Prosa Caótica


 
 

Editorial do Estadão

                   LULA E A GOVERNABILIDADE

                                       (Diário da Fazenda)

Eu pergunto:  

Afinal, o que permite ao presidente Lula, o desplante de bancar o salvador da pátria, o milagreiro? Noam Chomsky (do MIT – Massachussetts Institute of Technology) explica. Paciência. Chegarei lá.

Ora, o país está com o potencial de suas riquezas naturais em vias de esgotamento, apropriadas por grupos alienígenas. E esses grupos agem criminosamente com absoluta proteção do governo. O poder de criatividade e resistência física dos trabalhadores bra-sileiros, que pouco recebe do fruto do seu esforço pessoal e co-letivo, aproxima-se do esgotamento, mercê de tais fatores deletérios. Os estrangeiros podem tudo, os nacionais nada, a partir das bolsas de negócios, da ciranda financeira – a fase áurea e final do im-perialismo, no capitalismo. Eles não querem acreditar. Contratam estrelas da filosofia (Fukuyama diz que a história parou aqui), tangem o problema para depois. Só muito óleo de peroba mesmo para lustrar a carranca de capataz de Lula!

Para completar a permissividade de botequim de má fama, de negócios escusos que caracterizam o governo, os personagens que se arrogam todo o poder, quando a crise se agrava afirmam como sempre com a maior cara de pau:

– É melhor garantir a governabilidade. Pior sem nós.

Trata-se verdadeiramente de uma chantagem, ameaça embu-tida nas “ilusões necessárias” que embalam os patriotas brasileiros. Governabilidade tem sido a palavra, o modelo chave para salvar os corruptos da cadeia, da execração pública, sustentá-los do poder.

*

É verdade que o Brasil está incluído, no quadro geral de crescimento e desenvolvimento econômico de alguns países, na atualidade. Mas um registro indispensável e alarmante não deve ser encoberto, dissimulado: a absoluta subordinação de toda e qualquer ação do governo brasileiro aos interesses do famoso G8, que ge-rencia no planeta terra o neoliberalismo como ideologia global, que em tirada hilária de mamulengo Lula critica,

Falando com franqueza e sem colocar panos mornos como compressa, na fronte do doente (o Brasil), Lula, tenho certeza, nos levará à ruina patrimonial e moral.  Vejam os personagens que do-minam a cena; Sarney, Lulinha (filho), PT e partidos da base aliada no congresso.

Analisemos a justificativa e proposta do presidente, aplaudido pelos seus asseclas, para sairmos da crise política – de natureza eminentemente moral. Chegaremos à perda total da nossa soberania, já negociada e vendida, desde Collor e FHC, a que reagimos em atos públicos, em boa hora, e que resultou, infelismente, na capi-tulação  e retorno à velha prática de crimes de lesa pátria que nos envergonham perante outras nações  Exagero? Não.

Governabilidade, eis a exigência, primeira a ser considerada, para que o país prossiga na sua marcha para o progresso, para salvar a riqueza do pré-sal, etc, etc. Este o argumento de Lula, Sarney et caterva. Significa dizer eles devem continuar nos cargos e também os associados no assalto ao patrimônio público. A solução funciona como remédio único, que, como de outras vezes, consistirá em jogar a sujeira debaixo do tapete – aqui na fazenda dizemos esconder o lixo detrás da porta.

Governabilidade é o nome de fantasia da desmoralização, da avacalhação, da tragédia que se abate sobre a pátria brasileira.

 *

O “Estado de São Paulo”, em oportuno editorial, denunciou dois dias atrás: “Segundo Chomsky a ‘fabricação de ilusões necessárias para a gestão social é tão velha como a história’, a instrumentalização dos cidadãos se faz através dos mais poderosos meios de manipulação de massas criados até hoje pelo o homem: a imprensa, o radio e a televisão”. Deles Lula se utiliza.

Tenho dito que podemos reagir, utilizando os protocolos da internet, até onde vejo, livres para a divulgação da verdade e para o acesso dos cidadãos. Estes meios – blogs entre outros – contri-buíram decisivamente para deslocar o eixo da opinião pública, do poder nos EUA, para as minorias discriminadas, o que possibilitou a vitória eleitoral do negro (impensável) Barack Obama.

*

Aqui na fazenda, alguns moradores marcam viagem para a cidade, para tratar de negócios, acessar caixas bancários eletrônicos para sacar dinheiro, desonerados de obrigações servis. Escuto-os argumentando sobre a garantia de liquidez suas “bolsas”, pois Lula grita que pagou a dívida do Brasil que hoje é um país rico.

Que eu saiba, como dizemos aqui, a nossa dívida era de seiscentos bilhões de reais no início do governo Lula e hoje ultrapassa dois trilhões de reais. Na Câmara dos Deputados funcionará uma CPI para investigar e conhecer sobre a dívida. Esperamos com o coração na mão, com medo de algo pior.

Um conselho final:

. “Se as pessoas com um poder limitado querem fazer algo, seja vencer o sistema de propaganda ou simplesmente adquirir algum controle sobre suas vidas, têm que criar organizações que lhes proporcionem uma força para contrapor aos principais centros do poder e quem sabe expandir essa força em outras direções.” Texto publicado no Anexo Cultural do jornal A Notícia (Joinville/SC), 1 de maio de 1996

Concordo com Chomsky.

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Sertão, julho de 2009

 



Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 15h07
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A Hora do Papangu

A VEZ E A HORA DO PAPANGU

 

         – Chegou o Papangu! Fora! Fora!

         Grita irritado o populacho, quando interrompem as danças para o anúncio laudatório da presença no palco das bandas musicais, de político não convidado, entre eles Ricardo Coutinho, que mediante custeio com o dinheiro da prefeitura de João Pessoa, quer deitar falação em qualquer lugar, mesmo para quem não o conhece e não pertence à sua jurisdição administrativa. Importa para ele a campanha que empreende para divulgar o seu nome, arrogar-se sabedoria que não tem, e deitar conselhos ina-ceitáveis de sua parte, dado o seu comprometimento como gestor público em crimes administrativos, e conduta pessoal suspeitíssima, que desmerece a sociedade paraibana. Em suma incompatível com a ética, exigida de todo cidadão.

         E haja vaia! Tem acontecido.

Vendo pela fatura a informação recebida. Pouco tenho saído de casa, ultimamente, deixo a rua para filhos e netos, e fico aguardando com a tranqüilidade possível, o seu regresso de uma noite alegre entre amigos e familiares. Sei que essas festividades populares do mês de junho, cons-tituem uma tradição nordestina. Quanto ao oportunismo estapafúrdio de Ricardo Coutinho, dele sei há muito tempo, quanto às vaias, os apupos, para mim constituem uma novidade, mas uma ação corretiva. Tinha de acontecer. Acontecem em boa hora.

Por que papangú? Fico a indagar. Melhor se ajustaria, na minha opinião, para identificar Ricardo Coutinho, grotescamente, como ele merece: Lobisomem. Bicho do mal, cruel, que pega mata e come, como o carcará de João do Vale. E ele tem agarrado o erário e rasgado o dinheiro público com violência de garras assassinas e irresponsáveis, e deixado em frangalhos os nervos dos servidores humildes da prefeitura, que enfrentam o terror de sua carantonha zangada. Que o digam também as abandonadas pessoas que vivem em alagadiços, em terrenos acidentados, entre baratas, ratos, escorpiões e mais bichos venenosos e nojentos, transmissores de doenças, em João Pessoa. Não falo dos ricos que moram em bairros bem cuidados por ele prefeito, que batem palmas quando ele chega seguido de puxa-sacos cabisbaixos de riso amarelo, em solenidades adrede progra-madas.

O Mago gosta mesmo é de restaurante caro, de chefe de partido político que se vende, de festas para homenageá-lo tudo comprado e pago com o dinheiro da prefeitura. Gosta de funcionários humildes e desam-parados, submissos ao arbítrio de sua cruel vontade, de negócios escusos. Anúncios pagos, ele tem divulgado muitos – uma obra aqui, outra acolá - como outros o fizeram. É o que temos visto. E ele quer ser diferente. Impossível. Os outros corromperam e ele corrompe, os outros se aproveitaram do cargo e ele se aproveita. Como se vê, ele é uma cópia fiel de todos os denunciados e processados pela prática de métodos criminosos na administração pública.  Diferença não existe entre eles, são iguais. Ricardo não provará a lisura do seu procedimento. Pense o leitor num envolvido, num processado, num condenado por crimes na gestão de car-gos públicos e verá a cara de Ricardo.

*

         A ameaça, o medo, o ridículo, o desgosto, o encabulamento, eis a significação, a representação assumida pelo papangu – espantalho de tempos passados. O anuncio da sua presença, a insinuação de semelhança na aparência com o incômodo e mítico personagem, persiste, chegou aos nossos dias. Ele invadiu o mundo materno-infantil no meu tempo de menino, estragou encontros festivos nos meus brinquedos de criança, e o encontrei depois na literatura: em Zé Lins, Cascudo, Gilberto Freire e outros, dando-lhe ares de personagem real. O papangu representava, como no teatro mamulengo, a intimidação, o possível castigo, o provável malefício, o humor epitético que doía e marcava.

“Lá vem o papangu, o papa-figo!” Alguém gritava. As mães tremiam desesperadas com tal anúncio, os meninos buscavam proteção no seu regaço. Hoje, idoso, me ocorrem essas lembranças que marcaram mo-mentos desagradáveis na minha vida, esse estorvo incomodativo nas reuniões de pessoas no trabalho e no lazer. Agora volta com nova roupagem, com a proteção faturada, custeada com o dinheiro público, que alimenta a sua vaidade doentia. Ricardo é assim. Impossível desmentir, a não ser através da mídia estipendiada, dos favorecidos irregularmente por ele, com atos administrativos publicados e também secretos, pagos sempre com dinheiro da prefeitura da capital.

*

         Reabro esta panóplia do imaginário popular, a propósito da rea-lização em todas as cidades e povoados, em qualquer lugar onde se aglo-meram pessoas no Nordeste, das festividades juninas, com dança, bebidas, confraternizações, encontros alegres, apadrinhamento em torno de fo-gueiras votivas aos santos São João Batista e São Pedro. Um costume salutar, estimulante no relacionamento entre famílias e pessoas, ameaçado de descaracterização. A invasão por oportunistas, tipo Ricardo Coutinho, mancha e marca a pureza dos cumprimentos, do foguetório festivo e congratulatório. Mas Ricardo atira com a pólvora alheia, como é sabido, e o cidadão o apupa e retalia: chegou o papangu!

         Muito teremos de ver pela frente.

No leilão da honra, Ricardo parte na frente, ameaça, arreganha os dentes que saem da boca torta e grunhe:

– Pago mais! Cubro qualquer parada!

Com o dinheiro da prefeitura, é preciso deixar claro. E eu como sempre, advirto:

– Alerta Paraíba!

Sigo em frente. Matéria não falta para comentar. A cada momento, novas e vergonhosas denúncias envolvendo Ricardo Coutinho enchem as páginas de jornais, os horários noticiosos de rádios e tevês.

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Sertão, julho / 2009. Eilzo Matos

        

 

      



Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 10h03
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Em memória de Orlando Almeida

 

EM MEMÓRIA  DE  ORLANDO ALMEIDA E PELA ÉTICA -– O PSB DEVE EXPLICAÇÕES À CAMPINA. ALERTA PARAÍBA!

