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Em Memória do Dr. Firmino Leite
EM MEMÓRIA DO MEU PRIMO E PADRINHO FIRMINO LEITE
Eilzo Matos
Transcrevo uma página de Luiz da Câmara Cascudo, para falar com autoridade sobre o sertão. Sobre o cavalheirismo, a ética, e sobre a paisagem que formaram a inteligência do médico e poeta Firmino Leite. Conterrâneo de gênio do erudito folclorista potiguar, e também do gênio analfabeto do negro escravo Inácio da Catingueira, seu conterrâneo de nascimento, ele deixou uma legenda na Paraíba , e quiçá no país, como poeta e humanista – sertanejo de coração, antes de tudo.
Na Década Cinquenta, do século passado, adolescente ainda, vivi, posso dizer, esse sertão medievo, pintado por Cascudo. Com todos os cos-tumes e sons assinalados, com as reuniões para os serões costumeiros, onde mulheres velhas, pretas ou brancas, contavam histórias de Trancoso, va-queiros e almocreves relatavam acontecimentos que registravam encontros com seres vivos e do outro mundo, na solidão da catinga, nas longas tra–vessias - relicário de lembranças. Cangaceiros e almas penadas. Uma página que me transporta a um mundo desaparecido, como num passe de mágica, ou, melhor dizendo, miraculosamente, nas asas de um anjo – o que a arte e a memória tornam possível.
Escreveu o mestre Cascudo:
“Vivi no sertão típico agora desaparecido. A luz elétrica não aparecera. O gramofone era um deslumbramento. O velho João de Holanda, de Caiana, perto de Augusto Severo, ajoelhou-se no meio da estrada e confessou, aos berros, todos os seus pecados quando avistou ao Sol-se-por, o primeiro automóvel. A transformação é sensível e diária. As estradas de rodagem aproximaram o sertão agreste. Anulando a distância misturaram os ambientes. Hoje a luz elétrica, o rádio (eu acrescento a televisão), as bebidas geladas estão em toda parte. O caminhão matou o “comboio” lento, tranquilo, trazendo fardos, dirigido pela “madrinha”, tangido pelas cantigas dos comboieiros, o encantamento dos “arranchos” nas oiticicas, as “dormidas” nos alpendres, a carne assada na fogueira, a água na “borracha, as histórias de assombração, de dinheiro enterrado, de cantadores famosos, perderam a sua melhor moldura. Toda essa revolução veio depois de 1911. Conheci e vivi no sertão que era das “eras dos setecentos”. Chuva vinha do céu e trovão era castigo. O sol se escondia no mar até o outro dia. Imperavam tabus de alimentação e os cardápios cheiravam ao Brasil colonial. Mandava-se fazer uma roupa de casimira que durava toda existência. Era para o casamento, para as grandes festas, para o dia da eleição, do casamento da filha, era-se enterrado com ela. As mães “deixavam” roupas para as filhas. E elas usavam. Os hábitos ficavam os mesmos, de pai para filho. Calçava-se meia branca quando se tomava purgante de Jalapa. Mordido de cobra não podia ouvir fala de mulher. Nome de menino era de “santo do dia”. Os velhos tinham costumes inexplicáveis e venerandos. Tomavam banho ao Sábado, dava a benção com os dedos unidos e quase todos sabiam dez palavras em latim. A herança feudal pesava como uma luva de ferro. Mas defendia a mão. Os fazendeiros perdiam o nome de família. Todos eram conhecidos pelo nome próprio acrescido do topônimo. Coronel Zé Braz de Inhamuns, Chico Pedro da Serra Branca, Manoel Bazio do Arvoredo. Nomes dos homens e da terra, como na Idade Média. Tempo bonito. Vivi nesse meio. E deliciosamente. Cortei macambira e xiquexique para o gado nas secas. Banhei-me nos córregos no inverno. Esperei a cabeça do rio nas enchentes. Desengalhei tarrafas nas pescarias dos poços. Dei “lanços” nos açudes. Cacei preás e mocós nos serrotes. Subi nas “esperas” das emas sob juazeiros. Persegui tatus de noite, com fachos e cachorros amestrados. Matei ribaçãs a pau e colhi-as nas aratacas. Ouvi o canto ululado da “mãe da lua”, imóvel nas oiticicas. Ouvi histórias de Trancoso, de cangaceiros, de gente rica, guerras de família, heroísmos ignorados, ferocidades im-previstas. Também recordavam vidas de missionários, de chuva e bom tempo, rezas fortes para ser feliz em tudo, para não cair do cavalo, para ficar invisível. O sertão modifica-se rapidamente. Uniformiza-se, banaliza-se. Naturalmente a crítica é inoperante para eles. Melhor a vida modernizada que a maneira velha do cavalo-de-sela, e a viagem de “descanso”. ...............................
Sertão, 20 de setembro de 2008
Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 16h47
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PROSA CAÓTICA II - O DURO RECOMEÇO (1985/2000) CAD I, 24, 25
24 No seu ROMANCE DA PEDRA DO REINO E O PRÍNCIPE DO SANGUE DO VAI E VOLTA, Ariano Suassuna revela-se no vivido, defrontando-se à realidade decadente da vida sertaneja, deformada pelo colonialismo cultural e econômico, destruidor e indesejável. A sua concepção da vida e da arte é a de que tudo se realiza num mundo miserável, onde a condição humana periclita, reduz-se a de um “piolho, de um carrapato-chupa-sangue e pardo, errante entre os pêlos da onça.” Esta evidência do seu pessimismo diante da vida, em face do mundo que é representado na figura de uma onça que via se desfazer “em pó, em cinza, em sarna, o que ainda lhe restava de sua vida demente e sem grandeza”, é revelada por Quaderna que vê os homens como uma raça piolhosa, “raça também sarnenta e sem grandeza, coçando-se idiotamente como um bando de macacos diante da ventania crestadora, enquanto espera a morte, à qual está, de véspera condenada.” A visão de Quaderna – que outra coisa não é, senão a sua cosmovisão – encerra uma revelação trágica entre todas. É quando ele, ao descrever ao Corregedor a aparição sobrenatural, manifesta dolorosamente a sua decepção pela inferioridade e malignidade do que lhe ocorrera, dizendo: “O pior, porém, é que não se tratava nem de uma Onça digna, uma Onça Malhada como aquela que o Profeta Nazário e Pedro Cego tinham visto.” O Profeta e o Cego são porta-vozes de toda aquela massa de ignorantes e místicos ser-tanejos, cujos anseios consistem na busca de um mundo justo e melhor, representado na idéia de riqueza e felicidade. Um mundo virtuoso, portanto, cuja pureza é produzida com instinto plástico espontâneo na bela figura da Onça Malhada, que tem nos olhos pedras preciosas, é fértil, cantadeira, propõe-se a tornar felizes os que nela acreditarem. A visão de Quaderna é deformada, deformação que o entristece e desespera cada vez mais, ao compreender a decadência inelutável da estrutura que o originou, jogando-o à mercê de um sebastianismo inconsequente e criminoso. Todos os sonhos “monárquicos-de-es-querda”, fruto de um falso conhecimento da realidade, que povoam o mundo do Poeta-De-cifrador-Astrólogo, não resistem à imagem re-jeitada da Onça sarnenta e piolhenta. Acredito haver certa identidade entre as minha teses e as observações de Rachel de Queiroz sobre A PEDRA DO REINO. Sem maior esforço as localizamos em comentários da ro-mancista cearense, encontrando na narrativa “reclamos de usurpação”, “Suassuna olha para esse mundo com a visão do exilado, ainda na ado-lescência arrancado ao seu sertão natal.” 25 Sobre Virgínius da Gama e Melo. A literatura histórica amplamente exercitada na Paraíba, a par de uma historiografia inaugurada por José Octávio de Arruda Melo, inspirado em José Honório Rodrigues e outros ensaístas modernos, indicar-nos-ão claramente, no choque entre perrepistas e liberais, e no episódio do assassinato do poeta e vereador Félix Araújo, a identificação de pessoas, o envolvimento de famílias, a descrição de lugares onde se desenro-lam os acontecimentos das narrativas virginianas. Virgínius realiza a exploração de um passado politico da Paraíba, ele contemporâneo dos fatos, testemunha e/ou participante, pelo en-volvimento de pessoas que lhe eram caras, pelos laços de família. É um esforço doloroso e cruel, uma auto-flagelação que ele pratica na construção de seus romances, sem uma palavra de simpatia pelos atos dos líderes na condução da massa igno-rante, sem que constitua objetivo da acão desen-volvida, a eliminação da miséria, da pobreza. A única reflexão de um personagem com traços intelectualizados que ele permite nos seus dois romances, é a de Carlos Agra, em “A Vítima Geral”, um spengleriano na classificação do próprio autor, que denuncia a decadência física e moral dos homens da região “padecendo de fome crônica, subnutridos. E ainda mais esses políticos irresponsáveis numa agitação que só tem finalidade pessoal.” O mais é a narrativa crua dos acontecimentos, a descrição fiel de personalidades deformadas, para as quais, a conquista do poder representa a sociedade com o erário, o enri-quecimento pessoal. Virgínius parece que deseja a condenação póstuma dos oportunistas e dos impostores, e a execração dos remanescentes da-quele mundo viciado, ao recriar as fases de crise e de transformação da vida política paraibana. São romances em que a trama se desenvolve sem influência do autor, pelo caráter estereotipado dos personagens, pelo sentido histórico dos fatos. Entendo que Virgínius conseguiu supe-rar o dilema de Irving Howe, que duvida “da possibilidade de alguém escrever um romance político, que seja realmente romance, isto é, mais imaginativo que um documento, e menos subjetivo que um panfleto.” Foi esse o Virgínius que eu conheci e me habituei a admirar, capaz de condenar o exercício de todas as tiranias, quando defendia os artistas e pensadores russos “dissidentes”, e ao mesmo tempo tinha a coragem de afirmar diante dos fatos, que os norte-americanos não eram mais os campeões da democracia e da liberdade.
