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A Literatura é Vítima do Capitalismo
A Literatura é Vítima do Capitalismo:
Caderno Especial “O NORTE” 30/6/1996
(Entrevista ao jornalista Severino Ramos)
I
Conhecida como Cidade - Sorriso do sertão paraibano, Sousa sempre exerceu um fascínio impressionante sobre os seus filhos, um arraigamento telúrico tão forte que aonde quer que estejam, estarão sempre com o espírito e o pensamento voltados para a terra natal. Duas das mais expressivas figuras da política estadual, Antônio Mariz e Marcondes Gadelha, davam mais importância às injunções políticas de Sousa do que às intricadas articulações no Congresso Nacional. Talvez tenha sido esse telurismo que fez com que Eilzo Nogueira Matos, 62 anos, uma das mais lúcidas e brilhantes inteligências da intelectualidade paraibana, abdicasse de cargos e posições, de alegres e sadias rodas de boêmia com intelectuais e amigos sinceros, para retornar a Sousa e entregar-se a um exílio voluntário num sítio de sua propriedade, onde tudo é precário, a começar pelo acesso, de estrada de barro e quase intransitável. Contemporâneo de Virgínius da Gama e Melo quando cursava a Faculdade de Direito no Recife, Eilzo passou a dedicar uma atenção especial à literatura e às artes de um modo geral. Embora, na época, não fosse um aficionado, sempre cuidava “dessas coisas do espírito”, como se diz comumente. Ainda estudante no Recife, 20 anos de idade, participou de um concurso de contos promovido pelo “Correio da Paraíba”, sendo o vencedor entre todos os concorrentes. Este foi o começo de uma profícua produção literária, em se que incluem poesia, contos e romances, dois dos quais mereceram uma acolhida carinhosa da crítica especializada; “A Invasão das cobras” e “Viajantes do Purgatório”, este último lançado na semana passada na API. Primeiro civil a exercer o cargo de Secretário da Segurança Pública na vigência do regime militar, Eilzo Matos sempre esteve voltado para a análise e o debate das questões essenciais que atormentam a humanidade nos dias atuais, revelando-se um dos melhores expositores dessas questões, com as quais sempre se mantém atualizado, fiel às suas convicções políticas e ideológicas, como demonstra nesta entrevista.
Durante muito tempo V. teve um intensa atuação política e intelectual em João Pessoa, mas de repente afastou-se e ficou confinado num sítio no município de Sousa. Qual m motivo desse isolamento?
Sem mandato e sem pretender disputar mais eleições, eu decidi que devia voltar para o sertão, atendendo aquele chamamento das origens, da terra natal e também por um acidente de percurso, por indisposições familiares, eu me recolhi lá .
Voltei e passei a administrar uma propriedade de potencialidades precárias, naquela obstinação sertaneja, enfrentando uma seca atrás da outra, um insucesso atrás do outro, mas procurando sempre alcançar um resultado melhor no ano seguinte. Já se disse que o sertanejo vive sempre do outro ano: “no outro ano eu faço”. Lá estou vivendo com muita saudade de João Pessoa, da boêmia que eu pratiquei por quase quarenta anos, uma boêmia evidentemente responsável, dedicada ao pensamento, à discussão e ao debate de idéias e estou quase me alienando em face de necessidade do capital para sobreviver. Porque, como diz o matuto, o dinheiro é a mola do mundo.
V. como intelectual, como escritor e homem de pensamento, como vê a literatura paraibana hoje?
Eu acho que a literatura, não só da Paraíba como do mundo inteiro, tem sido vítima da mídia e do capital dominante. Os valores literários e estéticos propriamente ditos não são mais levados em consideração. A revelação de fatos sociais, de verdades da sociedade que têm que ser retratados pela literatura, como, por exemplo, o ciclo da cana-de–açúcar, de Zé Lins do Rego, o romance da seca, de Graciliano, esse tipo de literatura não tem divulgação da mídia, porque conflita com os interesses dominantes. Assim, surge um Paulo Coelho, que retrata algum momento da sociedade onde não existe seqüestro, onde não existe doença nem crise financeira, onde não existe problema, porque tudo se supera, na visão desses mágicos da literatura, meditando nos “Caminhos de Santiago”. Da mesma forma, a construção permissiva de romance, embora bem imaginada, nada diz, como o “Xangô de Baker Street”, de Jô Soares, que é um homem muito inteligente, muito preparado, mas não se vê mais um Érico Veríssimo, um Zé Lins do Rego, um Graciliano Ramos ou uma Rachel de Queiroz, porque esses escritores contavam a história da sociedade no seu desenvolvimento e nos seus conflitos, e a mídia não se interessa mais por isso.
E qual tem sido a influência da mídia na política?
Na política, encontramos muitas lideranças silenciadas, inutilizadas, levadas ao anonimato pela mídia. Um exemplo expressivo disso é o nosso falecido amigo Antônio Mariz. Não acreditamos que Antônio Mariz, um homem inteligente, de grande cultura política e filosófica não tivesse a inteligência e o preparo intelectual de um Inocêncio de Oliveira. Mas a mídia não o entrevistava porque ele ia contestar, ou pelo menos não defenderia os interesses do mídia.
Eu fui colega de Faculdade de Marcos Maciel, que é vice–presidente da República. Esse moço é a expressão da inutilidade intelectual, por isso ele fica com aquela cara de quem não pode dizer nada, apegando-se apenas a dados e números. Mas ele não diz por que não sabe. Ele fica com a fama de hábil articulador, fica na articulação por que ninguém sabe o que ele faz. Mas, ele sabe o que faz. É levar o seu partido a participar de todos os governos em todas as situações que sejam favoráveis a ele e ao seu partido. Mariz nunca teve chance porque nunca fez isso, nunca ficou a serviço da mídia. Não se pode imaginar que Antônio Mariz não tivesse condições de ser ministro da Educação e Marco Maciel tivesse; que Mariz não pudesse ser ministro da Justiça e Nelson Jobim possa ser. Tudo que Mariz conseguiu foi por causa de sua vinculação com o povo e não com a mídia.