 

EILZO MATOS

 

Com a palavra Campina Grande no seu direito de pedir, e Ricardo Coutinho no seu dever de explicar. Quanto a Guilherme Almeida, o essen-cial já foi dito. De qualquer forma, ensina a sabedoria popular que o tempo é o melhor juiz. Ele ditará o seu veredicto, fará justiça no momento certo. A conduta eivada de suspeita dos dirigentes do PSB, com instalações arrom-badas, programa partidário deixado de lado, evidenciam o desenlace ine-vitável. Algo como o juízo final. Pior para os culpados, para os pecadores. Falam até na adulteração de documentos (atas). Não custa esperar.

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         Modéstia a parte, é preciso informar, como segue.

Militante na política desde a juventude, eu marco presença na cena partidária paraibana, mesmo sem maior destaque, há mais de cinqüenta anos. Meio século, vejam bem! Devo ter cometido erros. Algo trivial admito. Mas o meu nome jamais foi incluído em investigação ou decisão condenatória pela justiça publica, por qualquer delito, por atos de im-probidade.

Este antecedente ligou-me com cordialidade e alguma intimidade à família Almeida, de Brejo de Areia, uma das mais ilustres da Paraíba. Para falar em tempos recentes, em Trinta, do Século XX, o Secretário de Se-gurança Pública José Américo de Almeida acantonado com tropas da Polícia Militar, em Piancó, habitava casa alugada, na rua de minha avó. Ali, estrategicamente colocados, vigiavam qualquer movimentação do coronel José Pereira, inssurreto, no município vizinho, Princesa Isabel. Por fim, passados muitos anos, ele me fez também secretário de segurança pú-blica, no honrado e pacífico governo Ivan Bichara, secretaria que já fora exercida, tempos atrás pelo meu tio Salviano Leite.

*

Sei que os meus amigos perrepistas, Valdir Lima e os Gaudêncio entre tantos outros, que já lavaram a alma, e vivem como vivemos a esta altura da existência a “vida dos comuns”, abespinhados batem na madeira com o nó dos dedos quando falo desses amigos: Zé Américo, Zé Rufino, Horácio, Thales, Amauri, Orlando. Paro por aqui, pois continuar a referir nomes de Almeidas importantes seria um nunca acabar. Todos ilustres, notáveis como cidadãos, cultos, dignitários respeitados. Desde a Presi-dência da República – alijados pelo Golpe de 37, com candidato tido como vitorioso –, a Ministérios, Academia Brasileira de Letras, Governo Es-tadual, Senado, Câmara Federal, Assembléia Legislativa, Secretarias de Estado, vereanças, edilidades, etc, etc ali estiveram  presentes.

*

Sozinho, nos últimos anos, Orlando Almeida, filho do médico Elpí-dio de Almeida, ex-prefeito de Campina Grande, sustentava uma verda-deira legenda de honorabilidade como cidadão na vida pública e privada, que deixou como herança para os seus descendentes, no caso, para o seu filho deputado Guilherme Almeida. Grande como todo campinense, ex-prefeito, Orlando honrou como político não somente a sua cidade natal, mas toda Paraíba. Era um parlamentar que marcava a sua presença no plenário da Assembléia Legislativa, sempre vigilante e inteligente. Modes-tamente se deslocava de ônibus, todos os dias, de Campina para João Pessoa, não perdia sessão, e trazia na fronte sempre erguida, o sinal da firmeza do caráter, da coragem para a defesa das causas que diziam respeito à terra e ao povo,  à discussão dos grandes temas.

Ofereço o meu testemunho pessoal sobre os traços do seu tem-peramento altivo, de sua personalidade incorruptível, autorizado pela convivência estreita que mantivemos em todo este período de tempo.

Eis que, alguns ressentidos e despeitados, chafurdam a sua tradição de distinção e cultura, opõem obstáculo traiçoeiro no caminho do seu filho e sucessor. Procuram embaraçar-lhe os passos na trajetória política. Inacei-tável tal postura partidária, justamente de onde partem as tocaias maldosas.

Efetivamente, dada essa vivência e prática familiar e pessoal no exer-cício da administração, no desempenho e gestão de mandatos, vem a minha indagação:

 A que propósito se oferece e se submete o Partido Socialista Brasileiro, para impedir que assuma uma secretaria de Estado, para a qual foi convidado o deputado Guilherme Almeida, filiado a essa agremiação partidária, filho do antes referido Orlando Almeida?

Aliás, PSB e PMDB, como coligados disputaram eleição, cujo gover-nador assume agora o cargo, e pede ao aliado a sua colaboração na composição do seu secretariado. Tudo muito natural e previsível.

Da capacidade do deputado Guilherme Almeida todos falam, com elogiosas referências. Intentaria, gratuitamente, o partido, barrar o cumpri-mento de uma eficiente tradição do seu clã, do surgimento de militante político-partidário notável, partindo da nobre e aguerrida Campina Grande? Ou nada mais do que hipotética ameaça aos sonhos de grandeza de Ricardo Coutinho, na sintomatologia do mal que o ataca – misto de esquizofrenia e paranóia maníaco depressiva – e ameaça a normalidade da vida demo-crática paraibana?  

A ética indispensável e constitutiva da vida das pessoas e também das instituições, da vida pública, descarta semelhantes baixezas como a contida na proibição absurda. Cabe ao prefeito Ricardo Coutinho, firme na torpe hierarquia “milicosa” – não de militares honrados – dos seus coturnos vitoriosos, mostrar a elevação, a grandeza, o patriotismo, a pureza moral, a honorabilidade, como presidente do partido, explicando as razões do veto.

 Não aceitamos “camelôagens” fundadas na raposice que afronta a lei, que algumas vezes organiza coligação de abundantes legendas coopta-das à custa do erário. Nisso ele é mestre. Queremos a verdade do fato, sem a mídia enganosa que divulga o que quer e esconde também o que quer. Quero, e o povo também quer e espera a verdade.

Campina merece.

..............................................................................................................Confluência Peixe/Piranhas/Piancó, junho/2009.



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Escrito por Eilzo Matos às 09h56
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Eleições na APL

ELEIÇÃO NA APL -  A “MAROLA” SUB PRIME PEGOU LULA E ALCANÇA O MEU REBANHO

(Diário da Fazenda)

 

De volta à fazenda, retorno ao meu lugar no alpendre, para os momentos de lassidão na rede, entregue agora à lembrança de fatos recentes, de cenas em que figurei como protagonista, cercado de amigos e contemporâneos de uma longa aventura ci-tadina deixada para trás. Seis dias fora pesam no andamento de trabalhos, mesmo de rotina ordinária na zona rural. É retomar, pois, conversas e vistorias, avaliações, acer-car-me de novo dos livros, do computador, acessar a internet. E atender à curiosidade de alguns sobre o breve reaparecimento do meu nome ao noticiário da imprensa.

Eia, mãos a obra !

Contrafeito, embora – coisa do hábito interiorano e sedentário de longos anos seguidos, rumara para a capital no dia 15. Tinha, na verdade, assuntos e inusitados compromissos inadiáveis para atender: na noite do mesmo dia comparecer à solenidade de entrega ao jornalista e amigo Gonzaga Rodrigues, do título de Doutor Honoris Causa, pela UFPB. Marcante foi a reunião do Conselho Universitário, a que com-pareceu o governador do Estado, para comprovar que jornalismo escrito e literatura, apesar dos novos tempos da web, de que falam tanto, ainda desfrutam de singular e evidente prestígio. A sociedade civil, militar e eclesiástica, fez-se presente. No dia seguinte, visitaria a Academia Paraibana de Letras, para me inteirar de formalidades a cumprir no dia da eleição (18) para escolha do futuro titular da Cadeira 3, que fora ocupada pelo escritor Luiz Augusto Crispim, falecido há alguns meses. Com dois jorna-listas e intelectuais paraibanos, disputaria os votos dos acadêmicos. Pessoas ilustres e escritores de obra consagrada, Josélio Gondim e João Trindade, mostraram-se isentos e decentes no decorrer do pleito. Venci sem o ímpeto de retaliações, e seqüelas que nos viessem a incomodar.

Sobre o apoio recebido, anunciado de público por alguns, e de outros, apurado na contagem dos votos dados, abstenho-me de comentários, apenas declaro a honra que me proporcionaram. E, naquela Ilustríssima Casa, procurarei me comportar segundo as suas regras estatutárias, na concretização dos seus objetivos culturais, no limite de minha formação ética, política e literária.

*

Na ida e na volta, durante o dia, a viagem de sempre, no ônibus “pinga-pinga” do interior para João Pessoa. Homens e mulheres ansiosos, crianças inquietas – sem a alegria que imaginamos em recreio e lazer –, completam um destino insondável e inesperado. Muita gente pobre em busca de respostas para questões essenciais na sua vida, cuja solução afasta-se cada vez mais da vizinhança de suas moradas. Agências administrativas austeras, algumas dominadas pela corrupção, com guardas armados na porta, mantêm os interessados e titulares de direito em situação de agentes suspeitos, na iminência de receberem voz de prisão pela prática de um delito. Rememoram, amar-gurados alguns, relatos de fatos antigos, antevêem desenlace funesto no enca-minhamento do pleito que levam. Ditos, choramingas e pilhérias mostravam a verve de cada um. Eles demandavam o mundo somente com o bilhete-passagem de ida e volta para a cidade de Patos, sede do atendimento público regional, sem um centavo mais. Escutei histórias dolorosas sobre pessoas que, submetidas a um despudorado aten-dimento burocrático, perderam o transporte de volta para casa, nada esclareceram sobre pretensos direitos, restando-lhes a noite para aguardar o dia seguinte quando tentariam voltar para o lar, a fome devorando-lhes as entranhas.

Esse o Brasil rico de Lula, que empresta dinheiro ao FMI, onde ninguém dorme com fome. Ele diz.

*

Ocorre-me entre outros pensamentos, o pronunciamento do acadêmico Gonzaga em agradecimento pelo título recebido.

Não concordo com a afirmação do mestre José Américo de Almeida, que “a vida tem muitos mistérios” – simples recurso metafórico –, em cuja validade o novel doutor acredita, e usa como epígrafe no seu discurso. O nosso destino é o fruto das nossas indagações. E elas acontecem em razão da nossa situação social. Quanto ao seu rumo, revela-se este, cristalino, fruto da razão que governa a história, submetido às variáveis da conduta humana, referidas por Burrhus Frederic Skinner na sua teoria do comportamento dos homens. Assim na política. O mais é anedota, criação de frases de efeito. Vejam de quê e de quem fala Gonzaga na sua peroração: de literatos e de choques de opinião que se revelam em ações contrapostas de classes sociais. Desde o escrivão Isaias Caminha à revolução comunista dos barbudos cubanos, que chegou ao meio-fio de sua calçada em 1959, a vida de Gonzaga tem sido coisa mesmo de literato, não diria engajado, dada a sua eufêmica significação, mas marxista no duro. Este papel inelutável está reservado a indivíduos como ele, cuja clareza de idéias cultivada na prática literária o fizeram mestre e doutor.

