprego e o destaque – na comunidade universitária de mestres, escrevi em 1971: “O professor José Octávio representa hoje, em termos paraibanos, com toda a força sociológica do gentílico, um valor, uma reserva cultural respeitável. Na crítica e no ensaio, destaca-se com outros conterrâneos, motivados pelas altas dignidades e oportunidades que lhes passou a oferecer a vigiada Universidade Federal da Paraíba. Labora o insigne ensaísta matéria muito especializada, daí a sua pouca divulgação, o que não deverá servir de desestímulo aos seus estudos.”
“Em que pese todo o vigor de que estão impregnados os seus escritos, exsurge no trata-mento cientifico que lhes empresta, o condicio-namento que manieta o crítico, o “escritor ta-refeiro”, nesta época de decadência ideológica, em que a publicidade e a auferição de glorias que lhes são próprias, só as terão se repetirem e glosarem recensões doutorais.”
“Estes os motivos e razões que levaram o ensaísta a prejudicar o seu grande trabalho de pesquisa histórica, refutando simplesmente, até jocosamente, uma corrente do pensamento uni-versal, procurando dissociá-lo do seu método de conhecimento, método esse indefinível, pelo estreito sociologismo de que está carregado.”
José Octávio ligou-se a José Honório Rodrigues por um casamento, diria, duvidoso. Por pressão do famoso AI-5. No negro período de obscurantismo era preciso conquistar os que abis-coitaram a sabedoria, a cátedra, e selecionavam os iniciados.
Mas, por que José Honorio? Poderá al-guém perguntar. Acho que entre os historiadores e/ou historiógrafos do nosso país, ele foi um precursor, menos preconceituoso, de certa forma um criador de novos métodos de recolhimento e interpretação dos fatos históricos. José Honorio tinha a coragem de sustentar opiniões assim:
“A sociedade e a economia brasileiras, por sua tradição colonial, são uma rocha granítica de resistência à mudanças, oferecida pela classe dominante a qualquer intenção reformista ou revo-lucionária da gente média e pobre. Reformam sempre as instituições jurídicas, e raramente as ba-ses econômicas e sociais. O tradicionalismo tende à sustentação de privilégios.”
Absolvo José Octávio de seu desvio em plena juventude, um pecado de muitos, quando tudo podem oferecer. Absolvo-o pelo seu trabalho, que o situa entre aqueles intelectuais que formam com os descamisados, uma força viva da história, não se chocando, na prática, com a sua luta. Pena que tal tenha acontecido, quando “o que é próprio de uma juventude viva é recusar toda servidão.”
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Escuto no rádio que estão organizando, em Sousa, um comício por eleições para Presidente da República, ainda este ano. “Diretas Já” é o que pedem.
Ouço o que dizem, conheço alguns dos propagandistas que falam e conclamam a popu-lação assegurando mudanças na estrutura do Es-tado. Defendo a realização periódica de eleições em todos os níveis. Reconheço no fator eleitoral uma das forças de aprimoramento da democracia.
Quais as tarefas dos militantes parti-dários das esquerdas, colocadas no Brasil de hoje? É preciso refletir e não transformar em carnaval o sentido político da abertura democrática, conse-guida à custa dos mártires de 64 e de outros que se lhes seguiram.
A classe dominante, proprietária dos meios de comunicação tem desvirtuado o caráter popular e de vanguarda desses movimentos, trans-formando-os em veladas substituição de censores.
À parte publicações especializadas, o que a “grande impressa” divulga sobre religião e política é pura mistificação.
Assimilamos, muitas vezes, por espí-rito de imitação, essa técnica subliminar de pas-sarmos adiante verdades dúbias, falsificações cri-minosas dos fatos.
A “grande imprensa” andou espa-lhando no ultimo período de seca, que os Nor–destinos estavam comendo ratos. Ninguém, nin-guém mesmo, alcançado pela propaganda de massa, duvida desse fato.
A historia não é apenas mentirosa e impatriótica, mas dolorosa. Objetiva esconder os antagonismos sociais, inculcar subliminarmente na consciência coletiva a ilusão de uma tolerância, de um impossível rebaixamento da população, e semelhante degradação humana. Desafio quem tenha visto no nosso sertão, uma pessoa sequer conduzindo ratoeiras, perseguindo os bichinhos feios e pestilentos para comê-los. Vemos, isto sim, pessoas de olhos fundos, o desespero na face, pe-rambulando ameaçadoramente pelos campos e pelas cidades, com sacos vazios nas mãos, assal-tando depósitos de gêneros alimentícios. A historia é outra. Outra é a verdade.
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 04h30
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Anarquistas
ANARQUISTAS SÃO ELES – OS NEOLIBERAIS. DIGO E SUSTENTO.
Eilzo Matos
João Pedro Stédile e José Rainha querem a Reforma Agrária. E lutam para torná-la realidade. Mesmo sem imprensa. Não disseram outra coisa em nenhuma oportunidade de sua luta, na sua vida. Foram silenciados pela mídia. Já não metem medo. Chegamos ao fim da história, berram os neoliberais.
Administrar recursos financeiros públicos, todavia, para organizar assentamentos instalados, elaborar projetos de viabilização econômica e social das áreas ocupadas - não é tarefa deles - , é assunto para os órgãos da administração federal, inclusive a PF e a ABIN. Elas que dominam, quando querem, a técnica dos subterfúgios, mas não localizaram os rombos e os arrombadores, que frustraram os objetivos pretendidos e anunciados. Um fracasso o que se vê.
Por fim, a PF prendeu os líderes impolutos, a Justiça processou-os. Falam alto. Resta-lhes, entretanto – escravizdas a um destino inglório –, a encenação de atos grotescos. Derrotadas, subjugadas porque tentam salvar a própria pele. Como os trágicos personagens dos dramas de Camus, todos identificados pelas insígnias que usam ou deixam de usar.