Mas voltando á literatura, V. não acha que os valores literários surgem independente da mídia.
Isso é um fenômeno que só uma análise sociológica profunda pode determinar. Mas eu não desacredito que existam na Paraíba grandes obras escritas nas gavetas dos escritores que, sem ter acesso á mídia, não conseguem divulgar os seus trabalhos nem aqui no Estado. Nós vivemos num círculo de ferro; uma mão de ferro nos agarra e a gente daqui não sai. Ascendino Leite para aparecer, teve que sair da Paraíba. Virgínius venceu na marra porque era extraordinariamente preparado para a tarefa da literatura, e procurava se relacionar com todo o pensamento literário nacional. Virgínius não explodiu literariamente dentro da Paraíba, mas nacionalmente, pelo seu relacionamento com outros nomes. Mas a decadência, a globalização é tão profunda tão avassalante, que o bispo Edir Macedo já invadiu os Estados Unidos e está invadindo a Europa com as suas igrejas. Dizem que quando esteve na Áfríca do Sul ele juntou mais gente do que o Papa. A mídia não divulgou isso porque, apesar de ter interesse em Edir Macedo como instrumento do conformismo social, tem também o seu respeito pela Igreja Católica Apostólica Romana. Hoje se vê um Paulo Coelho sendo agraciado com medalha de honra pela Academia Francesa. Não se pode comparar a literatura de Sartre, de Camus, de Racine, de Voltaire com o pensamento de Paulo Coelho. Essa decadência é global. É a fase do capitalismo na sua expansão final e imperialista. É evidente que é preciso que os filósofos, os economistas, os estudiosos definam a rota desse desenvolvimento, porque algo de novo deve estar acontecendo e nós não estamos percebendo.
Com a queda do império soviético, V. acha que o comunismo está morto e sepultado ou tem condições de ressuscitar?
O que caiu foi a experiência do socialismo soviético. Segundo Robert Kurz, um filósofo alemão, na Rússia não se estava construindo um sistema socialista, mas o que havia era um capitalismo de Estado. Desde o tempo de Lênine, ele já advertia que aquele ainda não era o mundo dos “soviets”, dos operários, porque os que estavam governado não eram ainda filhos de operários, de trabalhadores socialistas. E de lá para cá a burocracia se instalou e não saiu mais. O que ruiu na União Soviética foi uma experiência capitalista, porque a burocracia não deixava construir–se o socialismo, embora as idéias fossem socialistas. Porque a centralização do poder, a propriedade absoluta dos bens pelo Estado, isso não transformava uma sociedade em socialista, mas num estatismo absoluto. E hoje o que se vê é o FMI emprestando dinheiro a Ieltsin, é o Banco Mundial emprestando dinheiro a Ieltsin, enquanto a Máfia russa vem assombrando o universo...
Isto significa dizer que o socialismo nunca existiu?
O socialismo é um desenvolvimento das idéias da sociedade para chegar lá. Mas a experiência de construção do socialismo soviético resultou num capitalismo de Estado absoluto, repito, que direcionava o rumo de aplicação do capital, porque, dadas as discrepâncias que existiam entre a forma de vida dos operários e dos burocratas, a experiência tendia a fracassar. Porque não podia haver socialismo onde moravam três famílias num mesmo apartamento, enquanto outro camarada dispunha de um apartamento com três suítes e mais uma dacha para passar os fins de semana. A partir daí, faliu o modelo, porque a passagem de uma classe para substituir uma adversária não esgota os vestígios do passado, quer dizer, a substituição da nobreza russa por uma nova administração que eram os soviets, não eliminou de maneira nenhuma as tradições e as lembranças dos valores do passado. O processo de substituição de uma classe por outra impõe uma verificação cuidadosa, até, se for preciso, através de leis de exceção. Somente em Cuba e na China houve uma experiência efetiva do socialismo, porque nesses países o investimento social do orçamento é de 80 por cento. (segue).
Categoria: textos antigos
Escrito por Eilzo Matos às 07h26
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A Literatura é Vítima do Capitalismo
A Literatura é Vítima do Capitalismo:
Caderno Especial “O NORTE” 30/6/1996
(Entrevista ao jornalista Severino Ramos)
II
Que avaliação V. faz da classe política brasileira? V. acha que existe oposição?
Oposição de fato neste país fazem os partidos tradicionais em cada Estado, de maneira localizada, como o PFL, PPB, que se opõem apenas na disputa pelo poder, porque a ideologia é a mesma, capitalista, neoliberalista, etc. Mas quem faz oposição de fato, no sentido de estender à sociedade as ações participativas do governo, são os partidos de esquerda, como PT, PDT, PV, PSB e PPS, antigo PCB. Brizola, muito embora alguns não admitam, foi um verdadeiro estadista, depois de Getúlio, profundamente culto e preparado intelectualmente, é quem faz uma oposição consciente. Está aí Fernando Henrique Cardoso, que sempre posou de esquerdista e exilado. Mas ele nunca foi exilado. Filho de general, vivia tirando onda de esquerdista naqueles bares de São Paulo, pois naquela época era moda ser esquerdista. Quando veio a revolução e ele viu que a situação estava ruim, pegou o seu passaporte e foi par a Argentina, depois para o Chile, mas não como exilado. Ele é um produto da mídia, foi preparado e produzido para ser imposto pela CIA como presidente do Brasil. Só que os presidentes de República hoje em dia são figuras esterilizadas, porque quem decide sobre a guerra e a economia são os empresários, que nomeiam e demitem ministros, elegem e derrotam presidentes da República. Essa é que é a verdade insofismável.
V. condenou o capitalismo estatal soviético e é contra a privatização das empresas estatais brasileiras. Qual é a diferença?