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 14h45
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PROSA CAÓTICA II - O DURO RECOMEÇO, CAD I -21, 22, 23,
21
Leitura no volume VI da HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL, de Otto Maria Carpeaux, de duas páginas sobre Baudelaire:
“Nas vicissitudes póstumas da poesia de Baudelaire é possível acompanhar as deformações, transformações, e transfigurações que a imagem do poeta ‘vase de tristesse, ô grand taciturne’ sofreu nos olhos da posteridade: “do ‘satan d’hôtel garni, un Belzebuth de table d’hôtel, de Brunetiére, até ‘notre Baudelaire’, do católico Fumet.”
“São três imagens diferentes de Baudelaire. Cada uma parece compatível com as duas outras... seria ao mesmo tempo o romântico desesperado, o boêmio perverso, o pecador arrependido. Baudelaire é em ‘Tableau Parisiens’ o primeiro poeta da grande cidade moderna. Sua teologia do Mal e sua filosofia das ‘correspondences’ entre todas as coisas do Universo são as bases de sua ampliação da poética: a estética do Feio”.
Registra Carpeaux o caráter precussor na poesia que reflete a obra de Baudelaire, ao nível do que aconteceu no romance e na psicanálise (depois dele) com Zola e Freud. “A poesia de Baudelaire é consciente no máximo grau”, assevera. Mesmo quando feita para ‘epater le burgeois’.
Nessa leitura, a torturada condição humana é resgatada das sombras. Os versos dos poetas em face do seu mundo burguês, opondo-se a ele, o redimem.
Transcrevi os fragmentos acima, que nos fornecem a paisagem humana e a concepção estética de um poeta e do seu tempo, e também um panorama crítico interpretativo, para compará-lo ao estudo do professor Ramom Jakobson sobre Les Chats, reduzindo à coordernação das proposições da língua, todos aqueles aspectos comentados e que interessam à sociedade e à história.
Vejamos alguns parágrafos do estudo do mestre de Praga:
“O soneto compreende três frases complexas delimitadas por um ponto, a saber: cada um dos dois quartetos e o conjunto dos dois tercetos... as três frases apresentam uma progressão arit-mética: 1) um só verbo conjugado (aiment); 2) dois (cherchet, êut pris); 3) três (prennent, sont, etoilent). Por outro lado, cada uma das três frases só tem um único verbo conjugado: 1) qui... sont; 2) s’ils pouvaient; 3) qui semblent.”
“...o sujeito animado não é nunca expresso por um substantivo, mas sim por adjetivos substantivados na primeira linha do soneto (Les amoreux, les savants) e por pronomes pessoais ou relativos nas orações ulteriores... Se, no início do soneto, o sujeito e o objeto par-ticipavam igualmente da classe do animado, os dois termos da oração final pertencem à classe do inanimado... Até aqui o poema se nos apareceu formado de sistemas de equivalências que se encaixam uns nos outros, e que oferecem, em seu conjunto, o aspecto de um sistema fechado. Resta-nos abordar em último aspecto, sob o qual o poema aparece como sistema aberto, em progressão di-nâmica do começo ao fim.”
Não posso deixar de perguntar: como se sentiriam os autores, assim estudada a sua obra? Acredito que eles indagariam: Qual a significação do trabalho artístico desvinculado do mundo dos fatos sociais? Em que, tal concepção da obra de arte literária (de Jakobson), fixará na história o papel do escritor?
A comunicação tem por objetivo o entendimento, e submeter-se à análise, à compreensão. O estético em literatura restringe-se à comunicação inteligível da experiência humana, à transmissão pelo conteúdo abstrato das palavras, de imagens sensíveis. Não se propõe a obedecer nem criar códigos lingüísticos. Não esqueçamos a lição de Gorski: “a língua é o meio de realização do pensamento.”
O esforço de Roman Jakobson, não auxilia sequer as especulações e estudos gramaticais. Não passa de um mero jogo de palavras, sem importância para o estudo da literatura e da língua na qual o poeta escreveu. Parafraseando Mme. Stael, diria que se trata de um exercício fútil demais para se nivelar à ciência, e complicado demais para o lazer, o divertimento.
Talvez, arauto de novos tempos, com a progressiva invasão da “informática” nos variados campos de atividades do homem, o trabalho jakobsoniano permita computadorizar leituras, e descobrir significações escondidas do perceber humano na obra dos artistas.
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Ameno e alegre estava o tempo em pleno inverno. Fiz anotações neste caderno e separei livros para leitura, para consulta. A necessidade do reestudo de idéias antigas, informações perdidas na memória.
Em descuidado relaxamento na rede, os pensamentos buscando fatos agradáveis da minha vida passada, escutei ao longe o alarido. Como bramem no pasto as ovelhas acossadas por cachorros famintos, estrugiram os berros, os latidos, o tropel.
Saí para ver, temendo prejuízos no rebanho. Numa clareira na catinga, os filhos dos moradores brincavam agachados, andavam-de-quatro, imitavam os bichos, mergulhados no capim, numa tropelia costumeira. Uma simulação perfeita, como eles conheciam, real para os ouvidos. Um diversão de crianças que não compram brinquedos.
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Ao sentar-me à máquina para escrever, pergunto-me mais uma vez: “Qual o sentido destas anotações? Serão publicadas, lidas algum dia?”
Não se trata de um diálogo com os livros, de um monólogo entediado. Esforçar-me-ei para que sejam conhecidas, apesar da ausência nelas de exemplaridade. Empenho-me, todavia, em oferecer estas manifestações do meu espírito, como fonte de idéias minhas e de outros, aproveitáveis de algum modo.
Lembro-me de Virgínius da Gama e Melo no seu amor à literatura. Dedicou a sua vida não somente à realização da sua obra de escritor, mas em criar, igualmente, condições para que outros o fizessem.