Acontece que programas finórios e fajutos, do governo Lula, que cuidam apenas de nichos: o dos banqueiros, dos aloprados, etc, falam em economia familiar, para impressionar, como se ninguém soubesse que existem um país, uma nação, e o que é casa e feira. Desacreditados apelam para a corrupção, disfarçada em “ajudas” quando negam e escamoteiam direitos. Quem não vê? A PF e a ABIN não. Adeus planejamento econômico, adeus justiça social. Repetirei sempre, a dorida constatação de Celso Furtado, que tal procedimento nos deixa cada dia mais distantes do país que sonhamos.
Dois grupos militantes reúnem, atualmente, as forças pró e contra a Reforma Agrária. De um lado os socialistas, do outro o resto: governo, beneficiários e apaniguados – os anarquistas identificados facilmente pelas suas ações.
Assentamentos patrocinados pelo MST, Pastoral da Terra e denominações outras, não contam pela sua localização, pela orientação cívica e política que adotam. Reforma Agrária nem falar. A terminologia nova, ensinada por Ricardo Coutinho é o que vale. Tornaram-se meros beneficiários do “Proer dos Pobres” – exibindo o emblema da organização –, para tanto recebem cestas básicas, acesso ao micro-crédito bancário, malversando tais recursos, dilapidando o eventual patrimônio que lhe chega às mãos. Transformadas em verdadeiras Hidras, tais instituições invadem, assaltam, agarram e se estabelecem na periferia das cidades e povoações, distanciadas do campo, identificadas pelo governo com a insígnia da bolsa família, fome zero, etc. E haja pesquisa comprovando eficiência do modelo. Mas reina intranqüilidade e insegurança na sociedade. Quem o negará?
Aí reside a vitória de Stédile e Rainha. O povo se agacha, arrasta-se, é traído, mas resiste de alguma forma, não se entrega/ Protesta cada novo dia, reclama renovação e ampliação de assistência pública diferenciada. Denuncia fraudes e fraudadores.
Aproveitando a deixa, por ter falado em “Proer”, acode-nos o pioneirismo do corrupto FHC, ao pagar com dinheiro do contribuinte brasileiro, o furto praticado por dirigentes de instituições financeiras nacionais e internacionais. Talvez o menor dos seus crimes. Estão lembrados da Vale do Rio Doce? Da telefonia? Da anulação de uma Petrobrás nacional independente? Que Alísio Biondi protestou porque ele vendera até a alma nacional?
Os bravos cidadãos norte-americanos, no momento, são submetidos a procedimento semelhante. É o fruto do sistema. A imprensa através da internet, informa que “o governo prevê a autorização para que, o Tesouro dos EUA use até US$ 700 bilhões para comprar títulos podres lastreados em hipotecas e que estão na carteira dos bancos, seguradoras e fundos de pensão”.
Título podre. A denominação corresponde a moeda podre, recebida pelo governo FHC como pagamento, pela venda do valioso patrimônio dos brasileiros, que sustentaria o desenvolvimento de um país, soberano e independente.
Imagino a situação de folgados amigos que tenho em Hartford e New Haven, alunos e professores de Yale, protestando contra o assalto! Conduzidos pela mídia, como aqui, é preciso convir.
Os anarquistas criam o cenário predatório, controlam os atores. Gritam vitoriosos, lançam ameaças. O mundo está em suas mãos. Quem duvidaria?
Novas crises no horizonte? Eles que as criam, intuem o modo de solucioná-las. Nós que as sofremos, entretanto, nos contrapomos. É uma regra inevitável.
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Confluência das bacias dos rios do Peixe/Piranhas/Piancó. Sertão da Paraíba, 02 de outub ro de 2008
Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 18h14
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PROSA CAÓTICA II - O DURO RECOMEÇO (1988/1990) CAD IV, 1, 2, 3, 4, 5
1 A velhice faz algumas pessoas mais tolerantes, compreensivas, bondosas. Outras tornam-se irritadiças e extravagantes. Cabe aos jovens o arrebatamento, o sonho, as idéias grandiosas e até irrealizáveis. A temperança a moderação impõem-se à idade madura. Aos cinqüenta e três anos, não sei se já envelheci de verdade, ou se uma perturbação psíquica que os psicanalistas batizaram de “andropausa” modificou o meu comportamento. Mudei de hábito e deixei de participar da vida política e “social” como antes, internando-me na fazenda. No princípio uma fuga, hoje um modo de viver que me agrada - diria rejuvenesce.Uma que outra vez, encontro velhos conhecidos e converso sobre o que não me interessa nem me agrada. Próximo do fim, procuro descobrir a origem das coisas, dos fatos. Uma forma de descobrir-me a mim mesmo. Talvez uma forma disfarçada de proteger-me, derivando para processos puramente ideais e especulativos. O que me acalma e infunde confiança para intentar novos projetos. A literatura individual, de que fala Aragon: uma máscara, reflexo de privilégios. 2 Hoje a fazenda está mais despovoada e silenciosa. Osmoradores foram para as cidades da vizinhança para receber o pequeno salário (1/6 domínimo legal), que paga o governo nas chamadas “frentes de trabalho de emergência.” Não existe trabalho nas “frentes”, nem existe seca que justifiquem o tratamento emergencial de uma situaçào de risco. As classes dominantes procuram mascarar a pobreza e a miséria institucionalizadas, repressivas, com um assistencialismo penalizado, cheio de falsa comiseração. E se aproveitam da realização de obras públicas em seu benefício direto. O governo compactua com a farsa, ou melhor, promove-a e patrocina-a. O mal não está em chover ou deixar de chover. Os norte-americanos, os chineses, os israelenses têm emprego e não lhes falta alimento, mesmo quando moram nos grandes desertos daqueles países. Existe pobreza e existe fome, entre nós, isto sim. Uma pobreza secular que persiste mesmo nos períodos em que chove abundantemente nas nossas terras. E em lugares onde chove sempre. Mendigos enchem as ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Que tem a chuva a ver com isso? O problema é outro. Decorre do nosso modelo social repressivo e não igualitário. Há algum tempo vi na televisão, o atual governador de Pernambuco, Miguel Arrais, narrar uma experiência de sua vida de filho do sertão do Ceará. Atravessou com a família alguns períodos das cíclicas secas, até que o seu pai decidiu mudar-se com todos para o Recife, onde chove até demais, e o verde é eterno. Lá encontrou uma mi-séria maior do que a do sertão que deixara 3 A calma e o silêncio reinantes levam-me a outra ordem de pensamentos. Escuto os passarinhos e identifico alguns pelo canto. Existem os de modulações jâmbica, espondaica, os rítmi-cos, isto quanto ao desenvolvimento do canto, porque os há também líricos, outros épicos, pelo conteúdo dos gorjeios e trinados, falando da guerra, do amor, revelando tragédias, situações dramáticas, fanfarronices, comédias. Eis um tema, asseguro, para estudo e teses de mestrado dos discípulos de Claude Lévi-Strauss e seguidores do lingüista F. de Saussure. Os homens compõem numa imitação dos pássaros. Com o auxílio do computador tudo ficará mais fácil de demonstrar. Os seus seguidores o farão, tenho certeza. Uma forma “poética” de esconder o conteúdo social da arte da literatura. Ofereço-lhes, do que ainda resta da nossa fauna de penas, algumas observações e classificações que não têm rigor cientifico, o que certamente não lhes agradará. Mas é um ponto de partida. Para quem classificou lexemas, sintagmas, morfemas, “descobriu” a gramática sincrônica e diacrônica, não é uma tarefa intransponível. Senão vejamos: Épicos: – canários, bem-te-vis. Líricos: – galos-de-campina, sofrês, sabiás. Cômicos: – casacas-de-couro, João-bestas, papa-lagartas. Elegíaco: – a peitica, a agourenta acauã Do meu “diário poético”:
No lar camponês os pais adoecem E os meninos, sem escola, Vão para o trabalho. Eles precisam comer. Outros conseguem lucrar.