Assim, por iguais caminhos, de indagações pessoais nasceu o documento produzido pelo mestre padre casado Manoel Batista, e publicado pela UNIPÊ. Uma percuciente análise de idéias políticas de índios da tribo dos potiguares (Pedro Poti, Felipe Camarão e Antonio Paraopaba seqüestrados e jogados presos em Amsterdam), revelados em três cartas-documentos, que tratam da Guerra Holandesa (Inssureição Pernambucana), que me chegou às mãos, por oferta do honoriano José Octávio. Na realidade, além de interesses político-comerciais, os textos intuem expressão religiosa que colocava em campos opostos, ainda pela fé que professavam portugueses católicos e batavos calvinistas. Coisa boa de ler, pelas fontes pesquisadas, levadas ao público, pela aguda análise e exposição do autor professor Manoel Batista.

*

Eis-me de novo assoberbado pelos fatos do dia. Difícil sair da fazenda, transitar em veículos por estradas abandonadas ao longo do tempo, na verdade destruídas pelo uso frequente e pela má conservação. Praguejo. Quando viajava a cavalo, tornava-se fácil usar veredas e desvios para evitar os buracos, os atoleiros. Esse tempo passou. Que fazer?

Acode-me e socorre-me a advertência de Alfredo Bosi, mestre da literatura, numa citação de Gramci, no seu “Cultura Brasileira – Temas e Situações” (Ática  2006). Transcrevo-a: “O começo da elaboração crítica é a consciência do que realmente somos, quer dizer, um conhece-te a ti mesmo como produto do processo histórico desenvolvido até agora, e que deixou em ti uma infinidade de marcas recebidas, sem benefício do inventário. É preciso efetuar, inicialmente, esse inventário”. 

Tenho dito! E compilado!

*

A criação extensiva dos rebanhos com a fartura da alimentação propiciada pelo inverno, anuncia lucro à vista. Pequeno e superável incidente, todavia de pouca monta, nos atormenta: a morrinha trazida pela friagem e alagadiço, que dá origem a mosquitos e infecção nos cascos dos bichos que perdem peso, diminuem a produção de leite. E o que é pior, a invasão do mercado com carnes tratadas e embaladas higienicamente, vindas de outros centros privilegiados de criação de gado, dificulta a comercialização do produto local vendido em bancas de açougues. Oferecidas como se vende picolés em cada esquina, protegidas pelo governo, as mercadorias de fora dominam a cena. A moda e a exigência do frigorífico trazem obstáculo impossível de superarmos, numa região onde poucos trabalham e todos consomem como usuários de cartões bancários. Tal prática inescrupulosa do governo Lula, submisso ao mandamento neoliberal-global que o orienta, propicia o gasto até a exaustão – rotulados sub prime pelos economistas esti-pendiados de plantão –, e que levou a derrapar a economia yankee, e de cambulhada a do mundo todo.

Mas uma voz mais alta se levanta nos EUA, do Leste ao Oeste, do Pacífico ao Atlântico. Voz que elegeu um presidente, e deve servir de advertência ao aquinhoado negro Barack Obama: a grande Voz da Nação que reivindica e impõe novos costumes à sociedade e novo modelo ao Estado Norte-Americano.

Eia! A hora é chegada.

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Chove ainda no sertão. São João / São Pedro, 2009

 

 

 

 

 

 



Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 19h32
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Canal da Redenção II

II

MEIO SÉCULO DE EVAPORAÇÃO. UMA

DESCOBERTA DO COMUNISTA SABINO

COELHO. HISTÓRIA PARA O

GOVERNADOR ANTÔNIO MARIZ LER,

SE QUISER SOCORRER, PROSPERAR.

 

Marcolino Pires, os olhos azuis, herança dos flamengos que se espalharam pelos sertões paraibanos, vindos de Mauritsstad, espiava sempre para o Nascente, esperava as chuvas de inverno, ano após ano na ribeira do Rio do Peixe. Na vida campesina, anotava os processos da natureza, por onde passava, relacionava-os com a visão simplificada dos aglomerados estelares, dos astros de fogo que vagam sozinhos no espaço infinito. Esclarecidos os “sinais”, formulava a “profecia”.

Nem sempre acertava quanto ao início ou fim, inten-sidade ou escassez pluvial do período. As chuvas chegavam com raios e trovões. Entre janeiro e junho elas sucediam-se próximas ou espa-çadas, formando brejos, propiciando safras volumosas, ou matando as lavouras, não deixando “recursos d’água”, pelos verões prolongados.

Curvavam-se os sertanejos diante da vontade impre-visível e onipotente: “Força tem Deus que faz chover quando quer, de um momento para outro”. Nos tempos ruins, valiam-se timidamente das experiências, quando as roças murchavam. “Trovão num mês, chuva no outro”, exclamavam, não desesperavam.

Das várzeas do Rio do Peixe onde se fixara uma população sofrida, o avô arribara em Setenta e Sete, do outro século, o pai em Quinze, ele em Trinta e Dois, anos de secas brabas que destruíam tudo. Depois voltavam para cuidar do que sobrara e lhes pertencia, tangidos também pela saudade do torrão natal.

*

O tempo passava e a notícia chegou inesperadamente àquele sertão há tanto tempo esquecido. Trouxe-a Evaristo Pordeus, morador dos baixios do Piranhas, na vizinhança, como ele uma vítima da inclemência dos ares. “– José Américo não vai deixar ninguém morrer de fome, nunca mais”. Explicara.

Alistaram-se com outros sertanejos para obedecer or-dens, cavarem buracos, carregaram terra, para sobreviverem. Eles não entendiam bem o que se passava. O “barracão” fornecia-lhes a feira, eles comiam, guardavam o que sobrava e levavam para casa, para a família faminta. Ignoravam as idéias do Presidente Epitácio, o ímpeto voltado para as transformações que trouxeram os revolucionários de Trinta.

Os novos homens tinham a força do poder e das pa-lavras. Falavam numa “Terra de Canaã” de que todos escutavam falar, naqueles tempos de pregações ouvidas nas missas, em silêncio respeitoso e contrito.

Rios foram barrados. Marcolino Pires e Evaristo Por-deus ouviram dizer, e acreditaram, que as águas chegariam à sua porta e, “adeus seca, adeus fome”. Continuavam trabalhando, sem descuidar das observações que lhes ditassem esperanças.

Em Quarenta e Dois e em Cinqüenta e Oito, o tempo arruinara de novo. Os filhos começaram a fugir em “Paus de Arara” para a Amazônia, para o Sul. Cansava esperar tanto e não ver a água chegar, mesmo com as campanhas políticas. Os açudes estavam prontos, cheios, mas os tribunos apelavam para o futuro. Cansava esperar, agarrados só na esperança.

Marcolino, atento como sempre, intrigava-se com as grandes formações de nuvens que todos viam aparecendo depois do São João, os conhecidos “torreões” cheios d’água, certeza de chuva quando no começo do ano. Mas o vento levava-os para longe, não caia uma gota sequer.

“Os tempos estão mudados...” filosofava reticente Evaristo Pordeus, no fogo da aguardente, quando se encontravam na feira.

*

Um dia Marcolino escutou pelo rádio: “Os açudes pú-blicos estão concluídos, cheios, a hidrelétrica instalada em Coremas. Até o projeto para trazer as águas para as terras planas do Piranhas e do Peixe, está pronto desde 1935. Os políticos esquecem o seu dever. Adiam a solução do problema, ficam apenas em conversa fiada.”

Quem falava era o agrimensor comunista Sabino Coelho, um homem da região. Marcolino ouvira referências ao seu nome. Temia-o, rejeitava fosse o que fosse, desde que partisse dele, um “comunista” como advertia o dirigente da Caixa Rural, Otaviano  Marinheiro Fontes. Mas continuou a escutar o que ele dizia.

“Não adianta falar em projeto novo – esclarecia o agrimensor -, pois o antigo, o que já existe, vale tanto quanto o das Pirâmides do Egito que têm mais de quatro mil anos e ainda estão de pé. Querem é gastar mais dinheiro com empresários ricos, deixar o povo na mão. Enquanto isso o sertão morre de sede, a água evapora dos açudes há mais de cinqüenta anos, vira nuvem que não chove na seca. É uma safadeza”.

O sertanejo refletiu, espantado com a descoberta. Então aquelas eram as nuvens que apareciam depois do São João. O comunista era persistente e procurava deixar claros os seus ar-gumentos: “Percebam os ouvintes, o exemplo da manipulação do DNOCS, pelos que não estão interessados em resultados para o povo, em produção para o país. Querem apenas construir, construir para deixar o dinheiro na mão de alguns. Tanto é verdade que o que existia de importância administrativa em São Gonçalo desapareceu. E hoje os colonos ali fixados vivem tão sacrificados como agricultores de sequeiro, uns, e outros transformaram-se em grandes proprietários. Mesmo depois da criação de uma cooperativa, assistida e financiada pelo Banco do Nordeste do Brasil, que já comprou terras noutro Estado, fez a fortuna de poucos, dilapidou recursos financeiros. Grandes fortunas de poucos, repito, para confirmar o tipo de governo que temos tido”.

A evidência, permitam-me reconhecê-lo, levava-o a concordar com o que falava o comunista Sabino Coelho. Aumentava a pilhagem dos dinheiros públicos, e os assaltantes de “colarinho bran-co”, desfrutavam prestígio e maior influência nos escalões superiores da República. A partir de Collor, e agora com Fernando Henrique, o nosso modelo, cada dia mais privatista e liberalizante, vai deixar Marcolino Pires e Evaristo Pordeus vendo nuvens na seca, as águas sumindo na evaporação, até que a catarata ou o tracoma liquide-lhes uma vez por todas a visão, já ameaçada com o passar dos anos. Assim fenecerá nas chamadas terras férteis, outrora chamadas “jardim”, a renitente esperança sertaneja.

*

Os tempos mudam, entretanto, como observara Evaristo Pordeus, estimulado pelos vapores etílicos. Aí estão as obras do canal em andamento acelerado, fruto da ação decisiva e firme de José Maranhão, resgatando os propósitos de Antônio Mariz na sua breve passagem pelo governo; aí está Marcondes Gadelha na Secretaria da Agricultura do Estado. Eles são destas várzeas, eles são de Sousa. Aqui moram suas famílias, seu povo. Outros construíram os açudes, elaboraram os projetos. Talvez Marcolino Pires e Evaristo Pordeus saibam de tudo isto, e acreditem ainda, que as águas chegarão por fim à sua porta.

É o que falta fazer.



Categoria: textos antigos
Escrito por Eilzo Matos às 09h12
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Canal da Redenção

 

O CANAL DA REDENÇÃO

Transposição das águas dos açudes Coremas/Mãe D’água para as várzeas de Sousa    Esforço do Governador José Maranhão    O fio da meada. (A UNIÃO DOMINGO, 01 DE FEVEREIRO DE 1998  EDIÇÃO ESPECIAL PÁGINAS 12,13)

I

 

 DURANTE doze anos como deputado estadual e secretário de Estado, empreendi um trabalho persistente para a revitalização e retomada da plena atividade do DNOCS. Tinha em vista o desenvolvimento do sertão semi-árido, a partir de São Gonçalo, no município de Sousa, onde se concentrava na Paraíba a ação administrativa e cientifica com este objetivo.