A diferença é que nós vivemos numa democracia pequeno-burguesa, onde as marcas do capitalismo de Estado devem existir. Petróleo, comunicação, navegação costeira, mineração, são alguns setores onde, por questões econômicas e estratégicas, devem ficar sob o controle do Estado. Já no capitalismo estatal soviético tudo era absolutamente do Estado, não havia nenhuma de iniciativa privada.
Na sua opinião por que ainda não se fez a reforma agrária no Brasil?
É um contra-senso inexplicável não se fazer a reforma agrária. Está provado que a reforma agrária é uma necessidade. De que adianta se ter uma propriedade hoje em dia e não ter mão de obra, porque o povo está fugindo do campo, dada a espoliação vergonhosa de que sempre foi vítima? Eu sou um pequeno proprietário de terra e sei o que é isso. O povo não fugiu da minha propriedade porque não quer trabalhar, mas porque eu não pago um salário digno. O trabalhador do campo só ganha o dia que ele trabalha. Se durante toda a semana, ele só trabalhar na quarta-feira, ele só recebe pelo que trabalhou na quarta-feira. Ele não tem repouso remunerado, não tem aposentadoria, pois ele morre antes de se aposentar pelo Funrural porque não chega aos 60 anos de idade. No campo, ele não tem dentista, não tem médico, não tem escola. A reforma agrária ainda não foi feita porque a propriedade de terra dá acesso a negócios milionários através dos bancos, os chamados créditos privilegiados. Além da poderosa bancada ruralista no Congresso, que vive chan–tageando o governo da defesa dos interesses dos grandes latifundiários.
Existe uma preocupação dos governantes com relação a uma explosão demográfica. Quando deputado, V. se preocupava muito com esse problema do controle da natalidade.
Quando eu era deputado, criei um Grupo Parlamentar para Estudos de População e Desenvolvimento. Naquele tempo, apesar de eu ser um militante ideológico de esquerda, eu adotava algumas teses que meus companheiros criticavam muito. Ocorre que há uma realidade social e uma realidade biológica, que é a reprodução humana, que tem conseqüências previsíveis. Os pobres não podem fazer qualquer tipo de planejamento familiar porque não têm os meios informativos a respeito, ao contrário da classe média, que consegue ter quantos filhos queira. Porque isso é comum, é elementar. Nem sempre quando se tem uma relação sexual, se quer fazer um filho. E quando nasce um filho é um problema, porque exige assistência à gestante, exige o berçário, tem que haver o médico e depois a creche, a escola e o emprego. É preciso que o Estado aja com responsabilidade, orientando as familías para que pratiquem o planejamento familiar consciente.
Nós estamos vivendo em plena revolução da informática. Quais as suas expectativas com respeito ao avanço da tecnologia e que banefícios poderá trazer para o homem?
Inestimáveis benefícios. A informática, com a chamada interatividade, é de uma importância absoluta. O computador, como equipamento técnico para ajudar o homem a produzirr e a conhecer, é um dos maiores acontecimentos de todos os séculos. Uma atividade que exigiria milhares de pessoas para executar pode ser desenvolvido sozinha só com um computador. O milagre da informática permite que, num CD Rom, por exemplo, você disponha de cem mil págimas impresas sobre os mais diversos assuntos. Com isso, se democratiza o acesso ao conhecimento. Agora, os benefícios da informática vão depender do sistema político que governa cada nação. É claro que a informática vai desempregar muita gente. O sistema de governo é que vai dizer se o povo será ou não bem assistido, com a criação de métodos e processos para dar ocupação às pessoas que porventura foram desempregadas pelo computador, descobrir meios para preencher as horas de lazer e de ócio dessa gente........................
Categoria: textos antigos
Escrito por Eilzo Matos às 07h24
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João Pessoa - Tempos Passados
Parte I
João Pessoa - Tempos Passados, Algumas Lembranças
ANTECEDENTES
Cheguei a João Pessoa em 1970, eleito deputado estadual. Es-tranho à cidade, para integrar-me no circuito dos acontecimentos restabeleci uma convivência iniciada em Recife, nas décadas Cin-qüenta/Sessenta com Virginius da Gama e Melo, então prestigiado colunista político do “Diário da Noite” da empresa “Jornal do Comércio” do Grupo Pessoa de Queiroz (que muito tem a ver com a história da Paraíba), e destacada presença semanal no seu “Suple-mento Literário” dos domingos, na Mauricéia.
Matriculado na Faculdade de Direito eu buscava o sonhado título de bacharel, um compromisso assumido comigo, com a família e com a minha cidade. Nos aproximamos nos bares fre-quentados pela imprensa, por bravos paraibanos exilados na impávida e augusta Mauricéia, e por políticos e intelectuais à pro-cura de evidência.
Os campinenses dominavam o cenário com os Gaudêncio, os do Ó, os Agra, e outros. A influência completava-se na ligação familiar do brejo paraibano com o temido e respeitado chefe político Chico Heráclito do Rego, glória e presença marcante do coronelismo no Estado vizinho, que dominava Limoeiro e Carpina, pai do de-putado pernambucano-campinense (casado na familia Figueiredo), Veneziano do Rego - com mandato nos dois Estados.
O ubíquo parlamentar – que hospedara Virgínius no período de ostracismo enfrentado pela família derrotada por José Américo em 1950 –, era pai do acadêmico Vital, um apaixonado pelo Direito, que exibia no bar “A Portuguesa”, na rua Diário de Pernambuco, um volume contendo os “Cem Melhores Sonetos Jurídicos do Brasil”. Mas gravitávamos todos, na verdade, em torno de Virginius.
Assim, o cangaço (os Gaudêncio e Oldack do Ó, exibiam armas na cintura, e as disparavam intimidativamente a esmo, umas vezes, outras com alvo certo), e também a política e a literatura levavam Campina Grande às alturas, desde que,Virginius dividia-se matreiramente: “João Pessoa é a capital do Estado, tem relevância, não discuto, mas Campina é a maior cidade da Paraíba”.Ele dizia. Honrava, assim, elevando a voz nasalada, gesticulando, a ascendência materna da família Figueiredo, da Rainha da Borborema, que, igualmente aos Gama e Melo, de João Pessoa, governara o Estado, dera prefeitos, deputados e senadores ilustres, firmara tradição.