5 Lançamento do meu livro A FACE DO TEMPO, em Sousa. O meu sobrinho, Lúcio cuidou de organizar a pequena solenidade no Foram Municipal. Coube ao poeta Mozart Gonçalves, a meu convite, fazer a apresentação de praxe. Fui surpreendido com o número de pessoa que compareceram. Velhos amigos, uns, e outros que consideram um dever social o atendimento a um convite. Quantos movidos pela curiosidade de ver-me em público, dada a minha separação de Maria Augusta! A estes últimos satisfiz-lhes a curiosidade oferecendo-me de corpo inteiro, meio adoentado, envelhecido, como dizem. Mozart destacou entre os versos, aqueles que ressaltam a preocupação social, ou a posição do artista em face do seu mundo. Inteligente, arguto, evitou falar ou discorrer sobre aspectos já comentados por Gemy Cândido e Luiz Augusto Crispim, constantes das orelhas e do prefácio do livro. Outro sobrinho, Antônio, encarregou-se da venda dos livros, a despeito da arrecadação financeira ser ínfima, menor em relação ao custo da impressão, do coquetel oferecido aos convidados. Mas ele procura mostrar prestígio entre os seus amigos, assegurando presença numerosa e ilustre. Sei que não gostarão dos versos, apesar dos temas e expressões, em sua grande maioria, na ordem das preocupações de cada um. A forma e a disposição das palavras, o recurso à fragmentação por influência de múltiplas fontes, eliotianas, na caracterização de Ivan Junqueira. A introdução de nomes próprios e o uso de palavras e até de versos inteiros em outras línguas, dificultam a leitura, e para muitos prejudicarão a musicalidade, o ritmo, o metro, que constituem elementos artísticos indis-pensáveis à poesia. A técnica usada poderá parecer uma demonstração de erudição, de conhecimento de outras línguas, o que não constitui um componente de valorização poética. Trata-se, no meu entender, de uma técnica de ambientação do verso à circunstância de tempo, lugar e pessoa, o que lhe dá maior peso histórico-estético. Que me julguem e os meus versos. Dever dos críticos.
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 08h45
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PROSA CAÓTICA II - O DURO RECOMEÇO 1988/1990, CAD III 21, 22
21 Dois mil anos de civilização ocidental realizaram-se sobre bases religiosas cristãs. A partir de Paulo, o Apóstolo “porventura não tem o oleiro o poder sobre o barro, parra fazer da mesma massa um vaso para a honra e outro para a desonra?”. Os fundamentos éticos do cristianismo e o destino do homem na terra ficaram à mercê de teólogos. Mas o que vem a ser um teólogo? Com a palavra o muito liberal Voltaire: “O primeiro téologo foi o primeiro espertalhão que encontrou o primeiro tolo.” (Romanos 9.21 - Dicionário Filo-sófico ). 22 “Vivi no Recife dos dezoito aos trinta anos” – costumo dizer quando falo sobre a capital pernambucana. Uma referência ao vigor que a juventude nos oferece, nesta quadra da vida. Hoje, procurando na memória fatos e referências sobre aqueles anos todos, descubro que, sem raizes familiares em Pernambuco, o Recife era para mim uma espécie de exílio. À despeito de integrar-me aos aspectos culturais da cidade nas atividades acadêmicas, chegando a frequentar ambientes fora da escola, pesava o isolamento que sofreram nos guetos, os judeus da Europa na Segunda Guerra. Pessoa comum, vivendo à margem do que faz a memória fortuita de uma cidade, isto é, os círculos da elite, não me "recifencisei", como José Lins do Rego, Tobias Barreto, Clovis Bevilácqua e tantos outros, na expressão de Gilberto Freire. A tradição familiar tem um peso especial na praxis social. Cheguei ao Recife sem muitos sonhos além do título de doutor, da busca de um instrumento de trabalho – o diploma para sobreviver, integrar-me destacadamente na árvore familiar. Mas alimentava esperanças de galgar posições na vida social e política da Paraíba, como muitos o fizeram, E cultivava amistoso relacionamento com colegas e conterrâneos. A política estudantil a qu e me integrei ideologicamente motivado, decidiu o meu futuro. ...........................................