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 14h40
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PROSA CAÓTICA II- O DURO RECOMEÇO, CAD. I, 17,18,19,20
17
As lembranças da mais tenra infância, aí pelos quatro a cinco anos, diluiram-se ao longo de uma juventude marcada pela necessidade. Não aquela pobreza enraizada na família, mas a que se sobrepõe ao fracasso de um dos ramos. A primeira humilha, deixa na personalidade a marca da obstinação, da resistência; a segunda revolta; criam bodes expiatórios, transferem responsalidade e fazem os indivíduos maquinadores de vingança sem-razão, dissimulados, calculistas.
Na minha casa, para as refeições havia mesas para adultos e para as crianças, tantas eram as pessoas entre hóspedes, visitantes, costureiras e amigos circunstanciais dos meus pais chegados de última hora. O pessoal da arrumação, da cozinha, desdobrava-se.
Ordens rigorosas, não permitiam que as crianças se acercassem de onde os adultos conversavam, a não ser quando eram trazidas para serem exibidas como modelos disso ou daquilo. Quantas vezes, fui arrancado dos meus brinquedos com outros de minha idade, levado a contragosto para diálogos absurdos, que só me aborreciam!
De minha mãe, lembro-me nessa época, com vestidos limpos e vistosos, o inseparável cigarro, perfumada, a conversar com modistas, mostrando às visitas os inumeráveis álbuns de fotografias da família. Tratava-me com carinho, o seu caçula, e eu procurava o seu colo para os prantos provocados pelos ferimentos e contusões sofridos em brincadeiras, ou beliscões que me aplicavam os irmãos mais velhos quando incomodados por mim.
Meu pai colocava-me nas suas pernas e acariciava-me, beijava-me, e arrancava-me lágrimas esfregando os pêlos duros de sua barba na minha pele delicada.
Quando fui mandado para a escola, comecei a perceber que mudanças ocorreram na nossa vida sem que eu notasse. Tudo estava sendo medido, controlado. Os meus irmãos mais velhos e também as minhas irmãs, devem ter sentido mais dolorosamente o declínio. Rareavam as visitas.
Minha mãe conservava a respeitabilidade de sua origem abastada em Mossoró, família de grandes comerciantes, morando em aristocráticos sobrados que conheci muitos anos depois.
A nossa ascendência paterna em linha reta dos “Leite Ferreira” de Piancó, mandados pela Casa da Torre para colonizar aquele pedaço de sertão, mantendo-se pelas posses e prestígio político, desde o Império, com representantes na vida política do estado, não nos afetava. A mim, pelo menos.
Morávamos em Sousa, onde meu pai dedicava-se a atividades comerciais, e esta cidade como todo o peso de suas potencialidades, na luta entre os potentados locais, ignorando os nossos tios e avós, deputados e doutores, assistiu à queda da nossa fortuna. Todo nosso patrimônio resumiu-se a uma pequena propriedade rural entregue a arrendatários, a casa onde morávamos, e duas outras, vendidas depois para gastos eventuais.
Meu pai, liquidados os seus negócios, entrou para o serviço público estadual, comportando-se com o seu temperamento expansivo e o seu espírito jovial, a mesma pessoa alegre e digna.
Sobrevivemos como os sousenses e com os sousenses: no clube, na política, na igreja, na feira, na escola.
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Est modus in rebus, sabedoria do velho Horácio.
Com o meu pai aprendi a cercar-me de livros, não para exibir cultura, mas para abrir as portas de outros mundos. Acredito que ele assim procedia, pois não conheço textos de sua lavra. Ficou, todavia, o hábito salutar.
Li muito, sem nenhuma orientação em fases da minha juventude. A literatura começou a me cativar com as páginas descritivas, as historietas infantis dos livros escolares, ainda no curso primário. Surpreendiam-me, que, letras e palavras reunidas pudessem criar paisagens, acontecimentos. Depois vieram os nossos clássicos pré-modernistas: Macedo, Alencar, Castro Alves, Bilac, Euclides, os Azevedo, o romance nordestino entre muitos, que me remetiam para os seus modelos de além-mar.
Numa cidade sem livros, isto é, onde o livro é artigo fora do comércio, circulando apenas as “letras cambiárias”, foi difícil o meu aprendizado, a minha iniciação literária.
Poesia e prosa de ficção, nacional e estrangeira em tradução, foram as minhas poucas leituras, sem caráter seletivo, debruçado apenas sobre os sentimentos, os dramas, as paixões humanas. O amor e o ódio. A vitória e a derrota. O homem e o seu destino: o seu passado, o seu futuro.
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Tem chovido regularmente, fato digno de registro nesta região, nos meses de janeiro e fevereiro. Os pequenos proprietários rurais, os trabalhadores desassistidos, mas cheios de confiança em Deus, lançaram no solo as sementes que puderam guardar, ou conseguiram através de compra e empréstimo, precários, nesta circunstância.
A despeito da farta propaganda pelo rádio, as anunciadas “sementes selecionadas para distribuição entre os agricultores” não chegaram nos postos do governo. E como tem acontecido tantas vezes, uma praga de lagartas não controlada, destruiu quase toda plantação.
Esperança é o que resta. Em que não consigo entender. A sobrevivência, a vida em condições subhumanas.
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Na mesa DA CRÍTICA E DA NOVA CRÍTICA, de Afrânio Coutinho. A miragem dos Estados Unidos da América. Pena que uma inteligência brasileira tenha sofrido tão lamentável cooptação.
Quanto a Nação investiu no seu cabedal de conhecimentos! Valeria a censura? Poderei ser acusado de radical. Ou de mesquinho, o que seria pior. Afinal de contas, argumento em meu favor, o sangue brasileiro e o norte-americano foram derramados na luta contra o nazismo e o fascismo.
Notórias são as ligações do New Criticism com os “temas principais do fascismo”, desenvolvidos abertamente na The American Review, remontando as origens do “movimento” à agitação “ideologicamente conservadora” dos Southern Agrarians, no Sul dos E.U.A. A afirmação é do crítico Keith Cohen no ensaio inserido por Luís Costa Lima no seu TEORIA DA LITERATURA E SUAS FONTES.
Não desprezo, em absoluto, a especialização dentro dos estudos literários. Ninguém o faria. O que não aceito são os caprichosos exercícios de empatia, o rico e curioso jogo de palavras novas na dissimulação de propósitos velhos, deixando de lado a noção basilar de literatura como fato socialmente condicionado.
O aprendizado, ou melhor, a especialização de Afrânio Coutinho nos E.U.A., no campo da crítica literária, submeteu-o de tal maneira a certos modelos daquele país, que o fez esquecer as palavras portuguesas que corres-pondem a expressões usadas por ele como meaning, close analyses, e vai por aí.
Os culturalistas reacionários, defendem a tese do desinteresse, da imparcialidade da arte. Através das formas e conteúdos da arte na sua especificidade, eles precisam saber, evidencia-se o processo dialético do desenvolvimento da sociedade. “O interesse social é o conteúdo da arte”. Isso eles querem negar.
Na divulgação de sua tese, AC defende como estéticos os elementos internos da arte literária, valendo por si, independente do meio, da datação histórica, da sociedade que a produziu ou inspirou, como ele queira.
A abordagem da obra literária pelo método intrínseco, preconizado por AC, exclui da apreciação a vida, que é o conteúdo da literatura, e retoma a questão kantiana da “coisa em si”, inteiramente superada do ponto de vista do desenvolvimento da ciência e da filosofia.
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 13h50
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A Energisa Estelionatária
A ENERGISA AGRIDE E ESPOLIA A POPULAÇÃO SOB PROTEÇÃO DO GOVERNO
Eilzo Matos
Falo do que sei e o povo sabe do que falo: a Energisa extrapola no método de aplicação de estelionato na prestação dos seus serviços, e no relacionamento com os consumidores. Interrupções no fornecimento de energia sem prévio aviso, agressões morais praticadas contra os seus clientes, são fatos lamentáveis que registram o dia a dia dos seus sofridos usuários.