O projeto era antigo. Vinha do Presidente Epitácio Pessoa. Implantadas 95% das obras desde José Américo até o Presidente Juscelino, parou tudo. Ficaram os gigantescos açudes, os acampamentos com a infraestrutura residencial e administrativa, esgotando-se num abandono criminoso. Restou ainda uma hidre-létrica, que nos forneceu (a Sousa, Patos, Piancó, Pombal, Cajazeiras e outras localidades) energia permanente antes da chegada de Paulo Afonso ao nosso sertão. Pioneirismo. Pouca gente sabe disto. Faltava apenas construir o canal, cujo projeto dormia nas gavetas viciadas dos altos escalões administrativos.

Reagi. A maioria das pessoas ignorava a existência do projeto, enquanto a totalidade de população descrente, não acreditava sequer na possibilidade de tal realização. Fiz inúmeros discursos específicos sobre o tema, o que está registrado nos anais da Assembléia Legislativa do Estado. Participei de simpósios e reuniões alusivos à agricultura e ao desenvolvimento de projetos de irrigação, dentro e fora do Estado, levando sempre à discussão, a necessidade imperiosa de construção do Canal Engenheiro Luiz Vieira, que possibilitaria a transposição das águas de Coremas / Mãe D’água para as várzeas de Sousa. Registrou, a imprensa, na época as minhas ações.

Reivindiquei, por fim, como representante da Assembléia Legislativa do Paraíba, convidada para a reunião extraordinária da Comissão do Polígono da Secas, do Congresso Nacional, em caráter excepcional, realizada em Morada Nova, no Ceará, em 1973, a construção do Canal Engenheiro Luiz Vieira, ligando as bacias dos açudes Coremas / Mãe D’água - São Gonçalo, com vistas à irrigação das Várzeas de Sousa e áreas férteis nos municipios de São José da Lagoa Tapada e Nazarezinho. Tive na ocasião, a honra de receber o decisivo apoio do Senador Rui Carneiro, presente à reunião, de fundamental importância para a aprovação da minha proposição. Dessa forma foi retomado nos escalões adminis-trativos superiores o reestudo do projeto original, o que foi contratado com a empresa Hidroservice. A conclusão das avaliações indicou ao projeto outras alternativas. Excuta-se no momento, uma dessas alternativas.

Se constituia, então, uma ação isolada, a minha luta vem colhendo vitórias e aliados ao longo do tempo, a exemplo da reabertura do Instituto Agronômico José Augusto Trindade, a meu requerimento, e à transposição das águas agora iniciada, graças ao empenho do saudoso Antônio Mariz e a coerência de José Maranhão, em relação aos projetos de governo que juntos elaboraram. Para desfazer possíveis dúvidas, e não parecer que vou “de carona” em teses alheias, a imprensa da época registrou a minha persistência no tratamento do tema, o que fazia em nome da minha região, do meu Estado.

Eleito Antônio Mariz, Senador da República, chamei a sua atenção para o problema e disse-lhe: “Faça como José Américo, como João Agripino. Discuta a política que dita os rumos da nação, mas fixe o seu nome na memória coletiva, igualmente, como eles o fizeram, através de obras materiais de interesse geral. José Américo notabilizou-se com as obras contra as secas: João Agripino com a construção de estradas, de eletrificação, de que carecia urgentemente o Estado”. Enviei-lhe cópias dos projetos que me foram cedidos por Joaquim Carneiro, e ele apresentou uma emenda simbólica ao or-çamento da União destinando recursos para a obra, fazendo-a renascer na burocracia nacional.

Mas as coisas não estavam fáceis. Eleito Antônio Mariz, Governador, voltei ao assunto, e escrevi para que ele a lesse, a pequena narrativa abaixo:  (continua)



Categoria: textos antigos
Escrito por Eilzo Matos às 09h03
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Diário da Fazenda

SÓ PARA OS DA “MELHORIDADE”

(Diário da Fazenda)

 

Deixemos os jovens na alegria de sua idade. Reflexão é para velhos.

A maneira de dizer as coisas – e, sobretudo, a respeito de quê e de quem – leva ao sucesso pessoal. Faz história. Esta certeza aportou no meu cotidiano já vai tempo, desde os anos Cinqüenta do século passado. Fui freqüentador de simpósios e costumava pensar em bloco raciocinando o tempo todo, como era recomendado aos aficionados. E chegamos inte-lectualmente, onde estamos. Sucesso total. Vejam hoje a cena urbana: ponto de pipoqueira é porta de Faculdade, mas particular, como vaticinou e cantou Martinho da Vila. Ali estão os universitários de bermudas e boleto bancário no bolso da bunda. E a imagem de FHC, coonestando e derru-bando mitos da sabedoria e cultura através dos continentes, com Lula no seu encalço em jogadas geniais, monitorados pela CIA e KGB dantanho e dagora. É bom saber.

 Nada de recolhimento para meditação. A cama leva ao relaxamento e ao sono irresistível – e vem o sonho de cambulhada, com pesadelos e fantasias jamais criadas, mesmo nas extravagâncias de Hitchcock, Chaplin, Bergman e Buñuel, na inventividade criptocientífica dos estúdios de Hollywood. Assim advertia e ensinava o celebérrimo Vão Gôgo que chegava a definições e conceitos geniais em poeminhas e no seu “dicionovário”. – sucesso editorial comparável ao ubérrimo (ver José de Alencar em O Sertanejo) Paulo Coelho dos caminhos de Santiago de Compostela. E como a “Portela” de Paulinho da Viola – um rio, um sonho que ficou samba.

 A leitura e a pesquisa realizadas em graduação e especialização universitária, pouco diziam e nada me disseram, e menos ainda renderam na edição e emissão de verdades verdadeiras ou sofísticas. Ora, a verdade estava ali a olhos vistos: “todos os cafajestes que dormiram na minha caminha eram anjinhos” e “sou imortal sem fardão” – que ainda hoje sabemos, consagraram os falecidos e imortais Leila Diniz e Ibrahim Sued.

*

Não faço humor. Assim nasceram Brasília e a indústria auto-mobilística. Precisa falar mais? Todos agora sabem tudo. A rota do sucesso e do conhecimento, estão ao alcance de qualquer um, como ensinam novelas na TV, as mulheres nuas atiradas no “Caldeirão do Hulk”; criancinhas torturadas, assassinadas pelos pais, no Ratinho e Datena, personalidades vips como o imperador Adriano, o cantor Belo e mulheres notáveis como Márcia, Angélica, Adrianne e Hebe, em horários cativos com a nação ajoelhada a seus pés: evolução e modernização da prostituição; das casas de ópio chinesas vistas por Marco Pólo, das galés e estalagens cervantinas, protegidas pela mídia contra os bisbilhoteiros.

Querem provas? Duvidam, certamente, os que atentam pouco para os efeitos da “bolsa família”, que resume a violência das regras que falam da propriedade e da representação política. Assim esclareceu o senador per-nambucano Jarbas Vasconcelos.

*

Não falo do Brasil, mas do meu mundo, do que vejo e conheço – o sertão nordestino.

Os dizeres que escuto na feira e na fazenda confirmam tais ra-ciocínios. A sabedoria do Padre Cícero do Juazeiro – consubstanciada em títulos e mais títulos preparados pelos cearenses, ciosos do seu patrimônio territorial e também cultural – ensina e tranqüiliza os nordestinos com verdades insofismáveis:

- o mar vai virar sertão, o sertão vai virar mar;

- a roda grande vai rodar dentro da roda pequena;

- chegará o tempo de muito chapéu e pouca cadeira, e de muito rasto e pouco pasto.

Dessa legenda de sabedoria, decorre a nossa firmeza e resistência aos percalços naturais e sociais que somos levados a enfrentar.

Ninguém ousará negar tais assertivas, por mais surrealistas que pareçam, que partem da origem do mundo e chegam aos modernos conceitos de meio ambiente, ecologia, demografia. O pessoal por aqui acredita no que Lula fala. Um novo Padre Cícero Romão, imaginam. E as “pesquisas” (entre aspas mesmo) o comprovam.

Crise? Que crise? Zomba Lula e o povão o aplaude insuflado por aloprados frenéticos. Crise existia no passado. Hoje quem trabalha ganha e quem não quer trabalhar fica em casa e recebe. Conheço pessoas que jamais criaram um pinto ou plantaram uma cova de feijão, e recebem o seguro safra, em razão de seca ou excesso de chuvas.

Lula recentemente afirmou, e a mídia divulgou, que a economia vai do jeito que Deus gosta. Crente na existência do Onipotente e submisso à Sua vontade, o povo aceita e assim vive. O cartão bancário é para todos. Com ele o titular recebe cem e compra mil. É só querer e ser esperto. Dá pra levar a vida.

Mas eu fico a matutar: de que economia fala o presidente? Porventura as de Marx, Keynes, Maílson Nóbrega, meu amigo de tempos passados? Do conjunto de interesses econômicos do povo, sob a proteção jurídica do Estado? Da economia informal, abrangendo prestação de serviços, por camelôs, pequeno artesanato, atividade de vigia de esta-cionamentos e ilegais como o contrabando? Acho que, talvez, a que freqüenta organizações internacionais afiliadas a sistemas. Entendo assim.

Corrijo-me:

– Nada disso. Lula fala atento ao gosto de Deus, cujas regras, insondáveis, estão na vontade  d’Ele.

Aplaudido, como o padre santo de Juazeiro, Lula sabe o que agrada o Poderoso. Junta o seu nome aos de milhões de sábios e pesquisadores que palmilham a trilha da teologia. Daí a sua frase de efeito. A razão está com o presidente. As pesquisas o confirmam.

Retorna, todavia, a minha dúvida, a minha indagação e indignação. Não consigo evitar. Tentação do demônio. Penso no fogo devorando a Amazônia, o Pantanal, a desertificação engolindo o Nordeste. E as ende-mias, os esgotos a céu abertos, as balas perdidas da guerra civil, a falta de medicamentos e de hospitais, as filas para os anúncios de benefícios à população, a miséria alastrando-se. Como entender tais contradições? Con-tinuo pensando como Camus, que existem os que usam o distintivo para serem identificados. Os que se recusam a fazê-lo, serão irremediavelmente reconhecidos. Esta a técnica perniciosa do arbítrio como exercício do poder nas ditaduras.

João Pedro Stédile arrazoou na Carta Capital, que Lula tem atendido a todas as demandas dos capitalistas. Os banqueiros puderam reduzir a transferência ao Banco Central, dos depósitos à vista, ou seja, um reforço de caixa de 180 bilhões de reais com os quais compraram títulos do governo, recebendo 11% de juros.   

Consiste e revela-se dessa maneira, em tais prolegómenos, o jeito do gosto divino?  Afinal João Pedro e Lula são teólogos ou mestre da eco-nomia e da política?

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Continua trovejando em junho! Chuva fina e persistente. 08/6/2009

 

 



Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 15h59
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Diário da Fazenda

 

SOBRE A ORFANDADE DOS HOMENS

(Diário da Fazenda)

 

Ah! Este alpendre e esta rede!

“... e renasce todo um mundo lá atrás”

Com estes versos anima-se o poeta Bruno Tolentino em “A Imitação do Amanhecer”, alentada obra de reflexão e realização poética, contruída laboriosamente em 538 sonetos-estrofe, “dispostos em seqüências temáticas encadeadas”, como esclarece o comentarista-anunciante-editor (Globo 2006). E sonetos perfeitos, petrarqueanos, como se diz.