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 12h08
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PROSA CAÓTICA II - O DURO RECOMEÇO, CAD III 15,16,17,16,19,20
16 De volta à fazenda, depois de alguns dias entre Sousa e João Pessoa, retorno ao hábito de redigir estas notas. A ocupação circunstancial tem muita força. Uma afirmação contraditória? Conversei com a minha família e com amigos. Mas tinha pressa em voltar. Circunstâncias ocasionais, portanto, afastaram-me destas reflexões, do meu comodismo, observando à distância a ingênua alegria dos trabalhadores, percorrendo na memória os caminhos da minha vida. 17 Chove abundantemente. Não estamos habituados a invernos assim copiosos. Não é, todavia, uma estação de chuvas torrrenciais como as descrevem Garcia Marques e Pablo Neruda, na sua imginária Macondo, na sua Araucania natal. Aqui o sol aparece todos os dias, brilhante, ardente. As pessoas, os animais pouco demoram em suas tocas, recebem calor e energia, vêem o mundo na totalidade de suas cores e sons, encontram-se no trabalho, nas longas conversas sobre o clima. A vida não sofre in-terrupção nas suas manifestações sociais. 18 Do amigo Marcelo Cerqueira tenho recebido alguns livros e suplementos de letras do jornal do Brasil e da Folha de São Paulo. Engenheiro do serviço público, ele desempenha com reconhecida capacidade técnica, as suas funções na concessionária de distribuição de energia elétrica no Estado. O que o distingue, entretanto, é o seu grau de consciência política, o seu patriotismo. Um verdadeiro “milagre bra-sileiro” que uma pessoa assim encontre emprego no nosso país. Guardo o material para leitura mais a vagar, livre das preocupações em outras esferas de pensamento. 19 Não li nenhum dos livros do escritor José Saramago, colocado entre os grandes ficcionistas modernos da Europa, um renovador entre os portugueses. Conheço-os de excelentes resenhas em jornais do Sul, às quais não faltaram a reprodução de partes do texto, apresentado e comentado. Percebo e não me agrada em Sara-mago, a irresistivel busca de originalidade, que prejudica em alguns pontos e sua prosa: a pessoal escritura da língua portuguesa, tornando-a de dificil compreensão. A evolução de uma língua é um fenômeno nacional dentro de suas raízes históricas. A sintaxe, então, consiste no código principal, e a desobediência às suas regras implica na ruptura da comunicação, do entendimento que é o fim específico da linguagem. A ênfase da linguagem poé-tica não envolve necessariamente o desrespeito ou desconhecimento das proposições da língua, enten-dida pelos lingüistas como o fundamento de toda cultura. Constitui um fato comum entre os es-critores, especialmente entre os mais famosos, essa tendência ocasional para transferir para a língua, mutilando-a, a sua perplexidade um face da arte literária e dos problemas existenciais. Poderíamos citar Joyce, como exemplo, no FINNEGANS WAKE, no ULISSES, e Guimarães Rosa na saga dos sertões mineiros, que é a sua obra ficcional. De tantas páginas cifradas, restaram a coerência de reflexos e conteúdos sociológicos, culturais, hu-manos enfim. As tentativas inovadoras na língua, nem sempre chegaram a produzir um neologismo sequer. Sobre Saramago, a sua obra reveste-se para mim, de inequívoco conteúdo político, de riqueza imaginativa e apurada técnica narrativa, segundo entendi das resenhas mencionadas. 20 Há escritores que não adotam a “prosódia da ralé” de que fala Ascendino Leite, a qual pela extensão e uso, possui muitas vezes, características nacionais. Preferem criar um vernáculo pessoal, numa inversão do significado do termo. Vale recordar, todavia, que “brasi-leirismo não é corruptela nem solecismo” como acentuou José Américo de Almeida
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 07h06
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PROSA CAÓTICA - O DURO RECOMEÇO (1988/1990)CAD III 11, 12, 13, 14, 15
11
Preparo-me para viajar para João Pessoa. Entre outros compromissos a dolorosa visita aos filhos e à minha ex-mulher.
Sem paixão, quero-a muito ainda. Uma criatura utilitarista e indefesa, que procuro ajudar. Deixei-a sem magoa, apesar da violência de certas atitudes suas, que tiveram origem, todavia, no meu irregular comportamento conjugal.
Lamento a sua vida no meio de pessoas que privaram de nossa amizade, ao longo dos vinte e cinco anos que durou o nosso casa-mento. É que se comprazem, a lastimar insi-diosamente, a nossa separação. Transferi-lhe a propriedade de noventa e cinco por cento de todo nosso patrimônio, que ela exigiu. Dei-lhe ren-dimentos que lhe permitem com segurança, uma vida de classe média.
Fomos os dois, intransigentes e purgamos as nossas dores num respeito recíproco à vida de cada um, no amor e dedicação aos nossos filhos. O destino conduz os nossos passos.
12
Trabalho cansativo na revisão tipográfica do meu livro: PROSA CAÓTICA. Fiz um índice onomástico pela ordem numérica dos textos, que sofreram inversões na composição, impondo uma tarefa à mais na correção.
Reuni no livro mencionado, artigos de jornal, discursos e prefácios escritos nos últimos vinte anos. Alguns revelando a pressa no aten-dimento a compromissos a que estavam ligados. Mas o melhor que pude fazer, na maioria dos casos, é verdade.
Não consegui impôr-me até hoje, um método de estudo e trabalho. Sou apenas um leitor e escrevinhador sentimental. Percebo certa reserva mental no que venho escrevendo. Daí a qualidade inferior de forma e conteúdo, isto é, de estilo e profundidade de raciocinio. Sem haver lido os clássi-cos do jornal, das confissões, dos diários íntimos, aventuro-me, sem um modelo, na redação de “estados d’alma”, impressões de leituras e temas correlatos.
13
Jório Machado, diretor da gráfica e editora A UNIÃO, entre admirado e irônico falou-me sobre a publicação de dois livros ao mesmo tempo. Ele não sabe que tenho prontos outros: O JOGO DA PACIÊNCIA, HISTÓRIAS DO CAMPO E DA CIDADE, este caderno de anotações, e um romance meditado, em preparo. Que fazer? Sobra-me tempo e a pretensão de trilhar profissionalmente a prática de escrever textos. Uma mudança de hábitos, uma realização através da literatura de posicionamento em face da tvida, através da tribuna da obra escrita. Ainda a ação política.