Em João Pessoa eu era, pois, um “ilustre desconhecido”. A minha parte paraibana convivera em Pernambuco os momentos melhores da juventude e lá guardava as suas relações, a sua memória.
Frequentei o curso secundário e a universidade no Recife. Sem a convivência geracional (na expressão de José Rafael de Menezes) no meu Estado, era um estranho à minha capital. Não vivi os dias gloriosos do “Bar Pedro Américo”, consagrado em livro pelo médico-sociólogo-escritor-cervejeiro-cabarezeiro Paulinho Soares. Mas cheguei bafejado pelo dobrado prestígio do “político-intelectual”, que me atribuira o generoso e amado Menestrel, com referências constantes e elogiosas a meu respeito no seu colunismo consagrado nos jornais mais importantes da nossa Paraíba, que me embaraçavam algumas vezes.
Nos bares de João Pessoa fiz amizades no companheirismo da vida boêmia, um gosto da época, anedótico para a “alta-roda”, de mau gosto para pessoas vips, todavia uma deliciosa realidade, uma inesgotável fonte da história em todos os lugares do mundo.
Os movimentos artísticos e políticos que se universalizaram, nascidos nos cafés parisienses, nas peñas freqüentadas por Buñuel nos bares noturnos em Madri, no Village em Nova York, os ideais abolicionistas e republicanos, a harmonia parnasiana dominando a Confeitaria Colombo, e a Lapa revelando nas mesas do Café Nice o talento carioca de Pixinguinha e Mario Lago, confirmam esta afirmação. Aquelas pessoas vips, da alta-roda, preferem frequentar mansões, festas privativas, condomínios fechados, e outros lugares inacessíveis aos mortais comuns.
Categoria: textos antigos
Escrito por Eilzo Matos às 07h05
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Parte II
JoãoPessoa - Tempos Passados, Algumas Lembranças.
OS BARES
Era o tempo do “Luzeirinho”, em Jaguaribe, e da churrascaria “Bambu”, da Casa dos Frios, do Pavilhão do Chá, do Cassino da Lagoa, da Canadá, no centro da cidade. Bebíamos cerveja e rum, comíamos mariscos e galeto com os mais desassistidos, ou somente bebíamos. A conta não importava muito, pois seria paga dadivosamente por algum abonado no momento, ou rachada numa solidária e popular vaquinha.
A conversa girava em torno de projetos que possibilitavam futuras reuniões para demorados debates, regados, evidentemente, com cerveja e rum, e também com variedades outras de bebidas famosas (a caninha, o conhaque), acompanhadas com as frutas da estação, uma invocação frequente de Virginius.
E falava-se de tudo. Desde o cinema e os concursos de misses de Willys Leal ao judô do teatral pianista Elzo Franca; comentava-se o folclore de Altimar Pimentel, tratado intimamente de Artimanha, a crítica mordaz, corrosiva e acelerada de Mário Santa Cruz, o comunismo de Adalberto Barrreto e Gonzaga Rodrigues, lamentavelmente sempre ausentes, as notícias sobre a presença de Waldemar Duarte e Balduíno Lélis, infensos ao alcool, em cerimônias oficiais.
Ameaçava todos, entretanto, sempre que apareciam, a iracúndia incontida de Sindulfo Santiago e o elitismo de Biu Ramos que não surpreendia a ninguém, a presença blasé (motivada pelo afastamento do alcool), disfarçada nos ditos inteligentes de Silvio Porto. E literatura e mais literatura. E política e mais política.
Os ambientes, regurgitando, nos ignoravam mesmo; todos viviam com as suas verdades e contestações e organizavam-se em grupos, em troupes ruidosas. Recebíamos apenas, cumprimentos ocasionais de amigos que receavam a balbúrdia e o tamanho da despesa. Acercavam-se e depois aban-cavam-se, com o olho comprido, os plumitivos novatos, já puxando fogo
Lembro-me de Marcos Tavares, de Paulo Melo falando da roda oficial, impedido de galgar posição naquela esfera, segundo Virgínius, porque não possuía paletó. As presenças agradáveis de Mocidade e Caixa Dágua desanuviavam o ambiente, colocavam os pontos nos ii em matéria de política e literatura, e todos concordavam com as suas teses.
Como se diz hoje, era um “barato”. Apareciam às vezes, no Cassino, os poetas Zé João Torres e Celso Novais: inteligências brilhantes, figuras do so-çaite que curtiam ressacas, e, quiçá desgostos, na mesa negligente de bons camaradas; o primeiro com anúncios ameaçadores e ferinos como unhas afia-das de gato; o segundo nostálgico e mordaz na indisfarçável superioridade de sua fortuna financeira, no luto da juventude desaparecida no ambiente do romântico e revolucionário Recife, metrópole da cultura nordestina, inega-velmente ilustrada pela inteligência paraibana, de lembranças que o faziam sofrer e não o absolviam, de intermináveis monólogos e recitações, alheio ao momento presente que também se esvaía fugaz.
Em ruidoso e prazeiroso período, o poeta Zé João alugou uma casa na Balaustrada das Trincheiras e firmou convivência marital com a estranhíssima e impertérrita Vânia Guimarães, que, de terras desconhecidas aportara à Paraíba, tornara-se íntima do gabinete do governador, colaboradora de jornais, frequentadora dos bares esnobes onde fisgara o felino poeta.
Acredito que os fornecedores da bebidas e iguarias servidas fartamente a quinhoeiros da cultura, varando as madrugadas em animados saraus, guardam o rol das despesas assumidas pelo pródigo poeta, como guardou o circunspecto biógrafo de Augusto dos Anjos, Humberto Nóbrega, proprietário do bangalô alugado ao famoso e perdulário casal, os recibos não quitados do aluguel do imóvel.