Que nos resta a nós homens e mulheres no mundo? Fugir do futuro que nos envelhece, nos encaminha para a morte a cada segundo que passa – e isto não desejamos, a isto nos recusamos inegável-mente. Salva-nos, o fingimento da auto-análise, que outra coisa não é que o mimetismo natural dos irracionais, na luta pela sobrevivência no ambiente adverso, em face de predadores. Os suicidas buscam a vida: outra vida noutro lugar.

Um imperativo a decifração desse flash-back interativo, que re-vela a orfandade da condição humana, que nos ocorre a cada momento em relação ao momento anterior. Explicações ao gosto filosófico ma-terialista, idealista, em prosa e verso constituem a extensa e ines-gotável saga, a tralha das sucessivas diásporas na humanidade.

Não insinuo leviana e maldosamente a inutilidade de Sócrates, Platão e Aristóteles, de Nietsche e Mathias Aires. De Santo Agostinho e Camus, de Marx, Hegel e Claude Levi-Strauss. De ninguém, de nenhum dentre eles e outros. Cada um com os seus apólogos, re-ferenciados no mundo lá atrás. Outros virão. Tiremos as nossas conclusões, busquemos no passado que o futuro nada revela, e logo se esvai. Esta a minha certeza.

*

“E um dia hei de morrer eu também. Totalmente”.

Lamenta-se e adverte ainda Bruno Tolentino, polemista erudito – que “ensinou literatura em Oxford e Bristol, na Grã-Bretanha... reconhecido também por Antonio Houaiss, João Cabral de Melo Neto e José Guilherme Merquior” –, na abertura de mais um soneto. Verso magmático, despoético como alguns de Guimarães Rosa à guisa de cantar sertanejo (mineiro), como os agalopados na construção de uma cantata-sertaneja (nordestina) ensejando teorias políticas e retaliadoras de Ariano Suassuna. Whitman e Baudelaire, feias criaturas: os seus versos urdidas partituras. Todos as conhecem. Mimeses irretocáveis.

Os poetas são seres abomináveis (miseráveis filósofos), cada um a seu modo. Existem os adoráveis, serafínicos, que nos dão a mão, nos puxam para trás, que por um instante nos reconciliam com o mundo e com a vida, em face do memento na solução da hora final.

“Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!”

Desconheço memória mais trágica em toda poesia do mundo. Esta a inglória-glória de Casimiro de Abreu. Certamente os homens ameaçados assim entenderão. Eis o que pacifica o meu raciocínio. Como sempre se sustentando nas conclusões de profundas meditações, de vivências alheias. Encontrei em Brito Broca a infusão narcótica deste bálsamo: “A hipocrisia reveste-se às vezes de formas tão simpáticas, determinando efusões tão cativantes, que chega a confundir-se com a sinceridade”. Hoje, para mim um mentor amigo, porque ele mesmo diz que a inteligência cria amizades mais duradouras que o coração. Batemos assim, a nossa rota batida. Impossível fugir e fingir.

*

Escuto ruído de cavalo em passo de estrada, ainda distante de casa. Não me surpreendo, pois ainda cavalgam velhos ser-tanejos, os que não adquiriram camionetes e não sustentam o guidom de uma moto. Imagino sobre o visitante: se de passagem ou a negócio. Avisto adentrando o pátio o negro do cabelo macio Zé Bululu, namorador, montando um cavalo enfeitado de arreios caros. Meu amigo e cliente de negócios de compra venda e troca de bichos. Decente e sabido, amigo de muito tempo quando tra balhou para mim pegando boi de carreira, ganhando por dia de campo. Idoso, hoje viúvo passando dos setenta, alto, esguio, continua freqüentador de festas, exímio dançarino de dança agarrada ( não pelo agarrado) pelo costume do seu tempo que lhe ensinou os passos, os volteios que o tornaram conhecido  a cada vez.

Gosto de sua visita, de sua presença no alpendre, aprumado, sentado numa cadeira de balanço ou derreado numa rede com as pernas cruzadas, ao meu lado. Fala do comércio de gado e de outros assuntos do momento. Bebe o café quente que a em-pregada lhe traz, tira do bolso o pacote de fumo brabo picado, pede palha de milho, enrola o cigarro, aciona o isqueiro e começa a soltar baforadas que não me incomodam, pelo contrário, me agradam pelo cheiro forte do fumo que fui obrigado a deixar com saudade, e não tenho coragem de tornar a praticá-lo, outra vez.

Entre uma frase e outra no meio de uma transação, per-guntei-lhe certo dia, se ele ainda pensava em casar, e ele com muito humor, respondeu:

– Tenho sempre alguma coisa em vista. Agora lhe digo doutor, homem da nossa idade não deve procurar moça nova.

Corrigiu-se educadamente:

– Falo por mim. Melhor mesmo é a coroa. A moça combina e não comparece. A coroa espera no meio da capoeira, escondida no capim matando borrachudo e dando tapa em muriçoca, e não sai. Respeita o trato.

 

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Sertão. Inverno terminado.Junho 2009.

 

 

 

 

 

 

 



Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 14h27
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Diário da Fazenda

LULA E OSWALD DE ANDRADE

(Diário da Fazenda)

 

Tarde de domingo, os moradores batem a pelada no campo ao lado da casa do vaqueiro. Muitas vozes e gritos entusiásticos. Bebo o café novo, quentinho, isolado no alpendre, o olhar atento para o que acontece ao meu redor. A empregada, como sempre, fica em pé ao lado, esperando para duas palavras, para voltar com a xícara para a cozinha. Vivemos sozinhos, semanas inteiras, as famílias morando na cidade. A casa vazia de pessoas e de ruídos às vezes torna-se soturna, guarda sombras. Mutuamente nos ajudamos, entretanto, trocamos informações sobre assuntos próprios da vivência doméstica, da vida em derredor. Mas cantam passarinhos, os bichos do terreiro, a criação da fazenda, se mostram nutridos e sadios no pátio, no curral, nos chiqueiros.

O inverno se aproxima do fim, com regularidade, chuvas pesadas, sem os prejuízos que, lamentavelmente acontecem em outras regiões do país, mostrados na televisão. Pois bem, nessa área menor, correspondendo a um milionésimo no percentual da área do sertão paraibano, vivemos este momento de paz e de satisfação.

Entro, então, na aferição mental de rendas e ganhos. Pouca coisa é verdade, que a atividade na agricultura e pecuária por aqui, resume-se ao uso da enxada e da corda de laçar. Impraticável a mecanização numa região de serrotes, lajeiros, escassez de água, que não permitem instalações de alto custo. Rende, contudo, alguma coisa, convenhamos. Ah! Vidão! Ou, Fuja daí! Alguém dirá.

*

O que é bom dura pouco, adverte a sabedoria popular.

 Algo me chama à razão, ao ver aquela gente quase feliz: a consciência de que existe o mundo das batidas policiais, de domicílios pobres e imundos varejados, desrespeitados na sua privacidade; dos assassinatos, dos tiroteios, dos incêndios propositais criminosos, das balas perdidas, do desemprego, dos doentes sem atendimento médico-hospitalar, das estradas intransitáveis, das escolas sem professores habilitados, das aulas improvisadas, suspensas, da entrega dos negócios nacionais à ganância e gerência alienígena, que se farão sentir inevitavelmente. Pouco se fala de uma guerra ali, já na próxima curva da estrada. Existe também o empobrecimento do país, o esgotamento de suas potencialidades agro-minerais, destruição do meio ambiente, negado pelo governo e pela mídia que falam em riqueza, em liquidez financeira. E nos espoliam cinqüenta e sete tipos de impostos, juros de uma dívida de um trilhão e seiscentos bilhões de reais a juros de mais de dez por cento. É muita indignidade mesmo. Para onde estamos sendo arrastados? Que fazer?

Como democrata penso logo nas eleições, e recuo. Elas trouxeram o governo FHC que se consumiu em atentados à dignidade da república, na consumação de crimes de lesa-pátria. Chegamos a Lula que, seguindo a linha infeliz do governo que sucedeu, fez desaparecer no cidadão a consciência da honra pessoal e do patriotismo como sentimento maior de todo cidadão em qualquer lugar no mundo. A distribuição indiscriminada de cartões bancários, tornou todos consumidores, e o presidente garante que ninguém irá dormir com fome. Lula na infância chegou a dormir com o estômago vazio, e sabe que tal fato leva ao revanchismo ou à acomodação com esmolas. Esta a origem da criação da frase. Mas é preciso mudar.

Virei pessimista depois da derrota do socialismo soviético e do Leste Europeu..

*

O caso do metalúrgico presidente é que ele, jogado no cenário do grande centro de desenvolvimento do país, saiu da precária condição de miserável, de vendedor de pipoca para a de trabalhador profissionalizado. Arranjou emprego e passou a desfrutar do peleguismo sindical, da dispensa do expediente e do trabalho diário. Carente de consciência política tornou-se um oportunista, formou a sua personalidade aproveitando-se do falso intelectualismo de militantes de graduação universitária, preguiçosos, presunçosos.

No esquerdismo desprovido de convicções socialistas, no embate envolvendo patrões e trabalhadores, estes são jogados para uma militância que se tornará meramente oportunista. Lula afirmou e a imprensa nacional divulgou com muito destaque sua indiferença às teses esquerdistas e qualquer ligação com o partido comunista. Cuidava da defesa do direito dos trabalhadores. A evolução e formação de sua personalidade, revela-o um homem sem idéias próprias, estabelecidas no campo da política e da administração pública. Descobriu o jeito de “jogadas” aprendidas no sindicalismo do ABC, que o projetaram, o fizeram presidente, e ele gostou, mesmo manietado pelo G8, cedendo às imposições dos corruptos do PT e de outros partidos que formam a sua base de sustentação no governo. Assim garante o seu emprego, a manutenção da família. Por enquanto. Algo parecido aconteceu com Oswald de Andrade que revela nas palavras introdutórias do seu romance “Serafim Ponte Grande”:

 “A situação ‘revolucionária’ desta bosta mental sul-americana, apresentava-se assim: o contrário do burguês não era o proletário – era o boêmio! As massas ignoradas no território e como hoje, sob a completa devassidão econômica dos políticos e dos ricos. Os intelectuais brincando de roda. De vez em quando davam tiros entre rimas... Com pouco dinheiro, mas fora do eixo revolucionário do mundo, ignorando o Manifesto Comunista e não querendo ser burguês, passei naturalmente a ser boêmio”.

Mas teremos eleições, acredito. Não percebo nenhum “golpe” a caminho, em que pese a suspeita proposta do senador Collor de Melo de um terceiro mandato consecutivo para o atual presidente.

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Inverno chegando ao fim, afinando. 25 /5 /2009.