14
Do meu “diário poetico”:
A literatura não paga salário.
Vivo do emprego, recortando,
Traçando com lápis e régua,
Linhas que medem léguas.
Final do mês – dia de pagamento –
Bebo aguadente no bar Parnaso
E sinto-me antropofágico.
Vexila regis prodeunt inferni.
Tu lucis ante.
Alegra-te ó triunfador.
(Da Divina Comédia)
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De um artigo de jornal do poeta Vladimir Maiakóvski: “Depois da morte de Kliébnikov apareceram muitas notas e artigos em diferentes revistas, tratando-o com alguns elogios. Li-os com repugnância. Quando vão terminar, afinal, com essa comédia de cuidar das pessoas depois de mortas? Onde estavam os que agora escrevem sobre ele quando Kiébnokov, desprezado pela crítica, perambulava pelos caminhos da Russia? Conheço muitos poetas ainda vivos, aos quais espera o mesmo fim. Deixem de realizar suntuosos centenários e respeitem mais os vivos, ao invés de render-lhes homenagens com edições póstumas! É preciso escrever artigos sobre escritores enquanto estão vivos! Dar-lhes pão em vida! Dar-lhes papel em vida!”
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 06h54
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Blaise Pascal, Mathias Freire, Albert Camus
LULA, BAGDÁ, O TIMOR LESTE, OS FILÓSOFOS
BLAISE PASCAL,
MATHIAS AIRES E CAMUS – já vi este filme.
Eilzo Matos
Recorro sempre a autores e fatos antigos – alguns que li, outros que me relataram. Com o raciocínio conduzido pela argumentação que caracterizava o comportamento da sociedade, naqueles idos, desde a Babilônia ao Timor Leste, de Blaise Pascal a Mathias Aires e Camus, e diante dos acontecimentos de hoje, repito, ao gosto do falar moderno: – “Já vi este filme”.
Fundado em Ariano Suassuna – gosto de referências aos clássicos do pensamento, para dar autoridade intelectual às minhas modestas reflexões – e devedor de explicações aos possíveis leitores-freqüentadores deste blog, transcrevo as oportunas linhas abaixo:
“O escritor Ariano Suassuna comenta que certa vez, numa aula em São Paulo, afirmou que as universidades brasileiras pensam e ensinam de costas para o nosso país. ‘E para provar o que estava dizendo – relembra Suassuna –, pedi que levantassem a mão os que, ali, pelo menos uma vez, já tivessem ouvido falar em Kant. Todo mundo fez o gesto solicitado. Fiz então, pedido igual em relação a Mathias Aires e somente um rapaz ergueu de novo a mão que baixara. Comentei: Estão vendo? Mathias Aires o maior pensador de língua portuguesa do século 18, era brasileiro e paulista; e aqui só é conhecido por aquele rapaz que ali está! Voltei-me para o solitário e indaguei. Você já leu Mathias Aires? Ou somente ouviu falar sobre ele em algumas aulas que recebeu? O rapaz respondeu: Nem uma coisa nem outra. Conheço o nome porque aqui em São Paulo, moro na rua Mathias Aires”’.
Todo relambório acima, vem a propósito do presidente Lula. Não quero me referir ao mensalão, guatama e mais atos de corrupção que dominam o seu governo, e ele, com o controle que exerce sobre a mídia, divulga o quer divulgar, e esconde o que quer esconder, negando ou abafando as denúncias, invadindo e destroçando a moralidade nacional. Insisto na minha tese:
– Basta de palanques alcoolizados, de cenas de bufonaria, de gritos de capataz, de historias de mãe preta!
Falo no que vejo e o país inteiro vê.
A AMAZONIA PEGA FOGO! ARDE EM CHAMAS!
Gosto do ministro Mink. Corajosamente ele conta a história do fracasso do governo Lula na área ambiental. Homem de boa apresentação, bem vestido como legítimo carioca (rico), comparece a reuniões, concede entrevistas, hoje com os cabelos despenteados, os belos coletes amarrotados numa luta inglória. Penaliza o seu ar cansado, a ansiedade que reponta nos seus gestos desmparados.
– Estes são os crimes! Aí estão os criminosos! – ele aponta.
Uma temeridade. Vai terminar perdendo o emprego como a ministra Marina. Que o digam os caminhoneiros, que transportam carradas de toras de madeiras com guias e notas de autorização de corriolas do PT, nem tanto, direi: do governo, isto sim. E a Polícia Federal, que domina quando quer a técnica dos subterfúgios, resta derrotada, subjugada porque busca salvar a própria pele.
Ora, tal imoralidade conferiu a Lula aprovação da opinião nacional que chega a oitenta por cento. Já afirmei e repito: o Mercado – seja de riqueza mineral, seja de papéis de crédito, seja de vidas humanas degradadas, tiranizadas –, o sustenta no cargo, o que ele sabe, e não pretende tolher, inviabilizar o belo destino de sua mulher e dos seus filhos. Não vejo outro motivo que explique tal desempenho. Assim chegamos à Brasília dos frustrados sonhos socialistas ou socializantes de Niemayer e Lúcio Costa.
Deixando de lado as questões fundamentais da sociedade humana, na construção do pensamento científico, do Estado, que tento explicar na metáfora Bagdá, Timor, Brasília, volto-me para as nossas íntimas e pessoais questões humanas – a coragem e o medo, o orgulho e a fantasia – que determinam nosso comportamento. E as fugas, as reações retóricas que oferecemos. O nosso Mathias Aires, um dos poucos pensadores que filosofou no idioma português, assinalou nas suas reflexões, antecipando sobre os governantes, o que divulga a imprensa do jabá nacional, a respeito de Lula e Ricardo Coutinho:
“Chegou finalmente o tempo, em que os acertos de Vossa Majestade persuadem... daqui vem o parecermos, que Vossa Majestade não só nasceu para reinar, mas que já sabia reinar quando nasceu”.