Apesar de se tratar de termo técnico-jurídico, o popular “Dicionário Aurélio” socorre o cidadão – que tem o direito de saber sobre o negócio escuso –, troca em miúdos o sentido vernáculo, verdadeiro da expressão. Vejamos se a definição se ajusta bem ao procedimento da empresa estelionatária.
Estelionato:
“S. m. Ato de obter, para si ou para outrem, vantagem patrimonial ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo em erro alguém mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento.”
Como diz o povão: – Tá na cara!
Reclamar a quem? Resta o lamento sofrido de cada um. A ANEEL cuida do interesse dos empresários, pois os representantes do governo na sua direção são figuras “batizadas”.
Dirão que existe um código que lhe impõe deveres, pode aplicar penalidades. Respondo que, todavia, não existem lá juízes para tal.
O povo está entregue à própria sorte.
E já vem de muito tempo tal comportamento criminoso. Começou no processo de privatização das concessionárias SAELPA-CELB, deixando a marca da vergonhosa corrupção que mancha a história administrativa da Paraíba. Exemplifico, com os meios ao alcance do entendimento de todos, e da minha região: o sertão.
Na feira, um sertanejo tem para vender uma boiada e uma certa quantidade de milho. Procura o melhor preço, naturalmente. Se a arroba do boi está por 80, ele não venderá por 60 reais; se o milho chega a 5 a cuia, ele não aceitará oferta de 2 reais. Pois foi o que aconteceu na venda das nossas concessionárias na distribuição de energia, passando o patrimônio dos paraibanos a pertencer a grupo financeiro alienígena. Tudo vendido por baixo, a preço de banana.
Alguém pode dizer, para justificar, que existem os tempos de crise, e se insinuam as figuras espertas dos enrroladores, conhecidos como “tapias”, que ajeitam o negócio. Quanto ao nosso caso, esclareço: inexistia crise no setor. Em relação aos “corretores-enrrolões” não é difícil encontrá-los.
Quero deixar claro que, se não foi difícil para a Energisa, cooptar os poderes do Estado e a imprensa militante, para decidir o nosso triste des-tino, difícil será corromper o povão. Este não se vende.
Nem tudo, entretanto, está perdido para o país, pois existem ainda patriotas como o governador do Paraná, Roberto Requião. Ele não priva-tizou a distribuição de energia elétrica, nem o Porto de Paranaguá, nem os pedágios no seu Estado. Os serviços de distribuição de energia e de aten-dimento rodoviário e marítimo-portuário, em compensação têm a menor tarifa e a elevada e comprovada eficiência, deixando para trás os demais estados.
A população percebe a crise em que mergulhamos, com a crise dentro de sua casa. E começa a protestar. Faço a minha parte. Estou disposto a tudo. Depois dos setenta, nem a morte nos faz medo. Resisito aqui, nos protocolos da internet, neste blog que diz não à corrupção. E dá vivas ao Brasil desenvolvido e soberano, cultural e economicamente independente.
Expliquem-se Energisa e governo. Venham quente que eu estou fervendo!
E não falei ainda da arrogância dos seus dirigentes, do péssimo atendimento nos escritórios, aos que o procuram para reclamação.
...........................................................................................
Sertão, 19 /9 /2008
Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 11h41
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A crônica que não foi lida
A CRÔNICA QUE NÃO FOI LIDA – PREFÁCIO
Eilzo Matos
Tenho em mãos, os originais em dois volumes de um trabalho elaborado por Evilásio Marques Pinto, que trata do resgate literário de aspecto interessante da memória sócio-cultural da nossa cidade de Sousa: o jornalismo de uma época.
Meticuloso e cuidadoso como fazia o seu falecido pai, o emérito Professor Virgílio Pinto de Aragão, em relação à vida de sua cidade, narrada e descrita em textos e documentos, Evilásio assume a herança intelectual, elabora o seu livro. O título da obra “A Crônica Que Não Foi Lida”, alude a fatos destacados pela sua reconhecida importância, quando aconteceram, reais, dominando, certamente, o painel das idéias da nossa urbe, da nossa gente, e supostamente guardados.
Não se tendo tornado os fatos, convencionalmente públicos, isto é, através do seu Serviço de Alto-Falante Voz da Mocidade – modo e meio competente na época –, sabiam os interessados, que tais lembranças desapareceriam com a memória pessoal de cada um. Para sorte de todos, porém, Evilásio quer salvá-los, levá-los mais longe no tempo, reduzindo-os à forma escrita e impressa. Pois aqui está o livro, revelando as “crônicas não lidas”, este veraz e delicioso saltério sousense.
Farta é a documentação reunida em textos autênticos colhidos pelo serviço de alto-falantes, que tratam do cotidiano de uma comunidade como outras: da administração pública, das atividades empresariais urbanas e rurais, da educação, da cultura, da saúde, do urbanismo, do esporte, do lazer, da política, enfim. Oportuno o esforço, melhor o resultado. Inclusive a reprodução fac-similar de jornais do passado, e a Portaria 65 do Serviço de Censura e Diversões Públicas, autorizando o funcionamento da “Voz da Mocidade”, com estatuto publicado no Diário Oficial, devidamente apresentado no Cartório do Registro de Títulos, tudo com data e chancela. Como não? Posso afirmá-lo como sousense, contemporâneo das vivas ocorrências, e está no livro, para conhecimento geral.
O autor goza entre os seus conterrâneos o prestígio de iniciativas e realizações no ambiente da cultura, criando um cadastro de dados acessível à população, podemos dizer. A sua vocação para o jornalismo nos presenteou com o “Serviço de Alto-Falante Voz da Mocidade”, de que tratamos, e a revista literária “Fatos”, que durante largo espaço de tempo existiram e serviram de meio e apoio na divulgação de notícias e debates, desempenharam relevante trabalho no campo da Comunicação Social no nosso meio.
Ali reencontro o rapaz Nozinho de Aldo falando dos seus amores, da saudade de Sousa, exilado, longe no estudo, mais tarde juiz de direito, fundador e diretor da Faculdade de Direito de Sousa, jornalista, intelectual consagrado com o seu nome próprio Firmo Justino de Oliveira. Cola-borador erudito, Edísio Justino cultivava grandes temas, ao lado do sisudo Otávio Mariz e do espirituoso e irônico Zú Silva contando as suas histórias. E mais Sylvio Timótheo e Gastão Medeiros evocando datas, pessoas, Eládio Melo, e Professor Senhorzinho discutindo os costumes, os vultos venerandos da pátria. Romeu Gonçalves e Nias Gadelha, em discussões veementes sobre a política partidária local, secundados por Luiz O. Maia o mais terno, trágico e mavioso entre os poetas de Sousa ou que aqui viveram, outros e outros, inumeráveis, tratando de intimidades, opinião pública, cidadania.
E pasmem! Coisas nacionais e internacionais, universalizando o nosso métier. O Sputnik, o inverno, a seca, o comércio, os bancos, a indústria, os costumes, estão ali no livro. E os severos e cáusticos comentadores e críticos alônimos como “Marcelo”, “Zé da Boa Vista”, e o famosíssimo na época “Léo–Dênis”, que provocou censura e intervenção policial na programação da “Voz da Mocidade”. Duvidam? Comprem o livro. A portaria famigerada será editada em fac-símile.
Chamo a atenção dos leitores para a importância dessas realizações, na atividade hoje denominada mídia, criadas por Evilásio, numa época que não existiam estações de televisão, e a rádio-difusão somente funcionava nas capitais dos Estados, nas grandes cidades. Localidades do interior, Sousa entre elas, viviam o seu próprio universo humano e social em movimento, mas isolada, ausente do noticiário que falava do hoje, do moderno do que estava por vir.