Que destino consumiu as suas vidas? Soube-os depois, arrendatários de um hotel em praia primitiva do litoral pernambucano. Notável par. Na tragédia de suas vidas desgarradas semelhava o delicado cavaleiro Des Grieux e a pérfida Manon Lescaut, no drama imorredouro do abade Prévost.
Aquela agitação da guerreira Felipéia rendia cargos públicos para uns, notoriedade para outros. Para todos o prazer da convivência amenizando dores sob os vapores etílicos. Depois de longa militância recolhi-me à vida rural, distanciando-me dos bares da capital, afastando-me da vida pública, do cenário político por se tornar impraticável a minha ascensão. Mas deixei outros que chegavam com a mesma verve, os mesmos propósitos, capi-taneados por Nonato Guedes, Agnaldo Almeida, Tião Lucena e companhia, e espertos políticos secundados pelo afirmativo e ético PT, na época..
Durante um certo tempo, vale lembrar, dedicava os sábados e domingos pela manhã a um bar com oficinas mecânicas no entorno, nos fundos do Quartel da Polícia Militar, com violões à disposições dos que o praticavam. E foi não foi nos dávamos conta incorporados, cantando sucessos de Nelson Gonçalves, o cantor preferido local.
Participavam da patota o teatrólogo Raimundo Nonato, titular do Departamento Estadual de Cultura, o ex-juiz Firmo Justino de Oliveira, o conterrâneo Estrela do BNB, e outros e outros. Lá Raimundo Nonato engatou os festivais populares de arte, retornando à cena cantores esquecidos como Parrá e tantos mais, nos democráticos projetos do Governo Wilson Braga.
Por fim larguei tudo e aqui estou, procurado por Willys e outros saudosistas, em busca do passado. Mas rememoro a advertência lida no velho Machado no Dom Casmurro.
É inútil o esforço para unir as duas pontas da vida: a juventude e a velhice. Vale deixá-las vivas, embora separadas, em documentos, guardadas pelos que ainda puderam se lembrar dos antigos lances. E por isso parabenizo Willys pelo seu projeto, hoje livro, que me ofereceu a oportunidade para as relembranças acima introduzidas na memória do meu computador.
O desencanto sorumbático, ebóreo do velho e pessimista casmurro, ainda bem que é matéria ebrifestiva para nós. E pratico-a com certa assiduidade, curado que estou do coração, com safenas e mamárias restauradas pelos doutos e habilidosos cirurgiões-médicos paraibanos.
Escrito por Eilzo Matos às 07h03
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PROSA CAÓTICA II - O DURO RECOMEÇO - CADERNO I - 1, 2.

EILZO MATOS - O DURO RECOMEÇO (jornal) CADERNO I (1985/2000).
1 - Trinta e um de dezembro de 1987. Não escolhi a data. O último dia do ano nada tem de marcante na decisão, a não ser a determinação inesperada de colocar o papel na máquina de escrever, e começar. A idéia de um balanço de atividades ocorre de imediato, tão acostumados estamos a esse tipo de comportamento, estimulados pela necessidade de ordenamento de nossas vidas.Aos cinqüenta e três anos sobrou-me tempo, em parte aproveitado, para saber posicionar-me em face da sociedade, das suas instituições, dos seus preconceitos.Homem da cidade, passei a viver numa fazenda antiga, situada numa região pobre, de clima instável, castigada ciclicamente pelas secas. Sem a comodidade de que dispunha na capital, moro numa casa de reboco grosseiro e telha-vã, piso áspero de cimento e fogão-a-lenha que enegrece as paredes e o teto da cozinha. Sem energia elétrica, uma geladeira e lampiões a gás, atendem-me nas horas quentes e para as leituras noturnas.Não sou exigente quanto a comida, e a empregada, de origem rural mas criada em casa abastada da cidade, sabe usar a geladeira, mantém limpo o banheiro, assegura água filtrada para bebermos. Conhece o uso adequado de pratos e talheres, a distinção no preparo dos alimentos para as três refeições do dia, enfrenta sem dificuldade a distância dos centros de abastecimento.Do ponto de vista da minha comodidade material, em face da minha decisão, vivo bem, cuidado respeitosamente por ela, como dona da casa, o que a satisfaz e envaidece.Uma pobre vida, passiva e devotada, como das personagens de Gertrude Stein. 2 - Na estante, entre outros livros trazidos da minha biblioteca, TEORIA DA LITERATURA, de Wellek e Warren, que ainda não li. Andei folheando o volume, depois de tantos anos de sua publicação, numa quase “leitura dinâmica”, de que se falou muito no passado e na qual não acredito como coisa séria. Mas li trechos, e entendo que necessito de algumas releituras e meditações para conhecer as idéias desses teóricos modernos.O livro pareceu-me, pela bibliografia que completa o volume, uma espécie de marketing literário, para usar conceito mercantil, no lançamento de produtos no comércio. Reuniram os autores numa sociedade de idéias e estudaram os gostos que perduram, tendências novas e variações dentro destes gostos, excluídos os contrários à manutenção do “mercado consumidor”.Uma novidade, fruto de muito trabalho, baseado numa vasta cultura, numa exposição ordenada e acadêmica.Afrânio Coutinho oferece, também, uma extensa bibliografia para o estudo da literatura, útil para uma visão crítica do fenômeno estético-literário. Como em Wellek e Warren, um catálogo, uma lista de convidados.Torno claro, numa tomada de posição, que entendo “a formação e o desenvolvimento da literatura como parte do processo histórico total da sociedade. A essência e o valor estético das obras literárias, e também sua ação, é parte daquele processo geral e unitário pelo qual o homem se apropria de mundo mediante sua consciência.” (Lukács. Critica).Alguns intelectuais paraibanos que bebem a ideologia da classe dominante, e curtem os seus porres estruturalistas, numa imprensa subsidiada, numa universidade alienada de bolsistas, mestres e peagadês em regime de confinamento pedagógico e de idéias, torcem o nariz, desdenhosos, quando ouvem falar de Marx, Engels, Nelson Werneck Sodré, Garaudy, Carpeaux e tantos outros estudiosos da literatura, dos fenômenos sociais.Queiram eles ou não, a literatura é um fato, um produto social. A produção literária iguala-se a uma greve de portuários, a uma desordem e quebra-quebra de desempregados, a um quadro de Picasso.Não foi sem razão, que o autor da monumental HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL, parafraseando Lênim afirmou que “o estruturalismo é o ópio dos intelectuais”. Que importância poderá alguém, em sã consciência, atribuir aos milhares de palavras gastas pelo professor Roman Jakobson no seu estudo sobre Les Chats, de Charles Beaudelaire, do ponto de vista da literatura?O mestre de Praga, egresso de Moscou, hoje pontifica em manobras científico-diversionistas nas universidades norte-americanas.Esse o objetivo da especialização mesquinha, menor, rica em terminologia, mas determinada por posições sociais retrógradas.