No entanto, a desertificação do semiárido nordestino, que já se mostra nos “Patins do Majó Migué”, do meu colega Flávio Sátiro, continua ignorada nos escalões que geraram o PAC e não pariram ainda. Vai terminar, pelo visto, como na lenda, que, a despeito dos gemidos aterradores, a montanha pariu um rato.
Acredito que nem João Manoel e Gonzaga duvidam mais.
Então chegamos a Albert Camus com a sua literatura, o seu teatro do absurdo, num estúpido mascaramento da realidade – certamente atento aos expedientes recomendados por Brecht, a que podemos recorrer, para passar verdades em tempos difíceis, ou o seu próprio entendimento sobre os meios e modos próprios da arte:
Cena. Uma praça em Cádiz (Espanha de Franco). Personagens: burocrata, cidadão:
“Burocrata – Enquanto isso, vós, guardas, vendereis nossas insígnias. Bom dia. Desejais comprar uma insígnia?
Cidadão – Que insígnia?
Burocrata – A insígnia da Peste (bolsa família, guias de trânsito,etc). Aliás, sois livre para recusar. Não é obrigatório.
Cidadão – Então, recuso.
Burocrata – Muito bem... Perfeito. Desejo simplesmente, advertir-vos de que todos aqueles que se recusarem a usar esta insígnia serão obrigados a usar a outra insígnia.
Cidadão – Qual?
Burocrata – Bem... A insígnia daqueles que se recusam a usar a insígnia. Assim podemos reconhecer, à primeira vista, com quem temos problemas”.
............................................................
Sertão do entroncamento Piranhas, Peixe, Piancó, 30 setembro 2008.
Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 13h28
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PROSA CAÓTICA - O DURO RECOMEÇO (1988/1990) CAD III, 8, 9, 10
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Recordação de Sousa nos anos quarenta/cinquenta. Havia pobres e explorados, como hoje, mas o progresso técnico com as características próprias do desenvolvimento capitalista, aplicado na liquidação das velhas forças produtivas, não havia alcançado o nosso meio.
As necessidades, quase todas, da população, eram atendidas pelo trabalho artesanal em pequenas oficinas. Lembro-me de Laurentino, ferreiro; Chico Neves fazendo artísticas malas e baús de couro; Chico Casimiro consertava armas de fogo; João Cipriano era marceneiro; José de China, funileiro; Mestre Júlio cuidadva de caldeiras e equipamentos de engenhos de rapadura; Zé Caboré, sapateiro; Chico Rosa, comunista, era alfaiate. Havia as doceiras, costureiras. Batista Landrês (dencendente de holandeses?), de olhos amarelos, era cambista de jogo do bicho e vestia defuntos.
Os móveis de salas e quartos, os utensílios domésticos e ferramentas de trabalho eram feitas ali mesmo, de ferro, de barro cozido, de madeira. Os ricos destacavam-se apenas pela abastança do ter, importavam o que necessitgavam e os distinguia, sem os modernos equipamentos que o desenvolvimento da indústria e da técnica lhes oferece atualmente, excluindo do seu uso a grande maioria da população. Detinham o poder político que, distante da capital, pouco oferecia de imediato a não ser a honraria da chefia.
A miséria não se alastrara, ainda. Quatro mendigos batiam às portas, em dias certos, e recebiam o óbolo: um velho cego, duas moças cegas, uma velha muda. Além desses, o negro José Tiú, ex-tocador de tarol da banda de música, com um braço e uma perna atrofiados por uma doença, bem humorado, alcoolizado, pedia esmolas a todos na rua.
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O meu tio-afim Manoel Mariz, homisiou na sua fazenda dois alemães fugitivos das perseguições nas grandes cidades, quando o Brasil declarou guerra às potência do Eixo. Mesmo assim eles foram caçados em Sousa, onde, co-mentava-se que haviam construído um túnel e uma grande sala subterrânea, instalando ali estação de rádio-transmissor para enviar informações à inteligência do seu país. Pura fantasia. Constatei depois, que eles haviam construído, isso sim, um pequeno açude, aproveitando o potencial abandonado da propriedade.
Menino de oito anos admiravam-me as suas discussões ao pé do rádio a bateria, na sala da minha casa, quando vinham para a feira. Ouvia intrigado, a conversa em língua estranha, o rádio chiando muito quando buscavam estações estrangeiras. Terminada a guerra, Augusto, um deles, ficou em Sousa onde casou e morreu anos depois; Hans, o outro, deixou a cidade para sempre.
Não consegui saber, até hoje, se se tratava de imigrantes, fugitivos do III Reich, ou desertores da espionagem nazista. Os tipos amáveis que aparentavam, em nada lembravam o orgulho tudesco, os sanguinários súditos do Fuhrer, que vim a conhecer depois, nos livros e no cinema. Homens, simplesmente homens eram, como revelou o poeta Deolindo Tavares em verso imortal:
“Os corações de François e Hans
Jazem pendurados no arame farpado
De uma trincheira abandonada.
No entanto, Hans não conhecia François
E François não conhecia Hans.”
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Projeto de leituras em definição: FUNDAMENTOS DA ESTÉTICA MARXISTA, de Nelson Werneck Sodré, e LITERATURA E VIDA LITERÁRIA – DIÁRIO E CONFISSÒES de Álvaro Lins.
Do crítico pernambucano:
“Escreveu AC um artigo contra a crítica de rodapés, contra o que chama de instituição de folhetins semanais de crítica. O seu argumento é curioso: o rodapé de crítica não deve existir no Brasil, porque ele não existe nos Estados Unidos da América... Qualquer dia acrescentará que deve ser abolida a língua portuguesa no Brasil, porque a língua falada nos Estados Unidos é a língua inglesa. Não chegará a tanto, com certeza, o pobre rapaz que, feito secretário de uma revista de divulgação popular, pretende ser juiz em assuntos de crítica, com a autoridade exclusiva de uma estada de alguns meses em Nova York. A sua atitude, porém, tem uma origem mais melancólica do que o seu conhecimento tão servil quanto grosseiro ou grotesco dos Estados Unidos da América. Ele publicou um livro, certa vez, e enviou-o solícito, aos redatores de rodapés de crítica. Foi o fracasso do livro que o conduziu agora a essa atitude de raiva pueril e inofensiva contra a crítica.”