Entre outras denominações e títulos dados aos programas, tão sugestivos, também este do gosto local, que assegurava audiência e popularidade à sua “Voz da Mocidade”. Ele sabia que era importante despertar curiosidade, provocar suspense para se tornar irresistível, daí a denominação do programa e o título do livro: “A Crônica Que Não Foi Lida”. Intuiu que todos fariam indagações, se entregariam à conjecturas. O que não foi lido? Algo importante, com certeza, envolvendo interesses reservados da sociedade local, que não deveriam ser divulgado na época. E todos desejariam saber. Evilásio fez muito bem em decidir publicar em livro o que foi lido e caminhava para o esquecimento. Está na trilha certa, coberto de razão. O seu livro será lido como as suas notícias eram escutadas e comentadas. Faziam a vida da cidade. E lhe somos gratos. Quantas lembranças renasceram na minha memória cansada, que não se encorajava em buscá-las, não sabia onde procurá-las.
Considero suaves, estimulantes e ternas tais lembranças. Afinal de contas muitas ali elas estão renascidas, para nova fruição. Por que não?.
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Categoria: textos antigos
Escrito por Eilzo Matos às 05h45
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PROSA CATÓTICA II O DURO RECOMEÇO (1985/2000. Cad. I - 10,11,12,13,14,15)
10
Os trabalhos na casa começaram pela ala sul e mudei-me para o lado norte. Vozes estranhas mudando os meus hábitos. Desconforto. Presenças incômodas.
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Fiz a lápis anotações num caderno que não consigo encontrar, concluída a leitura de MATERIALISMO DIALÉTICO e MATERIALISMO HISTÓRICO, de Stálin. Eis um pequeno ensaio, um manual de grande utilidade para os militantes comunistas, para avaliar os problemas concretos do momento histórico. O método dialético é um poderoso instrumento de investigação para o conhecimento dos fenômenos da natureza e da sociedade, na sua base materialista.
O desenvolvimento das ciências e as modernas técnicas estão criando uma nova sociedade. Vivemos um momento de “fratura da história.” A “cartilha” de Stálin, nada tem com a repressão que ele instalou na URSS. Facilita a assimilação de textos de Marx e Engels, capacitando o ativista para o descobrimento das contradições específicas do seu povo e do seu tempo.
Parece que os comunistas brasileiros deixaram de lado a leitura dos clássicos, e divulgam novidades européias e norte-americanas de conteúdo revisionista, estimulados por interpretações artificiosas de filósofos de segunda mão.
12
Edmund Wilson no seu RUMO À ESTAÇÃO FINLÂNDIA: “Há vários motivos que explicam o reconhecimento insuficiente dado a Marx e Engels como escritores. Sem dúvida, um deles é o fato de que as conclusões a que eles chegaram eram contrárias aos interesses das classes que mais lêem e que fazem as reputações dos escritores. A tendência a boicotar Marx e Engels, que se verifica tanto entre os historiadores literários quanto entre os economistas, constitui uma notável corroboração da teoria marxista da influência da classe sobre a cultura. (destaquei). Porém há outro motivo também. Marx e Engels não acreditavam mais em almejar a glória filosófica ou literária. Acreditavam ter descoberto as alavancas que regulam os processos da sociedade humana, que liberam e canalizam suas forças; e, embora nem Marx nem Engels tivessem talento de orador ou de político, eles tentavam fazer com que suas capacidades intelectuais atuassem o mais diretamente possível na realização de objetivos revolucionários. Estavam tentando fazer que sua prosa se tornasse “funcional”, no sentido em que o termo é empregado em arquitetura, coisa que não ocorrera nem com o jornalismo de Marat nem com a oratória de Danton. Como seus objetivos eram de âmbito internacional, não estavam nem mesmo preocupados com seu lugar na história do pensamento alemão. Assim, Marx escreveu sua resposta a Proudhon em francês; e os escritos de Marx e Engels desse período misturam francês, alemão e inglês, entre artigos de jornal, polêmicas e manifestos que só recentemente foram reunidos pelos russos e publicados na íntegra.”(p. 158)
13
Para livrar-me do desconforto com os trabalhos na casa, viajei para Sousa. A minha cidade de nascimento continua sua intrépida luta contra o atraso. As ruas cheias de gente, muita atividade comercial. As pessoas isolaram-se mais em grupos de interesses iguais. Assim se cumprimentam, assim ignoram a pre-sença de estranhos.
Automóveis caros, de modelos novos, exibem o triunfo de fortunas recentes, a estabilidade de alguns, a investida aventureira, a alienação de todos. Afastados do centro da cidade os pobres amontoam-se nos subúrbios, e mendigam, exercem um precário comércio ambulante de bugigangas, perseguidos, corridos pela indiferença.
Visitei minha mãe doente, imobilizada há anos por uma trombose. Encontro-a todas as vezes que a vejo, o olhar distante, respondendo com monossílabos às minhas indagações carinhosas e apressadas. Às vezes ela faz perguntas. Quer saber dos outros filhos. Fumante inveterada, a doença colheu-a quando ainda administrava com a eficiência que todos lhe reconheciam, a casa, a família. Meu pai falecera três anos antes.
14
Concluídos os serviços na casa. O regime de empreitada, com esforço redobrado dos trabalhadores, possibilitou-lhes uma boa remuneração. Mais um motivo para comentários despeitados. Cuidarei, agora, de organizar a minha pequena estante, os meus papéis, cuja ordem imposta pela empregada, não consigo por enquanto, decifrar.
15
Ontem à noite caiu uma grande chuva. Alegria geral com perspectiva de um bom inverno para os mais otimistas.
Os passarinhos, desaparecidos há meses, voltaram como por encanto. Chego a pensar que o canto dos pássaros não é apenas a forma de comunicação entre os de sua espécie, para o agrupamento, a guerra, a reprodução. Algo existe na modulação das horas próprias, como que uma integração com o mundo circundante, um hino à natureza, à vida.
As vozes dos homens primitivos assim devem ter ressoado no desenvolvimento de sua experiência social, do trabalho, até chegar ao signo, à palavra, que o ajudou a dominar a natureza, na designação de objetos e fenômenos. Daí para a abstração, o degrau que o transformou no ser superior na escala animal.
Os poetas dizem que os rios cantam, que as flores sorriem, e advertem contra as trapaças do tordo e a crueldade do mês de abril.
A arte é aquela forma de integração, de apropriação do mundo mediante a consciência, o instinto animal, e reflete, como experiência social, no complexo relacionamento dos indivíduos, na sua especificidade, a dialética dos fenômenos do desenvolvimento social.
Estamos, é verdade, bastante afastados das sonoras modulações dos nossos irmãos passarinhos. Tudo, entretanto, submetido a leis.
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 21h57
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Ah! A Vida
AH! A VIDA
Eilzo Matos
Eis revivificada, na explicação perspicaz, na vocação imorredoura dos modestos memorialistas de hebdomadários do interior, dos con-versadores de calçadas, de esquinas, de mesas de botequins, fonte dos enciclopedistas, acervo rico dos filósofos e historiadores das letras e das artes. Em suma os meandros da conduta humana, cuja extensão artística, expressa uma dimensão ontológica dentro da eterna problemática humana, um produto ético e estético, no entendimento de Luiz Toledo Machado, doutor em letras pela USP. Algo de significação antro-pológica, enfim. Impossível negá-lo. Somente desta maneira recriamos a vida na sua autenticidade objetiva.
A impossibilidade artística de explicação dos fenômenos humanos, faz recorrer, no teatro, ao uso do efeito deus-ex-machina; à seqüela literária de figuras gramaticais e lingüísticas na poesia e na prosa imaginativa: metáforas, metáforas. Construções efetivamente belas e engenhosas, etimológica e sociologicamente irrecusáveis, porém artefatos humanos, simplesmente.