Categoria: Jornal
Escrito por Eilzo Matos às 11h32
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RECIFE MEMÓRIA

Faculdade de Direito do Recife ( Entrada Pç. Adolfo Cirne)
RECIFE – MEMÓRIA.Registro nestas breves anotações, aspectos de minha vida no Recife, transcorrida na juventude dos dezoito aos trinta anos de idade. Enfoques episódicos, nada mais. Relutei em fazê-lo. Trata-se de um período cheio de dúvidas e certezas que se sucediam, paradoxalmente, alimentadas por fatos que influíram na minha formação moral e intelectual. O desfecho de certas situações, exigem equilíbrio e justiça no seu julgamento. Em relação a algumas, ressalto as dificuldades financeiras no seio da família, que nos mostravam a separação entre as pessoas, os grupos sociais; a constatação e consciência da posse e da perda de uma condição destacada, antes desfrutada. Tais dificuldades motivavam recalques e maquinações sem-razão, desejos de afirmação e de conquistas notáveis – a projeção e o brilho que obscureceriam indesejáveis revelações. Um desajustamento, enfim, que algumas vezes é percebido; que é compensado e atenuado, como no meu caso pessoal, pela existência de uma tradição familiar de poder e de representação. Quanto aos fatores determinantes da minha concepção da vida e do mundo, a formação escolar e as leituras prepararam-me para enfrentar as circunstâncias adversas, e posicionar-me, movido pela razão, num comportamento preten-samente intelectualista, exacerbado, que não admitia contestação ou reparo. Do iluminismo para o marxismo transitou o meu pensamento, com alguma reflexão, empolgado pelo humanismo amplamente discutido na sociedade, ajudado com leituras afins. O frescor da idade levou-me às aventuras e aos sonhos românticos, expondo-me às imprevisíveis perturbações, confundindo as minhas ideias. Mas consegui afirmar-me, pelo que consideravam o meu destaque cultural, através da publicação de notas chinfrins na revista literária de minha cidade. Alcancei um modelo de conduta, afinal, que me redimia de pecados menores. Ao chegar ao Recife – para onde fui mandado para estudar – procurei conscientemente superar o atraso escolar em que me encontrava. Vencidas as dificuldades, passei a viver as mais definitivas circunstâncias que formaram a minha memória e o meu intelecto. *Vivi o Recife na beleza veneziana de suas pontes, dos seus rios, no orgulho nativista e patriótico de sua gente. Estávamos nos primeiros anos da Década Cinquenta. A cidade antiga ainda se mostrava na inteireza do traçado original de suas ruas logradouros.

Pracinha do Diário de Pernambuco
A descaracterização urbanística impunha-se, mas se resumia no momento à demolição para novas construções ou reformas, para alargamento de ruas, de alguns prédios residenciais ou comerciais, nos bairros de Santo Antonio e São José. Mesmo assim, existia um sentimento de condenação ao preço que se pagava pelo progresso, pela decantada e cruel modernização. Enquanto isso cresciam as alamedas já antigas, cultivadas pelo hábito local, na rua Osvaldo Cruz, na avenida Manoel Borba, na rua do Paissandú, e noutros bairros da cidade, num emaranhado de galhos nas alturas, oferecendo ao ambiente um toque recolhedor de bosque e jardim, vetusto e nobre.Adotei, impávido, nostálgico de um passado não vivido, um hábito copiado dos livros, que vinha de outros tempos, e que seria irrealizável nos dias atuais: fazia longas caminhadas solitárias e meditativas no bairro da Boa Vista, onde morava, e desde o Derby até o trecho do Capibaribe que separa as ruas da Aurora e do Sol, entre as pontes da Imperatriz, Duarte Coelho e Princesa Isabel. Umas vezes, chegava aos limites de Santo Amaro, outras, adentrava o calçamento de pedras lisas, irregulares e ruas estreitas do Bairro São José, com as suas igrejas e casas modestas, preservadas das modificações arquitetônicas e urbanísticas que começavam a agitar a cidade. Os sentidos tentavam abarcar toda a paisagem, nos toques humanos de transeuntes apressados, no grito característico de vendedores ambulantes de produtos populares e de cozinha: frutas silvestres, pratos de culinária típica, artes e ofícios requisitados no dia-a-dia. Era a pitanga, a mangaba, o sapoti, o soldador de panelas, o sapateiro, os vendedores de siris, de caranguejos, de cuscuz, de pamonha, de tapioca. Quanto ao bairro de Santo Antonio, eu zanzava mesmo pela Rua Nova, geralmente na famosa “Esquina da Sloper” (espécie de butique, de loja de departamentos, com variado estoque de novidades e lançamento de produtos femininos), em frente à choperia “Fênix”, também casa de secos e molhados, com barricas de bacalhau da calçada, onde encontrava amigos, companheiros da vida estudantil, espreitando o tempo, as mulheres bonitas, no mesmo caminhar adolescente e agitado. Reconhecia tipos populares, admirava-lhes o comportamento esquisito. dava asas à imaginação em projetos acalentados, na solidão do quarto de pensão onde morava Cheio de represados desejos, observava as mulheres que desfilavam com a sensualidade dos gestos estudados. Olhava de relance para as vitrines Sempre que me dirigia para a Faculdade, sentia-me atraído irresistivelmente, entrava numa livraria na Rua da Imperatriz, buscava novidades editoriais, mesmo que nada viesse a comprar. Comprazia-me em conhecer fatos e novidades no mundo da cultura. Mas encontrava conhecidos, companheiros da vida estudantil, organizávamos planos, projetávamos encontros festivos, reuniões políticas. Observava de relance pessoas conhecidas, notáveis na vida intelectual do Estado consultando volumes alentados, folheando panfletos, solicitamente atendidas pelo judeu proprietário da organização. As capas dos livros na sua concepção abstrata de sugestões modernistas, ou da reprodução figurativa de vultos e monumentos da clássica civilização ocidental, que nos falavam de perto, chamavam a minha atenção, embaralhavam as minhas reflexões. Este o Recife que me cativava.A imponência da Avenida Guararapes na paisagem urbana, com os seus altos edifícios de concreto colados uns nos outros, exaltava os meus sentimentos. Enxergava a megaconstrução como um marco de progresso desmedido, que me assombrava, no contraste com os velhos sobrados