 



Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 20h30
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Lula, os desabrigados e o cerimonial

SOBRE OS DESABRIGADOS, A LITERATURA

E O CERIMONIAL

(“Na pataca do zurave (usurário) Satanás tem catorze vinténs e vem buscar”  – sentença da sabedoria popular)

Gosto de ver o presidente Lula, no seu pisar bamboleante de malandro, flexionando, jogando as pernas, com um discreto, mas perceptível gingado, olhando de esguelha, com um riso maroto que destoa do momento solene, muitas vezes. Objeto de ansiosa e curiosa observação, ele toma tento, sente-se perdido, gira um e outro braço dentro da manga do paletó, acoroçoado procura um bolso para enfiar a mão mansamente. Desiste do intento, agarra, abraça, dá tapinhas, cutuca, balança a cabeça como se dirigindo a um apostador numa parada de porrinha, no lado oposto da roda, num gesto suspeito, atento como numa briga de galos.

O povo o aplaude, sente-se nele representado, pois ele não é filho de empresário urbano ou rural, de alto funcionário da buro-cracia, da elite que ocupa as cadeiras dos três poderes da república como seus donos; fere, assim, o populacho, de morte, o ídolo e dado fundamental constitutivo do sistema capitalista que o oprime: a propriedade. Os cerimonialistas, os cultores de etiqueta, aplaudem contidos, com o olho nos negócios de Estado que permitem renda mensal generosa e boladas extras como a mega sena. Impossível esconder e negar tal comandita.

*

A crítica social e também a estritamente política, constituem expressão filosófica da teoria do conhecimento, exercício incontor-nável na prática da literatura imaginativa e de sua interpretação, o que alguns acham fora do seu propósito. Eu, não. Assim na poesia, assim na prosa, como entendo e insisto. Razão, para mim, tem Álvaro Lins ao afirmar que o destino da literatura há de ser aquele de constituir-se em expressão – principal talvez – voltado para o debate e conhe-cimento dos problemas nacionais. Ele escreveu: A mensagem dirigida pelo artista a todos e a cada um dos seus leitores, não há de ser apenas de conteúdo ou natureza estética, ela é de natureza humana, popular e social, como representação de indivíduo, de gru-pos e de povos, em estado de caracterização e nacionalização.”

Daí a minha insistente convocação para que os homens de letras (os jornalistas inclusive), os que se dedicam a arte, tenham viva na mente esta consciência do dever, da responsabilidade social, que se impõe a todos e deve orientar a cada um no seu mister.

Deixando de lado a demagogia, a pura fantasia e a mistificação, eis, portanto, a base que suporta a temática artístico-literária. Esta é a minha opinião. Constatamos a verdade dessa assertiva, nos docu-mentos que nos chegam desde o Velho Testamento, papiros egíp-cios, petróglifos e mais textos descobertos na vastidão do planeta terra. Tudo trata de vitórias e derrotas, de conquistas e fracassos, no amor, na política: invenção, imaginação, constatação em suma, segundo as regras do seu tempo, que os fatos e os escritos não caem do céu; sem ofensa a Deus, digo, nascem, têm origem aqui mesmo na terra. São fatos do homem.

*

A reflexão acima, vem a propósito do que a imprensa nacional divulga sub-repticiamente, neste período invernoso de grandes chu-vas em algumas regiões do país. O noticiário fala de desabrigados, de pessoas infelizes, de estradas lamacentas, esburacadas e mais atro-pelos, fruto do fenômeno natural que determina a estação climática do inverno, eventualmente de precipitações abundantes, de ventos fortes. E o Congresso Nacional, em opiniões contrastantes, veemen-tes, trata do problema. É o que vejo na TV, a que dedico algumas horas na tranqüilidade da fazenda: governo de um lado, oposição do outro, como é natural verificar-se nas democracias parlamentares.

Mas constato que os problemas se abatem outra vez, repeti-damente sobre aquelas mesmas populações médias, pobres, mais vulneráveis aos efeitos da tragédia. Como negar? Esta a minha denúncia.

Imprevidência? Não. A verdade verdadeira mesmo, é que esses desabrigados sempre foram pessoas infelizes, deixadas ao desam-paro pelo governo, que moram em terrenos alagadiços, em palafitas, no sopé de barreiras infiltradas de lama e de água das chuvas, gigantescas rochas penduradas por um fio, que desabam inevita-velmente; ou pequenos comerciantes que impossibilitados de se estabelecerem nos shopings burgueses, fixam-se à margem de es-tradas, de rios e riachos que cortam cidades, de ruas baixas com bueiros entupidos. É o que lhes sobra na solitária aventura “severina” da vida urbana, como diria João Cabral de Melo Neto, mutatis mutandis.

*

Qual a solução encontrada, anunciada para problema tão grave? Nenhuma, além de alguns colchonetes e cestas básicas, a suspensão de aulas na rede escolar pela ocupação das salas pelos desabrigados.

Depois do alívio momentâneo, de socorro meramente paliativo, oferecido à crônica situação de pobreza e miséria em que vivem, as vítimas desaparecem misteriosamente. Emudecem? Não. Recolhem-se a moradas eventuais? Fogem? Não. As tevês e os jornais, que se proclamam a voz dos excluídos e dos desassistidos silenciam sobre elas. Fizeram a sua parte, denunciaram o fato, escandalosmente, possibilitando julgamentos. Evitam o assunto. Já receberam o paga-mento pelos elogios feitos, insinuando e qualificando figurões bem remunerados da administração pública, de benfeitores desinteressa-dos, dos que sofrem com tais contratempos. Conhecem o mundo onde vivem à farta os aloprados do PT, os beneficiários do Mensalão que sustentam politicamente o governo que os subsidia.

Partem para a propaganda. Falam agora que Lula pagou a dívida do país (no inicio do seu governo devíamos seiscentos bilhões); hoje somos devedores, na verdade, de um trilhão e seiscentos bilhões de reais que custam um juro anual de perto de duzentos bilhões, que pagamos aos agiotas que o sustentam no cargo. É ele na verdade o “Cara” do peito dos usurários, dos banqueiros. Para os desabrigados, só o que sobra do banquete dos felizardos. Mas tudo está às mil maravilhas para os aloprados e os seus patrões. A amazônia pega fogo, arde em chamas? Recrudescem doenças e surtem endemias desaparecidas? E a guerra civil que alcança todas as regiões do país? E a educação?  

“ – Deixa pra lá! – brada Lula com o seu grito de capataz enraivecido, o dedo em riste, andando de um lado para outro quando fala. – Somos ricos com o Pré-sal! “

Eu, por mim, advirto:

“ – Cuide-se Presidente. “Na pataca do zurave (usurário) Satanás tem catorze vinténs e vem buscar”. (sentença da sabedoria popular).

Todavia o povo se anima e alguns o aplaudem. Têm vivido sempre com o que arrancam dos ricos, com o que pinga sempre no seu chapéu de pedinte. Não trocarão o certo pelo duvidoso.

*

 

A propósito de literatura – como falava inicialmente – entendo que, de Homero a Camões, de Cervantes a Ariano Suassuna, esta-beleceu-se em termos retóricos e informativos sobre o indivíduo e o Estado, um interminável debate de teor poético lírico e épico. E entregue a reflexões de tal forma singulares, chego a entrever em cada episódio grotesco patrocinado pelo Governo Lula, no teor estapafúrdio dos eventos, uma cena de mamulengo, predominando sempre, como numa advertência, a bravura e a retaliação.

 

O caso é que, os mulatos Machado de Assis e Lima Barreto, nas suas criações romanescas, mostram a quanto leva a esperteza e até a obnubilação de alguns, valendo-se da boa fé dos cidadãos. Assim em “O Alienista” e “Bruzundangas.”

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Muita chuva. Sertão se desmanchando n’água. 13/5/2009

 



Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 11h42
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Senador alerta para crise nacional

ODE AO TRABALHADOR  -  PARAIBA

Com pedido de desculpas, segue poesia de tempo passado, enquanto organizo as ideias, depois do choque com o discurso do senador Cristovão Buarque, onde ele afirma que vivemos em plena guerra civil, toda a riqueza e desenvolvimento do pais consiste em atividades simplesmente primarias: vender pedras (minerais) e grãos (soja). A tecnologia não nos socorre, não estamos na mira de alcançar um Premio Nobel. Só se for o da Paz que tem origem na guerra (que enfrentamos no dia a dia). Duro de escutar e de constatar que é verdadeira a afirmação do eminente nordestino.
 
ODE AO TRABALHADOR

“A história de todas as sociedades que existiram até hoje é a história de luta de classes.” Karl Marx e Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista 1848.

Joga sempre a mão. O trabalho,
Áspero na imaginação
Dos estetas, completa a tese,
Veste o xadrez da condenação.

Quase não fala, expele a voz
Rouca rompendo intermitente o espaço.
Fede e exala o odor da doença
E julgam-no apenas um palhaço.

Guarda inteira a consciência.
Reservaram-lhe da vida o
Cansaço da lida, quanto cabe
Ao homem poder suportal-o.

Tem os dias e as noites tem
Em duros códigos limitados.
Ergue os braços e brande impoluto
O sinal dos punhos cerrados.

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PARAÍBA
“Uma constatação a que não podemos fugir: nascemos sob o signo das caravelas dos Descobrimentos Portugueses, há quinhentos anos atrás.”GONÇALVES,Evaldo”SIGNOS DA PARAÍBA ─ “Aí está, em síntese, o processo de formação da Paraíba. Nem tabajaras, nem, potiguaras se renderam” PEREIRA, Joacil B. PARAÍBA SE FORJOU NA LUTA A União Editora 2000.

Vieram as naus com as velas pandas.
Franceses, portugueses, holandeses ─
Marujos maus vociferando, sujos,
O medo espalhando quando ao vê-los.

Ar salgado que o mar exala, avança,
Adentra o rio, invade o continente
─ Verde paisagem tropical, as vagas
Mudando em ondas de canavial.

Paraíba irredenta! Potiguaras,
Tabajaras que o engenho e o forte
Expulsaram da terra originários.

Estrelas dos nossos céus ─ perdidas
Setas, signos de morte, disparadas,
Da liberdade alígera coorte.
EILZO MATOS
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Muito inverno no sertão. Sigo para a capital - aniversário de um irmão 80 anos. 25/4/2009


 



Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 15h57
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Diário da Fazenda

LULA, O PASTOR MALAFAIA, A FERRA E APARTAÇÃO DO MEU GADO

(Diário da Fazenda)

 

Acordei com gritos possessos na televisão que fora ligada logo cedo pela minha mulher. Incomodado imaginei de imediato uma ocorrência muito grave para tal alarido, receoso que também nos envolvesse. Nada de maior importância. Era o pastor Malafaia em horário comprado,  histérico, colérico arre-cadando dinheiro para a sua igreja, ameaçando pessoas indefesas.

A manhã, para mim, revelava a agitação normal nos dias de vacinação, ferra e apartação de gado na fazenda. O vaqueiro depois de idas e vindas de sua casa para o curral, procurou-me para autorizar e presenciar o desenrolar dos trabalhos.

         Ali estava eu na “imensa campina, que se dilata por horizontes in-findos, (e) é o sertão de minha terra natal”. Recorro à suavidade da prosa de Alencar para falar da minha vida, pouco atraente, passados quase dois séculos da emotiva descrição do romancista cearense. E quanta diferença na prática e nos costumes entre as duas épocas.

Identifico-me entre aquelas pessoas prejudicadas, segundo adverte Brito Broca, pela “ausência de unidade e critérios mais justos no seu julgamento crítico, pelo prazer da divagação”.