Não havia lido, ainda, esta opinião de Álvaro Lins sobre Afrânio Coutinho, quando escrevi a nota número 19 do Carderno I. Vejo que o nosso julgamento coincide, sobre o erudito baiano, e sobre os aspectos “operocêntrico” e “ergocêntrico” da crítica literária por ele defendida.
O jovem Álvaro Lins nasceu “burguês em sua classe como em uma prisão.” O golpe fascista de 37, destituiu-o de uma secretaria de Estado no governo pernambucano, libertando-o para a vida intelectual. Aliou ao seu “espírito democrático que é um dom de certas natureza humanas” a democracia como ideologia “pelo sentimento e pela razão.” Daí a sua grande contribuição para a crítica literária no Brasil. Em nenhum momento, opõe-se a sua obra às aspirações e às necessidades de sua época. O seu gênio, como o de Dostoievski “era o da humildade”, ao contrário de Tolstoi que “conservou sempre o espírito numa região aristocrática.” (Literatura e Vida Literária – CCXXII).
O que distingue esses dois escritores é precisamente o grau de consciência social, de que fala Fischer, que permite ao homem descobrir no seu mundo “marcado e desfigurado pelo passado”, os sinais de mudanças e renovação.
Afrânio Coutinho foi durante cinco anos redator-secretário de SELEÇÕES DO READER’S DIGEST. Quem não conhece no mundo esta revista estipendiada pelas grandes organizações capitalistas? A margem de liberdade encontrada por ele nos EUA, para o exercício de sua crítica “verdadeiramente estética”, permite-lhe ver a literatura isolada a priori da sociedade e das lutas de classe, como manifestação das contradições capitalistas.
Perdidas as raízes que o ligavam “à terra, a seu povo, à sua realidade”, como escreveu Kanapa, “a moral da aventura termina em moralismo impreciso e meditativo, quando não é – porque é preciso chamar as coisas pelo nome – tentação do fascismo.”
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 07h07
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PROSA CÓTICÀ II - O DURO RECOMEÇO, CAD III, 5, 6, 7
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Fiz algumas viagens à Sousa e terminei envolvido nos assuntos da política local. Participei de reuniões para escolha de candidatos nas eleições de novembro. Não quero retornar à vida passada. Velhos amigos que me ajudaram, necessitam agora da minha experiência na política partidária, do apoio para os seus candidatos. Não consigo furta-me aos apelos. As questões locais e as atividades na fazenda têm muita força, a esta altura da vida, dedicada quase inteiramente à luta pelo poder e pelo dinheiro.
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Sobre a política e a administração pú-blica, alguns trechos de um comentário sobre um livro atual, ainda não publicado em tradução no Brasil. Li-o no INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE (1982), a bordo de um Jumbo da Air France, entre Paris e Roma, lembrando o que fazia o conterrâneo Assis Chateaubriand. Na impossibilidade de uma tradução “literária”, sem outras pretensões, vai o texto original:
THE FUTURE OF INTELECTUALS AND THE RISE OF THE NEW CLASS, by Alwin W. Gouldner, reviewed by John Leonard.
“What is the ‘New Class’ that is taking over? Acoarding to A.W.G., Max Weber Professor of Social Theory at Washington University in St. Louis, the New Class consists of scientists, educators, managers, comunicators, publicity agents, maybe literary critics and other ‘professionals’ whose business it is to run culture. Culture – knowledge and skills – is in fact the capital of the New Class.
What does the New Class want? Gouldner is specific: more money and more power. ‘The New Class’, he says, ‘believes its high culture represents the greatest achievment of the human race, the deepest ancient wisdom and the most advanced modern scientific knowledge. It believes that these contribute to the welfare and whealth of the race, and they should reveive correspondingly greater rewards.’
He goes on: ‘The New Class believes that the world should be governed by those possessing superior competence, wisdom and science – that is, themselves. The Platonic Complex, the dream of the philosopher king with which western philosophy begins, is the depest wish-fulfilling fantasy of the New Class. But they look around and see that the men who employ them do not begin to understand the simpliest aspect of their techinical epecialities, and the politicians who rule them are, in Edmund Wilson’s words, unique having mannaged to be corrupt, uncultivated all at once.
Have they these secular priests and treasonous clerks, some desadvantages? Yes. They are divided into two camps; the intellectuals, who are roamantic moralists, predisposed to utopianisnm, and the tecnical intelligentsia, who are amoral puzlle solvers and mnagement types. The intellectuals go on about what is ‘good’, the technical inteligentsia want to be left alone. And the fact they are all elitists and careerists makes them hather unsymoathetic to the rest of us, who must muddle along in our own inferiority complexes.”
Não li o livro de Gouldner, apenas a recensão da qual transcrevi os trechos acima. Essa conduta do intelectual em face da sociedade, decorre da contradição pessoal entre a sua vida burguesa e a inevitável condição do trabalhador assalariado, embora “não integrado ao modo de produção capitalista.”
No avançado estágio de progresso téc-nico e científico atingido pelos EUA, os intelec-tuais, vencido o antagonismo que se revela em indivíduos isolados, têm um papel fundamental no processo de desenvolvimento da luta para o socialismo, na linha de frente da classe operária. Assim Marshall Berman, Edmund Wilson, John dos Passos e tantos corajosos humanistas ame-ricanos.
Luckács afirma que “quanto mais complexos e complicados são os problemas, tanto maior é o papel que a literatura deve desenvolver na evolução social, na preparação ideológica das grandes crises".
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Realizo-me literariamente redigindo estas notas. Impressões de leituras que não fazem de mim um crítico. Escrevo poesia e prosa. Faltam-me a força criadora do artista e os conhecimentos teóricos do crítico. Insisto, não desisto. O que fazer? Continuo na febril atividade.
Houve um tempo na minha vida, dedicado à leitura. Uma espécie de fuga do meu mundo, que o achava prosaico demais, perdido na obssessão dos grandes dramas, como se estes somente existissem na ficção lirterária.