coloniais dos arredores. Que terra extraordinária! Admirava-me tomado de surpresa, com o pensamento voltado para a humildade provinciana da minha Paraíba. *Começava o meu dia com a obrigação do expediente num cargo burocrático de pequena remuneração, numa repartição pública federal, localizada em frente ao edifício moderno do Jornal do Comércio, na Rua do Imperador. Emprego conseguido através de um tio, político influente no cenário estadual, muito ligado ao meu pai pela fraternidade familiar. No percurso que fazia da pensão onde morava para o trabalho, passava na Pracinha do Diário, olhava com respeito para o velho sobradão que abrigava o Diário de Pernambuco, com detalhes modernos da art-noveau, no traçado colonial que orientara a sua construção, chegando à belle-époque, com a sua falsa torre e minarete, por estranho que pareça, numa confusão de estilos, na sua tradição de testemunhar as grandes concentrações populares da capital. Afastados à pequena distância, os dois matutinos vigiavam-se, disputavam o lucro e os privilégios de formadores de opinião.No meu perambular, esquecido do presente, chegava algumas vezes à Praça da República e passava momentos, recolhido, no sonho de acontecimentos políticos e de fatos culturais do passado, entrevendo na imaginação, impávidos no ambiente das grandes construções do Teatro Santa Isabel, do Palácio do Campo das Princesas, do Tribunal de Justiça, os vultos de Maurício de Nassau, de Matias de Albuquerque, de Borges da Fonseca, de Frei Caneca, de José Mariano, de Castro Alves, de Joaquim Nabuco nas multidões eletrizadas dos acontecimentos heróicos; engajados todos na discussão da pátria e de suas instituições. À noite, na folga dos estudos, com algum dinheiro no bolso, frequentava o bairro do Recife – o famoso Recife Velho como era conhecido – na peregrinação boêmia, na busca do prazer nas ruas animadas pela prostituição barata. Ali nos encontrávamos, jovens estudantes, nas aventuras deliciosas daquela fase da vida. Não havia oportunidade para reflexões sobre tempos pretéritos, sobre a influência da Madre de Deus, silenciosa a sua poderosa Congregação, perdida na semiescuridão da rua quase deserta àquelas horas, onde vagavam casais levados pelos vapores etílicos, Estavam inacessíveis a sua biblioteca, os seus documentos e os comentários sobre o nosso passado político. Assim também a Fortaleza do Brum, desmuniciada, desarmada, sem sentinelas, uma mancha escura no tempo. Quantas ruas mais eu percorria arrastado pela curiosidade intelectual: Marquês de Olinda, Vigário Tenório, do Bom Jesus, da Guia, Cais do Apolo, estimulado pelo sexo que mordia o meu comportamento. A mente atropelada pela literatura a que começava a me entregar, como leitor insaciado, conduzia-me a outros territórios imaginários. Erguia a cabeça, levantava os olhos para observar as janelas iluminadas dos sobrados antigos. Ali se estabelecia o balcão do sexo, o bordel de verdade, com as salas de dança e de bebidas, os quartos das mulheres. A lembrança arrancava da memória puramente literária, figuras de francesas e polacas, amantes de usineiros e capitalistas abonados que passavam momentos agitados de suas vidas na alegria das grandes noitadas, recriadas por José Lins do Rego nos seus romances do Ciclo da Cana de Açúcar.Este o Recife que comecei a viver, deslumbrado com a riqueza de uma sociedade, cuja tradição e sucessos, sustentava uma nobiliarquia orgulhosa, indiferente ao charco social em que mergulhava os pés. Como negar, como desconhecer que continuavam a repercutir, como ecos do passado, a bravura de vozes de vanguarda, de reações violentas contra o indiferentismo dos poderosos? A sociedade renovava-se e destinava-se a grandes horizontes políticos. As ideias socialistas orientavam uma legião de militantes, corajosos, destemerosos. Regurgitavam na agitação política as ruas e praças do Recife lendário. Chegávamos, então, à eleição do engenheiro Pelópidas Silveira, ligado aos comunistas, para a prefeitura da capital. A história trazia lances agitados. E perdurava na memória coletiva, eu percebia, um trauma doloroso, originado do sacrifício popular, do sofrimento do povo através de muitas gerações. Como outras pessoas, eu imaginava sempre uma iminente reação contra a impiedosa discriminação que segregava grupos sociais inteiros, prestes a explodir, a destruir as velhas estruturas. Embalava-me em sonhos e projetos que não se realizariam, tomando a minha vida o sentido de um ordenamento adredemente estabelecido, cujo resultado evidenciava-se inequivocamente em gestos radicais.Essa gama de fatos e influências calava fundo no meu espírito. Buscando organizar-me no emprego e no estudo, era chamado, todavia, para o círculo dos boêmios que me eram próximos. Foi um longo período de meditações ora pessimistas, ora promissoras. Ingressei, por fim, na Faculdade de Direito do Recife, absorvendo profundamente, toda influência secular dos seus métodos universitários, na formação de uma escola do pensamento jurídico brasileiro, destinada a comandar, não somente a atividade jurídica da Nação, mas a assumir a liderança nos mais diversos campos de sua vida pública. Integrei-me à ação ideologicamente motivada, através da política estudantil. Retornei para o meu Estado, para a minha cidade, com o ambicionado diploma de bacharel em direito, que constituía ainda, naquele tempo, a vanguarda intelectual e política do país, tão desejado pela minha família.Surpreendi a nossa conservadora sociedade, com ideias e posições políticas de esquerda, posso dizer, tornando-me de certa forma indesejável em alguns ambientes. Era alvo de provocações, mas reagia com firmeza, verdadeiramente convencido da justiça de minhas ideias, e os abespinhados afastavam-se de minha companhia. A sociedade modernizava-se, trans-formava-se, e não puderam evitar: cheguei a ocupar cargos públicos destacados, fui secretário de Estado, deputado estadual em duas legislaturas.--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Clube Universitário do Recife, Entroncamento. Matinê sábado de carnaval 1955. Paraibanos da dir. à esq. Eilzo Matos, Nivaldo Tolentino, Jorge Menezes, José Mariz, Dagberto Sobral ( de pé), Marisa Mariz e Clarence Pires.