Os feitos de João Grilo e as revelações espantosas de Alexandre ao seu perplexo auditório, narrados por José Vieira, e por Graciliano Ramos, são fatos humanos. Sim, fatos não artefatos. O fato é a vida no seu desenvolvimento significativo, do engodo à veracidade. O artefato sobrepõe-se à realidade, amolda-a perigosamente.
* * *
Jovem, ainda, em reuniöes, recorri a comentários ocasionais sobre fatos e acontecimentos pessoais, numa tentativa de explicações fantasiosas e fraudulentas, que justificassem observação aguda e presença relevante no ambiente social que habitava. Contradizia-me, entretanto, criando um mundo incompatível com a real situação vivida, anódina, nem tanto nem quanto proeminente, falto de engenhosidade.
Mas vivia o meu mundo, atrasado; o meu agreste ambiente, des-frutando-lhe as excelências, sem o fundo musical beethoveano, mas embalado no ritmo das emboladas, no batuque do martelo, do galope dos cantores populares de minha terra. Derrotado, produzi anedotas chinfrins, romances, poemas, artigos de jornal, discursos. Embaralhei, então, os meus sentimentos, desviei-me do meu norte, realizando uma obra estereotipada, em imagens e conceitos.
Resta-me, purgar cansaço e frustrações de baldadas tentativas. Esquecida a profundidade histórico-política e psicológica joyceanas, a épica e a lírica camonianas, cujo modelo não alcancei, que repercutem de forma irresistivel no hermetismo dos nossos perturbados poetas e romancistas brasileiros, entregarei o meu corpo à terra. Amém.
Coremas, 22/12/2003
Eilzo Matos
Categoria: textos antigos
Escrito por Eilzo Matos às 11h55
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Gregório de Matos e Augusto dos Anjos
Categoria: textos antigos
Escrito por Eilzo Matos às 09h23
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Gregório de Matos e Augusto dos Anjos
GREGÓRIO DE MATOS E AUGUSTO DOS ANJOS
Eilzo Matos
No “Boca do Inferno”, drama histórico da cearense Ana Miranda, colocado pelos teóricos e críticos da literatura entre os cem melhores romances de língua portuguesa no último século − descobri e vivenciei num processo diria catártico, o ambiente, o mundo barroco-colonial da Baía de Gregório de Matos e do Padre Vieira, de alcaides, governadores, bispos e jesuítas, e do populacho anônimo que percorria os becos imundos da Salvador colonial. Movidos pela inveja e pela intriga, os personagens, interagem, dominam a cena e a trama se desenlaça. Mas fiquei na incerteza sobre realidade e imaginação, vistos em comentadores da história, e contidas na narrativa romanesca. Eis a força da literatura de ficção, quando manejada pela percepção dos mestres da narrativa, realizando a tese luckácsiana da integração da obra de arte na teoria do conhecimento, pela recriação do real, do típico na sociedade.
No romance “A Última Quimera” em que Ana Miranda biografa Augusto dos Anjos, a genial cearense nos oferece material incomparavelmente curioso, revela circunstâncias que decidiram sobre a sua vida, quiçá deixadas de lado ou ignoradas pelos paraibanos. Valioso contributo para aferição de fatos e costumes da nossa impávida terra-mãe naquele início do século XX.
Pouco sei da Paraíba no tempo de Augusto dos Anjos. Somente alguma coisa da vida econômica e política que envolvia as oligarquias, as famílias que desfrutavam o prestigio com a parentela e os compadres.
Sobre a belle époque na Parahyba, tenho informações corriqueiras e genéricas sobre o mundo dos costumes de então, a crônica dos “bacharéis caça-dotes”. E sobre Augusto dos Anjos o cidadão, o poeta? Quase nada. Alguns versos das “Cismas do Destino”, dos “Versos Íntimos”, algumas alusões de eruditos e contemporâneos.
A verdade é que os paraibanos que o conheciam, não quiseram ou não puderam ajudá-lo. Um recusou-se fazê-lo. Reduziram-no à modesta condição de exilado no Rio de Janeiro, anônimo vendedor de apólices de seguro-de-vida, de porta em porta, “carregando uma maleta de couro na mão”, na busca do pretendido cliente, recurvando a espinha e pendendo a cabeça para trás, para ver melhor quando pessoas assomavam à janela dos sobrados. Parecia um caipira apalermado em roupa citadina.
Como podia tão inominável cena se oferecer aos transeuntes, envolvendo tal personalidade, ante a indiferença geral? Transcrevo de Ana Miranda a dolorosa observação abaixo:
“Augusto morreu sem realizar nem mesmo o seu mais trivial desejo, de conseguir uma colocação na capital, que desse a si e a sua família alguma segurança. Como pode ter acontecido isso a uma pessoa como Augusto? Como pode um homem criado pela família com toda atenção e cuidados, bem preparado, nota máxima nos estudos, com fama de o mais sabido, o mais inteligente, o mais erudito, o mais estudioso, o melhor tradutor de grego, o melhor declinador de latim, o melhor conjugador de verbos franceses, o melhor em gramática, história, geografia, português, ciências, o de mais farto vocabulário, mais sólida argumentação, imbatível em qualquer exegese, o que leu mais livros, o maior humanista, o de maior lucidez, de mais agradável retórica, mais brilhante eloqüência, grande palestrador, notável defensor de idéias nos jornais, smartíssimo, sabedor de teorias as mais complexas, ele mesmo teórico, que sabia citar os mais remotos autores, além dos menos remotos, casado com mulher decente, canônica, um homem limpo, cheiroso, cabelos lisos, pele branca, com todos os dentes etc e tal ter uma vida tão melancólica e sem oportunidades? Nem mesmo um emprego para alfabetizar filhos de proletários, quando qualquer professora que conhece um pouco mais que o ABC tem uma vaga a sua espera na escola.”
O destino inexorável teceu a sua teia, alcançando um homem cheio de esperança, como um urubu pousando em sua sorte. Ele mesmo o confessou num dos seus sonetos, sentindo frustradas as expectativas de uma vida digna para a família, sempre viva nas suas reflexões mais íntimas.
Relata o seu coetâneo José Américo de Almeida: “que (ele) levava uma vida regular, como homem de sua casa, de sua família, de suas obrigações... veio a nossa camaradagem ele já formado... estirávamos as pernas da Igreja da Misericórdia à Praça do Palácio... de paletó escuro e calça listrada, os sapatos envernizados, não era um relaxado no vestir... o meio conspirou contra sua estabilidade emocional; “ refere ainda revelações de Humberto Nóbrega sobre a fortuna desfeita, a alienação do Pau d’Árco “sacrificado por uma hipoteca vencida”. Completa, a dura pena do romancista José Lins do Rego, no realismo de sua revelação, a narrativa da ruína familiar, o patrimônio desfeito, e a humilhação final do poeta: “Só não levaram a santa da capela”.
O que lhe restou dessa vida desgarrada?
Pelo que sei apenas uma obra poética consagrada, insuperável entre outras; e da vida entre os homens, muitas dores. Recorro a conceitos alheios. “Poeta moderno e vivo”, acentua Otto Maria Carpeaux, e o insuperável Álvaro Lins assegura: “Com espírito filosófico e científico, e com a sua singularidade pessoal, Augusto dos Anjos tornou-se o poeta brasileiro cujo pensamento atingiu mais altura, densidade e consciência.”
Pouco mais conheci em leituras e apreciações biobibliográficas ocasionais. A imagem pessoal que me restou mostra o homem magro de terno preto, de chapéu preto, de bengala, um injustiçado que “nunca promoveu uma desordem , nunca deu um escândalo. Não jogava e a bebida não lhe dava animação, não lhe punha a gota de fogo no sangue”, como completa o autor de “A Bagaceira”.