Quase nunca me satisfaz o que escrevo. Relido e texto surpreende-me a deficiência no uso da língua: repetição de palavras, dúvidas relativas à gramática.
No plano das ideias e da criação, receio sempre estar repetindo coisas alheias, decalque de apressadas leituras, ou identidade de pensamento com escritores consagrados e preferidos.
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 13h17
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PROSA CAÓTICA II - O DURO RECOMEÇO, (1988/1990 - CAD III 1, 2, 3, 4
1 Um vento solto açoita a catinga. A expressão “vento solto” é usada pelos sertanejos para o vento que sopra na seca. É um vento forte e sem direção certa, quase sem interrupção, apenas abrandando, rodopiando em redemoinhos, inesperadamente, nas horas quentes. Às vezes entra casa à dentro o hálito de fornalha batendo portas e janelas. Vem do inferno, dizem. Terminado o inverno, dedicam-se todos à colheita, todos têm para comer o produto das roças, mas persiste a preocupação com os preços do que necessitam comprar na cidade: querosene, sal, sabão, roupas ordinárias, minúsculas redes. Precisam também de trabalho, de um ganho extra, uma diária para atenuar a miséria.Passei os festejos de São João na cidade. Voltei para a fazenda no São Pedro. O administrador fez uma fogueira votiva em frente à minha casa, e trouxe milho verde para assar com a palha, como é o costume. Moradores da vizinhança chegaram para conversar. Participei de um jogo de sueca que organizei, pela impossibilidade de sustentarmos um diálogo qualquer. As pessoas da cidade, com nível médio de renda e de cultura, sentir-se-ão isoladas neste mundo como ele é. Sem outro atrativo para a data festiva, as crianças pediram a presença de um adulto para “contar histórias”. Trata-se de um costume antigo, referenciado por Câmara Cascudo, e que, no meu entendimento, carrega todo o peso de um sonho de libertação. Não foi possível atender-lhes o hábito guardado na memória, eventual e esporadicamente estimulada. Desapareceram no Nordeste onde vivo os contadores de história. Novidades e sonhos, agora são produtos que as estações de rádio oferecem aos ouvintes sertanejos, misturados à farta propaganda comercial de produtos à venda. 2 Durante o período – quase noventa dias – em que parei a redação destas notas, refleti sobre a minha atividade de caracterizado amadorismo literário, traduzido não somente no ato de escrever, mas na discussão e abordagem de temas que o profissionalismo – alienado embora – oferece com atrativos pseudocientíficos, calcados em estudos sistemáticos. A minha prosa ressente-se de leituras apressadas da adolescência, e perde-se em reminiscências que a memória faculta desordenadamente. Mesmo assim, longe de constituir-se em exemplo, esgota-se desatualizada. 3 Houve uma época em que os escritores brasileiros eram lidos quase exclusivamente pelos confrades. A obra literária era facilmente aceita e elogiada, pela necessidade do retorno do elogio, da distribuição de premiações, como esclarece Nelson W. Sodré no seu EM DEFESA DA CULTURA. O desenvolvimento das relações capitalistas e industriais refletiu-se na atividade literária, no varejo da obra de encomenda, desligada da evolução cultural do país. Se hoje temos um público leitor já formado, este é muitas vezes obrigado a consumir best-sellers duvidosos, pela divulgação e pelo preço acessível, e que nada têm com a vida brasileira. Existe, é verdade, uma escassa publicação de autores nacionais e estrangeiros, em literatura e ciência e vendidos a preços proibitivos, perdidos nas bibliotecas de algumas instituições, quase inacessíveis nas livrarias. Defende-se a classe dirigente. O conteúdo revolucionário da arte literária e das ciências, como partes da teoria geral do conhecimento, refletindo a realidade dialética do desenvolvimento da sociedade e da natureza, constituem uma permanente ameaça à sonhada imutabilidade de estruturas decadentes, dos privilégios burgueses. Outro aspecto a destacar, na posição dos intelectuais com a eficiência socialista e as crises capitalistas, é a especialização mesquinha, patrocinada, estimulada. Assim os trabalhadores intelectuais, fechados em círculos estreitos, produzem uma caricatura de arte, cumprem imposições burocráticas e de mercado. Modismos são confundidos com novas formas literárias, fruto aleatório do desenvolvimento cultural. 4 A propriedade e suas exigências começaram a tomar o meu tempo. No longo intervalo entre estas anotações e as que reuni em outro caderno, desviei-me do meu projeto de leituras. As coisas na fazenda não andam mal, porém, o administrador, para agir como outros o fazem, costuma procurar-me para dar conta de serviços contra-tados, colheita, estado do rebanho. Nada que produza consideráveis rendimentos financeiros. Vivo mesmo de uma aposentadoria no serviço público e procuro tornar-lhes a vida menos pesada. Recebo-o com poucas palavras, sem muito interesse, pois sei que tudo está a contento. Ele tenta mostrar o seu desempenho para assegurar a boa situação que desfruta em relação aos demais. Sou tomado de profunda emoção diante de sua figura rude, os gestos acanhados, submisso. Pesa na consciência do trabalhador rural nordestino o desamparo ancestral, a indefesa condição de servo de gleba, a distinção marginal em face da lei, o que é uma dura realidade. Vive a vida possível, vislumbrando apenas em rápidas reflexões, as mudanças que poderão acontecer. Sabe da existência de sindicatos de trabalhadores, de direitos assegurados, mas pouco reclama. Defende-se da grosseira exploração na contratação de empreitadas, esperando que um erro na avaliação da tarefa, lhe dê condições de melhor remuneração pelo trabalho duramente executado. Vejo na preferência pelo contrato de empreitada, uma forma do trabalhador esquivar-se à exploração permanente, que o submete à condições indiscutíveis. Assim eles entendem, tenho certeza. No ambiente adormecido da fazenda começo a sentir-me isolado. Percebo que me olham penalizados com a minha solidão. Extraordinárias criaturas, que, do fundo de uma vida miserável, arrancam ainda do íntimo um sentimento de compassiva solidariedade.
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 16h23
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