Volto atrás. Nem tanto. A verdade é que aos produtores autônomos, entre os quais me incluo eventualmente, resta a submissão a cláusulas “pétreas” e desleais fixadas pelo Estado para sua inclusão no sistema pro-dutivo nacional. Só nos cabe rememorar, divagar, rebelar-se, que a de-mocracia que se pratica entre nós privilegia exceções, é a dos ricos.

*

 Algum tempo atrás, aparecia mais gente nessas reuniões, atraída pela animação de encontros e reencontros, anedotas, farta mesa de coa-lhada, cuscus de milho, corredor e costela de boi, pirão, para o “lanche” do pessoal que traquejava as reses, reunindo-as, apartando-as, laçando-as, arrastando-as para imobilizá-las no mourão fincado no centro do curral. Usavam cordas de laçar resistentes, jungindo os animais, em peias, ma-cacos e nós variados que afrouxavam e corriam, quando necessário, ou os chamados “nó-de-porco” (de marinheiro?) que não desatavam, apertavam à medida que mexiam no entrelaçamento das cordas, e permitiam o trabalho seguro da vaqueirama. Hoje disponho de currais travejados e brete. Tudo fica mais fácil de fazer. Não discuto lucratividade.

“As vaquejadas do gado bravio, ou montearias como ainda as chamavam à moda portuguesa e clássica, assinala Alencar, pouca diferença tinham quanto ao modo das que se fazem ainda agora no sertão, durante o inverno e depois. Naquele tempo é certo que o gado barbatão multiplicava-se com prodigiosa rapidez; e os vastos campos incultos, bem como as florestas ainda virgens, ofereciam às manadas selvagens refúgios impe-netráveis. Daí provinham essas famosas correrias tão celebradas nas can-tigas sertanejas, e nas quais vaqueiros gastavam semanas e meses à caça de um boi mocambeiro, que perseguiam com uma tenacidade incansável, menos pelo interesse, do que por satisfação de seus brios de campeadores”.

         A paisagem é outra. O gado diminuiu. A pobreza ronda ameaçadora. O povo mudou-se para a cidade, com a bodega a dois passos, cesta básica, bolsa família, radiolas e bandas com música da moda e do momento. Encontrou apoio financeiro para se livrar de patrões ranzinzas. Asseguram, todavia, os senadores Jarbas Vasconcelos e Mão Santa, que os cidadãos são mero objeto e vítimas de um programa imoral e oficial de compra de votos, de um patriarcalismo esperto que dá com uma mão e toma com a outra...

*

No mundo todo é assim, daí a validade de conclusões que estudiosos indentificam no comportamento da população, e as enunciam como leis de natureza científica. Vi em documentários na televisão, situação semelhante em regiões vinícolas de Portugal e da França, com a falta de mão de obra para a realização da vindima, a produção dos vinhos, champanhes e conhaques  famosos que provamos ou de que ouvimos falar.

Nenhuma acusação faço ao presidente Lula em relação ao êxodo dos nordestinos do campo para a cidade. É coisa velha. Mas uma advertência sobre a ausência de qualquer ação do seu governo, que trate da qualificação dos que mudam de residência, muitas vezes atraídos pelo oportunismo de ONGs que recebem dinheiros públicos para programas deixados de lado, na realidade condenáveis factóides.      

E as pessoas, desqualificadas profissionalmente, são levadas na pura enganação. Reagem apelando para a fraude mais disseminada e variada no comportamento social sob a forma de protestos, numa conduta irresponsável e simplesmente reivindicativa. Assim os presídios se multiplicam. Assim a guerra civil está à vista de todos no confronto violento que envolve autoridades e cidadãos.

A propósito, em razão da citação do romancista de “Iracema”, entendo que devemos nós paraibanos, prosseguir na renovação da temática romanesca nordestina, iniciada por José Américo em “A Bagaceira”, abandonarmos o artificialismo retórico do regionalismo, e prosseguirmos na discussão das grandes teses do nosso romancista, maior entre todos do Nordeste, Zé Lins do Rego nos seus romances do Ciclo da Cana de Açúcar.

“Não se trata de submeter a estética ao social; o artista se realiza, naturalmente, no plano estético, mas como não é uma abstração, é um homem – criatura de carne e osso ligada aos problemas inerentes ao meio em que vive – tem que refletir na obra esses problemas.” Assim escreveu o acima referido Brito Broca em breve ensaio a respeito de “Posição e Tarefas da Inteligência” de Astrogildo Pereira.

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        Sertão. Inverno bom. Sigo para rever amigos na capital. 19/abril/2009

 

        

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 20h51
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Semana Santa

NENHUMA TESE – PURA MEMÓRIA

quem toca sino não acompanha procissão

(Diário da Fazenda)

      

         Desde a mais tenra idade – ainda criança de colo, escutava o ronronar e o ecoar de orações e de cânticos, o desenho e o traçado de linhas ordenadas roçando na pele, que representavam sinais. Era o comportamento religioso próprio das pessoas naquele tempo, que foi, de certo modo, o princípio do tempo de cada um. E muito antes, ainda na vida intra-uterina – acreditando no que afirma a medicina de hoje, numa anamnese que reflui dos computadores – escutávamos tilintar de campainhas, distinguíamos cheiro de incenso. Por que não? Estes e demais expressões do relacionamento materno/filial, cons-tituíam por si sós, atos e eventos de cunho religioso, calcados precisamente nos ensinamentos bíblicos, na palavra de Deus revelada aos seus Profetas e Apóstolos.

         Comecei, a freqüentar a Igreja Matriz de Sousa, minha cidade de nascimento, levado pela ama da casa dada a espairecer em qualquer ambiente; ou perfumado e penteado, vestido ricamente pela minha mãe, vaidosa, para o cerimonial que admitia tal exibicionismo, na imponente e gigantesca construção, cheia de gente, que dominava a praça que deu origem à povoação. Chegou a hora, finalmente, de receber aulas de catecismo ministradas na nave central do templo, pelas idosas senhorinhas Gerônima Ribeiro e Milu Fontes, das mais importantes famílias da terra, que pertenciam à Irmandade das Filhas de Maria, com os seus laços de fita azul-claro. Esporadicamente o vigário aparecia para rápida argüição sobre o nosso aprendizado. Relembro a cabeça branca do cônego José Viana, de quem os impenitentes Pordeus e filhos do maestro Nicodemos, entre outros, zombavam e criavam anedotas imitando a sua péssima dicção, deixando dúvidas sobre comentários nos sermões das missas costumeiras; o padre Oriel que condenava ao fogo do inferno as costureiras que faziam vestidos e blusas sem mangas, ditas “mangas japonesas” que as moças usavam deixando os braços desnudos; ainda refiro o chamado “politiqueiro” padre João Cartaxo Rolim, meu parente, um avançado para a sua época, apoiando a luta pela sin-dicalização dos trabalhadores rurais. Coisa de comunista, diziam.

*

         A agitação e os preparativos para externar sentimentos e atos revestidos de fé católica, apostólica romana, na minha casa, começavam pela proximidade da igreja a dez passos, do outro lado da rua, portas fronteiras, nas nossas idas e vindas constantes. Ricos tecidos de seda colorida, de linho branco en-gomado, bicos, rendas, madeira torneada, imagens em moldura e estatuetas de santos, artísticos castiçais, construíam altar simbólico armado numa das janelas que davam para a rua, para a visitação das procissões que paravam para reverenciar o monumento votivo. Um destaque local.

Com outros meninos eu brincava e corria nas vastas calçadas que circundavam a Matriz. Crescido já, respeitosamente adentrava o templo deserto, com os companheiros e vizinhos de rua, benzia-me contritamente diante do altar-mor e nichos outros, alcançava a escada e assomava o coro somente freqüentado em missas solenes, com a presença de cantantes, quando era acionada a serafina. Não galgava as torres como outros mais afoitos o faziam. De janelas no elevado pé-direito, descortinava casebres de taipa afastados do centro da cidade, onde moravam famílias pobres, e a paisagem de fazendas encravadas nas várzeas e serrotes, cobertos de juazeiros, oiticicas, carnaubeiras, madeiras nobres e arbustos: ao nascente as terras dos Elias, dos Sá, dos Queiroga, no poente as terras dos Pires, dos Estrela, ao norte e ao sul as dos Pinto, Gonçalves, Vieira, Rocha, Mariz, Pordeus...

Perdia-me em sonhos, sem indagações.

*

         Ah! Como povoam a minha memória tais lembranças. A Semana Santa, então, que a Madre Igreja comemora com maior ênfase (hoje quase festivamente com iguarias raras) do que outras datas, o Nas-cimento, por exemplo, sentia de perto no comportamento doméstico, com a cobertura dos santos com tecido roxo, entre o Domingo de Ramos e a Sexta da Paixão e Morte do Senhor, quando se impunha o negro do luto. Assim era no interior da Matriz. E o aprovisionamento da despensa para oferecer o “jejum” aos pedintes: bacalhau, sardinhas, cereais. Orgulhava-me da prática que ditava a Fé. Os sinos, então, sabia o que anunciavam. Hoje mal podem ser ouvidos, sufocados pelos ruídos infernais e medonhos de motores e buzinas de veículos, que também movem indústrias, acionam trovejantes “serviços de som”. Funcionavam como relógio que marcava e informava horários, sobre os acon-tecimentos: as chamadas para a missa, a novena, o lúgubre anúncio de morte. Dobravam finados gravemente, pausadamente em bemol, para os adultos; repicavam como campainhas, em sustenido, quase alegremente o passamento de crianças que subiriam ao Céu.

*

         Refiro finalmente o bater das matracas. Estranho instrumento, para mim. Não procurei saber por que calavam a nobreza, a beleza dos sinos naqueles dias. Fato curioso. Descobri na internet uma explicação razoavelmente convincente: “E os sineiros, guardiões dessa peculiar forma de comu-nicação, em suas sucessivas gerações, anunciam e pontuam diversas ocasiões com seus festivos repiques ou lúgubres dobres. Do alto dos campanários delas participam à distância, anonimamente. Afinal de contas, quem toca sino não acompanha procissão”(Google)

*

         Assim o meu destino, vivendo hoje entre os simples de idéias, mas lógicos no comportamento, explica a coerência imperturbável do Cosmo. Os meus momentos existenciais entre iluministas e marxis-tas, levam-me a relatar lembranças, que não se pejam de citar o nosso Euclides de “Os Sertões”, quando afirma no seu “À Margem da História – Estrelas Indecifráveis”:

Conta-nos São Mateus daqueles três reis magos, que abalaram de seus países em busca do Messias recém-nado, conduzidos por uma estrela extraordinária que, impre-visamente, resplandeceu na altura, em plena luz de um firmamento claro. Não critiquemos impiamente, a narrativa singela do primeiro evangelista. Justifiquemo-la”.

Na objetividade de suas observações, o trágico esteta-cientista que só tinha com-promisso com a verdade, apoiava-se na melhor ciência da época, como afirma o professor Rolando Morel Pinto, um estudioso de sua obra. Explica-se a citação.

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Sertão. Inverno. Semana Santa 10/abril/2009.

 

 

 

 

 

 



Categoria: Comentário do dia
Escrito por Eilzo Matos às 19h26
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Solidariedade

O IMPERATIVO DA DISSIDÊNCIA

 

Aos jornalistas de O Norte  – os injustiçados e vítimas do momento – como expressão de minha solidariedade – estas reflexões e considerações contidas no prefácio escrito para o meu (inédito) “PROSA CAÓTICA II (O Duro Recomeço)”.