E nunca conseguiu um emprego nos lugares que escolheu para viver: a capital do seu Estado natal e o Rio de Janeiro. A colocação em Leopoldina, arranjada através de um concunhado, socorreu-o quando todos os conterrâneos e confrades da vida literária o ignoravam. Só isto, e pouco mais que escreveram Humberto Nóbrega e Horácio de Almeida, sobre a perda de sua fortuna patrimonial e as razões de sua angústia. Um urubu verdadeiramente pousou ns sua sorte.
Confesso que sou leitor um tanto desatento, muitas vezes não chego ao fundo das questões, como deveria. Em relação ao poeta da “sombra magra.”, impressionam a indiferença dos coetâneos, certamente ameaçados pela evidente superioridade intelectual que o destacaria entre todos. E a recusa em apoiá-lo, nas suas legítimas pretensões, ajudá-lo em face de impasses que enfrentou e marcaram a sua vida.
Boa sorte contar com as pesquisas, a realização da romancista cearense que deslindará algo mais. o que resta por trás dos fatos. E o faz para reconstituição da verdade histórica, atenta à lição do advogado romano Quintiliano que sobre os acontecimentos indagava: Quis, quid, quibus auxiliis, cur, quomodo, quando? É o que procuramos todos conhecer.
Eilzo Matos. 15 de outubro de 2007
Categoria: textos antigos
Escrito por Eilzo Matos às 07h35
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Prosa Caótica II - O Duro Recomeço - Cad I - 6, 7, 8 e 9
Prosa Caótica II - O Duro Recomeço (1985 / 2000) CADERNO I
6
Encontrei no meio de papéis guardados há muito tempo, alguns contos e o esboço de um romance. Antigos projetos que abandonei ao longo de mais de vinte anos. A atividade política tomava o meu tempo, transformava-se num projeto de vida. Até a advocacia abandonei. Foi um período de leitura de jornais, infindáveis reuniões, presença anunciada em todos os lugares.
Afastado da militância partidária, diminuídos os seus compromissos, pretendo retomar aqueles projetos. Certamente não escreverei o romance, pois não consigo movimentar os personagens, elaborar a trama com eficiência. Poemas de circunstâncias, curtos e líricos, contos breves, relatos de pequenos dramas, daí não passará o meu projeto literário. E estas anotações, que tomam no momento, grande parte do meu tempo.
7
“Podemos dizer – escreveu Álvaro Lins – que todos os gêneros de poesia se encontram na Bíblia, o que talvez não impressione muito por se tratar de um livro essencialmente poético. Impressiona muito mais a comprovação de que também contém todas as formas de romance. Nas suas páginas e nos seus episódios serão encontrados o romance regionalista, o naturalista, o psicológico, o intros-pectivo, o ideológico. A Bíblia não é só um grande poema, mas um conjunto de grandes romances.”
Algumas pessoas de destorçida formação religiosa, acreditam que a Bíblia é um livro dirigido para a morte, quando, na verdade o é para a vida. A existência de povos e de raças, de famílias e de pessoas nos seus dramas coletivos e pessoais, nos seus problemas mais genéricos ou íntimos, demonstra e difunde. Uma lição de vida, portanto. Explica o homem e a sua praxis.
8
Releitura de O EU PROFUNDO E OUTROS EUS, de Fernando Pessoa, e de POESIA, de T. S. Eliot, em tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira.
Estes poetas não morrerão. Poderão desaparecer por certo tempo, mas serão redescobertos, reestudados sempre. Aliaram a coincidentes concepções poéticas, uma preocupação com a momentânea realidade, o homem transitoriamente histórico.
A reescritura de textos que realiza Eliot e a multiplicação de planos e visões estéticas de Pessoa e seus heterônimos, constituem um trabalho de “arqueólogo do espírito” do homem, descobrindo o passado, perlustrando o futuro.
A poesia como ciência da alma.
A emoção. Dorme no cérebro, no fundo da consciência esse poderoso sentimento, até que despertado, caracteriza o fazer humano. A arte é profundamente emocional. A leitura dos versos destes dois poetas transmite-nos esta certeza. Mas, igualmente racional e intencional, se atentarmos para o “vanguardismo” técnico presente nas suas obras.
A arte poética não se esgota na renovação formal.
Fernando Pessoa escreveu: “Um poema é a projeção de uma idéia em palavras através da emoção. A emoção não é a base da poesia: é tão somente o meio de que a idéia se serve para se reduzir a palavras.”
Escritura de Eliot: “The only way of expressing emotion in the form of art is by finding na objective correlative; in other words, a set of projects, a situation, a chain of events which shall be the formula of particular emotion.”
Pessoa fala em “emocionalizar o pensamento”, e Eliot assinala “the intensity of the artistic process.”
O tema oferece-se, para uma análise de aproximação da técnica de construção poética entre esses autores.
9
Fui procurado por um morador da fazenda que me pediu trabalho. Eles já não dispõem para comer, de um grão sequer da última colheita.
– Vou pensar em alguma coisa – disse para confortá-lo, como se a fome pudesse esperar.
Ele baixou a cabeça, aparentemente conformado.
A seca prolongou-se além do previsto. O fornecimento de dinheiro sob forma de adiantamento, no nosso regime de parceria agrícola, depende de invernos regulares, da implantação de roçados para garantia do pagamento.
Criei tarefas eventuais, entre outras, reparo no teto da casa onde moro, para oferecer-lhes oportunidade de ganho, abaixo, contudo, do mínimo legal. É o regime vigente no meio. Apesar de indefensável a minha posição, pago-lhes melhor que os demais proprietários vizinhos. Eles já me olham ressentidos e acusam-me de dificultar-lhes o relacionamento com seus trabalhadores. “Ganha fácil do governo. Devia pagar melhor. Nós não temos essa condição.” Falam ressentidos.
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 05h00
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Comentário enviado a Agnaldo Almeida
Agnaldo:
Basta de palanque alcoolizado, de cenas de bufonaria, de gritos de capataz, de aconselhamento de mãe preta. Este homem, Lula, está mostrando quem é e para que veio - desonrar e humilhar a memória e a imagem do trabalhador e de suas lutas. O pior cego é o que não quer ver. Essa onda de pré-sal e vai por aí, que ele alardeia, é trunfo e triunfo que a geologia nos presenteou, a Petrobras da luta socialista de 1954 localizou, e a titularidade e soberania sobre duzentas milhas de mar asseguram ao Estado brasileiro. O medo que faz é Lula na sua sanha neoliberal, fazer o que FHC fez com a Vale do Rio Doce, roubar do povo brasileiro o benefício dos seus lucros, passar tudo para controle do Mercado – o seu Deus.
A Amazônia arde em chamas. E Lula o que faz em sua defesa? Nada. Protege madeireiros nacionais e estrangeiros contribuintes do PT. A sua corriola, que promovia “bandeiradas e panfletagens”, perdeu o respeito público pelo envolvimento em atos de corrupção na administração pública, encolhe-se conivente, não comenta, não protesta. Estão ocupados na campanha de Ricardo Sabugosa Coutinho − o da venta torta, da boca torta e dos dentes de vampiro. Aquele que destruiu restos da mata atlântica na Ponta do Cabo Branco. Decisão sua. A Estação Ciência poderia ser instalada a poucos metros, sem prejuízo para o meio ambiente.
Mentem. Pagamos a dívida, diz Lula, e a tal dívida, no seu governo, passou de seiscentos bi para um tri e meio. Juntando o que resta privatizar e escapou do corrupto FHC, os rendimentos não igualariam os juros da dívida que Lula esconde, e que chegam aos duzentos bi anualmente. Pra que privatizar mais, o que só provocaria protestos? Zomba o G8. O governo já é nosso. Argumentam entre risadas, no fórum de Davos. As rendas nos são repassadas. Mais de oitocentos bi de juros, no governo Lula foram remetidos para os cofres das altas finanças internacionais.