Categoria: textos antigos
Escrito por Eilzo Matos às 11h01
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AFINAL TENHO UM BLOG
AFINAL TENHO UM BLOG. Internauta. Começarei, como sempre, irritantemente, com um texto antigo. Coisa de velho, do tempo da velha imprensa na Paraíba. E digo, então, como Tião Lucena em Princesa e Zé Alan no Lastro: Lá Vai Tempo!! (coisa de matuto). Mas é preciso explicar: Neste blog arquivarei alguns títulos que escrevi e publiquei,inclusive livros e plaquetes, breves ensaios, outros que descobri em gavetas e no disco do computador, que poderão ser acessados e copiados se o desejarem. Adianto que divulgarei em fascículos, "Prosa Caótica II - O Duro Recomeço" inédito, coisa no gênero "Jornal", sem alcançar, evidentemente, o estilo e o destaque do meu parente Ascendino, com o seu, mas seguindo-o, embora contrapostos filosófica e ideologicamente. Assim é a vida. Melhor, como diria o grande Ernani Sátiro: Grande é a Vida. - "MINHA MEMÓRIA - Jornal O NORTE, 1983 - Eilzo Matos. - "Assumo, com entusiasmo, a responsabilidade de uma conversa no correr da semana com os leitores deste jornal. Parafraseando Buñuel, direi que sou feito dos meus erros e de minhas dúvidas, bem como das minhas certezas. Aqui estarei com as minhas afirmações, hesitações, minhas repetições. Com minhas verdades e minhas mentiras, a as dos outros. Esclareço de logo - não para assegurar direitos - que se trata de uma relação de emprego, no qual não ganharei muito dinheiro, já se vê. Terminado o meu mandato de deputado, Marconi Góis, como meu amigo que é - e competente empresário, é bom que se frise - disse no início da nossa conversa: "Você poderá assinar uma crônica diária na quarta página. Não posso pagar muito, mas garanto que dará para o cigarro e a cerveja". Recusei a proposta tentadora. Faltavam-se o engenho e a arte de um Crispim, de um Gonzaga para a tarefa do colunismo diário. Combinamos um ou dois artigos semanais, em fase experimental, e...tudo bem. Sobraria algum tempo para o bate-papo no Pavilhão do Chá, no Bar da API, no Cassino da Lagoa. Ah! Os bares de João Pessoa. Não os trocaria por nada no mundo. Encontrar Correia Lima, Severino Ramos e Judivan, aliás, deputado Judivan Cabral, nos bares, pela ordem em que foram mencionados, enche uma vida. Nesta Capital das Acácias - minha Dublin, minha São Petersburgo, das leituras do passado - a vida se esvai, como num transparente tubo de vidro de um laboratório, uma colônia de germes tem descoberto o seu passado e conhecido o seu futuro, analisadas as suas funções, ações e reações. Os homens reencenam a cada dia, o drama da luta entre o bem e o mal, entre o novo e o velho. Procederei seletivamente, nos relatos e comentários que fizer, tentando alcançar o característico, o típico no processo de construção da crônica, do artigo, seja o que for. Meu espírito não se compraz em elucubrações e desvios de impenetráveis filosofias. Prefiro integrar-me á sociedade, participar de suas alegrias e de suas angústias, de sua esperança e do seu desespero. Somente assim, sinto-me viver, c apaz de construir no social a minha individualidade. É um sentimento, creio, que se situa entre o patético e o poético. São situações que o cotidiano nos ensina a respeitar, na trivialidade dos fatos, no acacianismo das sentenças e definições. Numa narrativa ou comentário sobre acontecimento atual, de passado recente ou remoto, serei tentado, muitas vezes, a recriar o fato, oferecendo-lhe nuances, cores carregadas, desmaiadas. Chega o dia em que a memória falha, a mente trabalha mais devagar. Temos, então de lançar mão de métodos que facilitem uma visão de conjunto de tudo que desejamos relembrar, e que possibilita também, arrancar do fundo da memória, nomes, lugares, pormenores que teiman em se esconder. Recurso à técnica, à malandragem. O resultado nem sempre rspeitará a autenticidade dos detalhes. Coisa do homem. Sócrates, em primeiro lugar, fez descer a filosofia do céu e a introduziu na terra, para ser útil aos homens, já descobriram os romanos."
Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 09h36
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