Prefácio

                    “Os textos a seguir, organizei-os em dois tomos, num mesmo volume, em razão da unidade ideológica que os integra. Em primeiro lugar reúno memórias e reflexões que denomino literariamente “jornal”, o que se torna óbvio pela sua leitura. O tomo segundo colige artigos e o que chamo de pequenos ensaios, sobre temas para mim relevantes. Alguns foram publicados em jornais ou revistas, outros divulgados em sites na internet.

              Como afirmei em outras oportunidades, ao longo de minha vida amadureci idéias, conceitos, convicções. Muito jovem, ainda, aí pelos dez anos de idade, a candidatura de um parente (Manoel Mariz de Oliveira, tio-afim) a deputado estadual pelo Partido Comunista, chamou a minha atenção para os valores sociais, em razão das discussões sobre o assunto no seio da família.

              A nossa cidade, na época, estava submetida às exigências e ao domínio tutelares da Igreja Católica Apostólica Romana que “amparava as oligarquias mediante o controle do movimento sindical e popular, deles expurgando qualquer traço esquerdizante, fosse radical, socialista, comunista ou mesmo liberal maçônico”.

                          Em breve notícia autobiográfica, alinhei referências sobre a minha participação na política partidária da minha cidade, que teve início na Década Sessenta, ao lado de Clarence Pires, Antonio Mariz, Romeu Gonçalves e outros conterrâneos e amigos. Em eleições seguidas marchamos numa frente de atuação comum, tendendo às posições ditas de esquerda no cenário político nacional. A história local confirma os lances dessa militância político-partidária.

Era no tempo em que “a imprensa e os meios de comunicação representavam no contexto democrático, um recurso dos cidadãos contra os abusos dos poderes”. Foi essa peculiaridade corretiva, chamada de Quarto Poder, ao lado do Legislativo, Executivo e Judiciário, poderes “que podiam falhar, se equivocar, cometer erros”. (Ignácio Ramondet “Le Monde Diplomatique 2006).

     Por certo período, jornalistas destemidos pagaram caro pela defesa desta tese, foram vítimas de atentados, desaparecimentos. Por último, com o advento da globalização liberal e o surgimento de um novo tipo de capitalismo, agora especulativo, eles perderam totalmente a importância e função de instrumentos do contrapoder, no processo de comunicação de massa. A mídia teve de se organizar em gigantescas empresas, superpoderosas, cuidando desde a produção ideológica de textos até a sua massiva distribuição, assumindo no confronto brutal entre o mercado e o Estado, a defesa do setor privado em oposição aos serviços públicos. Já não era mais “a voz dos sem voz.”

     Não foi possível fugir ao impasse. Era a globalização liberal que chegava feroz e implacável. Ficou claro que o novo modelo que assume o capital especulaivo formando megaempresas, atuando em escala planetária, tornou o peso dos seus negócios mais importantes que as decisões de governo e de Estado. A mídia participou do processo, incorporando-se aos blocos. Em meu auxílio menciono o instigante e oportuno ensaio de Ignácio Ramonet[1], lido na internet, que aprofunda a análise do tema.

                          A consciência política da realidade que nos é imposta, de modo cruel e impassível, motivou o protesto do patriota Oduvaldo Vianna Filho[2] que em 1974, antes de falecer denunciava e argumentava: “Reduzir uma sociedade de 100 milhões de pessoas a um mercado de 25 milhões, exige um processo cultural muito intenso e muito sofisticado. É preciso embrutecer esta sociedade com uma força que só se consegue com refinamento dos meios de publicidade, com um certo paisagismo urbano que disfarça a favela, que esconde as coisas.”

                          Tal realidade, produzida por descuidados ou cooptados intelecutais então atuantes no cenário cultural, arrancou, mutatis mutandis, o oportuno grito de protesto do filósofo Olavo de Carvalho: “foi preciso que este país decaísse muito para que se pudesse assistir a este triste espetáculo...” [3]

                          Aí se esconde a manipulação de idéias e de processos, que absorve acriticamente uma coletividade dominada pela incerteza, mas enfatuada, inca-pacitada intelectualmente para a reflexão e o julgamento. 

                          Nos primeiros anos do Século XXI, passadas apenas três décadas da afirmação de Vianninha, a problemática do Brasil não difere historicamente da do capitalismo internacional como modelo de Estado, alega o citado mestre uni-versitário. É apenas um sócio minoritário e dependente do sistema central, que desempenha um papel “hegemônico” no processo (Florestan Fernandes).

     Finalizando estas considerações acerca da imprensa, recorro ao irretocável argumento de Sérgio Halimi através do Financial Times  (http://resenha.com.br/esp2991208.htm):

    “Se o fim dos regimes policiais na Europa oriental e o desmo-ronamento dos dogmas referentes à natureza humana que lhes eram atribuídos nos ensinaram alguma coisa, não foi a necessidade de outro totalitarismo e outra tirania – a dos mercados financeiros. Foi o valor da dúvida e a necessidade urgente da dissidência.” E as suas reflexões que seguem, aplicadas ao jornalismo e à mídia esclarecem:

    “Se aceitarmos a legitimação adulatória de uma nova ditadura, a po-lítica não será mais do que o palco de um pseudo-debate entre partidos que exageram a dimensão de pequenas diferenças para melhor dissimular a enormidade das submissões e proibições que os unem... Neste mundo globalizado e totalitário, poderemos ainda, os jornalistas e intelectuais, ser o contrapoder, a voz dos sem-voz? Reconfortar os que vivem no conforto? Como fazer isso quando alguns de nós já pertencem à classe dominante?”

                                        Sousa, agosto de 2007

                                        EILZO MATOS”

 

 



3 - Apud  MENEZES, Jaldes Reis de, “1930 E O BRASIL CONTEMPORÂNEO: REVOLUÇÃO PASSIVA, CAPI-TALISMO TARDIO E DESENVOLVIMENTO DEPENDENTE”  in “ 1930 A REVOLUÇÃO QUE MUDOU O BRASIL” EDUEP 2007.

4 - CARVALHO, Olavo de  “O Imbecil Coletivo” Faculdade da Cidade Editora, Rio  de Janeiro 1996



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Escrito por Eilzo Matos às 20h18
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Pombal

STALINISMO EM POMBAL – A MÁQUINA DO MERCADO E AS DESIGUALDADES CIDADÃS

Para onde estamos sendo arrastados?”  -  Ferreira Gullar  

      I

         Vamos aos fatos, reais e recentes.

Aconteceu aqui mesmo em Pombal – romântica, letrada e trágica pátria de cientistas, políticos, magistrados e cangaceiros de renome estadual, nacional e também internacional: Arruda Cama-ra, Celso Furtado, Rui Carneiro, Antonio Elias, Jesuíno Brilhante, para só falar nestes mais destacados, cuja memória resta cons-purcada cruamente. Poucos ainda conhecem e falam da lendária Maringá. Agora estão na moda a “calcinha preta” e a “dança da garrafa”.

A verdade verdadeira é que a economia, que governa a sociedade é ciência simples no enunciado de suas regras, que podem ser entendidas em operações aritméticas sem termos ocultos: cinco com cinco igual a dez; dez menos cinco igual a cinco. Retrucam com a técnica fraudulenta de cassino e de roletas viciadas, explicando a pobreza e a riquezas das nações (e das pessoas). Mera intrujice. Somos, efetivamente, meros protago-nistas de uma “servidão financeira” como ensina uma PHd da USP.

O Velho Arraial de Piranhas dos historiadores Antonio de Sousa e Wilson Seixas, reproduz em favor do Mercado, métodos arbitrários adotados na URSS stalinista onde ocorriam expurgos nos escalões governamentais, populações inteiras eram expatria-das, desterradas sem direito de protestar, de se defender no ina-lienável exercício da cidadania. Repito que assim tem acontecido em Pombal, na nossa Paraíba.

Cabe à população do Distrito de Várzea Comprida dos Lei-te, do município de Pombal, vítima de inominável e revoltante agressão, levar ao conhecimento do mundo o que é praticado na república apelidada democrática/liberal de Lula/FHC (impossível separar os dois). As autoridades passaram a considerar um es-torvo, assistir administrativamente área situada a tal distância: trinta quilômetros do seu centro de atividades. Precisavam baixar os custos e aumentar os lucros. Assim fizeram.

Não se sabe mais de filhos de Várzea Comprida. Foram dis-persos mundo afora. Onde estão? Onde moram? Em Campina, em São Paulo? Que importa. Tomaram-lhes, vedaram-lhes a identi-dade do nascimento, num novo Holocausto. Sem protesto, sem reação visível eles restam emparedados em favelas nas cidades. Mas a hora é chegada.

*

O distrito citado, de vibrante história nos fatos de sua exis-tência como unidade urbana, e de alta produtividade na área rural, destacava-se como possuidor de numerosa e vigorosa população humana, líder no estabelecimento de engenhos de rapadura; pro-prietários de famosos animais de carga e passeio, de extensas áreas cobertas de oiticicas, carnaubeiras e plantadas de cana, al-godão, milho, feijão, gergelim, arroz. Pastavam ali rebanhos de gado vacum, de ovelhas e cabras, sustentadas por uma população ativa e briosa. Espantava pela sua riqueza. Na sua bela igreja dobrava o bronze sagrado nas festas religiosas, no chamado para as missas e novenas que cheguei a freqüentar. A praça e as ruas enchiam-se de gente nos dias de eleição. Realizavam-se cantorias de violeiros famosos. Ainda se encontrava no fundo das malas documentos (requisições, salvo condutos) lavrados pela Coluna Prestes quando por lá passou. Tudo se foi. Como? Alguém pode perguntar.

O eleitorado foi transferido (ex-oficio) na sua totalidade para a cidade que se renova e embeleza – tem até academia de letras. Todo e qualquer serviço público, entretanto, foi fechado no distrito. O recebimento dos benefícios sociais e o cumprimento de obrigações fiscais da população são feitos obrigatoriamente na cidade. Não existem escolas. As autoridades não podem se cansar. O povo sim. A zona urbana semelha as “cidades fantasmas” do oeste americano, e a zona rural arruinada está despovoada.

Fala a demografia, como ciência da população, de leis que tratam do vazio econômico e da atração que exerce a cidade sobre a população rural. Pouco influíram, tais requesitos doutrinários no destino de Várzea Comprida. Em Pombal anteciparam-se os lideres do Mercado. Desterraram uma população inteira sem consulta e mediante pressão.

*

Agendei com o professor Martinho Salgado, da UFCG – pombalense de nascimento e benemérito cidadão sousense re-conhecido por lei –, reunião ampla que ele deverá coordenar, com a necessária presença de autoridades administrativas executivas e parlamentares, judiciárias, instituições civis, militares e religiosas para discutir o tema, fazer justiça e permitir o regresso dos ba-nidos, a retomada do progresso local sustentável. Uma anistia necessária e reparadora, pacificadora de espíritos que sofrem a saudade do torrão natal, a perda de sua memória, dos seus bens. (continua no próximo comentário).

............... Sertão, inverno criador. 29/3/2009 ................



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Escrito por Eilzo Matos às 18h08
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