Assim, esgotam-se as forças e potencialidades da nação, negociadas por intrujões, num procedimento amoral que torna mais distante ainda, como dizia Celso Furtado, o país que sonhamos. O crescimento não é um fenômeno auspicioso trazido por Lula. É fruto do desenvolvimento e das relações políticas e econômicas entre os países. A cada hora - devemos estar atentos -, nos reservam, a nós do terceiro mundo, um papel para desempenhar. Ou reagimos e expulsamos os vendilhões da pátria, ou seremos a bola da vez, como foram o Iraque e outros infelicitados estados nacionais, que perderam além da riqueza material, as marcas remanescentes de uma cultura muitas vezes milenar. Todos sabem.
Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 15h06
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Enfim o Fim de Ricardo
ENFIM, O FIM DE RICARDO
Eilzo Matos
A Era Ricardo chega ao fim. Graças a Deus. Ruim para os que não podem viver sem ele, melhor para os que conhecem a ameaça que representa. Para mim, ele está simplesmente, entre os fenômenos que abomino: os de mau agouro. Mas me ocupo em outras coisas, e cutuco aqui e ali, recorro à força dos orixás, pois o caso dele não é problema da alma, é do caráter. E o remédio é: pra doença médico, pra pecado sacerdote, pra vício do caráter catimbó. Outros recomendam polícia.
Ora, “ele criou um sistema de relações pessoais e interesses que formaram uma cultura política perversa”. Delicia-se duvidando da de-mocracia, como o faz com a “Coligação Cano de Esgoto” – via de es-coamento dos dejetos morais da política paraibana. Os seus integrantes, via de regra, ou são réus, ou citados e envolvidos nos arquivos da Polícia e Justiça Estadual e Federal, como pessoas de mau procedimento, nas esferas pública e privada – delinqüentes. Ou beneficiados com ofertas generosas, feitas por Ricardo à custa da prefeitura da capital.
Ricardo foi eficaz na construção do seu nome. Tudo com informações mentirosas, e cenas de conduta dissimulada. Não farei no momento, a lista dos fatos que o incriminam. São muitos. Tenho uma relação de denúncias que o envolvem e a sua administração, guardadas no meu PC, e as usarei quando necessário. A menor delas, o apelido de “mago”, para passar a impressão que é magro como um desnutrido trabalhador, ou mágico para trans-formar coisas. Aconselho aos que proclamam tal aptidão, ver onde ele come e as fichas dos processos: come em restaurante de luxo, e é réu em processos por crimes administrativos, por ele praticados. São gravíssimas as denúncias contra Ricardo.
Por enquanto, não é preciso outra fonte que as indicadas, feitas no “horário eleitoral”, que desmascaram a sua alardeada lisura. Uma ou outra vez ocorre um “pedido de resposta”, e por pura esperteza, estes, entretanto, em fatos sem maior destaque entre os seus atropelos morais.
Como anunciei em texto passado, ele representa um desastre histórico que podemos e devemos contornar. Aquela “asa de corvo carniceiro, asa agoureira” aquela “pele de rinoceronte” estendida sobre a sociedade. Algo parecido com Hitler e Stálin.
Em suma, um político que disputa o poder com métodos de bandoleiro e agressividade de assaltante, para quem as palavras não têm valor, a verdade não se distingue da mentira.
Vade retro! ..........................................................................
Sertão da Paraíba, setembro 2008
Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 14h01
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A Vítima Geral
A VÍTIMA GERAL
(MINHA SOLIDARIEDADE AO JORNALISTA TIÃO LUCENA, E AO JUIZ E PROMOTOR TAMBÉM)
Eilzo Matos
Parafraseando ou discorrendo sobre o impasse vivido pela sociedade campinense − dadas as injunções políticas, em fase conturbada de sua vida, e que culminou com o assassinato do líder popular Félix Araújo −, o saudoso romancista, mestre e menestrel Virgínius da Gama e Melo, levou-as para o terreno da ficção literária, e nomeou a sociedade como um todo “A Vítima Geral”, título dado ao seu romance, consagrado nacionalmente. É o que acontece – graças a Deus sem vítima fatal – em Princesa, envolvendo cidadãos na cena judiciária. A paz reinará, tenho certeza. E um novo romancista glosará o novo tema.
Seguindo na dissertação, é dificil para mim, comentar o episódio que envolve o jornalista Sebastião Lucena na esfera da justiça eleitoral. Menos difícil, é relacioná-lo com a desconfortável situação vivida pelo organismo judiciário, nos países ditos “em desenvolvimento” − em razão da pletora de leis, regulamentos e mais normas editadas, por todos que pretendem fazê-lo, para disciplinar e reger o funcionamento da sociedade. Tudo em virtude das exacerbadas contradições do sistema capitalista, reinantes entre nós. A discussão sobre “transgênicos” deixa de lado a ciência e volta-se para o lucro. Quem negará?
Há leis que atribuem direitos aos que ainda não nasceram e protegem dos que já morreram. Problemas entre as pessoas, ou entre estas e o mundo físico e orgânico do planeta, a ciência e o lazer, são definidos em lei. Espanto-me que ainda subsistam problemas, em face da copiosa legislação vigente no país. Para chover ou não chover, normas de cunho jurídico pela sua eficácia e validade, disciplinam a ocorrência do fenômeno. Duvidam? Posso provar.
Afinal o que está acontecendo?
Entendo que tamanho destempero institucional, provoca no or-ganismo judiciário uma intoxicação legisferante − na medicina seria medicamentosa −, ao arrepio da etiologia dos fatos da sociedade ou dos sintomas da doença.
Nas filas incontáveis que organizam o fluxograma social, em descontraídos diálogos, pessoas declaram-se incapacitadas para tomar decisões, adotar determinado comportamento, dado o poder explicativo-repetitivo e coercitivo de portarias editadas pelos juízes e promotores públicos, pressionados pelo conflito social inescusável. Proíbem o que já está proibido e silenciam sobre o que é permitido, ou detalham peda-gogicamente, a seu talante, a validade do diploma legal.
Melhor para os advogados, que contratam rendosas assessorias. E os juízes e promotores, sem demérito para eles, são empurrados contra a parede, na formação da relação processual legal, a despeito de sua exposição inglória como interpretes do direito e aplicadores da lei, obedientes ao princípio constitucional do contraditório.
Nestas condições, declaro a minha solidariedade a Tião Lucena e ao juiz eleitoral e promotor público de Princesa, que, em razão de petitório, o intimaram ou citaram para os termos legais da ação, em que figura como réu. Em relação a Tião, pela impossibilidade absoluta do cumprimento da pena pedida. Os seus advogados dirão o porquê. Quanto ao Magistrado e Representante do Ministério Público, pela inquinação de procedimento fundado na errada compreensão da Lei, que lhes será atribuída, também a minha admiração e respeito, e pelo munus público e cumprimento do dever legal, em razão dos cargos que ocupam.
Tião Lucena acrescenta à historia da imprensa na Paraíba um estilo, um padrão ético que não subverte nem finaliza a prática do jornalismo. Mas, como disse Ferreira Goulart sobre “A Balada do Cárcere” do poeta Bruno Tolentino, consegue “dar novo sentido às questões permanentes da aventura humana. Lúcido, irreverente, ironicamente comovido, lidando com o lido e o vivido”. Aí está em “1930 – A História de Uma Guerra” −, Tião falando de sua gente e do seu mundo, a despeito de tanto que deles já falaram autores notáveis na Paraíba e no país.
A Paraíba tem dessas histórias para mostrar ao mundo. Carlos Dias Fernandes, citado por Gilberto Amado, como figura destacada no cenário da cultura do Recife no princípio do Século XX, criava moda com o seu terno de linho branco, deixando de lado os fraques e casacas negras, Alfredo Pessoa de Lima combatendo a interventoria “malaia” de Agamenon Magalhães em Pernambuco, e Virginius da Gama e Melo, inovando o curriculo da universidade da Paraíba, com a criação da cadeira de Teoria da Literatura, que deixaram marca de sua passagem, até hoje viva.
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Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 07h29
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